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A FAB e o governo JK!

Continuação da postagem de 27maio2020.

A UDN (sigla para União Democrática Nacional) e a elite social e econômica brasileira ainda terá que suportar uma terceira derrota, antes que finalmente chegue ao ambicionado poder político. Mesmo morto, Getúlio consegue impor a seus adversários, mediante a coligação entre PSD, PTB e mais quatro partidos, a vitória do médico Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, ex-prefeito e governador de Minas Gerais, nas eleições presidenciais de 1955. JK derrota assim a Juarez Távora, candidato da UDN, a Adhemar de Barros, do PSP, e Plínio Salgado. Juscelino foi favorecido por este último, que tirou votos de Távora.

Aí já é muita desmoralização. Chegam a pensar que o raivoso partido de extrema-direita jamais conseguiria, pelo voto, chegar ao poder. Nas hostes da UDN a ordem era combater sem tréguas JK. Carlos Lacerda, adaptando a célebre frase antes dita sobre Getúlio, chega a declarar:

Esse candidato não deverá vencer essas eleições; mas se vencer, não tomará posse; se tomar posse, não governará”.

Pois sim. JK não só vence, como governará como ninguém jamais havia feito antes. Tendo como programa de governo 31 metas, construiu uma cidade a partir do nada, concretizando o lema de seu governo: “Cinquenta anos em cinco”. Entre os apoiadores de Juscelino, estavam os comunistas, o que contribui para mais acirrar os ânimos dos opositores, incluindo a classe militar e o clero. Apesar dessas flagrantes adversidades, há gente de bem entre os homens de farda. Graças a um deles, o general legalista Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, que a posse de JK é garantida. O militar em 11 de novembro de 1955, ao depor o presidente interino Carlos Luz, aborta um golpe que estava em curso. Luz era portador de uma conspiração que consistiria simplesmente em não dar posse ao recém-eleito, tendo como alegação o fato de o candidato não ter conquistado a maioria dos votos válidos. Acontece que, pela legislação eleitoral da época, as eleições ocorriam em turno único. Assim, em face da conspiração delatada por Lott, o parlamento afasta Carlos Luz para dar posse ao vice-presidente da Câmara, Nereu Ramos, que assume a presidência enquanto JK não toma posse do cargo, o que ocorrerá em 15 de janeiro de 1956.

JK e a hostil oficialidade da Aeronáutica (imagem: Google)

É claro que a oposição não se dá por vencida. Sob estado de sítio, JK toma posse. Não tendo nem um mês de governo, porém, sobrevém uma tentativa de levante militar com o fim de derrubá-lo. E a força protagonista foi exatamente a Aeronáutica.

É 11 de fevereiro de 1956, exatamente três meses depois do contragolpe perpetrado pelo general Lott. O movimento militar que ficou conhecido como a Revolta de Jacareacanga é uma das duas rebeliões que têm como objetivo derrubar o governo de Juscelino. A outra ocorrerá em dezembro de 1959. Em vez de brigadeiros e coronéis, o líder do movimento é um simples major. Haroldo Coimbra Veloso, major-aviador engenheiro, é esse homem; e o capitão-aviador José Chaves Lameirão, seu lugar-tenente. Fique claro que eles não estavam sozinhos, mas os outros, que lhe dariam suporte, ha hora agá roem a corda, como se diz popularmente.

Com base nos documentos que me chegam às mãos e também munido de algum espírito literário, passo a narrar os fatos. Tudo aconteceu mais ou menos assim:

Major Veloso e capitão Lameirão, representando o grosso da oficialidade da FAB hostil à política nacionalista de Juscelino Kubistchek, protagonizaram a chamada Revolta de Jacareacanga. (imagem: Google)

Desde a Ditadura Vargas (Estado Novo) há a intenção governamental no sentido de desenvolver o país além do tratado de Tordesilhas, ou seja, promover a ocupação do Brasil em seu interior e na região amazônica como forma de garantir a integridade territorial nacional. Com o advento do Ministério da Aeronáutica, reunindo toda a equipagem e o pessoal da aviação militar do Exército e a aviação naval, a FAB vê-se naturalmente impelida a juntar-se a esse projeto de interiorização, considerando que o avião é, por assim dizer, essencialmente integrador, um equipamento encurtador de distâncias. Então, em 1953 Nero Moura manda ampliar as pistas de pouso já existentes e construir outras, de forma a permitir a operação de aeronaves civis e militares e médio e grande porte. Veloso, que então serve no Gabinete do Ministro, décimo segundo andar,a algumas salas de onde Nero trabalha, é o oficial a reunir em si todas as condições para levar a efeito uma empresa de tal porte, pois é aviador e engenheiro, além de inteligente e discreto. É incumbido então pelo ministro para a construção dos aeródromos militares de Aragarças, Jacareacanga e Cachimbo. Por maior facilidade, o oficial está aí perto do próprio ministro, em cuja sala tem liberdade de entrar e sair a quase todo momento. Ninguém melhor, portanto, que Veloso para ficar à frente dos trabalhos: planejamento (no âmbito do próprio Gabinete) e execução, em campo aberto no meio da selva amazônica.

A construção desses aeródromos, portanto, são, nessa época, de fundamental importância logística, operacional e estratégica, uma vez que servem de apoio à aviação na rota Brasil – Estados Unidos, bem como no âmbito do Correio Aéreo Nacional a rota Rio de Janeiro – Manaus, cortando o país pelo interior e não pelo litoral, como antes, com o avião ganhando assim preciosas horas de voo e economizando meios, consequentemente. Unindo o útil ao agradável, esses trabalhos permitem ao Major Veloso conhecer bem a região central brasileira e a Amazônia, além de o militar, por ser um sujeito carismático, granjear rapidamente a simpatia dos civis e indígenas que com ele trabalham na construção dessas pistas de pouso e estradas. Todas essas circunstâncias, mais tarde, lhe viriam a ser bastantes úteis em seus objetivos políticos.

O que, no entanto, Nero Moura e alguns brigadeiros desconhecem é que o major-aviador Haroldo Veloso faz parte ideologicamente do grosso da oficialidade da Aeronáutica, representando principalmente os mais jovens egressos da classe média, descontentes com o regime desde a primeira derrota do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1945, e, portanto, sensíveis às pregações udenistas. Uma vez designado para servir a um governo com o qual não se afina politicamente, não lhe resta outra alternativa a não ser aceitar a missão. Primeiro que não é dado a oficial de carreira recusar ordem superior (principalmente se o oficial é o ministro-chefe da força), sob pena de vir a ser perseguido por seus superiores hierárquicos, e, assim, ter sua própria carreira prejudicada. Era um convite irrecusável, como se diz na caserna. Ademais, a nomeação representa uma oportunidade de acompanhar, mais de perto, o movimento: quem entra, quem fala, o que acontece. Eduardo Gomes, que, durante toda gestão de Nero, não exerce cargo oficial algum, mantém-se discretamente, em sua residência, sempre bem informado, portanto.

Desde a década de 1930, os governos nacionalistas de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek tinham em mente interiorizar o país. É aí que entra a FAB com a construção de alguns aeródromos. Sob a liderança do major Veloso, foram construídos os aeródromos de Aragarças, Jacareacanga e Cachimbo. (imagem: Google)

Para essa oficialidade hostil a Getúlio e, agora, a JK, Veloso é o homem ideal para suas pretensões conspiratórias: é do mesmo lado ideológico e, por força de suas funções oficiais, conhece o interior do país.

Assim, em 1956, Veloso lidera a Revolta de Jacareacanga, lugarejo situado no município de Itaituba (PA), próximo à fronteira com o Amazonas, a 300 km de Manaus em linha reta e 350 quilômetros de Santarém, via rio Tapajós.

Quem é Veloso?

O major-aviador Haroldo Coimbra Veloso é carioca, magro e aloirado, característica física que, diferenciando-o da maioria dos brasileiros, o tornava parecido aos galãs do cinema norte-americano, embora do tipo caladão. Com dezoito anos de idade, ingressa no Exército Brasileiro, matriculando-se na Escola Militar do Realengo. Recém-criado o Ministério da Aeronáutica, ele, já com dois anos de Realengo, requer transferência para a Escola de Aeronáutica, formando-se em Engenharia Aérea, vindo a ser declarado aspirante-a-oficial em setembro de 1942.

Mas voltemos ao dia 11 de fevereiro de 1956.

É carnaval de 1956. A marchinha “Quem sabe, sabe”, de Joel de Almeida, faz enorme sucesso nas rádios cariocas.

Quem sabe, sabe, conhece bem / Como é gostoso gostar de alguém / Ai, morena, deixa eu gostar de você / Boêmio sabe beber / Boêmio também tem querer

Essa época será marcante para a vida do major Veloso e de seu correligionário de ideais, o capitão-aviador Lameirão. Tanto podem tornar-se heróis, como podem acabar seus dias na cadeia, como vilões, traidores, ou até mesmo mortos, dependendo do êxito ou do fracasso da empreitada a que estão prestes a meter-se até o pescoço. É matar ou morrer.

Mas por que agora, sábado em pleno carnaval, chefe?”, indagou outro dia Lameirão. “Você sabe de outra data melhor, amigo Lameirão, quando as sentinelas estão mais distraídas?” E, como Lameirão tenha se demorado na resposta, Veloso responde: “A outra data será somente no ano que vem, mas até lá Juscelino já terá mostrado a que veio, e nós teremos perdido a oportunidade de livrar o país desses caras.”, e completa: “É agora ou nunca”.

JK e a Revolta de Jacareacanga, em 1956 (imagens: Google)

Com efeito, para a UDN, para o grosso da oficialidade militar e para as elites conservadores brasileiras, passado um ano de governo JK, já será demasiado tarde. Têm na ponta da língua o discurso pronto de que Juscelino, herdeiro político de Getúlio, necessariamente fará um governo desastroso em que vai imperar a corrupção financeira e moral. No íntimo, porém, temem exatamente o oposto: JK pode fazer uma boa administração, caindo no gosto do povo, e aí será muito mais complicado para a UDN chegar ao ambicionado poder.

Chega o sábado gordo, que por iniciar um feriadão é o dia mais indicado para se executar uma missão de tal monta. As características daquela semana tipicamente carioca, conforme a convicção dos dois oficiais, facilitaria o plano que vinha de há algum tempo amadurecendo na cabeça de Haroldo Coimbra Veloso e na de seu fiel escudeiro José Chaves Lameirão. Com efeito, pela cultura do povo carioca, no carnaval, a guarda, em sua maioria jovens de dezenove, vinte anos, não se concentra plenamente no serviço de guarnecer o quartel, e o próximo expediente só se dará na tarde da próxima quarta-feira, sendo para os comandantes militares, pelas dificuldades de logística da época, muito complicado mobilizar a tropa nesses dias. Somando-se a essas peculiaridades, o capitão Lameirão, que então pertence ao efetivo do Parque de Aeronáutica dos Afonsos, goza de livre acesso ao quartel. Ele sabe que a guarda tem por doutrina o reconhecimento fisionômico de todos os oficiais da Unidade, franqueando-lhe prontamente o ingresso ao quartel, sem questionamentos.

Pois bem.

Na madrugada desse sábado de carnaval, menos de um mês da posse de JK e sua equipe de governo, o major Veloso e o capitão Lameirão dão início à execução do plano. Após Lameirão responder à continência de armamento executada pela sentinela da guarda, os oficiais ingressam no Parque de Aeronáutica dos Afonsos, subúrbio do Rio de Janeiro, e dirigem-se ao hangar, onde se apoderam de um avião de combate: um Beechcraft AT11, matrícula 1523. Entram no hangar por uma porta secundária e abastecem o o avião com armamento, munição, combustível e força. Mas aí sobrevém um contratempo: a porta principal do hangar está trancada, em vez de semiaberta como Lameirão a deixara na véspera, já na noitinha anterior. Isso impede de retirarem o avião de dentro do hangar, frustrando todo o planejamento de meses.

Provavelmente o oficial-de-dia, um daqueles tenentes caxias, por zelo, ou mesmo porque o comando já o havia prevenido, em suas rondas noturnas, ao observar o desleixo, tenha mandado fechar o hangar. É então necessário arrombar a porta principal, mas o barulho acaba por chamar a atenção desse mesmo oficial-de-dia, que, não tendo descansado, em ronda de rotina, se aproxima do local. Antes que este comece a fazer perguntas indiscretas, Veloso e Lameirão apontam para a sua cabeça uma pistola 45mm, prendendo-o numa das salas internas do hangar, impedindo que ele dê o alerta. No entanto, de fato o comando, já alertado de que algo estranho poderia vir a ocorrer, havia designado um oficial para, à distância segura, impedir o taxiamento de qualquer aeronave não autorizada, atirando nos pneus. Ocorre que, por alguma razão, essa providência não foi levada a efeito pelo oficial incumbido, conforme apurar-se-á em breve no competente inquérito (IPM). Veloso e Lameirão conseguem movimentar o avião para deixá-lo em condição de alçar voo, mas a operação da aeronave ao taxiar leva à desconfiança da torre de controle que não autoriza a decolagem.

A continuar…

Referências:

  1. COSTA COUTO, Ronaldo. O Essencial de JK: visão e grandeza, paixão e tristeza. São Paulo: Planeta, 2013.
  2. MOREIRA, Pedro Rogério. Bela Noite para Voar: um folhetim estrelado por J.K.. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_Coimbra_Veloso
  5. http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/haroldo-coimbra-veloso
  6. https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/haroldo_veloso
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/José_Chaves_Lameirão
  8. Visão pessoal do autor.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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