GUERRA não convencional!

HOLLYWOOD veio a implantar uma cultura de guerra romantizada cuja imagem, composta de heróis e vilões,  longe está daquilo que realmente é um conflito bélico. No Brasil, distante se vai o último conflito bélico a que se envolveu o país e, por isso, os livros de História trazem ao brasileiro uma romântica imagem de heroísmo, de amor à pátria mesmo com o sacrifício da própria vida, uma ideia que se é implantada na cabeça do jovem soldado desde o primeiro dia de quartel. Essa estratégia doutrinante se faz necessário ao sistema militar, porquanto sem a qual nenhum soldado arrostará o inimigo tendo sobre si a perturbadora sombra da morte.

Fonte: Google

A realidade, porém, é bem mais cruel.


Numa guerra convencional, além dos conflitos bélicos levados a efeito pelas ações das armas e dos homens, há uma série de flagelos impostas aos povos envolvidos, inimagináveis à maioria dos nossos pacatos cidadãos. São dificuldades extremas, desgraças incomensuráveis. Uma das primeiras ações bélicas é a destruição de pontes, sabotagem pistas de pouso e de estradas, torpedeamento de navios mercantes, desativação de usinas de energia, de fábricas… enfim, muitas e nefastas são as contingências, que, inexoravelmente, levam ao desabastecimento em geral de um país ou de uma região, sujeitando a população desses locais a privações de toda a ordem. É preciso, a qualquer preço, sufocar o inimigo, levando-o a sucumbir em pouco tempo. Diversos e inenarráveis, por conseguinte, são os suplícios infringidos às populações atingidas, não só aos homens diretamente envolvidos no conflito, como também às populações civis, com mulheres, crianças e idosos, sãos e doentes.


Nós estamos vivendo uma guerra. Embora não convencional, temos um inimigo invisível: o coronavírus. Há também um alvo: nós e nosso futuro. Não bastando, temos infelizmente uma parte da população não convencida da real dimensão do problema, e outra parcela preocupada com seu próprio bolso. Como na guerra convencional, a nossa população está sob ameaça, e também o futuro deste país. Quanto mais tempo estivermos sob essa terrível ameaça, mais tempo estaremos sujeitos às privações e à angústia. Igualmente às guerras convencionais, também estamos na iminência de sofrermos com o desabastecimento de gêneros básicos, e o comércio, os setores de serviço e as indústrias, não tendo receita, a demitirem em massa pais e mães de família, gerando privações materiais e não materiais. Mais pessoas infectadas, mais leitos ocupados, mais profissionais de saúde esgotados pois estão dando o seu máximo, esgotando os meios de atendimento a todos. Esse círculo vicioso precisa ter um fim.

Amigos, 
Como oficial das Forças Armadas, portanto um cidadão brasileiro, vejo com grande angústia o momento.  Angústia por não saber aonde vamos chegar, pois em toda guerra se sabe como inicia, mas não se conhece quando chegará ao fim. Neste caso, nem o seu início conhecemos. Torço para que logo daqui a alguns dias ou um mês, tenhamos enfim controlada a situação, e, voltando à paz, recolhamos os escombros e reconstruamos o nosso país. Angústia, por outro lado, ao perceber que as ações ainda estão aquém do que podemos oferecer, e — tomara que não –, por isso, todos venhamos a pagar um altíssimo preço pela inércia inicial.


Neste momento, que fazem as Forças Armadas? Num vídeo do YouTube, vi um comandante preocupado apenas com a sua própria tropa. Tudo bem, mas e a Pátria?


Durante décadas vejo as Forças Armadas num treinamento constante em preparação para a guerra. Pois é, ela chegou. Não exatamente, como Hollywood vem mostrando. As forças de mar, ar e terra detém, em termos de recursos humanos, materiais e patrimoniais, um imenso potencial de mobilização que vem sendo reservado para a guerra. E, hoje, nós estamos em guerra. Agora é justamente o momento de se empregarem todos os recursos militares em luta contra esse inimigo invisível. Em particular, a Força Aérea possui instalações hospitalares de alto nível, dotadas dos melhores profissionais de saúde, excelentemente formados e bem treinados, e de equipamentos dos mais modernos e eficazes. O mesmo se diz em relação ao Exército e à Marinha, bem como das polícias estaduais. Além de instalações e equipamentos específicos, há uma gama de estruturas que podem ser empregadas em favor da população, num estado emergencial como o presente. A esta hora, sob barracas de campanha deveriam estar atuando médicos, farmacêuticos e auxiliares. Em sistema de rodízio, tais profissionais estariam a aplicar os testes e as medidas profiláticas necessárias. Ao mesmo tempo, toda uma equipe de apoio estaria em ação, com viaturas como ônibus, caminhões e utilitários a transportar máscaras, luvas, equipamentos e instrumentos, produtos de limpeza como o álcool em gel, para esses locais, a fim de serem distribuídos aos pacientes suspeitos, entre uma infinidade de ações e providências julgadas necessárias. Essa estrutura também seria disponibilizada para adaptar-se ao tratamento, com jipes transmutados em ambulâncias, grandes espaços improvisados como hospitais de campanha… 


Não só isso.


Barreiras sanitárias podem ser instaladas locais estratégicos como aeroportos, rodoviárias, portos, estradas, fronteiras secas, onde nossos profissionais de saúde estariam atuando para prevenir e orientar. Tudo isso, devidamente apoiados pelos demais militares (que não da área de saúde), encarregados de segurança, limpeza e outros apoios, e até mesmo no auxílio às polícias no controle da circulação de pessoas, garantindo o isolamento social, enquanto o procedimentos se fizer necessário. Na Força Aérea, onde labutei por trinta anos, temos uma relação extensa de especialistas, tanto de formação superior (oficiais), como técnicos (suboficiais e sargentos), além dos valentes e nobres cabos, soldados e taifeiros, profissionais muito bem treinados, que, mobilizados e coordenados pelos respectivos secretários estaduais de saúde, poderiam (deveriam) agora estar a serviço da comunidade e, por conseguinte, da Pátria.


Assim como não há país sem território, não há nação sem povo. A nossa Pátria é o nosso povo!

L.s.N.S.J.C.!