RUFINA, a jovem que morreu duas vezes!

UM DIA desses vejo na tevê que o turismo funerário é mais comum do que se imagina. Chama a atenção as vezes em que o turista é levado para visitar cemitério. Lembro imediatamente de duas viagens que fiz.

Uma foi para São João del-Rei, Minas, terra de Tancredo Neves. Ano de 2001, quando estava no CIAAR em Belo Horizonte. Como não poderia deixar de ser, o guia nos leva à Igreja de São Francisco de Assis, cujo projeto arquitetônico leva a assinatura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Também é dele algumas obras de escultura, como, por exemplo, o Cristo do Amor Divino, em uma das laterais, em que se pode ver o olhar sofrido de Jesus, uma marca desse grande artista brasileiro, que, se fosse estadunidense, sobre a vida dele teriam feito ene filmes e não sei quantos livros.

Cristo do Amor Divino, obra de Aleijadinho, São João Del Rei, Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

“Olhem para o chão! Para o chão”.

Entre tantas coisas interessantes para se contemplar, o guia nos chama a atenção para o assoalho da igreja. É de madeira e embaixo dele, faz muito tempo, eram sepultadas as pessoas ricas, muito ricas, os barões e baronesas da cidade, bem como seus filhos e demais parentes. Benfeitores, faziam questão de ser sepultados no solo sagrado da igreja, já que assim era certeza sua alma repousar no paraíso — era o que acreditavam. Ricaços, perpetravam em vida sórdidas ações, explorando, violentando, inclusive escravizando; uma vez mortos, por terem seus ossos repousando em solo sagrado, o céu lhes estaria garantido. Muito fácil! Coitadas das outras infelizes almas, as dos pobres, que em vida não possuíram honra, dinheiro e poder. Enterrados em qualquer lugar, bem longe da igreja, com certeza tinham por destino os braços esqueléticos do Capiroto!

No entanto, um belo dia o papa — cujo nome não guardei — resolve proibir tal prática macabra. Pudera. O cheio já se manifestava insuportável, ficando proibitivo aos cristãos da cidade frequentar a igreja e participar das missas dominicais. Tem nada não! Não podendo usar o solo sagrado da igreja, o cemitério passa a funcionar bem pertinho: no quintal.

Assim, fomos levados a visitar, nos fundos da Igreja de São Francisco de Assis, os túmulos em que jazem os restos mortais do quase presidente Tancredo Neves (aquele que era para ser mas acabou não sendo) de sua esposa Risoleta Neves.

Igreja São Francisco de Assis, São João Del Rei – Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

Vistar cemitério. Belo programa!

Quanto não fazem para agradar? Sempre com a mesma história na ponta da língua, pronta para impressionar turista. A outra viagem foi para a Argentina. Ano de 2013.

Relembro que quando estivemos por Buenos Aires acompanhou-nos uma figura muito simpática, o Esteban Ríos, guia argentino que, segundo ele, morou em três cidades do Brasil: Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre. Grande cara esse argentino torcedor do Boca Júniors, que nos proporciona momentos marcantes e histórias insólitas na capital argentina.

Esteban no nosso ônibus indicava os pontos de destaque da cidade. A cada monumento ia a nos dizer de quem e de que se tratava, sempre ilustrando com uma história que justificava a existência do tal monumento, estátua, obelisco ou que fosse. Muito cívico e patriota o povo argentino.

“Cuando vean a un hombre a caballo. ¡Es un general!”

Diz-nos ele com seu sotaque forte. Foi aí que passamos por mais um dos heróis portenhos. Tratava-se de um monumento que homenageava o general Urquiza, um dos primeiros presidentes do país vizinho. Pensei: “Já vem aí uma relação dos feitos heroicos desse general.”. Nada. Em vez disso, o guia nos vem com essa:

“General Urquiza es responsable por el poblamiento de la argentina. Fue padre de 105 hijos.”

Estátua do General Urquiza, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Acrescentou, enfatizando, que o grande guerreiro povoou a metade do país. 105 filhos, não entrando nessa conta os não reconhecidos. Uau!

Logo chegaríamos ao cemitério da Recoleta para vermos o mausoléu de Evita Perón, a protetora dos pobres, até hoje venerada pelo argentino.

Incrição à entrada do mausoléu de Evita Perón, Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Paramos para ouvir o que Esteban tinha a dizer sobre a mulher do caudilho Juan Domingo Perón. Pouco me interessou porque, a bem da verdade, muito já li sobre Maria Eva Duarte de Perón, atriz e primeira-dama.

O que realmente roubou a cena e chamou a atenção do grupo foi a história surreal que ele conta sobre o próximo túmulo a ser visitado. É o túmulo de Rufina Cambaceres, a jovem que morreu duas vezes.

Esteban Ríos conta-nos a nefasta história de Rufina, a que morreu duas vezes. Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (Acervo do BLOGUE do Valentim!)

Rufina morreu no dia em que completava dezenove anos. Para comemorar a data, sua mãe faria uma grande festa e a levaria ao Teatro Colón, onde a apresentaria à alta sociedade da capital. Um acontecimento para poucas jovens da sociedade portenha de então.

Todavia, antes de sair, a jovem foi encontrada morta, rígida no chão. O médico atestou sua morte e ela foi enterrada no dia seguinte. Alguns dias depois os empregados do cemitério encontraram seu caixão aberto e com a tampa quebrada. Rufina teria sofrido um ataque de catalepsia e acordado dentro do esquife.

Por trás dessa história há outra.

Depois que o pai de Rufina Cambaceres, o escritor Eugenio Cambaceres morreu, ela tornou-se uma menina solitária, reclusa. Uma vez jovem, recusava sistematicamente a aproximação e interesse de qualquer jovem de sua faixa etária. Um dia, Rufina, filha de Luiza Bacichi, ex-bailarina italiana, viúva e bonita, recebe proposta de namoro por parte de Hipólito Yrigoyen, um homem bem mais velho que ela (ele, 49; ela, 19), que viria a ser presidente da Argentina por duas vezes. Talvez por projetar a imagem de seu pai, que morreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade, é este o único homem por quem ela de fato passa a se interessar. Ocorre que, nos poucos encontros que tiveram, na casa de Rufina, a jovem, mal o recebe, acaba por passar mal, recolhida a seus aposentos, dorme, desapontando Hipólito. Isso ocorre várias vezes.

Um dia alguém lhe abre os olhos.

“Rufina, você não acha estranho que, justamente, nos dias de visita de seu noivo, você passe mal?”

31 de maio de 1902, nesse exato dia, em que completa dezenove anos, ela finalmente descobriria a verdade nua e crua. Toda vez que Hipólito vinha a sua casa para lhe ver, sua mãe serve à filha chá com alguma substância que lhe fazia dormir. Hipólito era amante de sua mãe, na verdade.

Nessa noite fatídica, diante de revelação tão chocante, Rufina não resiste. Um médico, presente na casa, atesta sua morte. É sepultada.

No entanto, dia seguinte chega da Europa uma parenta sua. Tarde demais. Ela era a única pessoa a saber que a jovem Rufina sofria de catalepsia. O caixão tinha as portas arranhadas e o corpo com o rosto machucado pelo desespero da infeliz que morreu duas vezes. Oficialmente a família declarou que foi um roubo pois a jovem foi sepultada com as suas joias.

Estátua de Rufina Cambaceres (foto: Luiza Tenan)

Diante disso, a família mandou esculpir uma estátua em que Rufina tenta abrir uma porta; a porta para o céu para uns, a porta do caixão para outros.

Pensa numa consciência pesada a de Luiza Bacichi, sua mãe.

L.s.N.S.J.C.!

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