O ÁLCOOL revela o caráter!

Luzes da Cidade é caracterizado, também, pelo desenho recorrente de um abismo social perverso. Enquanto o personagem de Myers é apenas amigo do vagabundo quando ébrio, ostensivamente provendo coisas como forma de mitigar a própria tristeza por ter perdido a esposa, o pobretão faz das tripas coração para ajudar a amada em situação tão precária quanto a dele. A drástica mudança de comportamento do endinheirado deflagra, de maneira ora melancólica, ora cômica, a alienação burguesa diante dos que padecem à margem. Marcelo Müller

HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas, nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, e sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas iluminadas.

Harry Myers e Chaplin (fonte: Papo de Cinema)

Charlie (a versão norte-americana para Charles) fez de quase tudo no cinema: escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs músicas, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Eterno inconformado, o fez com o objetivo de dar liberdade ao artista, preso a esquemas dos grandes chefes de estúdio. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O ator britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica Luzes da Cidade, de 1931, filme do genial Chaplin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que havia quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entra na era do cinema falado. Incorporando elementos sonoros, o filme foi campeão de bilheterias, com o melhor final de toda a história cinematográfica.

Há obras de arte que precisam e merecem ser vistas, ouvidas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas por toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam, merecendo ser apreciadas por uma existência inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, reapresentam-se a poesia e o sonho, como que em mágica, revelando-se a cada vez faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil.

São clássicos e clássicos não morrem jamais.

Chaplin e Virginia Cherrill (fonte: Papo de Cinema)

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, não tendo onde morar, vagueia pela cidade, a dormir em qualquer lugar e a comer do que conseguir. Numa tarde, uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela. Por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, ele, um andarilho, um pobre-diabo acaba se passando por homem de classe social abastada.

Como manter a representação?

A solução lhe vem à noite, quando ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, ricaço, milionário, magnata. Por ironia, um pobretão que salva um milionário, apelando para a beleza da criação.

“Amanhã, os pássaros cantarão”.

 O magnata, depois de muitas trapalhadas que quase levam os dois à morte, mas que geram no público um mar de gargalhadas, acaba por desistir do suicídio. Agradecido, oferece-lhe sua eterna amizade.

“Amigos para sempre”.

Dois homens, duas vidas, classes sociais opostas. Um, que tudo possui — bens a usufruir, conforto a desfrutar, empregados para mandar — apresenta, na verdade, um grande vazio de alma; busca preencher esse vazio com a bebida, luxo, diversões fúteis e viagens. No entanto, à menor contrariedade, vê-se inclinado a acabar com a própria vida, não suportando o sofrimento, por pequeno que seja. Outro, que nada tem, possui, todavia, o principal: a esperança e o amor, valores que nem a sociedade cruel é capaz de destruir. A uma, oferece o amor e o carinho — platônico e desinteressado — de um homem, buscando prover-lhe, ainda que faça das tripas coração, o que lhe falta para sua felicidade. Assim, procura mitigar-lhe o sofrimento, primeiro em relação ao aluguel vencido, que promete saldar, e, por fim, a própria cura da cegueira; a outro, salva-lhe a vida, procurando mostrar-lhe o belo, a criação extraordinária do Supremo.

O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa — eis a razão imediata da tentativa de suicídio –, leva o Vagabundo, a quem promete amizade, para sua mansão, e de lá, condignamente trajados, vão para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes de luxo, acaba por protagonizar várias trapalhadas, que o faz ao transgredir as normas sociais. É a pantomina habitual, receita infalível nos filmes de Chaplin que leva o público às gargalhadas.

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o homem não o reconhece, mandando que o mordomo expulse Carlitos da casa.

“Quem é esse homem?”

Há pessoas volúveis neste mundo cruel. O homem, por vezes, comporta-se em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as normas impostas pela sociedade, que tem seus instrumentos de controle dos indivíduos.

Indivíduos que, uma vez embriagados, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, quando são em geral seguros, econômicos e mesquinhos; egoístas, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

O álcool revela o caráter, costumava dizer o próprio Chaplin.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, sumindo o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros. Relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, passando a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que diferenças inexistem. A partir daí, as muralhas da  etnia, da religião, da convicção política, da classe social deixam de representar obstáculos.

Chaplin, em Luzes da Cidade, nos relembra do oceânico abismo social entre o magnata e o vagabundo, entre o rico e o pobre, um mundo extremamente desigual e perverso. Um homem, o pobre-diabo, nada tem de seu, enquanto a outro nada lhe falta. Possui confortável mansão, empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social e títulos, além de dispor de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que nenhum dinheiro é capaz de comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, por resignado, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar.

Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter a necessária coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin cria um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o Vagabundo, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, de praticar o verdadeiro amor cristão. Para ele, a vida é importante e bela, que precisa ser vivida — Amanhã, os pássaros cantarão –, reconhecendo no outro um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. Não tire sua própria vida, meu irmão, porque vale a pena viver. Quem te diz isso não é um homem rico, a quem nada falta, mas sim um mendigo de rua.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, movido pelo verdadeiro amor, doa todo o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. É um gesto de extrema abnegação, ele um faminto que nada tem. Logo em seguida é preso, passando muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Chaplin proporciona em Luzes da Cidade o melhor final de todos os filmes até hoje (fonte: Google)

Ébrio, um sujeito bonachão, alegre, feliz e generoso; sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais mandam que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado.

A aparência precisa ser preservada. Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

L.s.N.S.J.C.!

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