TRÊS homens em conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

Cartaz do filme, em inglês (fonte: Google)

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

Cena final, no cemitério (fonte: Google)

O Faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Clint Eastwood (fonte: Internet)

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso Western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti. É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar a temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado em português para “O Bom, o Mau e o Feio”.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Eli Wallach, o Feio (fonte: Google)

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho, Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramírez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — que não tem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, os outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau.

Lee Van Cleef, o Mau (fonte: Google)

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí o grande diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

Cena de Três Homens em Conflito (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, 1966

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

L.s.N.S.J.C.!

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s