FLORESTA Amazônica! Nunca ouviu falar?

O filme de Cacá Diegues faz o espectador mergulhar de cabeça no Brasil profundo, enfiar-se, chafurdar-se no coração deste país gigantesco demais, sem jeito demais, eternamente promessa de um futuro que jamais chega. (…)


Tanta coisa nasceu, tanta coisa acabou, ao longo destas quatro décadas – e, no entanto, tanta coisa continuou tão parecida com a realidade que Bye Bye Brasil mostra. Sérgio Vaz (50anosdefilmes.com.br)

O malandro Lorde Cigano (José Wilker) lidera a Caravana Rolidei em suas apresentações pelo interior do Nordeste ao final da década de 1970. Detalhe no pára-brisas do caminhão. (fonte: Google)

“FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?” Por duas vezes no filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, se faz essa emblemática pergunta. É verdade que muita gente na década de 1970 desconhecia a Amazônia. Muitos não a conhecem até hoje, em pleno século 21. Também muita gente não conhecia — e não conhece até hoje — o próprio Brasil, os diferentes brasis existentes dentro do Brasil de alguns. Quem vive no Sul acha que no Norte e no Nordeste só tem miséria; quem é do Norte e do Nordeste tem a ilusão de que o Sul é uma maravilha.

A pergunta acontece no final da década de 1970. No entanto, permanece atual.

Cartaz do filme Bye Bye Brasil, em inglês (fonte: Google)

Atenção, senhoras e senhores, digníssimas autoridades civis, militares e eclesiásticas! Depois de prolongada ausência, devido a compromissos em São Paulo e no resto do sul do país…”

Procurando na internet sobre o filme, diz lá que Salomé, Lorde Cigano e Andorinha são três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. Mais tarde se juntam a eles o sanfoneiro Ciço e sua mulher Dasdô.  A paupérrima sinopse do filme não faz justiça à película, não dando a ninguém a ideia da dimensão do que o enredo se propõe a alcançar, mostrar, denunciar… Há, portanto, um contexto de exploração.

Lorde Cigano e a Caravana Rolidei (fonte: Google)

A história se passa no final da década de 1970, o que é possível identificar pela indumentária da época, além de ser apresentada a telenovela Dancing Days, da rede Globo. Inicia-se no Nordeste brasileiro, pois se pode ver o rio São Francisco a banhar uma típica cidadezinha do interior.

A Caravana Rolidei é um grupo de artistas que circulam pelas cidades mais pobres do interior brasileiro apresentando sua decadente arte mambembe. Seu líder é Lorde Cigano (José Wilker), o “imperador dos mágicos e dos videntes” e mestre de cerimônia do grupo. Salomé (Betty Faria) é a rainha da rumba, “aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, a principal atração junto ao público masculino por conta de seu charme de seus atributos físicos. Além de atuar como dançarina, complementa a renda do grupo com o seu próprio corpo, deitando-se com quem tem dinheiro para pagar. É assim com o prefeito, um típico político demagógico do interior, que é cliente antigo dos espetáculos familiares — e não familiares — da Caravana Rolidei.

“…a Caravana Rolidei, que tem orgulho de apresentar a esse distinto público as suas grandes atrações: o fabuloso Andorinha, o rei dos músculos; a internacional Salomé, a rainha da rumba; e o extraordinário e inimitável Lorde Cigano, o imperador dos mágicos e dos videntes.”

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado, não é verdade?” Pergunta com ironia o prefeito.

Quando na vida o importante é a sobrevivência, tudo o mais pode ser relativizado. Assim, também as convenções sociais tendem a ser postas em plano secundário. E é em nome dessa sobrevivência que Salomé utiliza seu do corpo de modo a engordar o lucro da trupe. Lorde Cigano e Salomé, pelo que mostra a produção de Cacá Diegues, formam um casal unido. Assim, a moral da sociedade, em que o homem e a mulher se devem mútua fidelidade, está longe de ser uma regra respeitada por eles. Há um pacto: a vida profissional (em nome da sobrevivência) vem em primeiro lugar, e isso é sim, para eles, também uma forma de amor.

Amor é lorota. Quem manda é a nota”

É frase que ostenta o pára-brisas do caminhão, expressando o modus vivendi do grupo. Não apenas uma frase de efeito que provoca risadas a quem sabe ler (e aí são poucos), sobretudo uma profissão de fé, onde a sobrevivência neste mundo concorrido se sobrepõe às convenções.

Dasdô e Ciço (fonte: Google)

Numa determinada cidade, Salomé observa que no ano passado deu mais gente. Constatam que a Caravana Rolidei tem um forte concorrente: a televisão, uma tecnologia que vem para ficar, deixando para trás as formas tradicionais de lazer, como o cinema, o teatro e arte mambembe. Assim, nem mesmo a malandragem de Lorde Cigano e a sensualidade latina de Salomé conseguem competir de igual para igual.

Andorinha (Príncipe Nabor), afrodescendente, mudo e musculoso, é quem faz todo o trabalho pesado. Apresenta-se como engolidor de fogo (pirofagia), além de executar outros números circenses, gêneros que ainda conseguem impressionar a gente simples do interior, ainda que em número cada vez menor. Além disso, por ser fisicamente forte, é explorado por Lorde Cigano competindo no braço-de-ferro, invariavelmente vencendo a seus oponentes. Também é o motorista do caminhão, um surrado fenemê.

Príncipe Nabor (fonte: Google)

Tudo certo.

Sendo negro e analfabeto, é do senso comum que não lhe cabe outra tarefa a não ser o trabalho pesado, a subalternidade e a subserviência. É natural o negro ser visto como apenas um monte de músculos, explorado por outro homem. E é assim que mostra o filme.

À mulher (Salomé), cabe tão somente apresentar como atributos a beleza, a arte (cantora e dançarina) e a sensualidade. Nada mais que isso.

“Venham ver Andorinha, o rei dos músculos, o homem mais forte do mundo. Venham ver Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos…”

Muita gente, pelo interior do país, costuma impressionar-se com esses títulos: imperador, rei, princesa, rainha… Isso não passou despercebido por Cacá Diegues. O fato de a Caravana ter estado em São Paulo e no restante do sul do país, aliado ao de Salomé ter sido amante de um presidente dos Estados Unidos, faz impressionante efeito na cabeça das pessoas mais simples.

Ao homem branco (Lorde Cigano) cabe, naturalmente, a liderança e o trabalho intelectual. A questão de gênero e de raça, que Cacá Diegues mostra em Bye Bye Brasil, é sutilmente denunciada. Todavia, a exploração do trabalho braçal (Andorinha) e da prostituição (Salomé) é vista com naturalidade pela sociedade brasileira e, por isso, nenhuma estranheza é provocada.

Betty Faria no papel da internacional Salomé, a rainha da rumba, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos (fonte: Google)

Bye Bye Brasil, mais que comédia e sensualidade, traz em seu cerne a reflexão social sobre as mazelas sociais brasileiras que poucos conseguem enxergar. Quase ninguém. Além disso, procura mostrar um Brasil em fase de transição, em mudança, ao mesmo tempo que permanece igual. A tecnologia que chega consegue mudar costumes, impor novos hábitos, mas não muda o modo de ser do brasileiro mais simples, que continua ignorante, ingênuo e explorado. Muda a roupagem apenas, os instrumentos. Entra o Brasil da calça Lee, do óculos Ray-ban, do toca-fitas Road Star e da televisão.

Impressionado com a beleza de Salomé, o sertanejo Ciço (Fábio Júnior) implora para ser admitido pelo grupo. Dasdô (Zaira Zambelli) faça o que achar melhor, e a ela, grávida nos últimos meses, não resta opção a não ser, resignada, acompanhar o marido, de quem depende. Ele, na verdade, apaixona-se por Salomé, que, ao olhos do sertanejo simplório, apresenta-se como uma mulher resolvida, elegante, bonita e sensual, bem distinta das interioranas comuns, características femininas que provocam cobiça nos homens e inveja nas mulheres. Soma essa razão à de fugir da vida miserável a que estão condenados ele, esposa e filha por nascer.

A Caravana segue Nordeste a dentro, levando sua arte mambembe a um público cada vez menos interessado, isso porque prefeitos instalam televisão pública, o poderoso circo eletrônico que fascina, impressiona, enfeitiça, prende e aliena o público, um concorrente desleal a que nem a beleza sensual, diferenciada e estonteante de Salomé é capaz de vencer.

Decidem, pois, migrar para a Amazônia, onde abacaxi é do tamanho de uma jaca e as árvores são tão altas quanto arranha-céus.

“Floresta Amazônia. Nunca ouviu falar?”

É um caminhoneiro (Carlos Kroeber) que diz, enquanto disputa cana-de-braço com Andorinha, sob a supervisão do “fominha” Lorde Cigano. Ele cai na conversa. A Amazônia, na fala do caminhoneiro, é apresentada como uma espécie de eldorado, o que era senso comum a muitos que na época para lá migraram em busca da fortuna, que só veio para poucos.

Diante da decadência que se lhes apresenta inexorável por conta de tecnologias como a tal televisão, Lorde Cigano decide que a Caravana Rolidei seguirá para Altamira, às margens do rio Xingu, no centro da rodovia Transamazônica. Lá vão dar espetáculos para os índios, porque, com certeza, lá naquele fim de mundo não há televisão e os indígenas não têm onde gastar seu dinheiro.

Índios são forçados a abandonar sua cultura e a abraçar precariamente a cultura do invasor (fonte: Google)

Mas antes Ciço expressa desejo de ver o mar. Seguem rumo a Maiceió. Chegando lá, as cenas mostram a vida agitada das cidades, o trânsito infernal, os engarrafamentos, a poluição sonora, a poluição visual…, tudo de ruim. As cidades — até mesmo as medianas como a Maceió de 1979 — estão inchadas devido ao êxodo rural. Por não obterem apoio na roça, migram para a cidade, que, por sua vez, não os contempla porque não têm qualificação, resultando desse círculo vicioso mais misérias, violências, insegurança, desempregos, problemas habitacionais, enfim, toda uma sorte de problemas sociais.

“Mar de cidade é cheio de cocô. Altamente poluído.”

Mas conhecer o mar é objeto de desejo de todo brasileiro que nasceu e se criou no interior. Por isso, a Caravana Rolidei estaciona numa praia distante da cidade grande, com muitas belezas naturais, ventanias, palmeiras, uma beleza. Lá Ciço, finalmente, põe os pés no mar, realizando um de seus grandes sonhos.

O velho fenemê adentra a floresta.

Uma vez em plena Amazônia, cenas mostram a estrada rasgando a selva, sugerindo desmatamento desordenado. Tinha-se o pensamento na época de que eram necessárias ao país estradas, fábricas, extração de minérios, desmatar, explorar… Fazer o bolo crescer para só depois dividir. Essa era a ideia de modernidade, e o homem que se adaptasse ao progresso numa época em que não se falava em defesa do meio-ambiente.

Dasdô sente as dores do parto. Nasce a filha, a quem é dada o nome de Altamira, em homenagem à cidade promissora, que, para eles, é uma espécie de terra prometida, onde corre leite e mel.

“Vai se chamar Altamira!” Diante do olhar de reprovação por parte de Salomé, Lorde Cigano, segurando o bebê, atenua: “Legal, quem não gostar por chamar de Mirinha”;

Segue o filme.

A certa hora aparecem os índios. Todos vestidos, alguns de óculos escuros, escutando rádio. Diante da invasão cultural a que sofreram, os indígenas não têm outro caminho a não ser adaptar-se à cultura do invasor, ainda que de forma precária.

“Depois que os brancos chegaram, minha aldeia se acabou. Agora eu vou pra cidade, pacificar os brancos… Minha mãe quer ir pra Altamira pra viajar de avião.”.

Diz o cacique (Rinaldo Gines), para completa surpresa de Lorde Cigano.

“De avião em Altamira? Isso aqui é Floresta Amazônica, meu amigo. Nunca ouviu falar?”

Depois de algum tempo, finalmente chegam a Altamira. Lá, desapontados porque, além da televisão que já chegou aos rincões amazônicos, nada do que o caminhoneiro disse é verdade. Em vez do eldorado prometido, encontram uma cidade desorganizada, bois circulando nas ruas, muito barro e lama, gente vinda de todo lugar. Uma confusão dos diabos.

Meio desnorteado, Lorde Cigano, de diferente, encontra um agenciador de empregados (Marcos Vinícius), ele também um elemento a serviço do grande capital, encarregado de recrutar trabalhadores para um grande empreendimento estrangeiro de exploração, uma fábrica de papel. O empreendimento realmente existiu com o nome genérico de Projeto Jari, do bilionário estadunidense Daniel K. Ludwig.

“Isso é uma moderníssima fábrica de papel, a maior do mundo, trazida do Japão até aqui inteirinha, pelo mar. … Coisa de gringo, bicho! Paga bem e em dia. Luxo e conforto…” 


Propagandeia. O cacique e sua família se mostram então interessados, pois é a chance de viajarem de avião. Ao interesse do índio, o agenciador, dirige-se a seu assistente:

“Atende esse aí, Moreno. Índio é mais barato.”

Diante disso, só resta à trupe contar com o talento do fabuloso Andorinha, o homem mais forte do mundo, até então invencível. Mas desta vez encontrou um mais forte e perdem tudo, inclusive o caminhão. Andorinha, julgando-se culpado pela ruína do grupo, vai embora. A presença do negrão na história não é mais necessária; não há mais caminhão para guiar, nem equipamentos para carregar, nem fogo para engolir, nada mais para ele fazer.

Extinta a Caravana Rolidei, falidos, somente resta a eles Salomé, para, prostituindo-se mais uma vez, lhes dar o sustento e o necessário para que possam recuperar-se do revés noutro lugar. O destino escolhido é Belém, uma cidade grande, onde, durante algum tempo Salomé continua a se “virar”. Dasdô oferece-se prostituir-se também, mas, na hora agá, numa crise de ciúme por amor e machismo, Ciço não consente.

Nas cenas em Belém, é interessante o ambiente do bordel em que aparece um cantor interpretando uma música em inglês (Walter Bandeira), enquanto as pessoas dançam freneticamente. Há também o diálogo entre Lorde Cigano e um contrabandista de minérios. A exploração do homem (prostituição), a apropriação cultural, a exploração desordenada da riquezas naturais, que se vão, deixando em troca somente a miséria.

Salomé e Lorde Cigano ainda ficam em Belém por algum tempo. Ela se “virando”, ele metido num negócio de minérios em sociedade com o tal contrabandista. Enquanto isso, Ciço, Dasdô e a pequena Altamira partem para tentar a sorte em Brasília.

“Hum milhão de habitantes, mais de um milhão de habitantes. Cabe mais alguém? Não cabe, e no entanto continua a chegar gente como vocês… Agora nós, da assistência social, nós cuidamos de vocês, nós abrigamos toda família. Bem. Não aqui, no centro da cidade”

Peça publicitária do filme, em inglês (fonte: Google)

Diz a assistente social (Marieta Severo) à família de migrantes, enquanto mostram cenas de Brasília, no Plano Piloto. São deixados na periferia, uma rua com esgoto a céu aberto, crianças brincando de bola, e casebres improvisados. Mas lá, passados alguns anos, a família de sertanejos nordestinos adapta-se ao meio. Não abandonando suas origens culturais, porém, logram viver dignamente com o necessário para sua sobrevivência.

Bye Bye Brasil, 1979

Bye Bye, Brasil do passado, viva o Brasil do progresso! No entanto, a vida continua igual. Pouco ou nada mudou para a maioria de nossa gente nesses quarenta anos. Rico Brasil, pobre povo brasileiro. Apesar disso, Bye Bye Brasil continua até hoje o melhor filme já produzido no país.

L.s.N.S.J.C.!

2 comentários sobre “FLORESTA Amazônica! Nunca ouviu falar?

  1. Tenho um desafio prazeroso de conhecer todo Brasil de carro – coisa que muitos ditos patriotas jamais farão. Já o fiz quase todo, faltando apenas os Matos Grossos e o extremo noroeste, que espero conhecê-los muito brevemente.
    Conheço as capitais mas nosso foco são os interiores, lá está a essência da nossa gente, que posso lhe afirmar, sem sombra de nenhuma dúvida, tratar-se de um povo bom, honesto, solidário e trabalhador.

    Curtir

  2. E verdade, meu caro Moita.
    Povo bom, honesto, solidário e trabalhador, embora ingênuo e fácil de ser ludibriado. Disso se aproveitam os políticos desonestos para se manterem eternamente no poder. Estes, por sua vez, estão a serviço do grande capital. E por aí, vai.
    O alagoano Cacá Diegues, por meio do filme Bye Bye Brasil, procura também denunciar esse estado de coisas.

    Curtir

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s