JOSÉ Augusto Moita!

Anotações estradeiras II (Belém, Pará)

A IDEIA de ter procurado um hotel perto do porto mostrou-se por demais inteligente, o escolhido não tem luxo mas é bastante agradável e fica perto de tudo. No café da manhã outra grata surpresa: nos aparece uma senhora idosa, muito distinta e educada, pergunta como tinha sido a noite e se estávamos gostando da estadia. Era Dona Odete, uma portuguesa que chegou no Brasil por volta de 1974 e há 16 anos é a proprietária do Hotel Unidos — agora entendemos o nome, pois sua filha está nesse exato momento na recepção.

O cronista José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Aqui abro um parêntese para dizer que já fomos servidos por uma primeira dama do município. Foi numa cidade de Goiás que agora nos falta o nome, onde o prefeito (descendente de italiano) era dono do hotel, a família toda trabalhava na manutenção do mesmo hotel e de um restaurante vizinho; a esposa servia o café e os filhos e sobrinhos eram garçons e recepcionistas. Mas isso tudo são coisas de imigrantes, nosso orgulho de senhor feudal não nos permite tamanha vergonha.

Tínhamos marcado com um primo, Moita da gema, que só conhecíamos do feicebuque, mas que se prontificou a nos levar onde quiséssemos.

Vou ter que abrir outro parêntese para falar sobre a Família Moita. Meu tetravô materno chegou de Portugal em meados do Século XIX, instalou sua família no alto da Serra da Ibiapaba, foi tão prolífero que contaminou todo País com sua carga genética, parecemos hoje o mosquito da dengue, existimos no Brasil todo.

Já a ideia de aceitar o convite do primo Clóvis Nunes Moita logo mostrou-se não ter sido inteligente, foi muita “AUMILHAÇÃO” do começo ao fim do passeio. Vou explicar porquê. Nós tínhamos dito que Belém é uma cidade linda, mas nos enganamos, é lindíssima. E quando nosso primo começou a nos mostrar os prédios, as praças, as ruas arborizadas, os monumentos históricos preservados, inevitavelmente nos veio a comparação com Fortaleza, aí bateu aquele desgosto… E tome o primo a nos mostrar os palacetes… e o desgosto aumentando. Chegou um momento em que ele sugeriu que fossemos conhecer as praias do Pará, de imediato eu pensei comigo: é melhor que não, a vergonha pode ficar maior, vamos nos enganar que pelo menos no quesito praia ganhamos deles.

Palacete Bolonha, Belém – Pará (fonte: Google)

São muitos os casarões e palacetes frutos das riquezas que essa Terra já produziu e produz, a maioria bem preservados, felizmente. Dentre os segundos se destaca o Palácio do Amor, uma obra de uma beleza estonteante construída pelo arquiteto italiano Antônio Bolonha, contratado a peso de ouro por um barão paraense para cuidar da criação de suas edificações.

Só que sua amada não quis vir do Rio de Janeiro para dentro da selva. O ardoroso esposo, como pássaro que capricha no ninho para atrair a companheira, deu de presente a ela e à cidade de Belém, uma verdadeira maravilha arquitetônica — história muito parecido com uma que ocorreu na “loura desprezada pelo sol”, só que a nossa teve um final trágico, botaram abaixo o palacete (poupamos nosso primo de mais uma vitória sobre nós, não contamos que o Castelo do Plácido, que viveu a mesma epopeia de amor, já não faz mais parte do mundo dos vivos).

Basílica de Nazaré, Belém – Pará (fonte: Google)

Quando estávamos pensando que nossa vergonha tinha passado, meu primo nos leva para conhecer o Santuário do Círio de Nazaré. Aí foi a gota d’Água. A AUMILHAÇÃO foi grande demais. A Catedral toda é uma obra de arte de fino trato, não tem como descrevê-la, só se fôssemos Vítor Hugo, é simplesmente linda, até pensei que meu ateísmo havia se acabado. Passamos tanto tempo a contemplar a magnificência dos detalhes das colunas, dos vitrais, do fabuloso órgão de tubos longos, das pinturas de ouro, que os crentes do grupo esqueceram de rezar.

A pá de cal veio quando o primo nos levou até a Casa Salomão, que tem apenas 110 anos em atividade — fichinha para o comércio fortalezense, onde nem Romcy existe mais. É um imenso bazar onde se encontra de tudo, do tecido ao parafuso, com os longos balcões de madeira e vitrines da época da inauguração, apenasmente deslumbrante.

Mercado e feira do Ver-o-Peso (fonte: Google)

Nós já tínhamos sentido que aquela tortura não iria ter fim se continuássemos naquele ponto da cidade, então alguém teve a feliz ideia de pedir ao primo para nos levar ao Ver o Peso. Ufah, enfim em alguma coisa empatávamos com eles, em sujeira de mercado somos iguais. O famoso Ver o Peso é um imenso São Sebastião sem paredes e com o mesmo aspecto de mal cuidado. Tem tudo que um mercado tem: produtos regionais. Mas começamos a notar que dessa vez o primo tinha uma certa pressa em nos mostrar tudo com muita rapidez, parecia que estava querendo chegar logo em algum lugar da feira. E não nos enganamos, ele queria nos levar no setor das ervas medicinais com suas garrafadas afrodisíacas, quando rapidamente as vendedoras passaram a demonstrar as maravilhas miraculosas de cada uma delas.

Para nossa surpresa o primo perguntou se poderíamos levar para Fortaleza duas encomendas, um presente para Raimundão e outro para Paulim. Aí eu disse: ué, e o primo conhece as peças? Se conheço…são as figuras mais badaladas das redes sociais. E o que é que meu primo quer que a gente leve? São apenas duas garrafinhas: uma para Raimundão que é composta de copaíba, raiz de pimba de macaco, banha de cupuaçu, casca do pau preto, seiva de jatobá, raspa da andiroba e leite de sucuba, conhecida aqui como viagra natural; e a do Paulim tem apenas chá de aroeira, para banhos de assento. Eu fiquei sem entender nada..

Ao Clóvis Nunes Moita nossos mais sinceros agradecimentos.

***

O TEXTO acima em que J. A. Moita escreve sobre suas experiências em Belém, por suas peculiaridades de escrita e de descrições, nos deixa, como paraense que somos, bastante desconcertado, apesar de orgulhoso.

Quanto as descrições de alguns pontos turísticos de Belém, é claro que o amigo foi muito bondoso. Com certeza, há muitas coisas lindas e diferentes que podem ser encontradas na capital paraense. Há também coisas imateriais, como a deliciosa e exótica culinária paraense, que, com certeza, o Moita já ouviu falar e até provou.

Mas é claro que comparar a nossa simpática cidade à capital alencarina, devo dizer, a bem da verdade, que Belém — a antiga Santa Maria de Belém do Grão-Pará — sairia perdendo. Nenhuma vergonha em admitir. Por razões estratégicas, em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco mandou construir o Forte do Presépio (edificação que deu origem à cidade) na entrada da Amazônia e não em frente ao mar, tal qual a capital de todos os cearenses e outras belas cidades nordestinas.

Há outra questão, que independe da história, da natureza e da localização: infelizmente, a cidade, Porta de Entrada da Amazônia, vem sendo mal cuidada há décadas. Maus governantes. Não vou nem entrar no assunto favela, palafitas, sub-moradias… Aí sim, é vergonhoso. Mazelas do capitalismo que as grandes cidades brasileiras não estão impunes.

Menos mal que o Clóvis Moita, seu parente, o levou somente aos melhores lugares. Há, além da beleza arquitetônica, toda uma história de amor por trás da construção do Palacete Bolonha. Quanto ao Ver-o-Peso, é um lugar único. Muito interessantes as barracas de ervas com seus nomes pra lá de exóticos e até divertidos: Comigo-ninguém-pode, pega-rapaz, catinga-de-mulata, chama-dinheiro, amansa-corno… Não sei se o Clóvis levou o J. Moita à barraca da Bete Cheirosinha.

Para não deixar de lado a criticidade de que nenhum de nós, brasileiros, devemos nos apartar, atrás da história romântica da construção do palacete há também uma dose alta de exploração dos operários que o construíram, que derramaram ali seu suor e lágrimas. O mercado, o porto e a feira do Ver-o-Peso devem esse nome ao fato de os produtores terem obrigatoriamente de pesar seus produtos para daí a Coroa Portuguesa extrair o imposto que mantinha o luxo e o conforto dos reis e nobres lusitanos. Também aí muito suor, lágrimas e sangue dos cabanos da região. Há aí — como se vê — todo um campo de estudos farto, digno de pensadores como Karl Marx; o materialismo histórico vigendo desde sempre.

Quanto ao estilo literário peculiar do autor, que habilmente se utiliza de linguagem simples e popular, é dificultoso definir. Simplesmente maravilhoso, vamos ficar só aí. Qualquer outra seria redundante, desnecessária, podendo ser injusta.

L.s.N.S.J.C.!

2 comentários sobre “JOSÉ Augusto Moita!

  1. Honrado por mais uma vez ser prestigiado nesse espaço de penas primorosas.
    Nossos apontamentos frente à sua substancial colaboração se tornam franciscanos, mais uma vez me sinto diminuido diante de tudo de hermoso que vem do Belém do Grão-Pará.
    Cordiais saudações de bom apreço, Mestre.

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