FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?

O filme de Cacá Diegues faz o espectador mergulhar de cabeça no Brasil profundo, enfiar-se, chafurdar-se no coração deste país gigantesco demais, sem jeito demais, eternamente promessa de um futuro que jamais chega. (…)
Tanta coisa nasceu, tanta coisa acabou, ao longo destas quatro décadas – e, no entanto, tanta coisa continuou tão parecida com a realidade que Bye Bye Brasil mostra. Sérgio Vaz (50anosdefilmes.com.br)

O malandro Lorde Cigano (José Wilker) lidera a Caravana Rolidei em suas apresentações pelo interior do Nordeste ao final da década de 1970. Detalhe no pára-brisas do caminhão. (fonte: Google)

“FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?” Por duas vezes no filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, se faz essa emblemática pergunta. É verdade que muita gente na década de 1970 desconhecia a Amazônia. Muitos não a conhecem até hoje, em pleno século 21. Também muita gente não conhecia — e não conhece até hoje — o próprio Brasil, os diferentes brasis existentes dentro do Brasil de alguns. Quem vive no Sul acha que no Norte e no Nordeste só tem miséria; quem é do Norte e do Nordeste tem a ilusão de que o Sul é uma maravilha.

A pergunta acontece no final da década de 1970. No entanto, permanece atual.

Cartaz do filme Bye Bye Brasil, em inglês (fonte: Google)

Atenção, senhoras e senhores, digníssimas autoridades civis, militares e eclesiásticas! Depois de prolongada ausência, devido a compromissos em São Paulo e no resto do sul do país…”

Procurando na internet sobre o filme, diz lá que Salomé, Lorde Cigano e Andorinha são três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. Mais tarde se juntam a eles o sanfoneiro Ciço e sua mulher Dasdô.  A paupérrima sinopse do filme não faz justiça à película, não dando a ninguém a ideia da dimensão do que o enredo se propõe a alcançar, mostrar, denunciar… Há, portanto, um contexto de exploração.

Lorde Cigano e a Caravana Rolidei (fonte: Google)

A história se passa no final da década de 1970, o que é possível identificar pela indumentária da época, além de ser apresentada a telenovela Dancing Days, da rede Globo. Inicia-se no Nordeste brasileiro, pois se pode ver o rio São Francisco a banhar uma típica cidadezinha do interior.

A Caravana Rolidei é um grupo de artistas que circulam pelas cidades mais pobres do interior brasileiro apresentando sua decadente arte mambembe. Seu líder é Lorde Cigano (José Wilker), o “imperador dos mágicos e dos videntes” e mestre de cerimônia do grupo. Salomé (Betty Faria) é a rainha da rumba, “aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, a principal atração junto ao público masculino por conta de seu charme de seus atributos físicos. Além de atuar como dançarina, complementa a renda do grupo com o seu próprio corpo, deitando-se com quem tem dinheiro para pagar. É assim com o prefeito, um típico político demagógico do interior, que é cliente antigo dos espetáculos familiares — e não familiares — da Caravana Rolidei.

“…a Caravana Rolidei, que tem orgulho de apresentar a esse distinto público as suas grandes atrações: o fabuloso Andorinha, o rei dos músculos; a internacional Salomé, a rainha da rumba; e o extraordinário e inimitável Lorde Cigano, o imperador dos mágicos e dos videntes.”

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado, não é verdade?” Pergunta com ironia o prefeito.

Quando na vida o importante é a sobrevivência, tudo o mais pode ser relativizado. Assim, também as convenções sociais tendem a ser postas em plano secundário. E é em nome dessa sobrevivência que Salomé utiliza seu do corpo de modo a engordar o lucro da trupe. Lorde Cigano e Salomé, pelo que mostra a produção de Cacá Diegues, formam um casal unido. Assim, a moral da sociedade, em que o homem e a mulher se devem mútua fidelidade, está longe de ser uma regra respeitada por eles. Há um pacto: a vida profissional (em nome da sobrevivência) vem em primeiro lugar, e isso é sim, para eles, também uma forma de amor.

Amor é lorota. Quem manda é a nota”

É frase que ostenta o pára-brisas do caminhão, expressando o modus vivendi do grupo. Não apenas uma frase de efeito que provoca risadas a quem sabe ler (e aí são poucos), sobretudo uma profissão de fé, onde a sobrevivência neste mundo concorrido se sobrepõe às convenções.

Dasdô e Ciço (fonte: Google)

Numa determinada cidade, Salomé observa que no ano passado deu mais gente. Constatam que a Caravana Rolidei tem um forte concorrente: a televisão, uma tecnologia que vem para ficar, deixando para trás as formas tradicionais de lazer, como o cinema, o teatro e arte mambembe. Assim, nem mesmo a malandragem de Lorde Cigano e a sensualidade latina de Salomé conseguem competir de igual para igual.

Andorinha (Príncipe Nabor), afrodescendente, mudo e musculoso, é quem faz todo o trabalho pesado. Apresenta-se como engolidor de fogo (pirofagia), além de executar outros números circenses, gêneros que ainda conseguem impressionar a gente simples do interior, ainda que em número cada vez menor. Além disso, por ser fisicamente forte, é explorado por Lorde Cigano competindo no braço-de-ferro, invariavelmente vencendo a seus oponentes. Também é o motorista do caminhão, um surrado fenemê.

Príncipe Nabor (fonte: Google)

Tudo certo.

Sendo negro e analfabeto, é do senso comum que não lhe cabe outra tarefa a não ser o trabalho pesado, a subalternidade e a subserviência. É natural o negro ser visto como apenas um monte de músculos, explorado por outro homem. E é assim que mostra o filme.

À mulher (Salomé), cabe tão somente apresentar como atributos a beleza, a arte (cantora e dançarina) e a sensualidade. Nada mais que isso.

“Venham ver Andorinha, o rei dos músculos, o homem mais forte do mundo. Venham ver Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos…”

Muita gente, pelo interior do país, costuma impressionar-se com esses títulos: imperador, rei, princesa, rainha… Isso não passou despercebido por Cacá Diegues. O fato de a Caravana ter estado em São Paulo e no restante do sul do país, aliado ao de Salomé ter sido amante de um presidente dos Estados Unidos, faz impressionante efeito na cabeça das pessoas mais simples.

Ao homem branco (Lorde Cigano) cabe, naturalmente, a liderança e o trabalho intelectual. A questão de gênero e de raça, que Cacá Diegues mostra em Bye Bye Brasil, é sutilmente denunciada. Todavia, a exploração do trabalho braçal (Andorinha) e da prostituição (Salomé) é vista com naturalidade pela sociedade brasileira e, por isso, nenhuma estranheza é provocada.

Betty Faria no papel da internacional Salomé, a rainha da rumba, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos (fonte: Google)

Bye Bye Brasil, mais que comédia e sensualidade, traz em seu cerne a reflexão social sobre as mazelas sociais brasileiras que poucos conseguem enxergar. Quase ninguém. Além disso, procura mostrar um Brasil em fase de transição, em mudança, ao mesmo tempo que permanece igual. A tecnologia que chega consegue mudar costumes, impor novos hábitos, mas não muda o modo de ser do brasileiro mais simples, que continua ignorante, ingênuo e explorado. Muda a roupagem apenas, os instrumentos. Entra o Brasil da calça Lee, do óculos Ray-ban, do toca-fitas Road Star e da televisão.

Impressionado com a beleza de Salomé, o sertanejo Ciço (Fábio Júnior) implora para ser admitido pelo grupo. Dasdô (Zaira Zambelli) faça o que achar melhor, e a ela, grávida nos últimos meses, não resta opção a não ser, resignada, acompanhar o marido, de quem depende. Ele, na verdade, apaixona-se por Salomé, que, ao olhos do sertanejo simplório, apresenta-se como uma mulher resolvida, elegante, bonita e sensual, bem distinta das interioranas comuns, características femininas que provocam cobiça nos homens e inveja nas mulheres. Soma essa razão à de fugir da vida miserável a que estão condenados ele, esposa e filha por nascer.

A Caravana segue Nordeste a dentro, levando sua arte mambembe a um público cada vez menos interessado, isso porque prefeitos instalam televisão pública, o poderoso circo eletrônico que fascina, impressiona, enfeitiça, prende e aliena o público, um concorrente desleal a que nem a beleza sensual, diferenciada e estonteante de Salomé é capaz de vencer.

Decidem, pois, migrar para a Amazônia, onde abacaxi é do tamanho de uma jaca e as árvores são tão altas quanto arranha-céus.

“Floresta Amazônia. Nunca ouviu falar?”

É um caminhoneiro (Carlos Kroeber) que diz, enquanto disputa cana-de-braço com Andorinha, sob a supervisão do “fominha” Lorde Cigano. Ele cai na conversa. A Amazônia, na fala do caminhoneiro, é apresentada como uma espécie de eldorado, o que era senso comum a muitos que na época para lá migraram em busca da fortuna, que só veio para poucos.

Diante da decadência que se lhes apresenta inexorável por conta de tecnologias como a tal televisão, Lorde Cigano decide que a Caravana Rolidei seguirá para Altamira, às margens do rio Xingu, no centro da rodovia Transamazônica. Lá vão dar espetáculos para os índios, porque, com certeza, lá naquele fim de mundo não há televisão e os indígenas não têm onde gastar seu dinheiro.

Índios são forçados a abandonar sua cultura e a abraçar precariamente a cultura do invasor (fonte: Google)

Mas antes Ciço expressa desejo de ver o mar. Seguem rumo a Maiceió. Chegando lá, as cenas mostram a vida agitada das cidades, o trânsito infernal, os engarrafamentos, a poluição sonora, a poluição visual…, tudo de ruim. As cidades — até mesmo as medianas como a Maceió de 1979 — estão inchadas devido ao êxodo rural. Por não obterem apoio na roça, migram para a cidade, que, por sua vez, não os contempla porque não têm qualificação, resultando desse círculo vicioso mais misérias, violências, insegurança, desempregos, problemas habitacionais, enfim, toda uma sorte de problemas sociais.

“Mar de cidade é cheio de cocô. Altamente poluído.”

Mas conhecer o mar é objeto de desejo de todo brasileiro que nasceu e se criou no interior. Por isso, a Caravana Rolidei estaciona numa praia distante da cidade grande, com muitas belezas naturais, ventanias, palmeiras, uma beleza. Lá Ciço, finalmente, põe os pés no mar, realizando um de seus grandes sonhos.

O velho fenemê adentra a floresta.

Uma vez em plena Amazônia, cenas mostram a estrada rasgando a selva, sugerindo desmatamento desordenado. Tinha-se o pensamento na época de que eram necessárias ao país estradas, fábricas, extração de minérios, desmatar, explorar… Fazer o bolo crescer para só depois dividir. Essa era a ideia de modernidade, e o homem que se adaptasse ao progresso numa época em que não se falava em defesa do meio-ambiente.

Dasdô sente as dores do parto. Nasce a filha, a quem é dada o nome de Altamira, em homenagem à cidade promissora, que, para eles, é uma espécie de terra prometida, onde corre leite e mel.

“Vai se chamar Altamira!” Diante do olhar de reprovação por parte de Salomé, Lorde Cigano, segurando o bebê, atenua: “Legal, quem não gostar por chamar de Mirinha”;

Segue o filme.

A certa hora aparecem os índios. Todos vestidos, alguns de óculos escuros, escutando rádio. Diante da invasão cultural a que sofreram, os indígenas não têm outro caminho a não ser adaptar-se à cultura do invasor, ainda que de forma precária.

“Depois que os brancos chegaram, minha aldeia se acabou. Agora eu vou pra cidade, pacificar os brancos… Minha mãe quer ir pra Altamira pra viajar de avião.”.

Diz o cacique (Rinaldo Gines), para completa surpresa de Lorde Cigano.

“De avião em Altamira? Isso aqui é Floresta Amazônica, meu amigo. Nunca ouviu falar?”

Depois de algum tempo, finalmente chegam a Altamira. Lá, desapontados porque, além da televisão que já chegou aos rincões amazônicos, nada do que o caminhoneiro disse é verdade. Em vez do eldorado prometido, encontram uma cidade desorganizada, bois circulando nas ruas, muito barro e lama, gente vinda de todo lugar. Uma confusão dos diabos.

Meio desnorteado, Lorde Cigano, de diferente, encontra um agenciador de empregados (Marcos Vinícius), ele também um elemento a serviço do grande capital, encarregado de recrutar trabalhadores para um grande empreendimento estrangeiro de exploração, uma fábrica de papel. O empreendimento realmente existiu com o nome genérico de Projeto Jari, do bilionário estadunidense Daniel K. Ludwig.

“Isso é uma moderníssima fábrica de papel, a maior do mundo, trazida do Japão até aqui inteirinha, pelo mar. … Coisa de gringo, bicho! Paga bem e em dia. Luxo e conforto…” 


Propagandeia. O cacique e sua família se mostram então interessados, pois é a chance de viajarem de avião. Ao interesse do índio, o agenciador, dirige-se a seu assistente:

“Atende esse aí, Moreno. Índio é mais barato.”

Diante disso, só resta à trupe contar com o talento do fabuloso Andorinha, o homem mais forte do mundo, até então invencível. Mas desta vez encontrou um mais forte e perdem tudo, inclusive o caminhão. Andorinha, julgando-se culpado pela ruína do grupo, vai embora. A presença do negrão na história não é mais necessária; não há mais caminhão para guiar, nem equipamentos para carregar, nem fogo para engolir, nada mais para ele fazer.

Extinta a Caravana Rolidei, falidos, somente resta a eles Salomé, para, prostituindo-se mais uma vez, lhes dar o sustento e o necessário para que possam recuperar-se do revés noutro lugar. O destino escolhido é Belém, uma cidade grande, onde, durante algum tempo Salomé continua a se “virar”. Dasdô oferece-se prostituir-se também, mas, na hora agá, numa crise de ciúme por amor e machismo, Ciço não consente.

Nas cenas em Belém, é interessante o ambiente do bordel em que aparece um cantor interpretando uma música em inglês (Walter Bandeira), enquanto as pessoas dançam freneticamente. Há também o diálogo entre Lorde Cigano e um contrabandista de minérios. A exploração do homem (prostituição), a apropriação cultural, a exploração desordenada da riquezas naturais, que se vão, deixando em troca somente a miséria.

Salomé e Lorde Cigano ainda ficam em Belém por algum tempo. Ela se “virando”, ele metido num negócio de minérios em sociedade com o tal contrabandista. Enquanto isso, Ciço, Dasdô e a pequena Altamira partem para tentar a sorte em Brasília.

“Hum milhão de habitantes, mais de um milhão de habitantes. Cabe mais alguém? Não cabe, e no entanto continua a chegar gente como vocês… Agora nós, da assistência social, nós cuidamos de vocês, nós abrigamos toda família. Bem. Não aqui, no centro da cidade”

Peça publicitária do filme, em inglês (fonte: Google)

Diz a assistente social (Marieta Severo) à família de migrantes, enquanto mostram cenas de Brasília, no Plano Piloto. São deixados na periferia, uma rua com esgoto a céu aberto, crianças brincando de bola, e casebres improvisados. Mas lá, passados alguns anos, a família de sertanejos nordestinos adapta-se ao meio. Não abandonando suas origens culturais, porém, logram viver dignamente com o necessário para sua sobrevivência.

Bye Bye Brasil, 1979

Bye Bye, Brasil do passado, viva o Brasil do progresso! No entanto, a vida continua igual. Pouco ou nada mudou para a maioria de nossa gente nesses quarenta anos. Rico Brasil, pobre povo brasileiro. Apesar disso, Bye Bye Brasil continua até hoje o melhor filme já produzido no país.

L.s.N.S.J.C.!

A VIDA é um sopro!

“Em pouco tempo formamos um grupo coeso e amigo. Todos juntos no correr das casas populares já construídas. O conforto era pouco: sala, dois quartos, banheiro e cozinha. Meu quarto era pequeno: um catre, um pequeno armário provisório e um banco como mesa-de-cabeceira. O resto era terra vazia, desprotegida, coberta de poeira nos tempos de inverno e de água e lama nos meses de verão. É claro que esses pequenos desconfortos se diluíam diante do trabalho que tanto nos ocupava. Mas ficava aquela sensação de fim de mundo, a lembrar a família e os amigos distantes, sem estradas e telefone. Apenas um pequeno rádio de campanha a nos servir. E tudo se agravava para os que lá estavam sozinhos, a imaginar como seria bom ter uma mulher do lado, com quem pudessem dividir suas angústias, e abraçá-la um pouco. E isso explicava muita coisa. Muita união escondida que aquele abandono justificava. (…) E as obras seguiram nos prazos contratados e Israel, seu braço direito, as comandava sem vacilações nem burocracia, com a coragem dos que sabem estar agindo bem. E nós a trabalhar de sol a sol, acompanhando JK altas horas da noite pela obras em andamento. Não havia tempo a perder e as construções se iniciavam, tendo apenas calculadas suas fundações. O resto, os detalhes das estruturas e da própria arquitetura, vinha depois, acompanhando o ritmo programado. E a ideia de JK — nossa, inclusive — não era de uma cidade qualquer, pobre, provinciana, mas de uma cidade atualizada e moderna, que representasse a importância de nosso país.” COUTO, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira, p. 128, 129

Oscar Niemeyer e o Palácio do Planalto (fonte: Google)

OUTRA vez, aqui nestas páginas, escrevi sobre a viagem ao Planalto Central que fizemos agora em janeiro último. Estivemos em Goiás e Brasília. Como sempre faço, costumo observar tudo através da lente da humanidade, incluindo aí o olhar crítico e sócio-político sobre as pessoas, sobre a paisagem e sobre a influência destas sobre aquelas. Vou anotando tudo mentalmente de forma que, ao regressar, não sou mais o mesmo homem da ida, eis que a bagagem cultural e intelectual se avoluma de tal maneira que enriquece o meu ser. Acredito que, de uma forma ou de outra, ocorra o mesmo com todos que passam por tais experiências, embora – por óbvio – nem todos se apercebam do fenômeno. Há, queiramos ou não, percebamos ou não, uma mudança interior. O indivíduo, ao sair de seu meio, regressa com um maior volume de bagagem cultural, intelectual ou até espiritual, ainda que não assim queira admitir.

O fato é que retornei de alma renovada ao sudoeste paranaense. Isso em mim é evidente, perceptível, claro e óbvio.

Faço esse longo introito para falar de crentes e não crentes como o grande brasileiro Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou simplesmente Oscar Niemeyer. Dessa mesma viagem já falei da Trindade dos pioneiros religiosos como o devoto Constantino Xavier, que percorreu a pé 120 quilômetros conduzindo a medalha da Santíssima Trindade, dando assim início à devoção do Pai Eterno que já dura quase 180 anos; assim como também falei da Caldas Novas da megaempresária Magda Mofatto, declarada a parlamentar mais rica do Congresso Nacional, e que começou a vida como uma simples camareira de hotel. Bastante já escrevi sobre a Brasília de Juscelino, de Lúcio Costa e dos candangos pioneiros, uma saga, uma grande aventura, uma luta pela sobrevivência.

Mas é sobre a simplicidade, é a respeito da humanidade desse célebre arquiteto brasileiro, renomado nos quatro cantos do planeta, que gostaria de me ocupar nestas linhas de agora. Menos do arquiteto, que o mundo inteiro conhece, mais do homem simples, do irmão solidário e do amigo generoso.

É impossível visitar Brasília e ignorar suas obras. Conhecendo as obras é natural se interessar pela vida do profissional que as criou. Não se contente com apenas isso, mas – indo mais além – é necessário chegar ao homem, ao brasileiro e ao grande ser humano que foi Niemeyer. É assim que me debruço sobre muito do que já foi escrito e falado sobre ele. Volto, então, a reler os livros, a rever os vídeos e consultar a internet, após ter revisto parte de sua estonteante arquitetura, que fala por si mesma. No entanto, sobre suas obras, cito-as apenas como apoio argumentativo.

Niemeyer (fonte: Google)

Niemeyer era ateu. Isso todos sabemos.

Como já disse antes nestas páginas, chama-me a atenção a fala da guia de turismo que nos acompanha naquele 21 de janeiro, ocasião em que visitamos a Catedral Metropolitana de Brasília. Parece-me uma forma de depreciar o nome de Oscar Niemeyer quando ela enfatiza as convicções do arquiteto. De fato, é do conhecimento público que Oscar Niemeyer se declarava ateu. Ateu e comunista. Nenhuma novidade aí. Sobre ser comunista, leio que certa feita declara Fidel Castro:

Sólo quedaron dos comunistas en el mundo: Oscar e yo”.

Uma declaração desse quilate, vindo de quem veio, atesta o inarredável grau de convicção política de Niemeyer. Fidel queria muito levar Niemeyer em visita a seu país. Oscar nunca foi. Duas dificuldades: Cuba é uma ilha e ele – Oscar – morria de medo de viajar de avião. Talvez de navio, mas o fato é que o comunista brasileiro jamais visitou Havana.

Outra sobre o Niemeyer comunista:

“Sou convocado novamente pela Polícia Política. Iniciava-se a construção de Brasília. Comunico o fato a JK, que reage: ‘Você não pode ir. Tiram o seu retrato e não posso recebê-lo mais no Palácio’. Na minha frente, telefona para o general Kruel: ‘ O Niemeyer não pode ir à Polícia Política. É meu elemento-chave em Brasília’. Apesar disso, no mês seguinte, fui chamado a me apresentar. Sou levado para a sala de interrogatório, toda almofadada. Fazem-me as perguntas de praxe, PCB etc; no final indagam: ‘O que vocês pretendem?’ Minha resposta: ‘Mudar a sociedade’. ‘Escreva aí’, disse o policial ao negrinho que bate à máquina a entrevista: ‘Mudar a sociedade’. E este, voltando-se para mim: ‘Vai ser difícil’. Quanta ignorância!”

Voltando à guia de turismo. A pretexto de esclarecer sobre a forma inovadora da catedral, que deu ao seu autor o Prêmio Pritzker, equivalente ao Prêmio Nobel de Arquitetura, comenta ela:

Alguns guias, fantasiando, falam que lembra duas mãos postas, em oração, indicando algum significado religioso para o desenho da catedral, eu digo que nada tinha a ver com fé ou religião. Aí é apenas estilo de arquitetura. Dezesseis colunas que se apoiam, só isso. Gente, Niemeyer era ateu. Infelizmente, era ateu.”

Catedral Metropolitana de Brasília. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, cálculo estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo (fonte: BLOGUE do Valentim)

Opa! Será que estou ouvindo direito? Não escuto um mero comentário, uma inocente declaração, um simples esclarecimento. Escuto um juízo de valores, pior, uma condenação.

Tento reproduzir o comentário o mais fielmente possível. Se ela não disse exatamente essas palavras, foi próximo disso. Eu, porém, na qualidade de católico fervoroso, digo que, ainda que tenha sido ateu, isso não impede de ter sido a obra (essa e tantas outras) inspirada por Deus. Por esses mistérios insondáveis, que a nós não é lícito compreender, ao conceber em sua mente genial a catedral, embora por provável inconsciente, há um lampejo da inspiração divina.

Tento demonstrar aqui que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Muitas vezes há mais solidariedade cristã na porta de um boteco ou dentro de um bordel que à saída de uma igreja, ouso dizer. Traduzindo: um ateu pode ser melhor cristão que tanto religioso por aí. Talvez seja difícil para alguém como ela conceber tal ideia.

Vamos aos fatos.

Leio que o ateu Niemeyer, durante sua longa e profícua carreira profissional, desenha mais de duas dezenas de templos religiosos. O primeiro deles foi a igrejinha de São Francisco, junto com mais outros prédios, naquilo que veio a ser conhecido como o Complexo Arquitetônico da Pampulha, a convite de Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte. Isso foi por volta de 1943.

Igreja de São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte. Projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e cálculo estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo (fonte: Internet)

Niemeyer, homem probo e livre, gosta de curvas. Com certeza inspirado pela a paisagem do Rio de Janeiro, onde nasceu durante o governo de Rodrigues Alves, e se criou em Laranjeiras e Copacabana. Em menino, costuma ver nas nuvens objetos das mais diversas formas. Formado na Escola Nacional de Belas Artes, considera um desperdício não aproveitar a técnica do concreto armado na arquitetura, eliminando o uso da alvenaria. Passa a adotar em seus desenhos curvas e detalhes arredondados. A igrejinha de São Francisco de Assis é, nesse contexto histórico, a primeira a fugir do padrão de igrejas já construídas, apresentando a abóbada em parábola concretada, técnica só então utilizada em hangares. Inaugura assim aquilo que é o padrão de suas obras, aproveitando a plasticidade e a potencialidade do concreto armado – até então pouco explorado –, que permite formas ousadas, insinuantes, marcantes.

Sobre isso, diz Niemeyer:

“Para mim a Pampulha foi o começo da minha vida de arquiteto. (…) A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam.”

Vamos especular um pouco.

Talvez pela igrejinha lembrar um galpão ou hangar é que o conservador arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, tenha se negado a sagrar o local destinando-o a sua finalidade. Apesar da insistência de JK, recusa-se a nomear pároco, em consequência, privando os habitantes católicos do bairro do conforto espiritual. Ou talvez tenha sido porque Dom Cabral, simpatizante da UDN, não simpatizasse com o prefeito Juscelino, neto de ciganos (Boa coisa não devia ser!) e alinhado politicamente com Getúlio Vargas. Ou mesmo porque a obra vem assinada por um ateu, além de comunista – ou melhor, por dois comunistas. Os murais e painéis são de Cândido Portinari, um comunista de carteirinha, embora católico. Como último recurso de forma a vencer a resistência de Dom Cabral, JK convida o religioso a visitar o complexo. Tudo vai indo bem, o arcebispo encanta-se e elogia tudo. Ao entrar na igreja, acaba por implicar com um simpático cachorrinho bem brasileiro, o irmão-cachorro, que Portinari desenha junto a São Francisco, e não o irmão-lobo, espécie pouco conhecida pelo povo.

“Um cachorro na casa de Deus? Isso é um escárnio à religião!”

É o que diz, escandalizada, a autoridade eclesiástica a Juscelino. Vira-lhe as costas e retira-se imediatamente do local. Por essa razão ou por outras, não declaradas — mas aqui consideradas –, o obstinado Juscelino, prefeito, governador, deputado e presidente, finalmente consegue a sagração da igrejinha somente em 1957, catorze anos depois, quando o sucessor do zeloso Dom Cabral, assume a arquidiocese de Belo Horizonte.

Catorze anos!

Apesar de Dom Cabral, o amigo-cachorro permanece lá a fazer companhia a Francisco.

Niemeyer, irmão e amigo generoso. Um dia pensa no que seria na vida, que profissão seguir. Nascido em família de classe média, natural que fosse médico, advogado, engenheiro, até mesmo militar. Se nascido de família pobre, nada disso lhe seria reservado. Mas, desde cedo inclinado às artes, opta pela profissão de engenheiro-arquiteto. O dinheiro, que poderia vir mais fácil por outras profissões, não é prioridade para Oscar. Em vez do feijão, escolhe o sonho. Não concebe a ideia de uma vida limitada a seguir ordens ou marcar ponto. A vida livre, as curvas e não retas. Contribuiu para esse modo de ver a vida o fato de ter nascido em família estruturada, neto que é de Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal, que morre pobre e deixa de herança unicamente a casa em que morava com filhos e netos. Não fosse assim, teria sido o anônimo Oscar, igual a milhões de brasileiros.

Quanto ao futuro, como imaginar que seu nome chegaria a tão longe? Se Niemeyer está no lugar certo e na hora certa, somente o senhor tempo viria a dizer. No entanto, além das circunstâncias sociais, para as quais Oscar não contribui, suas decisões pessoais dão uma forcinha para o destino promissor, que, mal sabe ele no momento, chegaria com o passar dos anos.

Uma delas.

Formado arquiteto e com família constituída, Niemeyer procura Lúcio Costa e se oferece para estágio. Não precisava lhe pagar nada, bastando a aprendizagem. Desprendido, trabalha de graça, mas procura aí aprender com um de seus mestres, que inclusive foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes. Sabe desde cedo que o livro é mais importante que o metal; o saber se sobrepuja ao dinheiro. Sem o saber, Lúcio Costa levaria Niemeyer a Juscelino, prefeito e idealizador da Pampulha, para mais tarde também levá-lo a Juscelino, o presidente construtor de Brasília.

Da Pampulha a Brasília; de Brasília para o mundo!

Como o menino Oscar podia saber o que viria? Não estaria Deus guiando os passos desse ateu e comunista convicto? Somente Ele dita seus próprios desígnios, por nós, meros mortais, insondáveis. Como todos nós, Oscar também não sabe o que virá. Não procurou por isso, e os acontecimentos sobrevém naturalmente.

Voltando à espiritualidade, esse ente por incompreendido. No episódio da Pampulha, quem faz a vontade do Senhor? Juscelino, o neto de ciganos, Niemeyer e Portinari, os comunistas, ou o arcebispo Dom Cabral? A resposta Deus o sabe, mas – ouso dizer cá comigo – creio que os primeiros.

Oscar, o amigo simples e generoso.

No escritório ele próprio, já uma figura consagrada, atende o telefone:

“Alô. É o Oscar!”

Um arquiteto mundialmente reconhecido como ele poderia simplesmente deixar a tarefa para a secretária ou para algum auxiliar. Não. Niemeyer, homem simples, nunca foi de frescuras.

“Conheço muito o doutor Niemeyer. Ele para para conversar comigo quase todo dia e dá dinheiro aí na rua para todo mundo.”

É depoimento de José Luiz da Silva, o flanelinha, que a uma esquina de distância, lavando carros no calçadão, aponta o escritório com o dedo.

Conta José Manoel da Silva, porteiro do prédio:

Pode subir. Ele é pessoa muito simples. Brinca com a gente, diz besteira. Uma vez eu falei sobre ele com um repórter, sem saber que o sujeito estava gravando. No dia seguinte, saiu tudo no jornal e ele me chamou no escritório para me assustar: ‘Olha aqui, ô filho da puta, você fica falando de mim para os outros por aí. Mas a entrevista ficou boa, hein’.”

Seu escritório é uma bagunça só, um festival, uma alegria. O centenário Niemeyer contraria a todos os médicos e profissionais da vida saudável, pois, apesar de fumante inveterado, amante do bom uísque e muitas noites de trabalho, chega a mais  de cem anos. 104, quase 105. Morre faltando apenas dez dias para 15 de dezembro de 2012. Talvez tenha sido porque não se preocupa com nada, além do essencial. Nem com dinheiro, não exigindo nada além do necessário para viver. É encarando a vida dessa maneira que arranja tempo para ajudar os amigos.

“Meu avô era intrinsecamente honesto e, tendo ocupado cargos importantes, morreu pobre, deixando para seus quatro filhos apenas aquela casa das Laranjeiras. E isso foi sempre muito importante para mim”

O trecho acima está no livro de Marcos Sá Corrêa. Convocado por JK, montou escritório em Brasília e chamou para acompanhá-lo “vários amigos que estavam na merda”.

Ainda do mesmo livro:

O centenário Niemeyer (fonte: Google)

“Levei dois jornalistas, o José Guilherme Mendes, que era médico, Eça, que não era nada, mas era meu amigo, um advogado, um oficial da Aeronáutica, um goleiro do Flamengo e outros ainda de profissões indefinidas. E foi muito bom, porque eles trabalharam e ainda me ajudaram a passar aquele tempo. Todos me foram úteis e a equipe se fez mais variada, a conversa mais versátil, o trabalho mais completo, cada um atuando dentro de suas próprias aptidões. Em pouco tempo formamos um grupo coeso e amigo. Naquele fim de mundo eu precisava de boa conversa. Com eles batia papo sobre outros assuntos, não precisava falar só de arquitetura. Todos juntos, num correr das casas populares já construídas. O conforto era pouco: uma sala, dois quartos, banheiro e cozinha. Meu quarto era pequeno: um catre, um pequeno armário provisório e um banco como mesa de cabeceira.”

Isso é um pouco – apenas um pouco — do ateu e comunista Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho. Tentei enfocar aqui sobretudo o humanista generoso, o amigo solidário, o grande brasileiro, para o quem a vida é apenas um sopro, mas que levou consigo essas virtudes, deixando para a humanidade, em concreto armado, suas obras imortais.

L.s.N.S.J.C.!

TRÊS homens em conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

Cartaz do filme, em inglês (fonte: Google)

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

Cena final, no cemitério (fonte: Google)

O Faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Clint Eastwood (fonte: Internet)

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso Western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti. É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar a temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado em português para “O Bom, o Mau e o Feio”.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Eli Wallach, o Feio (fonte: Google)

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho, Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramírez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — que não tem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, os outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau.

Lee Van Cleef, o Mau (fonte: Google)

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí o grande diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

Cena de Três Homens em Conflito (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, 1966

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

L.s.N.S.J.C.!

A MÁQUINA de escrever!

Durval Aires Filho, via Facebook

ANTES, tudo era marcado pela letra do homem até ganharmos um grande suporte técnico: a máquina de escrever. Hoje, descrevo a minha antiga Remington como uma espécie de “máquina do tempo”. A rigor, mudamos de teclas, passando de uma fantástica e curiosa forma mecânica de escrever e editar textos, em folhas individuais de papel, um a um, a partir do impulso de nossos dedos, para as teclas do computador, também utilizando os mesmos dedos, mas de forma muito mais leve, com impulsos eletrônicos, não fosse ainda a edição optativa, porque o texto produzido pode ser impresso, inclusive, em diversas cores, ou não, caso queira enviar para outras pessoas que estejam em rede digital.

Fonte: Internet

Posso historiar que a máquina de escrever era um dispositivo mecânico (profissional ou doméstico) inventado por Henry Mill (era o nome do curso em que fui diplomado) e aperfeiçoado por Pellegrino Turri. E, aí, coube a Remington, uma empresa que até então se dedicava a produção de armas, a investir maciçamente na produção de máquinas de escrever, em 1874, já com uma configuração bem próxima do modelo que se tornou popularmente conhecido em todo o mundo, juntando-se depois a outros diferentes concorrentes, outras marcas, que cheguei a possuir, como a italiana Olivetti, a Facit (de origem sueca, mas produzida em Minas Gerais), a Royal e, mais recentemente, a IBM, com maquinas elétricas mais sofisticadas, inclusive, com memória, já bem próxima aos computadores, quando encontraram a severa e melancólica decadência nos fins dos anos 80.

Texto publicado

O fato é que as máquinas de escrever passaram a ser adotadas em todos os setores da vida prática e social, seja pública ou privada, com certeza um artefato mecânico de obrigatório uso em repartições, instituições comerciais, redações de jornais, cartórios, bancos, enfim em todo mercado corporativo que, por sua vez, legitimara seus documentos que poderiam ser por elas registrados e historiados em todas as transações, detalhes e demais aspectos da vida burocrática de uma empresa ou instituição.

Na minha época, ao concluir o ginasial, com ingresso no científico (equivalente ao ensino médio de hoje) o aluno teria convenientemente que possuir um diploma de datilografo, não só como pré-requisito para qualquer emprego administrativo, caso desejasse ingresso no mercado de trabalho, portanto, uma referencia que enriquecia muito o currículo vitae de qualquer rapazinho. Na verdade era uma imposição do mercado que tinha a necessidade de contratação de excelentes datilógrafos, capazes de operar os novos modelos com velocidade, precisão e eficiência.

Fonte: Internet

Possuir um diploma de datilógrafo significava para rapazes e moças mais que ascensão, ou amadurecimento. Interessante é que, por essa habilidade em escrever em máquinas, as mulheres começaram a ganhar espaços em escritórios do mundo inteiro, assumindo funções administrativas, o que constituiu, sem dúvida, para os primeiros passos de emancipação, rumo a futura conquista da igualdade de gênero.

Belo texto de Durval Aires sobre esse objeto de museu, que tanto nos encantava naquele tempo em que a máquina de escrever reinava absoluta nos escritórios dos hotéis, das escolas, dos hospitais, das empresas… de todos os lugares, onde se precisava fazer um ofício, enviar uma carta, redigir um memorando, um bilhete…

Sou dessa época. E vejo tudo como se tivesse ocorrido ontem.

Iniciei-me na datilografia por força. Estava na Escola e me deram a especialidade de Escreventes. A Força Aérea Brasileira é, por sua natureza técnica, bastante fragmentada. No nível técnico, a Escola de Especialistas de Aeronáutica forma sargentos de tantas e tantas especialidades, variando de época para época conforme. No meu tempo havia MR (Manutenção de Radares, ou seja, Eletrônica), que era o terror, também CV (Controlador de Voo, atual CTA), Armamento, Mecânica de aviação, e assim por diante. Você fazia um ano de ensino básico, equivalente à primeira e à segunda série, para só nos dois últimos semestres estudar a especialidade que você ia exercer como sargento nas unidades.

Então, como já disse, me deram Escreventes, sendo aí apresentado à temível máquina de escrever. Comecei catando milho, como se dizia sobre os catilógrafos que batiam numa tecla aqui e outra acolá, vacilantes. Vieram os testes valendo nota e, enquanto batia as teclas, do rosto caíam gotas de suor ao ouvir lá na parede o relojão, como um monstro prestes a nos devorar com o seu tic-tac assustador. Nem a Matemática do básico me deu tanto medo. Quase fui reprovado. Com o tempo, fui melhorando até chegar ao nível de hoje, quando digito — e não mais bato à máquina — sem olhar para o teclado e, se precisar, nem para a tela. Era assim, para você ser um bom datilógrafo, tinha que olhar só para o texto que você estava copiando, nada de olhar para o teclado nem para o papel. Rapidinho mesmo.

Viva a máquina de escrever, essa desconhecida da geração de hoje. Nunca saberão o que é errar lá na última linha e ter de refazer o texto tudo de novo; também não saberão o que é bater toda uma página ou mais e, levando o texto ao chefe ou encarregado, e este corrigir, mudando uma frase, duas ou mesmo uma só palavra que fosse. Em compensação, não era qualquer um que exercia o ofício. Acabaram com as máquinas de escrever e hoje é a vez do tal computador, que todo e qualquer um pode ter.

Ah, essa geração do computador nunca saberá de verdade o que foi a máquina de escrever.

IMPRESSÕES de um viajante brasileiro!

Caldas Novas

NASCIDA em Limeira, São Paulo, a deputada federal Magda Mofatto (PR-GO) – a mais rica da Câmara, com patrimônio de R$ 21 milhões – administra hoje negócios milionários em Caldas Novas, cidade conhecida pelas águas termais e por parques aquáticos e por ser um dos destinos turísticos mais procurados do Centro-Oeste. Na cidade goiana, ela é dona de um império imobiliário, que inclui a administração de 11 condomínios, parques temáticos, dois hotéis e uma construtora própria para erguer edifícios na cidade. Foi vereadora do município por três vezes e prefeita cassada, em 2007, por compra de votos. (Revista época, acesso em 02fev2019)

DEIXAMOS para trás Brasília, fazendo o caminho de volta por Goiânia até a última parte da excursão turística. Ficaríamos em Caldas Novas por mais três dias, 21, 22 e 25 de janeiro. Enquanto o ônibus vencia indiferente aqueles trezentos quilômetros de asfalto que separam a cidade de JK do município das águas quentes, me pus a pensar no que havia ouvido, visto e observado na Capital Federal durante aquele dia .

Contrariando o plano original das autoridades, que previa o retorno dos candangos da Brasília pioneira à sua localidade de origem (o Nordeste, em sua maioria absoluta) após o término das obras, os candangos, atendendo ao clamor imperioso do instinto de sobrevivência, decidem lá permanecer; sentem-se no direito natural, ainda que não houvesse estrutura no projeto original da cidade que os comportassem ali. Não há problema, dariam um jeito. Já existia um aglomerado urbano a que chamavam de Cidade Livre.

Ainda hoje vários deles habitam o mundo dos vivos, lá com os seus oitenta, noventa e tantos anos. Esses candangos, acostumados à rudeza da vida, logo se aclimatam ao Cerrado. São sobreviventes, que, embora impedidos de morar e até mesmo de visitar os prédios que, sob muito suor e algum sangue, construíram por três anos, lhes impõe a vida que por lá permaneçam, apesar da falta de estrutura para eles. Miséria por miséria, no novo Distrito Federal algum futuro ainda é possível vislumbrar. De mais a mais, a elite pioneira também precisaria deles e isso até o mais rude servente de obras consegue enxergar.

Depois daquele 21 de abril de festas, quando cessa o frenético movimento da construção civil, dos candangos construtores durante aqueles três anos e dez meses apenas poucos deles permanecem no mesmo ofício de construir, fazer massa com cimento, areia e água, armar vergalhões, conduzir carrinhos-de-mão cheios de material, bater pregos e serrar madeiras, num trabalhar duro sob supervisão de mestres-de-obras mal humorados e carrancudos. Estes, por sua vez, sob ordens e orientações dos senhores engenheiros, que manipulam projetos em papeis empoeirados. Restou uma massa ociosa, então é de se esperar que essa massa desocupada pegue o primeiro pau-de-arara de regresso ao sertão nordestino. A presença de tanta gente (65 mil candangos, segundo estatísticas não oficiais) não se faz é mais necessária.

Mas não.

Grande parte dos que perseveram na permanência, ficando pés de vez ali no cerradão brabo, ocupam-se em buscar outras formas de sobrevivência no Planalto. Obstinados, arranjam ocupação nas mais diversas funções: zeladores de prédio, jardineiros, na limpeza de ruas, cuidadores de piscinas, barbeiros, garçons; alguns, que aprenderam dirigir veículos sob o calor do combate, no caldeirão das obras que se desenvolviam ininterruptamente, utilizam-se dessa qualificação para empregarem-se como motoristas de ônibus e de caminhão. Simultaneamente, a nova capital vai atraindo uma gama de empresários, além de outros candidatos a ganhar muito dinheiro. Isso vai gerando necessidades, daí vagas abertas para grande número de braçais e de outras gentes igualmente não qualificadas. O pouco para aqueles candangos é muito, comparado à miséria que viviam anteriormente, sem perspectiva alguma. De nada importava para eles que não houvesse o amparo dos órgãos oficiais do governo; do Ministério do Trabalho só sabem aqueles que trabalharam na Esplanada. Carteira de trabalho assinada não é regra geral, privilégio de poucos. Muitas mulheres, por sua vez, buscando a melhoria do apertado orçamento doméstico, tantas delas passam a procurar emprego oferecendo-se como lavadeiras, passadeiras, arrumadeiras e cozinheiras para as famílias dos apartamentos das Asa Sul e da Asa Norte, ou ainda nas mansões dos lagos Sul e Norte. Talvez empregar-se como faxineiras nalguma firma terceirizadora. Os filhos seguirão, por conseguinte, o rumo dos pais, dando-se por felizes se ocuparem os mesmos subempregos e quase nenhuma migração social. Com boa sorte e muito esforço, quem sabe, tirariam a sorte grande como funcionários de carreira do Banco do Brasil ou da Caixa, ou quem sabe de alguma repartição pública, sob, é claro, a indicação de algum padrinho forte, garantindo assim os estudos formais da geração posterior. Alguns, mais sortudos, conseguem se especializar e se qualificam como choferes ou mecânicos de automóveis, eletricistas, encanadores, pintores. Já não são meros braçais. Talvez até a carreira militar como soldados das forças armadas ou mesmo como policiais militares.

Os cargos de chefia, como instintivamente sabem, estavam fora do alcance da totalidade deles. Tais postos superiores reservam-se aos filhos daqueles mesmos engenheiros e arquitetos — seus chefes da Brasília pioneira –, aos advogados, médicos, funcionários graduados que vieram do Rio e de outros Estados. Da mesma forma aos filhos e netos dos senhores senadores, deputados, ministros, juízes, procuradores, gente fina, a elite a quem de fato é destinada a cidade em sua parte planejada.

Resta aos sobreviventes seguirem sua vida na antiga Cidade Livre, um agrupamento urbano que mais tarde passou a ser chamada de Núcleo Bandeirante; também em Taguatinga, Guará, Ceilândia, Candangolândia, Sobradinho, cidades que são levantadas de qualquer jeito, sem água encanada, sem luz, à medida que mais levas de brasileiros, nortistas, nordestinos, goianos e mineiros, vão chegando ao DF à procura de uma vida melhor. Acordar cedo, pegar o ônibus, chegar ao Plano Piloto, trabalhar, trabalhar, só voltando à noitinha, cansados aos seus, para o merecido descanso em seu barraco improvisado.

O sol nasce para todos, a sombra para poucos. É a lei da sobrevivência. Assim caminha a humanidade.

A não ser por meio de fotografias em preto e branco e pelos relatos orais dos pioneiros, a geração de hoje jamais saberá da saga desses guerreiros que foram seus avós e bisavós.

Pois bem.

Nesse mesmo 21 de janeiro, sob noite estrelada, chegamos a Caldas Novas, a terra onde, em 1722, Anhanguera (filho) descobriu um rio de águas quentes. Que diabos seria isso? Talvez um vulcão que a qualquer hora poderia entrar em erupção? Essa, segundo a crença popular, foi a ideia concebida durante mais de dois séculos pelos habitantes locais. Por isso, durante muito tempo as pessoas de posse relutavam em visitar a região, a não ser alguns que, temerariamente, iam em busca de alívio e cura para suas moléstias. Diziam as boas línguas que aquela água quente levantava até defunto.

Hospedados no aconchegante hotel Morada das Águas, no dia seguinte, travamos conhecimento da cidade. O programa previa a estada no parque aquático Di Roma, nome de fantasia DiRoma Acqua Park. Nesse dia todos nós, jovens, velhos e crianças, divertimo-nos à beça. Ao final da tarde, lá pelas seis e meia, havíamos contratado o bondinho, aquela espécie de ônibus que imita o antigo bonde ou um vagão de trem. O preço: dez reais por cabeça.

Foto 13 – O blogueiro em raro momento de lazer.

Uma vez no parque, chego à conclusão de que é preciso ter dinheiro vivo na carteira. Fora dele posso me valer do uso de cartões de débito, uma precaução para não ser roubado ou mesmo a possibilidade de extravio. No consumo interno (restaurante, lanches e outras compras) as regras do empreendimento não permitem devolução em caso do não consumo integral, só havendo esse direito ao se usar dinheiro vivo. No uso de cartão, não se consumindo todo o crédito, a casa não devolve a diferença. Fazer o quê? Assim que saímos, lá pelas cinco e meia da tarde, pego um táxi rumo à agência local do Banco do Brasil. É aí que tomo conhecimento de que metade da cidade (exagero de expressão talvez) pertence a um tal grupo Di Roma, do mesmo parque aquático que frequentamos no dia. Provavelmente um grupo italiano, penso cá comigo.

Agora, consultando o Google, vejo que o grupo compõe-se de oito hotéis, onze condomínios, centros de convenções, um tal Jardim Japonês, uma construtora, parques aquáticos termais (incluindo a tal DiRoma Acqua Park), além de outros empreendimentos. Fico impressionado com o número de prédios de apartamento, dando a impressão de que estávamos numa cidade de seiscentos mil habitantes ou próximo disso. Caldas Novas, porém, mal chega às suas noventa mil almas, de acordo com último censo.

Foto 14 – Caldas Novas (fonte: Wikipédia)

 

Pergunto ao taxista e ele me diz que noventa por cento dos calda-novenses vivem em função do turismo. Quase a totalidade, talvez excluindo os habitantes da zona rural, tem como sobrevivência as águas quentes que o Senhor Deus criou e nos deu de graça, as mesmas que, apropriadas pelo homem, são fonte de lucro para poucos deles.

Lucro para uns, sobrevivência de muitos.

Dia seguinte e visitamos a famosa Termas do Rio Quente, hoje rebatizada pomposamente de Hot Park. Por razões comerciais (creio), a antiga Pousada do Rio Quente é agora Rio Quente Resorts. Deve ser para atrair o turista estrangeiro, daí esses nomes britânicos, mas principalmente — e digo isso com tristeza — por imposição cultural.

Terceiro dia, 24 de janeiro. Última estação do passeio em Caldas Novas. Fomos visitar e usufruir do parque do grupo Lagoa Parques e Hotéis. Ao menos um nome em bom português. Aconchegante, o defeito é que suas águas não são tão quentes.

No entanto, esta postagem seria pobre se eu aqui não me ocupasse em falar sobre uma interessante personagem de Caldas Novas, já citada por mim: Magda Moffato, lá no início da postagem.

Quem nos dá indicação da existência dessa personagem foi exatamente o guia condutor do tal bondinho do primeiro dia. O sol ainda raiava quando embarcamos no veículo para um passeio em Caldas Novas. O guia, cujo nome não guardei, é um homem simples, bem humorado, além de extrovertido, como geralmente são os guias. Ou ao menos tentam ser (Lembram da Raquel, de Brasília?). Igual aos outros, como atrativo, conta histórias do lugar e de personagens.

À medida que o bonde rodava por Caldas, o guia, ao mesmo tempo que conduzia o carro, pelo microfone nos indicava:

“Aqui é a rua Coronel Bento de Godoy, que foi o primeiro intendente da cidade. Naquele tempo as cidades tinham intendente e não prefeito… Ali é o centro da cidade, aquela é a igreja tal…”

E assim ia. A certa altura, já saindo da cidade, ele me passa por alguns prédios e espaços, todos de propriedade de uma tal Magda. Conta ele:

“Vocês provavelmente não sabem o que quer dizer a sigla Roma, desse “Di Roma”, que vocês veem nesses hotéis, parques etc. A dona de todos esses hotéis e prédios é a Magda, que, quando jovem morava em Limeira, São Paulo. A bonitona Magda Mofatto ficou viúva nova e resolveu recomeçar a vida aqui em Caldas. Empregando-se como camareira de hotel, logo caiu nas graças do dono, o Seu Rodolfo, um cara multi-milionário, que tinha empreendimentos em vários estados do Brasil e também em países estrangeiros. O cara era podre de rico. Era daqueles que tinha uma mulher, namorada, amante, em cada lugar onde possuía empreendimentos.”

Continua o guia.

“Por força dos negócios, Rodolfo vivia viajando. Toda vez deixava algum dinheiro para Magda. Ela, por sua vez, fazia multiplicar o dinheiro que o namorado lhe dava. Alguns, talvez com inveja, vão correndo contar as novidades ao milionário, tão logo ele chega de volta à cidade. ‘Seu Rodolfo, toda vez que o senhor viaja a Magda enche a casa de pessoas, fazendo uma espécie de pensionato’. Engana-se quem pensa que Rodolfo se aborrece com o fato. Ao contrário, vê aí na amante uma mulher empreendedora, dotada de tino comercial, como se dizia naquela época, lá pelos anos setenta.”

Foto 15 – A mega-empresária Magda Mufatto, num de seus empreendimentos em Caldas Novas. Também é política, tendo sido vereadora, prefeita e atualmente deputada federal, a mais rica parlamentar (oficialmente) do país.

Diz mais.

“Enquanto as outras gastavam todo o dinheiro que o milionário lhes dava, e ainda lhe traziam contas a pagar, Magda, ao contrário, obtinha lucros. Vendo isso, Rodolfo decide construir um hotel para a amante. É com esse empreendimento inicial que Magda Mofatto dá início à sua fortuna. E o ‘Roma’ nada tem a ver com a capital italiana e sim a redução fonética de Rodolfo (Ro) e Magda (ma)”.

Ao voltar da excursão, ponho-me a pesquisar sobre a tal Magda.

Uma indagação que se pode fazer é:

Por que alguém já rica como ela se propõe a seguir a carreira política? Outra: Como encontra eleitores dispostos a elegê-la?

Foto 16 – Magda Mofatto e seus dois helicópteros. Costuma viajar a bordo de um deles a Brasília, utilizando a cota de combustíveis a que todo parlamentar federal tem direito. Conforto e rapidez a custas do contribuinte brasileiro.

Respondo.

Quanto à primeira pergunta. Ela, exatamente por ser muito rica, portanto bem informada, reconhece a importância dos cargos eletivos junto a seus negócios e interesses, daí ser interessante ter um mandato eletivo. Investimentos governamentais, subsídios fiscais, questões ambientais, toma-lá-dá-cá, foro privilegiado… E nada melhor que ela própria esteja lá, na toca do lobo, a fim de acompanhar in loco tudo isso. De mais a mais, há a badalação: seu nome e seu rosto se torna conhecido, fica famosa, está sempre na mídia. É a vaidade.

Segunda pergunta. Pessoas como ela são votadas e eleitas exatamente por serem ricas e bem-sucedidas. No caso de Mada, com a vantagem de ter vindo do nada, de pobre na juventude a rica na maturidade. É alguém que venceu na vida; chegou lá. Essas condições, a que muita gente persegue, fazem com que parcela das classes populares identifique em gente como Magda uma mulher vencedora, dessas que ascendeu ao topo da pirâmide social com seu próprio mérito, uma vitoriosa. Sim, é claro que é digna da admiração e do deslumbramento por parte da plebe ignara. É da natureza da nossa sociedade o pobre rejeitar os comuns, os que lutam, lutam e nada obtém; muito esforço, quase nenhum resultado. Mais: estes são vistos como concorrentes naturais, além de carregarem consigo a pecha de derrotados.

Diante dessa forma de pensar, nada mais justo que Magda seja premiada com o poder político, numa espécie de admiração a quem chega num ponto onde a grande maioria do povo simples não consegue atingir — a quem tem mais, mais será dado. Esse alguém, uma diferenciada, só pode ser digna de admiração e respeito, uma abençoada, uma pessoa a quem Deus ungiu. É assim que o povo pensa ao eleger pessoas como Magda para seus representantes, da mesma maneira como elege celebridades do esporte e da televisão como Romário, Sérgio Reis, Tiririca, Jorge Cajuru, Alexandre Frota… A outra parcela, desiludida com a classe política, simplesmente vota em candidatos endinheirados, como Magda, por conta de pequenos favores ou mesmo por dinheiro, migalhas que aceita resignada. Afinal, político é tudo igual, e se é igual, que se vote em quem nos favoreça concretamente, ainda que só de quatro em quatro anos. Se vai roubar, que roube, justificam-se.

Uma vez no poder, com raras exceções, os eleitos vão cuidar de seus interesses, aprovando projetos e leis conforme suas conveniências. No caso, contra os direitos trabalhistas, pois há muitos direitos e o empresário, que já faz a sua parte pelo social ao gerar empregos, é neste país um sacrificado; a favor de armas de fogo em massa, para enriquecer mais ainda a indústria bélica e para o cidadão de bem, se puder, defender-se, já que o Estado não garante a segurança de ninguém; contra o endurecimento das leis ambientais, em favor de seus próprios empreendimentos em Caldas Novas e também em favor das grandes mineradoras, pois órgãos como o IBAMA só existem para multar; contra a causa indígena, afinal, para que índio precisa de tanta terra?; a favor do veneno na agricultura e contra bobagens como alimentos orgânicos, para assim o agronegociante ganhar mais dinheiro; pelo congelamento das despesas sociais por vinte anos, e que se dane a educação, saúde, segurança, afinal, quem puder que recorra às escolas particulares, aos planos de saúde e às empresas particulares de segurança; contra o aumento real do salário mínimo, pois o empresário é um coitado, um incompreendido e injustiçado… Tudo para os ricos; nada de nada para o povo, que só serve para votar a cada quatro anos.

Mas o povo gosta!

Resumo da ópera: cada povo merece os representantes que elege.

Enquanto isso, o trio elétrico de campanha está lá estacionado no Parque Japonês, à espera de 2022.

É assim que banda toca.

Outra.

21 milhões parece ser uma fortuna. De fato é, em comparação com o brasileiro assalariado comum, que luta com dignidade para sustentar sua família e pagar seus boletos. Mas, por Deus, a quem querem enganar dizendo que Magda é a mais rica deputada do Brasil? A quem pretendem iludir ao dizer que Magda Mofatto tem ‘apenas’ 21 milhões? A muitos ela e a mídia podem enganar, não a mim. Com certeza há na Câmara e no Senado parlamentares mais endinheirados que Magda Mofatto. E ainda: Quanto custam só os dois helicópteros da deputada? Qual o preço de mercado de um único parque aquático como o diRoma? E sobre os hotéis e tantos outros empreendimentos? E por aí vai.

21 milhões talvez seja o patrimônio por ela declarado. Possivelmente não chegue a dez por cento do patrimônio real da ex-prefeita de Caldas Novas. O restante, por óbvio, encontra-se registrado em nome de laranjas.

Magda dá empregos. Essa é a primeira grande defesa do grande empresário. No íntimo, porém, está se lixando. Se pode pagar menos, por que remunerar os empregados com justiça? Se se pode sonegar, para que pagar impostos?

É assim que a roda gira.

Voltamos no dia 24, quinta, chegando a Dois Vizinhos na tarde do outro dia. Viagem ótima.

Despeço-me aqui na expectativa da próxima.

L.s.N.S.J.C.!

AO MESTRE com carinho!

Tenho a honra de destacar aqui neste espaço eletrônico o depoimento emocionante do mestre CÁSSIO DE ANDRADE, professor de História, originalmente postado no Facebook

POR MOTIVO de saúde, não fui lotado esse ano em sala de aula. Desde que ingressei na ETRB em 1993, como substituto e efetivado por concurso em 1996.

Professor Cássio de Andrade e seus discípulos. Mais uma vitória alcançada (fonte: Facebook)

Dediquei 25 anos ao terceiro ano, somente interrompidos no doutorado, ensinando e preparando jovens para o ensino superior, antes e após o ENEM nesta instituição. Passaram por mim os que se tornaram empresários, dirigentes de futebol, atletas, militares, jornalistas, professores, médicos, vereadores e até governadores. Anos de trabalho intenso, até o “core” dar sinais de alerta. Ainda sim, iria este ano, tentar voltar ao meu altar sagrado na sala de aula.

Vendo, no entanto, os rumos impostos ao ensino básico pela atual política do MEC, acabei negociando minha lotação, em comum acordo com a direção, para, além de revisões de provas, coordenar as ações do Laboratório de Ciências Humanas da instituição. Vendo e ouvindo as ignomínias e sandices do titular do MEC e do novo presidente do INEP quanto ao futuro do ENEM, convenci-me do acerto da decisão de sair de sala de aula.

Não tenho mais ânimo a ensinar História neste país. Não me sinto à vontade de construir conhecimentos onde boçais e estúpidos tentam impor suas vontades e ideologias, na perspectiva desse tal espírito do “novo governo” que o presidente do INEP tenta enquadrar o conteúdo do ENEM. Não me sinto mais à vontade de debater em sala um conteúdo crítico que problematiza também – e não somente – temáticas transversais como machismo, patriarcado, intolerância, homofobia, feminismo, violência, sem ser acusado de doutrinador ou marxista cultural.

Nunca escondi minha formação teórica e minhas convicções, mas nunca transformei minha sala de aula em púlpito ideológico. Sempre combati o pensamento único com meus alunos e minhas alunas. Não posso, no entanto, ensinar um conhecimento asséptico. Busquei histórica e fundamentadamente a crítica ao nazismo e ao stalinismo, nas aulas de Historia contemporânea. Defenderei sempre a liberdade e a ética democrática.

Alunos do professor Cássio de Andrade posam em companhia do estimado mestre (fonte: Facebook)

Grato, meninos (as)!

A que nível chegamos!; a que ponto chegaremos?

Sempre costumo dizer nas conversas entre amigos que o mundo moderno depende basicamente de dois profissionais; um, habitante da zona rural e o outro, predominantemente citadino. São eles: o agricultor e o professor.

No primeiro caso, refiro-me fundamentalmente ao colono humilde, o homem do campo simples, que com sua família, leva vida árdua, labutando diariamente de sol a sol para pôr comida na mesa de todos nós, que vivemos nas cidades. Se o colono não roça, a cidade não almoça; se o agricultor não planta, a gente da cidade não janta.

Alunos da ETRB fazendo festa pela suada aprovação no vestibular (fonte: Facebook)

No segundo caso, trata-se do homem e da mulher (e estas são a maioria) profissionais formadores das demais profissões, sem os quais o mundo não teria chegado ao estado tecnológico atual, ao mesmo tempo em que formam cidadãos para o futuro de uma sociedade, levando conhecimento a crianças, jovens e adultos, além de fomentar o pensamento crítico-social.

A provisão e a instrução, o alimento e o saber, ambos pouco reconhecidos. Pior, progressivamente depauperados, rebaixados a inimigos da nação brasileira.

In casu, o emocionante depoimento e desabafo do professor Cássio de Andrade, da Escola Tenente Rêgo Barros (Belém – Pará) em muito nos entristece por conta dos rumos que em geral o Brasil, e a Educação, em particular, estão a seguir. Fico muito triste com a desimportância (desculpem pelo neologismo) que uma corrente significativa e predominante do poder ora constituído vem dando às duas nobilíssimas profissões. Quedo-me ainda mais apreensivo com o futuro que se avizinha.

Charlene Moreira, então aluna da EEAer (2003), ex-aluna da ETRB (Arquivo do BLOGUE do Valentim)

Tenho especial carinho pela Escola Rêgo Barros, vinculada à Força Aérea Brasileira, onde fiz carreira. Cabe ressaltar o altíssimo nível de ensino praticado pelo corpo docente dessa valorosa instituição, em cujos bancos por anos frequentaram minhas filhas. Uma delas, inclusive, seguindo a carreira do pai, hoje é oficial de controle de tráfego aéreo, servindo em unidade da Aeronáutica sediada no Rio de Janeiro. Outras três, não vislumbrando boas perspectivas no país, houveram por bem migrar para países estrangeiros, onde residem com sua respectiva família. Delas, somente uma permanece no Pará.

O pouco caso, e mesmo o descaso, que sofre o homem do campo e mais intensivamente o professor brasileiro reflete o absurdo dos absurdos para que tristemente caminhou nosso rico e pobre país. O primeiro, considerado um Zé Ninguém, veio perdendo terreno para o fazendeiro, agronegociante, o latifundiário, muito bem representados no Congresso Nacional; o segundo, além de tradicionalmente desvalorizado, é agora rebaixado à condição de inimigo em potencial da sociedade. Em pior escala se encontram os dedicados às cadeiras de História, Sociologia e Filosofia.

Alunos da ETRB festejando aprovação no vestibular 2019 (fonte: Facebook)

Temo muito pelo que virá — repito.

Mas vá em frente, meu amigo professor Cássio. A sua saúde deve vir antes de tudo. Siga com fé, camarada, fé na vida, fé no que virá. Em nome de Charlene, Cristiene, Aline, Fernanda e Jacqueline, cumprimento o nobre mestre,  agradecido pelos conhecimentos ministrados.

Pobre da sociedade que não valoriza o professor!

L.s.N.S.J.C.!