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A FAB e o governo Vargas!

NÃO pesquisei o suficiente para saber quando, exatamente quando, Getúlio Vargas virou inimigo da classe militar brasileira. O fato é que, a partir de certo momento histórico, quando ficou evidente que o Gaúcho de São Borja queria o poder só para si, e — pior — o poder flertando com o povo, como forma de, com suporte popular, se manter ad eternum na chefia do país, de fato aí, os militares e seus aliados — a imprensa, a classe política e os grandes capitalistas — não descansam enquanto não derrubarem Getúlio. Das três forças, a mais devotada a combatê-lo seguramente foi a mais nova delas: a Aeronáutica. As outras, mormente o Exército, agiam na surdina.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, chefe de sua Guarda Pessoal (fonte: Google)

Depois de longos estudos, foi finalmente criado o Ministério da Aeronáutica e seu braço armado, a Força Aérea Brasileira. Foi em 1941, abrangendo a Aviação Militar e a Aviação Naval. Em vez de um general ou almirante para assumir o novo ministério militar, o escolhido por Getúlio foi um civil: o gaúcho Joaquim Pedro Salgado Filho. Haveria aí algo pensado? Contemporâneos de Vargas, considerado uma raposa na política, juram que sim. O objetivo do Gaúcho, segundo os mais próximos, era enfraquecer o poder dos militares do Exército e da Marinha, fracionando-os numa nova força armada, que iniciaria — calculava Getúlio — sem a força de suas irmãs.

Sendo assim, para que nomear um general, dando mais poder ao Exército? Ou até mesmo um Almirante, concedendo mais moral à Armada? O resultado é que um civil, e não um militar, é o primeiro ocupante na nova pasta militar. Argumenta Vargas que nesse primeiro instante havia a necessidade de um grande organizador e não de um estrategista militar. Descontentes ou não, desconfiados ou não, o certo é que o Gaúcho ganha essa parada e os disciplinados generais e almirantes se conformaram com a decisão, ao menos oficialmente. Há outra questão: se nomeasse um almirante, descontentaria a cúpula do EB, e se chamasse um general, o mesmo ocorreria com o alto comando da Armada.

Na surdina, porém, os milicos seguem inquietos e insatisfeitos. No entanto, o panorama mundial conspira a favor de Vargas. O Mundo está em guerra, e ele procura tirar proveito da situação. Sabe que um dos grandes segredos para se manter no poder é fazer um bom governo e a Guerra, que fazia cadáveres lá na Europa, bem que poderia ser benéfica ao Brasil e a ele, por vias de consequência. A Guerra, indiretamente, acaba por atrapalhar os planos dos milicos que, desde 1930, flertam com o poder, não como meros coadjuvantes, mas sim como protagonistas.

Carlos Lacerda, amparado por soldados da Aeronáutica, com o pé enfaixado. Há dúvidas até hoje sobre as circunstâncias desse “atentado”. Teria ele atirado no próprio pé? (fonte: Google)

Assim, Vargas consegue se manter até 1945 como chefe da nação brasileira, perfazendo quinze anos, e assim sendo, desde a quartelada de Deodoro em Pedro II, o mais longevo ocupante do Catete.

Em 1945, acuado, é obrigado a renunciar, de forma a manter seus direitos políticos. Um recuo temporário, portanto — calcula o Velho.

Com o Gaúcho apeado do poder, é hora dos milicos novamente tomarem conta do país. O preferido dos militares, dos políticos da UDN, da imprensa de Carlos Lacerda e da elite capitalista de então é o Brigadeiro Eduardo Gomes, que, no entanto, acaba perdendo a eleição para o apagado Eurico Gaspar Dutra, um tímido general filiado ao PSD, que é à última hora apoiado por Getúlio. Para o gaúcho e seus apoiadores do PTB, era questão de escolher o menos ruim. Qualquer um, menos o Brigadeiro.

É assim que, uma vez empossado, Gaspar Dutra nomeia o primeiro militar para a pasta da Aeronáutica: o major-brigadeiro Armando Figueira Trompowsky de Almeida, que na verdade já estava no posto, nomeado que fora interinamente pelo também interino José Linhares. Enquanto isso, por fora, Eduardo Gomes, que, segundo Nero Moura, era um mau piloto, continua nos planos da UDN para residir no Catete, sucedendo Dutra, que está lá apenas esquentando o lugar para o Brigadeiro. Gomes, uma vez lá, daria início a uma larga perseguição a Vargas e ao PTB, desconstruindo de vez a imagem criada pelo Gaúcho de ser o “Pai dos Pobres”.

No entanto, em 1950, Getúlio derrota pela segunda vez o Brigadeiro. Desta vez, diretamente. O retrato do Velho volta às casas de seus correligionários, como diz a marchinha de Haroldo Lobo e Marino Pinto:

Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar / Eu já botei o meu / E tu, não vais botar? / Já enfeitei o meu / E tu, vais enfeitar? / O sorriso do velhinho faz a gente se animar / O sorriso do velhinho faz a gente se animar

É bom dizer que a oficialidade da Aeronáutica em peso é oriunda da classe média, que é eleitora da UDN e, portanto, eduardista. A carreira militar sempre foi cobiçada pela classe média, que, com o advento da FAB, procura a Escola de Aeronáutica a fim de garantir a carreira de aviador militar a seus filhos. Portanto, não é surpresa a oficialidade aeronáutica em peso ter viés político conservador.

A figura de Eduardo Gomes, de olhos claros, herói da Intentona Comunista, católico fervoroso, combina bem com a origem dos aviadores brasileiros, bem como com a imagem da conservadora elite do país. Gomes, se eleito, governaria o Brasil com mão de ferro, não abrindo mão dos princípios que sempre nortearam os militares desde Deodoro e Floriano. Mas não contavam com Getúlio Vargas, o ditador, a quem consideravam esquecido, e que agora volta nos braços do povo.

Para piorar as coisas, Getúlio planeja dar uma rasteira em Eduardo Gomes e em seus oficiais-generais, nomeando um coronel para ser o chefe de todos eles. Resolve convidar o Brigadeiro Nero Moura para a Aeronáutica. Moura, como consta da História, é o primeiro comandante do Primeiro Grupo de Caça, que combateu em céus da Itália o nazifascismo. Não possuía antiguidade, uma vez que pedira transferência para a inatividade remunerada quando ainda era tenente-coronel e com apenas 35 anos de idade. Beneficiado pela legislação de então, sendo ele herói de guerra, ganha dois postos acima e assim ostenta o título de brigadeiro-do-ar.

Com isso, Getúlio pretende dar um “chega pra lá” na brigadeirada e em Eduardo Gomes, principalmente. Mas o tiro acaba saindo pela culatra, como se diz popularmente. No nascedouro da Aeronáutica, tudo bem, um civil, afinal era preciso um grande organizador — como ele próprio argumentava –, daí aceitarem sem maiores problemas um político, o doutor Salgado Filho, gaúcho. Mas agora, serem comandados por um tenente-coronel, ainda que tenha ele sido um herói na Itália? Por trás da hierarquia, há algo que se chama vaidade. Nenhum militar de carreira aceita de bom grado levar carona de mais moderno, ainda que seja para exercer um cargo político, como era o caso. Mas vejamos a situação de Getúlio diante da situação: se nomeia um brigadeiro antigo, como queriam os militares, corre o risco de dar guarida a um inimigo político, tal era o clima entre ele e os milicos de alta patente; se nomeia alguém de sua confiança, como foi o caso, arrisca-se a governar com alguém sem os pré-requisitos e o traquejo que o cargo exige, por ser, da forma como foi feito, um militar de menor hierarquia para comandar uma dúzia de brigadeiros mais antigos que ele. Na primeira hipótese, Vargas acabaria demonstrando fraqueza diante do generalato, confiando um cargo estratégico a um grupo que lhe vem sistematicamente hostilizando; na segunda alternativa, incorreria em quebra de hierarquia. Getúlio decide pela segunda ideia, e é claro que isso é mais uma razão para a insatisfação que, então, campeia nos quarteis da FAB, cujos oficiais tramam pela queda presidente.

A crise evolui.

Quanto à Aeronáutica, ciente de que em seus quartéis reina a insatisfação, Getúlio se encontra de mãos atadas. Sabe que o melhor a fazer é afastar o cabeça do movimento, mas não pode fazê-lo. Tendo agora que governar com Constituição, a quem ele jurou defender, não tem como afastar definitivamente um inimigo não declarado, que agora age nas sombras, às costas do ministro, que, a despeito de ser um excelente piloto militar, não está à altura do cargo de Ministro da Aeronáutica, uma pasta que requer mais de gestor e político, que de aviador. O resultado é que, sob a liderança negativa do Brigadeiro Eduardo Gomes, a oficialidade conspira contra Getúlio, ignorando Nero Moura.

Brigadeiro Eduardo Gomes, duas vezes candidato derrotado à Presidência da República (fonte: Google)

A História bem mostra o episódio do atentado contra Carlos Lacerda. Naquela noite, o jornalista faz-se acompanhar do Major-Aviador Rubens Florentino Vaz, que, tomando a defesa de Lacerda, mete-se na frente dele, com seu corpo recebendo os projéteis direcionados ao corpo do jornalista. Ao menos é assim que conta a História, com fundamento no IPM levado a efeito pelo coronel João Adil de Oliveira, da conhecida “República do Galeão”.

Pronto. A cagada está feita.

Tudo que a UDN há tempos vem desejando, ela consegue com o cadáver de Vaz. No tumulto que se instala em torno do episódio, pouca importância se dá ao fato de que, na verdade, Vaz estava lá como uma espécie de guarda-costas de Carlos Lacerda, e não unicamente como seu amigo, como alardeia à larga a imprensa em geral. Há uma escala, um rodízio entre capitães e majores-aviadores na guarda do jornalista, numa espécie de presságio do que viria a acontecer, ou — muito provável — de alguma cena preparada com vistas a encalacrar o governo Vargas, derrotando-o de vez.

Foi o que ocorreu. Coincide de um oficial superior da FAB contribuir para deposição de Vargas com o seu próprio cadáver. Se Lacerda vem há algum tempo buscando um cadáver, aí estava um, e melhor que a encomenda: um oficial superior da Aeronáutica. O fato de oficiais da FAB estarem dando segurança a um civil, ao arrepio dos regulamentos militares, em nada escandaliza a Força. Nero Moura, se já sabia, não age, fazendo ouvidos moucos aos rumores. Não se antecipa aos acontecimentos, deixando crescer a bola de neve que levaria Getúlio Vargas a tirar a própria vida, como recurso derradeiro.

Vê-se que a Aeronáutica, na verdade, contava com dois ministros. O de direito, Nero Moura, sem habilidades políticas e sem antiguidade para se fazer obedecer, só formalmente manda na FAB. De fato, quem realmente faz e acontece é Eduardo Gomes, um comandante, que sendo mau piloto, despreza os aspectos técnicos da aviação, priorizando questões militares e doutrinárias. Assim, em vez de liberar a tropa após os militares e especialistas concluírem um serviço, como a manutenção de uma aeronave, deixando-a pronta para a operação aérea, uma espécie de recompensa para que eles, tendo cumprido bem sua missão, pudessem estar livres para se divertirem, embriagarem-se, o oficial os castigava com desfiles, treinamentos físicos e militares e outros trabalhos que só desgastavam os militares de baixa patente, que estavam ali, a bem da verdade, não para a guerra em si, mas apenas pelo soldo com que sustentavam suas famílias. Diferente pensamento tinha Nero Moura, quando na ativa. A sargentada, militares especializados, concluída a tarefa e o avião pronto, era por ele liberada do expediente, o que fazia o trabalho render pois o faziam com gosto. No entanto, isso tudo ficou para trás. Agora Nero Moura, embora sem antiguidade e traquejo, está enclausurado no gabinete do prédio do Ministério da Aeronáutica a despachar papeis e participar de reuniões enfadonhas, tarefa bem diferente da que exercia com desenvoltura nos primeiros anos da década de quarenta, e mais ativa e heroicamente nos céus da Itália, juntamente com seus homens, a metralhar ferrovias, pontes e galpões. Ciente ou não do que de fato se passa nos quartéis, Nero não tem pulso para extirpar a cabeça da serpente que cresce a olhos vistos: punir e afastar Eduardo Gomes, um oficial muito mais antigo que ele, mas que agora lhe deve obediência hierárquica e que infringe, ainda que veladamente, os regulamentos militares ao tramar contra o chefe supremo das forças armadas. A FAB é, então, por assim dizer, um estado paralelo. Uma sindicância de início e, em seguida, um IPM lhe daria todo o embasamento legal.

Sabe-se também que, no desenrolar do inquérito policial-militar, chega-se à guarda pessoal de Getúlio, recaindo a culpa em Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal. Corre um mar de lama sob o Catete, conforme expressão atribuída ao próprio Getúlio Vargas. O cerco se fecha em redor do Velho, alcançando diretamente membros de sua família. Ele, na madrugada de 24 de agosto de 1954, não aguentando a pressão, tira a própria vida com um tiro no coração.

A morte de Getúlio gera uma comoção nunca antes vista no país. Depois de morto, Getúlio prossegue incomodando a UDN, os militares e as elites brasileiras. Ao contrário do que pretendiam seus inimigos, consegue fazer seu sucessor, o médico Juscelino Kubistchek de Oliveira, governador de Minas Gerais, do PSD, com o apoio do PTB.

A continuar…

Referências:

  1. Lira Neto. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  2. Lira Neto. Getúlio: Do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
  3. Moura, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
  4. CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. 3ª ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Getúlio_Vargas
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nero_Moura
  8. Visão e experiência pessoal do autor

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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