ROCILDO Oliveira!

Socó, o elegante zagueiro azulino das décadas de 1950 e 1960

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

COMO de costume, os grandes craques surgiam no subúrbio se destacavam nas equipes menores quando da disputa do campeonato paraense de futebol. Combatentes, Júlio César, Paulista, União Esportiva nunca eram páreo para os grandes clubes, mas eram a grande vitrine, mostrando para o público esportivo belenense as suas grandes jóias. Foi assim com Marituba, Raimundinho, Sessenta, Marido, China, e não poderia ser diferente com ele, o clássico centro médio Hamilton Blanco Fernandes.

Pelo nome poucos conheceram Hamilton Blanco. Ganhou fama e conquistou milhares de admiradores com o meigo apelido de Socó. Socó, um pássaro, e ele realmente parecia voar. Socó saltava, voava, flutuava, dominava no peito o cobiçado balão de couro, aliviava o perigo, e, como a desfilar, sai da grande área para alegria do hipnotizado torcedor Remista, que por doze longos anos teve a felicidade de acompanhar esse verdadeiro maestro da defensiva azulina.

O grande defensor fez a sua primeira partida com a gloriosa camisa azul na tarde do dia 13 de maio de 1956, no estádio da curuzu num amistoso contra o rival bicolor, que terminou empatado em 1 a 1. Socó, apesar de não ser considerado um zagueiro artilheiro, balançou as redes adversárias por nove vezes ao longo de toda a sua vida esportiva, defendendo as cores do Clube do Remo. Os gols mais importantes foram marcados na decisão do campeonato paraense de 1960. Socó marcou por duas vezes no empate de 3 a 3 contra o Paysandu , mas não conseguiu com o empate o título de campeão, que ficou de posse do grande rival listrado.

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

Além de alguns torneios, o eterno craque conquistou ainda os títulos paraenses de 1960, 1964 e 1968. Socó, que encerrou a sua brilhante carreira no ano de 1968, após ser ferrado por uma arraia em uma praia do Mosqueiro, defendeu também a Seleção Paraense, sendo escolhido em 2000 pela crônica esportiva local para fazer parte da seleção paraense do século XX.

Faleceu em 1 de abril de 2015.

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SÃO as homenagens a Hamilton Blanco Fernandes, o popular Socó, do grande cronista azulino Rocildo de Oliveira, que postou esta crônica no Facebook, e com esta postagem faz a sua estreia no BLOGUE do Valentim, que costuma divulgar belos textos como este. Da minha parte, só lamento que não existem mais jogadores assim, que vestem a camisa de um mesmo clube de futebol por tanto tempo, criando uma verdadeira identificação com suas cores e com seu torcedor.

Até os anos 70, ainda era comum ver jogadores e craques como Zico, Roberto Dinamite, além do imortal e inigualável Pelé, que desfilaram com a camisa de Flamengo, Vasco e Santos por muitos anos. Nas equipes tradicionais do Pará, como é o caso de Remo e Paysandu, era fato corriqueiro e normal jogadores que, além de grandes craques de bola, também davam sangue pelas suas cores e isso por durante diversas temporadas.

Hoje, mal um garoto começa a se destacar e logo vem um agente que, de posse de um instrumento de procuração, o leva para outro clube, deixando suas origens futebolísticas. Pior ainda para equipes tradicionais e populares, porém sem muita infraestrutura, como é o caso do nosso amado Clube do Remo. Quanto aos veteranos, mal conseguem jogar por uma temporada apenas.

L.s.N.S.J.C.!

JOSÉ Augusto Moita!

Anotações estradeiras II (Belém, Pará)

A IDEIA de ter procurado um hotel perto do porto mostrou-se por demais inteligente, o escolhido não tem luxo mas é bastante agradável e fica perto de tudo. No café da manhã outra grata surpresa: nos aparece uma senhora idosa, muito distinta e educada, pergunta como tinha sido a noite e se estávamos gostando da estadia. Era Dona Odete, uma portuguesa que chegou no Brasil por volta de 1974 e há 16 anos é a proprietária do Hotel Unidos — agora entendemos o nome, pois sua filha está nesse exato momento na recepção.

O cronista José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Aqui abro um parêntese para dizer que já fomos servidos por uma primeira dama do município. Foi numa cidade de Goiás que agora nos falta o nome, onde o prefeito (descendente de italiano) era dono do hotel, a família toda trabalhava na manutenção do mesmo hotel e de um restaurante vizinho; a esposa servia o café e os filhos e sobrinhos eram garçons e recepcionistas. Mas isso tudo são coisas de imigrantes, nosso orgulho de senhor feudal não nos permite tamanha vergonha.

Tínhamos marcado com um primo, Moita da gema, que só conhecíamos do feicebuque, mas que se prontificou a nos levar onde quiséssemos.

Vou ter que abrir outro parêntese para falar sobre a Família Moita. Meu tetravô materno chegou de Portugal em meados do Século XIX, instalou sua família no alto da Serra da Ibiapaba, foi tão prolífero que contaminou todo País com sua carga genética, parecemos hoje o mosquito da dengue, existimos no Brasil todo.

Já a ideia de aceitar o convite do primo Clóvis Nunes Moita logo mostrou-se não ter sido inteligente, foi muita “AUMILHAÇÃO” do começo ao fim do passeio. Vou explicar porquê. Nós tínhamos dito que Belém é uma cidade linda, mas nos enganamos, é lindíssima. E quando nosso primo começou a nos mostrar os prédios, as praças, as ruas arborizadas, os monumentos históricos preservados, inevitavelmente nos veio a comparação com Fortaleza, aí bateu aquele desgosto… E tome o primo a nos mostrar os palacetes… e o desgosto aumentando. Chegou um momento em que ele sugeriu que fossemos conhecer as praias do Pará, de imediato eu pensei comigo: é melhor que não, a vergonha pode ficar maior, vamos nos enganar que pelo menos no quesito praia ganhamos deles.

Palacete Bolonha, Belém – Pará (fonte: Google)

São muitos os casarões e palacetes frutos das riquezas que essa Terra já produziu e produz, a maioria bem preservados, felizmente. Dentre os segundos se destaca o Palácio do Amor, uma obra de uma beleza estonteante construída pelo arquiteto italiano Antônio Bolonha, contratado a peso de ouro por um barão paraense para cuidar da criação de suas edificações.

Só que sua amada não quis vir do Rio de Janeiro para dentro da selva. O ardoroso esposo, como pássaro que capricha no ninho para atrair a companheira, deu de presente a ela e à cidade de Belém, uma verdadeira maravilha arquitetônica — história muito parecido com uma que ocorreu na “loura desprezada pelo sol”, só que a nossa teve um final trágico, botaram abaixo o palacete (poupamos nosso primo de mais uma vitória sobre nós, não contamos que o Castelo do Plácido, que viveu a mesma epopeia de amor, já não faz mais parte do mundo dos vivos).

Basílica de Nazaré, Belém – Pará (fonte: Google)

Quando estávamos pensando que nossa vergonha tinha passado, meu primo nos leva para conhecer o Santuário do Círio de Nazaré. Aí foi a gota d’Água. A AUMILHAÇÃO foi grande demais. A Catedral toda é uma obra de arte de fino trato, não tem como descrevê-la, só se fôssemos Vítor Hugo, é simplesmente linda, até pensei que meu ateísmo havia se acabado. Passamos tanto tempo a contemplar a magnificência dos detalhes das colunas, dos vitrais, do fabuloso órgão de tubos longos, das pinturas de ouro, que os crentes do grupo esqueceram de rezar.

A pá de cal veio quando o primo nos levou até a Casa Salomão, que tem apenas 110 anos em atividade — fichinha para o comércio fortalezense, onde nem Romcy existe mais. É um imenso bazar onde se encontra de tudo, do tecido ao parafuso, com os longos balcões de madeira e vitrines da época da inauguração, apenasmente deslumbrante.

Mercado e feira do Ver-o-Peso (fonte: Google)

Nós já tínhamos sentido que aquela tortura não iria ter fim se continuássemos naquele ponto da cidade, então alguém teve a feliz ideia de pedir ao primo para nos levar ao Ver o Peso. Ufah, enfim em alguma coisa empatávamos com eles, em sujeira de mercado somos iguais. O famoso Ver o Peso é um imenso São Sebastião sem paredes e com o mesmo aspecto de mal cuidado. Tem tudo que um mercado tem: produtos regionais. Mas começamos a notar que dessa vez o primo tinha uma certa pressa em nos mostrar tudo com muita rapidez, parecia que estava querendo chegar logo em algum lugar da feira. E não nos enganamos, ele queria nos levar no setor das ervas medicinais com suas garrafadas afrodisíacas, quando rapidamente as vendedoras passaram a demonstrar as maravilhas miraculosas de cada uma delas.

Para nossa surpresa o primo perguntou se poderíamos levar para Fortaleza duas encomendas, um presente para Raimundão e outro para Paulim. Aí eu disse: ué, e o primo conhece as peças? Se conheço…são as figuras mais badaladas das redes sociais. E o que é que meu primo quer que a gente leve? São apenas duas garrafinhas: uma para Raimundão que é composta de copaíba, raiz de pimba de macaco, banha de cupuaçu, casca do pau preto, seiva de jatobá, raspa da andiroba e leite de sucuba, conhecida aqui como viagra natural; e a do Paulim tem apenas chá de aroeira, para banhos de assento. Eu fiquei sem entender nada..

Ao Clóvis Nunes Moita nossos mais sinceros agradecimentos.

***

O TEXTO acima em que J. A. Moita escreve sobre suas experiências em Belém, por suas peculiaridades de escrita e de descrições, nos deixa, como paraense que somos, bastante desconcertado, apesar de orgulhoso.

Quanto as descrições de alguns pontos turísticos de Belém, é claro que o amigo foi muito bondoso. Com certeza, há muitas coisas lindas e diferentes que podem ser encontradas na capital paraense. Há também coisas imateriais, como a deliciosa e exótica culinária paraense, que, com certeza, o Moita já ouviu falar e até provou.

Mas é claro que comparar a nossa simpática cidade à capital alencarina, devo dizer, a bem da verdade, que Belém — a antiga Santa Maria de Belém do Grão-Pará — sairia perdendo. Nenhuma vergonha em admitir. Por razões estratégicas, em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco mandou construir o Forte do Presépio (edificação que deu origem à cidade) na entrada da Amazônia e não em frente ao mar, tal qual a capital de todos os cearenses e outras belas cidades nordestinas.

Há outra questão, que independe da história, da natureza e da localização: infelizmente, a cidade, Porta de Entrada da Amazônia, vem sendo mal cuidada há décadas. Maus governantes. Não vou nem entrar no assunto favela, palafitas, sub-moradias… Aí sim, é vergonhoso. Mazelas do capitalismo que as grandes cidades brasileiras não estão impunes.

Menos mal que o Clóvis Moita, seu parente, o levou somente aos melhores lugares. Há, além da beleza arquitetônica, toda uma história de amor por trás da construção do Palacete Bolonha. Quanto ao Ver-o-Peso, é um lugar único. Muito interessantes as barracas de ervas com seus nomes pra lá de exóticos e até divertidos: Comigo-ninguém-pode, pega-rapaz, catinga-de-mulata, chama-dinheiro, amansa-corno… Não sei se o Clóvis levou o J. Moita à barraca da Bete Cheirosinha.

Para não deixar de lado a criticidade de que nenhum de nós, brasileiros, devemos nos apartar, atrás da história romântica da construção do palacete há também uma dose alta de exploração dos operários que o construíram, que derramaram ali seu suor e lágrimas. O mercado, o porto e a feira do Ver-o-Peso devem esse nome ao fato de os produtores terem obrigatoriamente de pesar seus produtos para daí a Coroa Portuguesa extrair o imposto que mantinha o luxo e o conforto dos reis e nobres lusitanos. Também aí muito suor, lágrimas e sangue dos cabanos da região. Há aí — como se vê — todo um campo de estudos farto, digno de pensadores como Karl Marx; o materialismo histórico vigendo desde sempre.

Quanto ao estilo literário peculiar do autor, que habilmente se utiliza de linguagem simples e popular, é dificultoso definir. Simplesmente maravilhoso, vamos ficar só aí. Qualquer outra seria redundante, desnecessária, podendo ser injusta.

L.s.N.S.J.C.!

RUFINA, a jovem que morreu duas vezes!

UM DIA desses vejo na tevê que o turismo funerário é mais comum do que se imagina. Chama a atenção as vezes em que o turista é levado para visitar cemitério. Lembro imediatamente de duas viagens que fiz.

Uma foi para São João del-Rei, Minas, terra de Tancredo Neves. Ano de 2001, quando estava no CIAAR em Belo Horizonte. Como não poderia deixar de ser, o guia nos leva à Igreja de São Francisco de Assis, cujo projeto arquitetônico leva a assinatura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Também é dele algumas obras de escultura, como, por exemplo, o Cristo do Amor Divino, em uma das laterais, em que se pode ver o olhar sofrido de Jesus, uma marca desse grande artista brasileiro, que, se fosse estadunidense, sobre a vida dele teriam feito ene filmes e não sei quantos livros.

Cristo do Amor Divino, obra de Aleijadinho, São João Del Rei, Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

“Olhem para o chão! Para o chão”.

Entre tantas coisas interessantes para se contemplar, o guia nos chama a atenção para o assoalho da igreja. É de madeira e embaixo dele, faz muito tempo, eram sepultadas as pessoas ricas, muito ricas, os barões e baronesas da cidade, bem como seus filhos e demais parentes. Benfeitores, faziam questão de ser sepultados no solo sagrado da igreja, já que assim era certeza sua alma repousar no paraíso — era o que acreditavam. Ricaços, perpetravam em vida sórdidas ações, explorando, violentando, inclusive escravizando; uma vez mortos, por terem seus ossos repousando em solo sagrado, o céu lhes estaria garantido. Muito fácil! Coitadas das outras infelizes almas, as dos pobres, que em vida não possuíram honra, dinheiro e poder. Enterrados em qualquer lugar, bem longe da igreja, com certeza tinham por destino os braços esqueléticos do Capiroto!

No entanto, um belo dia o papa — cujo nome não guardei — resolve proibir tal prática macabra. Pudera. O cheio já se manifestava insuportável, ficando proibitivo aos cristãos da cidade frequentar a igreja e participar das missas dominicais. Tem nada não! Não podendo usar o solo sagrado da igreja, o cemitério passa a funcionar bem pertinho: no quintal.

Assim, fomos levados a visitar, nos fundos da Igreja de São Francisco de Assis, os túmulos em que jazem os restos mortais do quase presidente Tancredo Neves (aquele que era para ser mas acabou não sendo) de sua esposa Risoleta Neves.

Igreja São Francisco de Assis, São João Del Rei – Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

Vistar cemitério. Belo programa!

Quanto não fazem para agradar? Sempre com a mesma história na ponta da língua, pronta para impressionar turista. A outra viagem foi para a Argentina. Ano de 2013.

Relembro que quando estivemos por Buenos Aires acompanhou-nos uma figura muito simpática, o Esteban Ríos, guia argentino que, segundo ele, morou em três cidades do Brasil: Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre. Grande cara esse argentino torcedor do Boca Júniors, que nos proporciona momentos marcantes e histórias insólitas na capital argentina.

Esteban no nosso ônibus indicava os pontos de destaque da cidade. A cada monumento ia a nos dizer de quem e de que se tratava, sempre ilustrando com uma história que justificava a existência do tal monumento, estátua, obelisco ou que fosse. Muito cívico e patriota o povo argentino.

“Cuando vean a un hombre a caballo. ¡Es un general!”

Diz-nos ele com seu sotaque forte. Foi aí que passamos por mais um dos heróis portenhos. Tratava-se de um monumento que homenageava o general Urquiza, um dos primeiros presidentes do país vizinho. Pensei: “Já vem aí uma relação dos feitos heroicos desse general.”. Nada. Em vez disso, o guia nos vem com essa:

“General Urquiza es responsable por el poblamiento de la argentina. Fue padre de 105 hijos.”

Estátua do General Urquiza, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Acrescentou, enfatizando, que o grande guerreiro povoou a metade do país. 105 filhos, não entrando nessa conta os não reconhecidos. Uau!

Logo chegaríamos ao cemitério da Recoleta para vermos o mausoléu de Evita Perón, a protetora dos pobres, até hoje venerada pelo argentino.

Incrição à entrada do mausoléu de Evita Perón, Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Paramos para ouvir o que Esteban tinha a dizer sobre a mulher do caudilho Juan Domingo Perón. Pouco me interessou porque, a bem da verdade, muito já li sobre Maria Eva Duarte de Perón, atriz e primeira-dama.

O que realmente roubou a cena e chamou a atenção do grupo foi a história surreal que ele conta sobre o próximo túmulo a ser visitado. É o túmulo de Rufina Cambaceres, a jovem que morreu duas vezes.

Esteban Ríos conta-nos a nefasta história de Rufina, a que morreu duas vezes. Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (Acervo do BLOGUE do Valentim!)

Rufina morreu no dia em que completava dezenove anos. Para comemorar a data, sua mãe faria uma grande festa e a levaria ao Teatro Colón, onde a apresentaria à alta sociedade da capital. Um acontecimento para poucas jovens da sociedade portenha de então.

Todavia, antes de sair, a jovem foi encontrada morta, rígida no chão. O médico atestou sua morte e ela foi enterrada no dia seguinte. Alguns dias depois os empregados do cemitério encontraram seu caixão aberto e com a tampa quebrada. Rufina teria sofrido um ataque de catalepsia e acordado dentro do esquife.

Por trás dessa história há outra.

Depois que o pai de Rufina Cambaceres, o escritor Eugenio Cambaceres morreu, ela tornou-se uma menina solitária, reclusa. Uma vez jovem, recusava sistematicamente a aproximação e interesse de qualquer jovem de sua faixa etária. Um dia, Rufina, filha de Luiza Bacichi, ex-bailarina italiana, viúva e bonita, recebe proposta de namoro por parte de Hipólito Yrigoyen, um homem bem mais velho que ela (ele, 49; ela, 19), que viria a ser presidente da Argentina por duas vezes. Talvez por projetar a imagem de seu pai, que morreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade, é este o único homem por quem ela de fato passa a se interessar. Ocorre que, nos poucos encontros que tiveram, na casa de Rufina, a jovem, mal o recebe, acaba por passar mal, recolhida a seus aposentos, dorme, desapontando Hipólito. Isso ocorre várias vezes.

Um dia alguém lhe abre os olhos.

“Rufina, você não acha estranho que, justamente, nos dias de visita de seu noivo, você passe mal?”

31 de maio de 1902, nesse exato dia, em que completa dezenove anos, ela finalmente descobriria a verdade nua e crua. Toda vez que Hipólito vinha a sua casa para lhe ver, sua mãe serve à filha chá com alguma substância que lhe fazia dormir. Hipólito era amante de sua mãe, na verdade.

Nessa noite fatídica, diante de revelação tão chocante, Rufina não resiste. Um médico, presente na casa, atesta sua morte. É sepultada.

No entanto, dia seguinte chega da Europa uma parenta sua. Tarde demais. Ela era a única pessoa a saber que a jovem Rufina sofria de catalepsia. O caixão tinha as portas arranhadas e o corpo com o rosto machucado pelo desespero da infeliz que morreu duas vezes. Oficialmente a família declarou que foi um roubo pois a jovem foi sepultada com as suas joias.

Estátua de Rufina Cambaceres (foto: Luiza Tenan)

Diante disso, a família mandou esculpir uma estátua em que Rufina tenta abrir uma porta; a porta para o céu para uns, a porta do caixão para outros.

Pensa numa consciência pesada a de Luiza Bacichi, sua mãe.

L.s.N.S.J.C.!

O ÁLCOOL revela o caráter!

Luzes da Cidade é caracterizado, também, pelo desenho recorrente de um abismo social perverso. Enquanto o personagem de Myers é apenas amigo do vagabundo quando ébrio, ostensivamente provendo coisas como forma de mitigar a própria tristeza por ter perdido a esposa, o pobretão faz das tripas coração para ajudar a amada em situação tão precária quanto a dele. A drástica mudança de comportamento do endinheirado deflagra, de maneira ora melancólica, ora cômica, a alienação burguesa diante dos que padecem à margem. Marcelo Müller

HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas, nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, e sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas iluminadas.

Harry Myers e Chaplin (fonte: Papo de Cinema)

Charlie (a versão norte-americana para Charles) fez de quase tudo no cinema: escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs músicas, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Eterno inconformado, o fez com o objetivo de dar liberdade ao artista, preso a esquemas dos grandes chefes de estúdio. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O ator britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica Luzes da Cidade, de 1931, filme do genial Chaplin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que havia quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entra na era do cinema falado. Incorporando elementos sonoros, o filme foi campeão de bilheterias, com o melhor final de toda a história cinematográfica.

Há obras de arte que precisam e merecem ser vistas, ouvidas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas por toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam, merecendo ser apreciadas por uma existência inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, reapresentam-se a poesia e o sonho, como que em mágica, revelando-se a cada vez faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil.

São clássicos e clássicos não morrem jamais.

Chaplin e Virginia Cherrill (fonte: Papo de Cinema)

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, não tendo onde morar, vagueia pela cidade, a dormir em qualquer lugar e a comer do que conseguir. Numa tarde, uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela. Por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, ele, um andarilho, um pobre-diabo acaba se passando por homem de classe social abastada.

Como manter a representação?

A solução lhe vem à noite, quando ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, ricaço, milionário, magnata. Por ironia, um pobretão que salva um milionário, apelando para a beleza da criação.

“Amanhã, os pássaros cantarão”.

 O magnata, depois de muitas trapalhadas que quase levam os dois à morte, mas que geram no público um mar de gargalhadas, acaba por desistir do suicídio. Agradecido, oferece-lhe sua eterna amizade.

“Amigos para sempre”.

Dois homens, duas vidas, classes sociais opostas. Um, que tudo possui — bens a usufruir, conforto a desfrutar, empregados para mandar — apresenta, na verdade, um grande vazio de alma; busca preencher esse vazio com a bebida, luxo, diversões fúteis e viagens. No entanto, à menor contrariedade, vê-se inclinado a acabar com a própria vida, não suportando o sofrimento, por pequeno que seja. Outro, que nada tem, possui, todavia, o principal: a esperança e o amor, valores que nem a sociedade cruel é capaz de destruir. A uma, oferece o amor e o carinho — platônico e desinteressado — de um homem, buscando prover-lhe, ainda que faça das tripas coração, o que lhe falta para sua felicidade. Assim, procura mitigar-lhe o sofrimento, primeiro em relação ao aluguel vencido, que promete saldar, e, por fim, a própria cura da cegueira; a outro, salva-lhe a vida, procurando mostrar-lhe o belo, a criação extraordinária do Supremo.

O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa — eis a razão imediata da tentativa de suicídio –, leva o Vagabundo, a quem promete amizade, para sua mansão, e de lá, condignamente trajados, vão para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes de luxo, acaba por protagonizar várias trapalhadas, que o faz ao transgredir as normas sociais. É a pantomina habitual, receita infalível nos filmes de Chaplin que leva o público às gargalhadas.

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o homem não o reconhece, mandando que o mordomo expulse Carlitos da casa.

“Quem é esse homem?”

Há pessoas volúveis neste mundo cruel. O homem, por vezes, comporta-se em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as normas impostas pela sociedade, que tem seus instrumentos de controle dos indivíduos.

Indivíduos que, uma vez embriagados, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, quando são em geral seguros, econômicos e mesquinhos; egoístas, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

O álcool revela o caráter, costumava dizer o próprio Chaplin.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, sumindo o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros. Relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, passando a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que diferenças inexistem. A partir daí, as muralhas da  etnia, da religião, da convicção política, da classe social deixam de representar obstáculos.

Chaplin, em Luzes da Cidade, nos relembra do oceânico abismo social entre o magnata e o vagabundo, entre o rico e o pobre, um mundo extremamente desigual e perverso. Um homem, o pobre-diabo, nada tem de seu, enquanto a outro nada lhe falta. Possui confortável mansão, empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social e títulos, além de dispor de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que nenhum dinheiro é capaz de comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, por resignado, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar.

Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter a necessária coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin cria um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o Vagabundo, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, de praticar o verdadeiro amor cristão. Para ele, a vida é importante e bela, que precisa ser vivida — Amanhã, os pássaros cantarão –, reconhecendo no outro um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. Não tire sua própria vida, meu irmão, porque vale a pena viver. Quem te diz isso não é um homem rico, a quem nada falta, mas sim um mendigo de rua.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, movido pelo verdadeiro amor, doa todo o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. É um gesto de extrema abnegação, ele um faminto que nada tem. Logo em seguida é preso, passando muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Chaplin proporciona em Luzes da Cidade o melhor final de todos os filmes até hoje (fonte: Google)

Ébrio, um sujeito bonachão, alegre, feliz e generoso; sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais mandam que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado.

A aparência precisa ser preservada. Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

L.s.N.S.J.C.!

A HORA e a vez de Augusto Matraga!

Guimarães Rosa

A Hora e a Vez de Augusto Matraga” é o nono e último conto de Sagarana, livro que em 1946 marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais e conta a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…” (Enem virtual)


João Guimarães Rosa (fonte: Google)

ERA noite de novena no arraial e havia uma procissão. Quando a reza acabou, aconteceu um rápido leilão. Depois disso toda a gente foi embora, mas o leiloeiro ficou na barraca, comendo amendoim, no meio do povo bêbado do fim da festa. Além deles, havia duas prostitutas, Angélica (negra) e Siriema (branca).

Os homens começaram a disputá-las, como se elas também estivessem em leilão. Nesse momento, Nhô Augusto (Augusto Matraga) berrou para o leiloeiro, oferecendo 50 mil réis por Siriema.

O povo, então, incentivou-o a levar a prostituta branca. Ele pegou-a pelo braço e os dois saíram. Ela quis ficar com outro homem e até ameaçou um choro, mas acabou se rendendo a ele. Quando a levou para casa e acendeu a luz, percebeu que ela era muito magra e disse: “Que é? – Você tem perna de Manuel-Fonseca, uma fina e a outra seca!” , mandando a rapariga embora.

Depois disso, desceu a ladeira sozinho e esbarrou com Quim que trazia um recado de Dona Dionóra, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Ele disse a Quim Recadeiro que não iria lá.

Quando Dona Dionóra soube a resposta, teve vontade de chorar pelo desprezo do marido e por sua desdita. Ela conhecia e temia os repentes de Nhô-Augusto que não se importava nem com a filha Mimita de dez anos.

Guimarães Rosa (fonte: Google)

Ela sabia que ele tinha outros prazeres e outras mulheres, mas aceitava, pois havia contrariado toda a família para se casar com ele. Outro homem já tinha aparecido em sua vida, mas ela sabia que se fugisse Matraga a mataria. Depois de pensar, ela dormiu e, de madrugada ainda, partiu com a filha e com o camarada Quim, parando na fazenda de um tio.

De manhã, continuaram a andar. No meio do caminho, encontraram Seu Ovídio Moura, o homem com quem ela decidiu fugir, mesmo com medo de ser assassinada pelo marido. Quim voltou para contar a Nhô-Augusto o que acontecera.

Quando recebeu a notícia, Matraga decidiu ir atrás, mas seus homens não quiseram ir com ele, pois ele devia dinheiro para todos. Além do mais, sua fama no lugar não era muito boa. Apesar de tudo isso, ele decidiu matar Ovídio, mas antes quis vingar-se do Major Consilva e de seus capangas que não quiseram acompanhá-lo na busca da esposa.

Chegou, então, à chácara do major, porém, os capangas o espancaram até que ele caísse. No meio desses homens, estava o camarada de quem ele havia ganhado a prostituta Siriema. Quando ele já estava caído, o major mandou que o matassem. Eles o arrastaram até o rancho do Barranco.

Antes de matá-lo, esquentaram o ferro dos gado e marcaram sua pele com as iniciais do Major Consilva. Nessa hora, ele levantou gritando e se jogou do barranco. Os capangas o consideraram morto e colocaram uma cruz no local.

Um homem negro que morava perto dali foi até ele e o levou para seu casebre. Nhô-Augusto pediu que o matassem, mas, dias depois, retomou a consciência. Lembrou-se da mulher e da filha, chorou e chamou o nome de sua mãe. O homem que o acudiu pediu que ele rezasse para Deus e para Nossa Senhora do Rosário. A tristeza tomou conta de Matraga.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e, após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou que sua vida já acabara e esperava apenas a salvação da sua alma. Tomara tão grande horror às suas maldades que nem podia mais se lembrar delas. Parecia se converter a Deus aos poucos.

Quando ficou bom, pensou em ir para o sertão com o casal samaritano que o socorreu e viajaram para o povoado do Tombador. Lá, ele pedia trabalho e conversava pouco. Às vezes, ficava sozinho e se lembrava das últimas palavras do padre: “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.” Desse modo, passaram-se quase seis anos. Ele não fumava nem bebia; não olhava para as mulheres nem discutia.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô-Augusto, dando notícias de sua família: Dona Dionóra, continuava amigada com Seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadero havia morrido de “morte matada” porque tentou vingar-se dos capangas que pensava terem matado Nhô. Ao ouvir tudo isso, Matraga repetia para si mesmo que sua hora havia de chegar. Por causa disso, no dia seguinte, fez muita caridade para não perder seu lugar no céu.

Com o tempo, ele voltou a ter muito sono e muita fome. Pensou que Deus o havia perdoado e mãe Quitéria louvou a Deus por isso. Acordou mais cedo e diante de tanta felicidade que sentia, teve vontade de fumar e não se sentiu pecando por isso.

Um dia, chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nhô foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado. Todos conversaram muito durante a noite e o chefe do bando, na hora de ir embora, convidou Nhô para ir com eles, mas ele recusou.

Apesar disso, os invejou depois, porque não tinham que pensar na salvação da alma e podiam andar no mundo sem vergonha.

Pensou bem e considerou que essa história de andar em penitência era andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos. Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jegue emprestado pelo amigo Rodolphio Merêncio.

Onde o jegue o levou ele foi e entraram em um arraial onde, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

João ia matar um homem para vingar a morte do Jumentinho, seu colega de bando. O homem implorou pela vida, clamando por Deus e, quando viu essa cena, Nhô interveio, alegando que pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem tinha que ser respeitado. Joãozinho sentia-se preso a Nhô por respeito e não soube o que fazer.

Seu bando, entretanto, liderado por Teófilo Sussuarana, caminhou para cima de Matraga. João também foi para a briga se agrediram. Por fim, Nhô-Augusto cortou a barriga do chefe do bando da púbis à boca do estômago, condenando-o à morte.

Preocupado com a salvação de Joãozinho, Matraga pediu que ele se arrependesse de seus pecados, mas não ouviu resposta, pois este morreu em seguida. Nhô estava muito machucado, mas pediu que chamassem um padre.

O povo, por sua vez, agradecia, dizendo que Deus o mandou ali para salvar as famílias. Diziam: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!…”. Por isso, era chamado de herói e santo por todos, pois ninguém antes tivera coragem para enfrentar Joãozinho Bem-Bem.

Um primo de Matraga estava no lugar e o reconheceu. Ele pediu a esse parente que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Dionóra que estava tudo em ordem.

Depois disso, morreu.

(www.enemvirtual.com.br, acesso em 02mar2019)

L.s.N.S.J.C.!