PELÉ insuperável!

Cheguei na esperança de parar um grande homem, mas eu fui embora convencido de que eu tinha sido desfeito por alguém que não nasceu no mesmo planeta como o resto de nós.” Alberto Pereira, goleiro do Benfica, após a derrota de 5 a 2 para o Santos em 11out1962.

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A DATA de 23 de outubro remete a dois grandes brasileiros. Em 1906, Alberto Santos-Dumont maravilha a multidão que se aglomerava nas proximidades da torre Eiffel ao fazer voar, pela primeira vez na história da humanidade, por meios próprios um objeto mais pesado que o ar. Graças ao gênio inventivo do brasileiro estava inventado o avião, meio de transporte que tornou o mundo mais pequeno ao aproximar as pessoas.

Em 23 de outubro de 1906, o gênio inventivo do brasileiro Alberto Santos-Dumont lega à humanidade a possibilidade de voar num objeto mais pesado que o ar, tornando as distâncias mais próximas e os povos mais unidos (fonte: Google)

Nessa mesma data, 34 anos depois, nasce em Três Corações, Minas Gerais, aquele que viria a ser o maior futebolista de todos os tempos; nasce um afro-brasileiro que seria mais tarde aclamado como o Rei do Futebol; o único futebolista a parar uma guerra. Em 23 de outubro de 1940, chega ao mundo o menino Edson Arantes do Nascimento, filho do senhor João Ramos do Nascimento, o Dondinho, e de dona Celeste Arantes, que mais tarde o mundo viria a chamar simplesmente de Pelé.

Em 23 de outubro de 1940, nasce Edson Arantes do Nascimento, ou simplesmente Pelé. Nesta imagem, o instrumento musical atrás de Pelé dá a impressão de uma aura que santifica o mito. Na verdade, apenas rara felicidade do fotógrafo (fonte: Google)

Diferente de outros povos, o brasileiro pouco valoriza seus verdadeiros heróis. Infelizmente nosso povo não tem memória, ou, no máximo, possui memória seletiva. Santos-Dumont, por exemplo, teve que migrar para a França por saber que na Europa encontraria as condições ideais, que aqui no Brasil, sua pátria, não teria para legar à humanidade o engenho que criou. Seria, ademais, incompreendido.

Nesta imagem a transpiração de Pelé forma uma imagem semelhante a um coração. Outro feliz flagrante fotográfico (fonte: Google)

Pelé, em pouco mais de dois decênio em que praticou futebol de excelência, foi bastante homenageado e reconhecido tanto aqui no Brasil como no exterior. Reis, rainhas e presidentes reverenciaram o Rei do Futebol, o mais fabuloso futebolista que o mundo jamais conheceu. Pelé, com seu futebol magistral, levou o nome do Brasil ao planeta inteiro, elevando sobremaneira a autoestima de nossa gente.

O Brasil era Pelé e Pelé era o Brasil.

Em 28jun1975, nos jardins da Casa Branca, Pelé é recepcionado pelo presidente Gerald Ford, que, nesta imagem, brinca com a bola (fonte: Google)

Todavia, o tempo é implacável até mesmo com os gênios. À medida que se vão os anos e décadas, o povo brasileiro vai se esquecendo de Pelé e de tudo o que ele fez e representou. Hoje, para as gerações mais jovens, ele é considerado apenas mais um ex-futebolista, que — dizem os mais velhos — brilhou faz muito tempo.

É preciso dar o real valor que esse grande brasileiro fez por merecer.

Diante da grandeza de Pelé, nomes contemporâneos como Ronaldo Nazário, Romário, Neymar, Ronaldo Gaúcho, Kaká, Cristiano Ronaldo e Leonel Messi, entre tantos outros, foram (são) apenas bons jogadores. No mar de mediocridade e de muito dinheiro em que se transformou o esporte bretão, alguns acabam por se destacar dos demais, já que as grandes mídias transformam qualquer futebolista razoável em ídolo das massas, a peso de salários altíssimos.

E se Pelé tivesse nascido em outro país?

Se Pelé fosse argentino, teria uma estátua em cada cidade, haveria no país centenas de ruas, avenidas e praças com o seu nome; o busto de Pelé também se faria presente por muitos lugares; o nome de Pelé estaria eternizado em escolas e praças esportivas distribuídas pelo país; Pelé seria marca de artigos esportivos. Semelhantes homenagens faria jus se Pelé tivesse nascido norte-americano ou europeu.

Mas no Brasil, um país de dimensões continentais, as homenagens são raras. Precisamos mostrar quem foi Pelé e o que ele significa para o país enquanto ainda está entre nós. Depois de morto certamente será, por um tempo escasso, lembrado, mas — sabemos — com intenções meramente capitalistas. Os telejornais dedicarão um programa inteiro a reviver seus lances e gols, a narrar a sua história… Filmes sobre Pelé serão relançados, livros falando sobre sua vida serão reeditados, fotos do Rei vão ser largamente difundidas, todas as mídias relembrarão seus feitos. O governo decretará luto oficial.

De que adiantaria isso? Depois de uma semana, ninguém mais lembraria de de Pelé, tampouco de Edson Arantes do Nascimento.

Pelé recebe a taça das mãos da Rainha Elizabeth II (fonte: Google)

Tornou-se corriqueiro hoje muitos tentarem diminuir o nome de Pelé, apanhado às vezes em declarações eventuais — por vezes equivocadas, é bom dizer — quando é chamado a opinar sobre este ou aquele assunto, a respeito de futebol ou não. Em suas declarações vivem a procurar uma polêmica aqui e ali. O mesmo comportamento ocorre em relação à sua vida privada em que se esforçam por expor seus erros do passado.

Não tentemos reduzir Pelé ao acerto ou erro de suas declarações, nem a aspectos poucos lisonjeiros de sua vida particular. Guardemos a sua imagem como o futebolista incomparável que foi. Julguemo-lo pelo gênio inigualável que Deus lhe concedeu.

Um pouco de sua história incomum.

Ironicamente, o apelido Pelé, o maior goleador de todos os tempos, remete a um goleiro, posição cujo objetivo é evitar que gols sejam feitos.

“Pega essa, Belé!” “Pega mais essa, Belé!”

Bilé, goleiro vascaíno, cujas atuações o menino Edson acompanhava pelas ondas da Rádio Nacional, era um dos ídolos daquele garoto de Bauru, cidade para onde sua família migrou poucos anos depois de seu nascimento. Edson pronunciava a seu modo o nome do goleiro do Vasco da Gama, marcante em sua infância. Bilé então se transformou em Pelé, nome pelo qual o jovem Edson — também Dico e Gasolina — viria a ser conhecido pelo mundo inteiro.

João Ramos do Nascimento, seu pai, que fora centroavante Dondinho, do Atlético de Três Corações, e que teve rápida passagem pelo Atlético Mineiro, ao ver a destreza do filho chutando uma bola de meia ou uma laranja, incentiva o menino Edson a jogar futebol, ensinando-lhe algumas técnicas. Pelé passou pelo futebol de salão (é futsal que chamam hoje esse esporte) jogando pelo Radium, de Mococa. Logo depois, já em campo, vem a atuar pelas categorias de base do Bauru Atlético Clube, clube onde o próprio Dondinho foi jogador.

Em 1956, o treinador do Bauru é Waldemar de Brito, ex-centroavante que jogara por clubes como Botafogo, Flamengo, Palmeiras e San Lorenzo. Brito, com seu olhar clínico, logo observa o futebol daquele jovem, levando-o para o Santos Futebol Clube.

João Ramos do Nascimento, o futebolista Dondinho, com a camisa do Atlético Mineiro. O pai de Pelé foi jogador também pelo Fluminense e pelo Bauru Atlético Clube. (fonte: Google)

Brito, ao apresentar o jovem Pelé aos diretores do Santos, faz o seguinte vaticínio:

“Este será o maior jogador do mundo”.

Sábias palavras.

Pelé, com apenas quinze anos de idade, estreia em 7 de setembro desse ano num amistoso em que o Santos goleia o Corinthians de Santo André por 7 a 1. Pelé faz seu primeiro gol como profissional, inaugurando a mais bem sucedida carreira que um futebolista jamais teve. Esse foi o seu primeiro de um total de 1.282 tentos, uma marca inigualada.

Pelé, aos 15 anos, estreia pelo Santos F. C.

Conta Pelé que o período em que passou pelo futebol de salão o ajudou, pois o esporte exige raciocínio rápido já que os espaços são curtos e as jogadas devem ser executadas com celeridade, talentos inatos que foram aí aperfeiçoados pelo jovem atleta.

Mas isso não é tudo.

Além do talento inato, herdado de Dondinho, foi necessário que outras condições houvessem se reunido em Pelé. O fato de seu futebol ter sido descoberto e levado por Waldemar de Brito ao Santos é uma delas. Permanecendo em Bauru, dificilmente seria notado, correndo o risco de sua carreira inexistir ou, na melhor das hipóteses, retardar-se a ponto de ser prejudicada irremediavelmente. Nessa hipótese, como qualquer jovem de família pobre Edson seguiria outra ocupação humilde e o mundo não teria conhecido Pelé.

Estava no momento certo e no lugar exato. Essa é uma das exigências para que tudo dê certo em qualquer atividade da vida.

Foi assim com Santos-Dumont, com Chaplin, Oscar Niemeyer e outras figuras geniais. Pelé iniciou sua vida profissional numa época em que o rádio já se mostrava bem desenvolvido e popular, diferente de Dondinho, em cuja época as comunicações eram precárias. Soma-se a isso o fato de Pelé ter sido detentor de uma condição física invejável, além de ter sido um profissional aplicado, cuidando sempre de sua forma física e treinando de forma intensa. Pelé, além de craque de bola, logo torna-se um atleta.

Waldemar de Brito, aqui com a camisa do San Lorenzo (Buenos Aires, Argentina). Ao pendurar as chuteiras, torna-se treinador de futebol. Foi treinando o Bauru Atlético Clube, que Brito descobre o jovem Dico, levando-o ao Santos.

O Santos Futebol Clube ajudou Pelé, e Pelé ajudou o Santos. Sem Pelé, o Santos provavelmente teria sido apenas um clube de segunda linha, à semelhança de seus conterrâneos Portuguesa Santista e Jabaquara Atlético Clube, que estagnaram. Na era Pelé, o Santos passa rivalizar em condições de igualdade com Corinthians, Palmeiras, São Paulo, em nível estadual. Em nível nacional, equipara-se a grandes equipes como Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio e Internacional, chegando a desbancar grandes potências como Benfica e Milan na década de 1960.

Aos dezesseis anos, Pelé é convocado para a seleção brasileira e, no ano seguinte, com apenas 17 anos é campeão mundial, feito que viria a conquistar por mais duas vezes, feito inigualado até agora. Pelé foi seguidamente artilheiro do campeonato paulista por nove anos, entre 1957 e 1965, além de ter sido, no período, também artilheiro nas outras competições em que participou.

Pelé tinha apenas 21 anos e dez meses quando marcou seu gol de número 500. O milésimo veio aos 34 minutos do segundo tempo naquele jogo memorável entre Vasco da Gama e Santos. Na noite de 19 de novembro de 1969, no estádio Mário Filho, o Maracanã (então o maior palco esportivo do mundo) 65.157 pessoas pagantes testemunharam Pelé marcar o milésimo gol de sua carreira, que era o segundo naquele Santos 2, Vasco 1.

Conta Sylvio Ruiz:

… Houve invasão de repórteres, fotógrafos. Eram profissionais de todo Brasil e do exterior, imprensa estava lá, rádios de todo Brasil, como do exterior. Dificilmente será igualado na história do futebol. E improvisando, Pelé fez um apelo em favor das criancinhas pobres e dos necessitados no Brasil. Isto logo após o gol. E, lá foi o moço de Bauru (Três Corações), o filho de Dondinho (já faleceu), dona Celeste para o momento tão divino, o máximo: o gol, do “Rei”, e marcado no segundo tempo, mas é bom lembrar que no primeiro período dava Vasco 1 a 0, gol de Benneti, aos 16 minutos: cruzou o lateral Fidélis para o aproveitamento de Benetti. Aguinaldo (goleiro, falhou). O capitão Carlos Alberto Torres, deu “força” ao goleiro. O lateral Rildo apoiava o camisa 1. Não podia perder o entusiasmo. Havia uma corrente forte,o coração estava na ponta das chuteiras. A raça era uma coisa só. Emocionante.  O Vasco ficava nervoso, o “Peixe” apertava. Mas aos 34, eis o gol número 1.000 esperado por toda torcida brasileira. Clodoaldo passou por Eberval, entrou na área; na cobertura estavam Fernando e Renê, e um lance, alavanca faltosa de Fernando: Pênalti!. PELÉ foi lá, e “faturou” no canto raso, na esquerda de Andrada. E, após a explosão de policiais, cronistas, torcedores que invadiram o gramado, eis que ele pede: “Antoninho não dá mais, vou sair”…O Edson chorou muito, foi emocionante.” (fonte: Santaportal.com.br)

Pelé vai pegar a bola que se acomodou no canto esquerdo nas redes do argentino Andrada. (fonte: Google)
Em momento apoteótico, uma multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas cercam Pelé, que, emocionado, agradece a Deus e ao público presente. O Rei pede pelas crianças pobres, para que as autoridades cuidem delas (fonte: Google)
Pelé ostenta um de seus muitos recursos futebolísticos num lance que é conhecido por “bicicleta”. Pelé usou de todos os recursos proporcionados pelo futebol, sendo hábil em todos os fundamentos (fonte: Google)

Pelé foi um jogador completo. Driblava com inigualável destreza, praticava bom passe, cabeceava firmemente, chutava forte com ambos os pés, batia faltas e penais como ninguém. Pelé fazia gols de todos os tipos: de cabeça, de bicicleta (foto acima), batendo faltas com maestria, gols feios e bonitos. Versátil, jogava em todas as posições. Sim, Pelé jogou até como goleiro, e isso ocorreu em quatro ocasiões.

Pelé atua pelo goleiro pela primeira vez. Foi a 4 de novembro de 1959, substituindo o goleiro titular Lalá, que sofrera lesão. Naquele tempo, não era permitido substituições. Pelé jogou como goleiro a partir dos 19 minutos do segundo tempo, não sofrendo gol. Nessa partida, contra o Comercial F.C., de São Paulo (time já extinto), o Santos venceu por 4 a 2. Pelé atuaria também no gol em ainda três partidas. (fonte: página do Santos F.C.)

Depois de quase duas décadas de um futebol profissional invejável e inigualável até agora, o grande Pelé despede-se dos gramados em 2 de outubro de 1974 numa partida em que o Santos venceu a Ponte Preta por dois tentos a zero. Assinalou pelo time santista 1.091 tentos de um total de 1.282. Jogou pelo time santista 1.116 vezes.

Pelé despede-se dos gramados. Despedia-se apenas do Santos, clube que o projetou para o mundo, onde marcou 1.091 tentos em 1.116 jogos. (fonte: página do Santos F.C.)

Aos 21 minutos do primeiro tempo, o treinador santista promove a substituição de Pelé por Gilson Beija-flor. Pelé então, com os olhos marejados, ajoelha-se agradecendo ao bom Deus por tê-lo dotado desse dom genial, além de ter-lhe dado todas as condições para sagrar-se a figura pública que se tornou, levando o nome do Brasil ao mundo. Dá a volta olímpica acenando emocionado para a multidão que lá se encontrava.

Pelé e sua esposa são recebidos pelo presidente Richard Nixon. Portas de reis, rainhas e presidentes eram abertas para receber o Rei do Futebol. (fonte: Google)

Pelé pensou que seria a sua despedida definitiva do futebol. Enganava-se. Em 1975, atendendo a apelos do governo norte-americano, voltaria a atuar profissionalmente pelo New York Cosmos, sendo este seu segundo clube profissional. Foi para a América do Norte para ensinar os estadunidenses a jogar futebol association. De lá despediu-se, desta vez para sempre da bola e dos gramados, em 1º de outubro de 1977.

Pelé envergando o uniforme do N. Y. Cosmos (fonte: Google)

Dondinho passa a bola para Edson, que passa para Pelé, passando de passagem por Bauru e de Bauru para Santos. Do Santos para o Brasil e o mundo e…

gooooooooooooooolll!!

Um pouco mais sobre Pelé se pode ver neste vídeo.

Obrigado, Senhor Deus! Obrigado, por ter nos dado Pelé, fazendo dele — um menino afro-brasileiro num país em que o negro é considerado gente de terceira categoria — um rei, o Rei do Futebol.

L.s.N.S.J.C.!

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