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MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

MALBA Tahan (crente de Alá e de seu santo profeta Maomé) é um “famoso escritor árabe”, que nasceu na Península Arábica, em uma aldeia conhecida como Muzalit, próxima do centro islâmico dos muçulmanos, a cidade de Meca, em 6 de maio de 1885. Ainda muito jovem, ele foi convidado pelo emir Abd el-Azziz ben Ibrahim a ocupar o posto de queimaçã (prefeito) de El-Medina, município da Arábia. Exerceu seu cargo, ou melhor, suas funções administrativas com inteligência e habilidade. Conseguiu também poupar incidentes entre peregrinos e autoridades locais e buscou dar amparo aos estrangeiros que visitavam os lugares sagrados do Islã. Malba Tahan seguiu seus estudos no Cairo e Istambul até receber uma vultosa herança de seu pai e resolver viajar pelo mundo, passando pela China, Japão, Rússia e Índia, onde observou e aprendeu os costumes e lendas desses povos. Esteve por um tempo vivendo no Brasil, onde suas obras foram traduzidas e editadas. Em 1921 na Arábia Central, lutou pela liberdade de uma minoria da região da Arábia Central. Seus livros foram escritos originalmente em árabe e traduzidos para o português pelo  Professor Breno Alencar Bianco .

Do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan

A uma altura da vida, Júlio César de Mello e Souza, professor de Matemática e de Física, resolve ser escritor. Não seria um escritor comum e sim contador de histórias ambientadas no oriente antigo e mítico. Há, porém, um problema: Mello e Souza nunca esteve nas Arábias. O problema seria simplesmente suprido com sete longos anos de aprofundados estudos sobre a cultura islâmica antiga e de outros países orientais.

Todavia, Mello e Souza sabe que dificilmente o leitor nacional leria livros sobre contos árabes escritos por um escritor não árabe. É aí que resolve criar o heterônimo de Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan, escritor árabe cujas obras são traduzidas pelo professor Breno Alencar Bianco, também inexistente, ou seja, outro heterônimo de Mello e Souza. Durante muitos anos realmente o público acreditou que o autor de “O Homem que Calculava” era realmente árabe, pois em suas primeiras obras Malba Tahan aparece representado por um homem velho de barba branca. Além de exímio contador de histórias árabes, Mello e Souza também foi um brilhante marqueteiro.

Quanto à sequência narrativa apresentada no BLOGUE do Valentim, no período de 22 a 27 de junho corrente, o autor apresenta dois representantes do gênero humano: o narrador, que também faz o papel de anfitrião; e o viajante desconhecido, cujo nome é Zualil Delach, hóspede do narrador. O primeiro é cético e desconfiado, tendo por base o senso comum, embora também apresente um coração bom. Mais: é preconceituoso e adota conclusões irrefletidas com base nas aparências. O outro, embora aventureiro e de vida errática, é por natureza um homem bom e de boa fé. Zualil é um devoto religioso, mas, diferente de seu anfitrião, não é devoto apenas de fachada, mas sim um homem que adota a prática de aliar os preceitos da fé e da religião à ações diárias da caridade, fazendo o bem sem olhar a quem. Enquanto o narrador o enxerga com um misto de admiração e de desconfiança, Zualil surpreende seu anfitrião com práticas desinteressadas de serviço e de amor, embora, em alguns casos, aparentemente temerárias. Está presente também nessa sequência narrativa a questão da lealdade incondicional e da confiança — também incondicional –, como no caso das pedras preciosas confiadas por Zualil a seu servo.

Primeiro, Zualil surpreende a seu anfitrião com o convite para a prece. É, portanto, um religioso. Até aí, nada de mais. A religião islâmica impõe ao muçulmano a obrigação da intensa prática religiosa. O gesto de Zualil, poderia ser, portanto, apenas pela força da obrigação, pelo hábito e pela exigência cultural. Enquanto rezam, o narrador nota o olhar do hóspede na direção de um narguilé de prata, e aí entra em seu coração a desconfiança. Terminada a prece, estando ambos sós, Zualil, com entusiasmo e alegria, declara que, conforme a crença, o narrador terá a baraka, ou seja, muita prosperidade e bonança em sua vida. Há aí o aspecto da fé.

Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza (imagem: Internet)

Em seguida, o viajante desconhecido conta a história de sua errática vida, com episódios repletos de aventuras e desventuras, incluindo o fato de ser um xeique e casado com uma princesa marroquina. Todavia, acaba, cedendo a seu espírito aventureiro, envolvendo-se em questões políticas, o que lhe valem perseguições, fuga e sofrimento. Vendo-se ameaçado em perder todo o seu patrimônio, Zualil confia a Mustafá, seu servo, toda a sua fortuna representada por noventa pedras preciosas. No entanto — prossegue Zualil — devido a uma doença, há um desencontro entre os dois e, assim, servo e amo se separam, resultando na situação de penúria em que Zualil, um xeique muito rico, encontra-se no momento. Teme o viajante desconhecido que Mustafá esteja morto.

Quanta ingenuidade! — pensa de si para si o narrador — confiar todos os seus bens a um mísero servo, que, certamente, uma vez de posse das pedras preciosas, terá fugido a fim de gozar de uma existência de luxos e riquezas. Guardando esse pensamento para si, a pedido de Zualil, o hospeda. Pela manhã, ao acordar, nota a ausência do narguilé de prata e isso o leva de imediato a supor que fora roubado. No entanto, acaba surpreendido e desarmado pelas boas ações do hóspede que encontra-se alegremente cantarolando uma canção enquanto limpa e lustra o narguilé. Seguem outras boas ações, que, em princípio e por avaliações apressadas e equivocadas da parte do narrador, vem a por a nu as desconfianças e preconceitos do narrador.

Ausentando-se para preparar o desjejum, no regresso à sala vê que Zualil tinha convidado, sem consultar o dono da casa, um homem pobremente vestido. Embora Zualil tenha falhado, há a seu favor o fato de ter chamado um amigo faminto para compartilhar dos alimentos de outro que tem mais e para quem esse convidado extra não signifique prejuízo. Mas há o preconceito da parte do narrador que, indiferente ao interior do indivíduo, julga o semelhante pelas aparências. Malba Tahan aproveita para fazer uma crítica velada à situação do professor brasileiro, uma vez que descreve o novo convidado como alguém necessitado. Ao mesmo tempo, o narrador reprova a atitude de Zualil.

Ao despedir-se, Zualil, a título de compensar a hospitalidade, promete contar uma lenda. No entanto, faz ao mesmo tempo uma exigência: a lenda, digna de ser ouvida por 5.439 pessoas (7×777), seria contada para uma plateia de cinco pessoas. Estão em número de dois (o narrador e o mestre-escola) e assim saem em busca de mais três ouvintes, deixando Zualil sozinho a cuidar da casa. Em caminho, encontram um burriqueiro surdo, que, por essa condição, nada contribuiria para a audição de uma lenda de tal magnitude, como prometera Zualil. Em seguida, deparam-se com duas mulheres, e as mulheres no âmbito na sociedade patriarcal não poderiam fazer parte da audiência. Chegam à casa de um corretor, e aí Malba Tahan aproveita para criticar as pessoas que só vêm o dinheiro, em vez de valorizar as lendas e narrativas fabulosas que atiçam a imaginação e a criatividade, além de conterem ensinamentos prodigiosos.

O corretor, não podendo largar o trabalho, indica dois de seus auxiliares. Em caminho, logo localizam um jovem mendigo. O narrador, o mesmo anfitrião de Zualil, aproveita para destilar seu preconceito. Isso é um pretexto de Malba Tahan para cutucar a sociedade. Ocorre que o jovem, ao ouvir uma canção, larga o turbante ao chão e corre como um louco. Eles, em número de quatro, não conseguem compreender o gesto do jovem.

Ao chegar, mais uma atitude de Zualil incompreendida da parte do narrador. Deixara a casa sob os cuidados de um deficiente visual. Claro que o narrador fora enganado e aquele homem, que se dizia um xeique, só poderia ser um ladrão. Mais uma vez não. Zualil deixara a casa aos cuidados do cego, mas comprovadamente útil, contrariamente ao senso comum que considera inúteis as pessoas deficientes visuais.

Mustafá, o servo leal (do livro “Mil Histórias sem Fim – Volume 2”, de Malba Tahan

A baraka! Claro, o jovem só podia ser Mustafá. Estava tudo claro. Não claro para o narrador, para quem Zualil estava agora completamente louco. E se o jovem abordado fosse realmente Mustafá, ele só podia ter fugido para lugar distante a fim de não prestar conta a seu amo sobre o que fizera com as pedras preciosas. Esse era o pensamento do narrador.

Mas Zualil, generoso e bom independentemente de classe social, sendo ele rico ou pobre, esteve sempre certo. Mustafá reaparece.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto. Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança. Aquela cena deixou-nos emocionados.”

Lindo! Maravilhoso!! Fantástico!!!

L.s.N.S.J.C.!

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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo final)

… Continuação da narrativa postada em 26jun2020.

Por Malba Tahan

LÁ vem ele!

E tinha razão. Era Zualil, o egípcio, que caminhava apressado como se viesse a alguma importante missão. Quando Zualil se aproximou do portão, onde eu me achava em companhia dos quatro homens, não pude dominar a minha exasperação. Exprobrei-lhe a forma incorreta e leviana com que procedera durante a minha ausência.

Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza (imagem: Internet)

— Para atender à tua exigência descabida — disse-lhe com desagrado — fui com o mestre-escola em busca de três ouvintes para a tal lenda que pretendias narrar; trouxe comigo dois sábios famosos (e apontei para os auxiliares do corretor Bechara); assegurei-lhes que estavas a nossa espera. E qual não foi o meu espanto ao verificar que havias ido, como um cameleiro em dia de folga, vaguear pelos arredores. E o mais grave, ainda, é que esta casa, entregue aos teus cuidados, deixaste, inteiramente abandonada, ou melhor, sob a vigilância inútil de um cego. Não me parece que este homem (e apontei para o cego) que vive mergulhado nas trevas da cegueira, seja o vigia mais indicado para zelar pela moradia e pelos bens de um amigo. 

O egípcio ouviu impassível as acres invectivas que eu proferia com estouvado desabrimento. E disse, arrastando a voz com a serenidade de um derviche1:

— Sinto discordar de ti mais uma vez. Não pratiquei leviandade alguma nem aceito a acusação de imprudência ou descaso. Imprecas um amigo antes de ouvir as razões e os motivos que o levaram a proceder da forma que te parece errada ou censurável. Vou contar-te o que sucedeu e verás se devo ou não ser inteiramente absolvido da falta por que me condenas.

O Viajante Desconhecido, um homem singular. Seria mesmo um Xeique? Ou apenas um reles farsante de boa lábia? (do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

— Achava-me aqui, neste portão, a tua espera quando vi passar um velho marceneiro que eu conhecera. Era um homem bom e digno que me auxiliara em viagem. Pareceu-me aflito. Chamei-o e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Com voz angustiada, respondeu-me que saíra de casa em busca de remédios para o filho mais moço que adoecera de repente. Disse-lhe então: “Conheço a Medicina; tenho grande prática na cura de moléstias crônicas e agudas. Irei socorrer teu filho”. Alegrou-se o pobre pai. Havia, porém, uma dificuldade. Como deixar abandonada a casa de meu amigo? Nesse momento avistamos este cego que passava apalpando o chão com o seu pesado bordão: “Aquele homem – pensei – poderá substituir-me enquanto vou socorrer o enfermo.” Abordado por mim e informado de tudo, o cego prontificou-se a servir-me. “Podes partir tranquilo – disse-me – e não te preocupes com a casa que ficará sob meu cuidado”. Não tive, pois, dúvida alguma em deixar tua casa vigiada pelo cego. Era pessoa que me inspirava confiança. Ninguém desempenharia melhor tão delicado encargo. O cego, apesar das trevas que o rodeiam, percebe a vida, ouve o que se passa em redor. Faltando-lhes o sentido da vista, apura e desenvolve todos os outros. Reconhece as pessoas que dele se aproximam; os lugares ponde passa; as coisas mais simples que o rodeiam. Tem por norma a prudência, aliada à cordura e à moderação. É cauteloso no agir e no falar. Sabe como se defender; orienta-se com segurança, pois a sua bússola é a inteligência esclarecida pela luz do raciocínio. Na incerteza do terreno, evita pisar em falso. Há cegos mais cautelosos do que o vidente mais precavido.

E como eu o fitasse com obstinada desconfiança, ele prosseguiu:

— Queres a prova de que este cego merecia a confiança que nele depositei? Ele nos vai dizer quais foram as pessoas que, durante a nossa ausência, passaram por esta rua.

Respondeu o cego baixando o rosto e falando pausadamente:

— Notei que cruzaram esta rua um burriqueiro surdo, duas mulheres (uma delas conduzia uma criança), um pescador e dois músicos.

“Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero” (do livro de Malba Tahan “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, ed. de 1952)

Acudiu Zualil com entusiasmo:

— Aí está a prova! Nada lhe passou despercebido! Estava sempre atento e vigilante. Quem melhor poderia zelar pela segurança de tua casa? Afastei-me daqui, é verdade, mas assim o fiz para socorrer uma criança em perigo de vida. Salvei-a. Estou satisfeito. Que juiz seria capaz de me condenar?

Nesse ponto Dorak, o matemático, observou, dirigindo-se ao egípcio:

— A tua forma nobre e correta de proceder só pode merecer elogios de nossa parte. Dirão os irrefletidos que confiaste num cego. A pior cegueira, a meu ver, não é aquela que anuvia os olhos, mas sim a outra – a que obscurece a alma.

E voltando-se para o mestre-escola (que se achava a seu lado) interpelou-o:

— Conhece a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

-*-*-

Então o matemático conta a história do “Burro amarelo, bem amarelo“, que omitiremos nesta sequência narrativa.

-*-*-

ALLAHUR abkbar! (Deus é grande!) Retomo, agora a minha narrativa já mais de uma vez interrompida. A lenda do “Burro amarelo, bem amarelo”, referida com tanta eloquência e oportunidade pelo erudito calculista Zoraik, foi ouvida em meio do maior silêncio. Duas ou três vezes assaltou-me o desejo de interpelar o narrador e isso acontecia sempre suas palavras feriam pontos delicados de nossa doutrina. Contive-me, porém, e conservei-me imóvel e silencioso, como um túmulo, entre o bom cego e o mestre-escola. Coube a Zualil, o egípcio, que era, na verdade, o caid el-markahn, a grata incumbência de fazer o elogio do narrador. O nosso amigo, pondo-se de pé rapidamente, ajeitou o turbante, meditou alguns instantes de mãos na cintura, com desembaraço e simpatia, e assim falou:  

— É fácil coroar com rutilantes elogios as narrativas que nos divertem, educam e encantam. Tal é o caso da lenda do “burro amarelo”, que acabamos de ouvir. Envolve sábios conceitos, inesquecíveis ensinamentos e judiciosas conclusões. Leva-nos a meditar sobre terríveis malefícios da cegueira espiritual que, embora não atinga os olhos, fecha para sempre o coração. Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero. Guiemos os cegos de espírito pelas veredas do bem e da verdade. O guia para eles será a salvação. Quero finalizar esta rápida apreciação recordando os versos de um cego – versos nos quais o poeta exalta o poder do amor materno:  

Não choro a minha cegueira / Choro a falta do meu guia; / Minha mãe, quando era viva, / Eu era um cego que via

E as palavras de Zualil tinham aquela consonância agradável que o leve sotaque egípcio tornara mais sugestiva.  

— Que lindos versos! — comentei alçando a voz para que todos me ouvissem. — E terão, como as encantadoras trovas da “Flor da Saudade”, a força mágica que perturba os homens? — força mágica? — estranhou Zualil arregalando os olhos — Qahyat en-nébi! Como descobriste força mágica em meus versos?  

Era meu dever esclarecer a dúvida. Recapitulei, portanto, ao egípcio, com todas as minúcias, o singular episódio que ocorrera quando voltávamos da casa do corretor Bechara. Contei que um jovem, pobremente vestido, aceitara o convite para ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Exigira, apenas, como pagamento duas fatias de pão. E vinha o mendigo, muito tranquilo a meu lado, quando me ouviu declamara os versos da “Flor da saudade”:

Saudade, flor que desperta  / Tristeza no coração; / Saudades do que se foram / Dos que não voltam mais não!

Com palavras mal articuladas, indagou o rapaz qual era o autor daqueles versos. Respondi como devia, pois não me pareceu justo ocultar a verdade. Operou-se, nesse instante, a força mágica dos versos. O desconhecido atirou por terra o turbante e fugiu a correr como um louco. E tal foi o ímpeto de sua fuga que julgamos impossível tentar evitá-la. A revelação daquele caso — que para nós não passava de um banal acidente de rua — causou em Zualil um abalo indescritível. Cobriu-se-lhe o rosto de alegria. Todo seu corpo tremia. Tive a impressão de que a tatuagem que lhe cobria o dorso da mão esquerda tornara-se mais azulada. Sacudiu-me pelo ombro com convulsiva energia e interpelou-me febricitante, numa agitação que só um ataque de loucura poderia justificar: — Que rapaz foi esse? É mesmo certo que fugiu ao ouvir o meu nome? Onde estava? Ualalu! Quero saber a verdade! O rapaz era moreno? Trazia um punhal na cintura? Como estava vestido? Assediado pelas aflitivas perguntas do egípcio, senti-me confuso e estonteante. O mestre-escola veio em meu auxílio, e com a maior calma, como se estivesse diante de um discípulo, forneceu ao conturbado egípcio todos os informes exigidos. Ocorreu, nesse momento, uma cena inesperada que nos deixou no espírito indelével lembrança.  

Zualiu, com a face iluminada de intensa alegria, perdeu a compostura e pôs-se a pular nomeio da sala e a gritar como um possesso agitando os braços:

— Estamos ricos! Louvado seja o sapientíssimo! Estamos ricos!

Havia no estupendo homem o que quer que o arrebatava da realidade para o mundo fictício das alegrias estonteantes. — Infeliz amigo! — deplorei com sincera lástima — Assaltou-o perigoso ataque de demência! Ouve falar da fuga de um mendigo e conclui que vai receber todas as riquezas do gênio de Aladim! Olhei para o mestre-escola, para o calculista e para o botânico. Li nas fisionomias que todos eles compartilhavam da minha opinião em relação ao estado mental do egípcio. O cego não se moveu. Permaneceu como estava, sentado no tapete, com a cabeça baixa apoiada nas mãos. Ao notar a estranheza com que recebíamos as suas exaltadas manifestações de alegria, achou Zualil que era seu dever esclarecer aquela cena que tivera por origem a “Flor da saudade”. Passeou a mão pela fronte, pelos olhos e impando de satisfação, contou-nos o seguinte:

— As informações que ouvi dos amigos trouxeram-me a convicção de que esse jovem que fugiu desatinadamente ao ouvir o meu nome — revelado por causa dos versos — é o meu servo Mustafá. Como já tive ocasião de contar, em Damasco, sob ameaça de morte, confiei todos os meus haveres a Mustafá e ordenei que seguisse para o Iraque. Combinamos um encontro em certo recanto desta cidade; não nos foi possível, porém, comparecer no dia marcado, e desencontrei-me do homem que conduzia o meu tesouro. Passaram-se muitos meses. Nunca mais o encontrei. Julguei-o morto ou desaparecido. Já havia perdido a esperança de recuperar toda a minha fortuna quando sou avisado de que Mustafá se acha nesta cidade e que foi informado de meu paradeiro. É certo que, dentro em pouco, virá procurar-me.

— Deixemos de sonhos e devaneios — objetei com um gesto incrédulo — Não creio que Mustafá apareça nesta casa! Admitamos que era ele, precisamente, o mendigo que vimos fugir pela estrada. Pela situação miseranda em que o encontramos, faminto e andrajoso, implorando fatias de pão, não devia trazer consigo tesouro algum! É lá admissível que um homem que tem em seu poder várias dezenas de rubis e mancheias de brilhantes, passe privações pelas estradas de Bagdá!? A verdade é outra. Mustafá fugiu porque não desejava avistar-se com o seu amo. Não pretende prestar contas do tesouro que lhe foi confiado.

Zualil franziu o rosto numa negação e recriminou sem titubear, reforçando-se por ser claro e decidido:

— Duvidas da integridade e das boas intenções de Mustafá? Não acreditas na lealdade do humilde servo? A fuga é perfeitamente justificável. No momento em que recebeu a notícia de minha presença nesta casa, não trazia em seu poder o cinto que contém as gemas preciosas. Sem revelar o segredo, correu para ir buscá-lo. Para maior segurança, deixara o tesouro bem oculto em lugar secreto. Fiquem certos de que dentro de alguns momentos ele aparecerá aqui.

E já mais calmo, sempre confiante, o egípcio prosseguiu com gesto bem composto:

— Grandes males advém para o mundo da falta de mútua confiança entre os homens. Esforcemo-nos por acreditar naqueles que nunca fizeram por desmerecer de nossa confiança. Evitemos os juízos temerários; as suposições caluniosas e infundadas.  Arranquemos de nossos corações todas as suspeitas, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno.

E, depois de ligeira pausa, acrescentou sem se dirigir a nenhum de nós:

— Logo que Mustafá chegue, entrarei na posse de todo meu tesouro e serei um dos homens mais ricos desta cidade. Quero, pois, demonstrar que sou generoso com os amigos.

Dirigindo-se ao matemático Dorak, declarou jubiloso com um clarão de simpatia na face:

— Vais receber, meu amigo, quinze mil dinares-ouro e vinte camelos de boa raça. O mesmo presente darei ao mestre-escola, ao preclaro botânico e ao cego que nos acompanhou!

E a seguir voltou-se para mim e disse avigorando a frase com intencional demora:

— Ao dono desta casa, que tão gentilmente me acolheu, oferecerei, como prova de minha gratidão, trinta mil dinares-ouro e quarenta camelos de boa raça. O dobro precisamente! Lembras-te do que te disse? Estás com a baraka! A fortuna veio ao teu encontro!  

Aquele homem singular, que na realidade nada tinha de seu, imaginava-se riquíssimo e distribuía promessas de ouro por todos nós. Era de admirar a delicadeza de sua sensibilidade e o incomparável primor de seu idealismo.

Fez-se largo silêncio.

De repente, o cego ergueu-se às apalpadelas e declarou, num gesto de espanto, com voz trêmula:

— Atenção, meus amigos! Alguém acaba de chegar! Ouço passos no jardim!

Corri alvoroçado para a porta que tinha serventia para o jardim, descerrei-a e olhei para fora.

O quadro que caiu sob meus olhos deixou-me estarrecido.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto.

Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança.

Aquela cena deixou-nos emocionados.

O mestre-escola, sempre sereno e judicioso, ponderou que seria mais acertado limitar, naquele momento, as expansões naturais de alegria. Fazia-se mister, no primeiro momento, socorrer o famélico Mustafá antes que o keif da jornada o abatesse para sempre.

Mustafá, o servo leal. Até que ponto é possível a lealdade? Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

E assim fizemos. Merecia o dedicado servo as nossas atenções. Procurei cercá-lo de todas as honras, pois pesava-me na consciência o feio crime de ter duvidado de sua inquebrantável lealdade.

Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

Depois de reconfortado com fina e abundante merenda, retirou Mustafá o cinto que trazia oculto sob a túnica. Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna, lindíssima coleção de rubis e brilhantes. Aquelas gemas, vendidas em Bagdá, dariam mais de duzentos mil dinares.

Como eram lindas aquelas pedrinhas vermelhas! Pareciam gotas de sangue cristalizadas. Era um prazer segurá-las e senti-las pesar na concha da mão.

O único que não desejou sopesar as pedras preciosas foi o cego.

Disse afinal Mustafá, dirigindo-se placidamente a seu amo, o xeique Zualil:

— Infelizmente não me foi possível trazer a coleção completa. Fui obrigado a desfazer-me de um rubi. Trago aqui oitenta e nove, quando na realidade, ao partir para Damasco, havia recebido noventa.

— Não importa! sobreveio atencioso o egípcio — Seria irrisório tomar-se em consideração tão insignificante perda. É possível até que tenha se desprendido durante a viagem.

Fim! 

  1. Dervixe: Monge muçulmano; no islamismo, aquele que faz votos de caridade, pobreza e humildade; dervis; daroês: a maioria dos dervixes leva uma vida nômade de abnegação, vivendo as esmolas.
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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 5)

NO CAPÍTULO anterior, a descrição que faz o narrador-anfitrião do mestre-escola é, na verdade, uma crítica velada que emite Malba Tahan sobre a desvalida condição do professor, situação que não alterou muito da década de 1950 para cá:

“O recém-chegado era magro, de cabelos grisalhos, olhos mortiços e fisionomia abatida. Trajava-se com extrema modéstia. Em sua túnica esfiapada multiplicavam remendos de vários feitios.”

Esclarecemos que Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, era professor de Matemática, além de um exímio contador de histórias.

… Continuação da narrativa postada em 25jun2020.

Por Malba Tahan

O MESTRE-ESCOLA puxando-me pelo braço animou-me sibilante:  — Vamos, meu amigo. Estou interessado em ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Deve ser muito curiosa. E digo-te com seriedade: até hoje ninguém conseguiu traçar essa figura que a tal lenda nos promete: um quadrado de sete pontas. Deixa os ouvintes por minha conta. Trago aqui uma legião de curiosos.

Eis o que sucedeu:

O professor Júlio César de Mello e Souza (imagem: BBC)

Tomada a resolução, não mais refleti sobre a exigência frívola e infantil formulada pelo singular egípcio. Vesti-me num abrir e fechar de olhos, enrolei na cabeça um turbante qualquer, à cintura prendi minha bolsa de passeio e, seguido pelo taleb Iezid, deixei a casa e fui para a estrada de Bagdá. Que pretendíamos naquela manhã de sol? Realizar tarefa urgente? Concluir rendoso trabalho? Nada de útil; nada de aproveitável. A nossa intenção era encontrar três pessoas que se dispusessem, naquela hora, a ouvir em nossa companhia, a lenda intitulada “As sete pontas do quadrado”, que o extraordinário Zualil me ofereceu como retribuição pelas atenções recebidas.

. . . . . . . . . . . . . . .

Depois de abordarmos um burriqueiro surdo (essa história está aqui), vimos surgir, a pequena distância, caminhando para o nosso lado, com passos leves e rápidos, duas mulheres. Velavam-se ambas com os seus espessos haics. Uma delas, a mais alta, arrastava pela mão uma criança morena e quase nua. Trazia a outra, no braço, um grande cesto a transbordar de frutas, peixes e verduras.

— Convidemos aquelas mulheres — recomendei em voz baixa ao mestre-escola. — É bem possível que elas não sejam surdas e possam atender ao nosso apelo. O pequeno completará o número de ouvintes exigido pelo egípcio.

— Bem lembrado — anuiu o taleb — um auditório com duas jovens beduínas e um inocente garotinho será muito agradável ao egípcio. 

Isto dito, caminhou decidido, em linha reta ao encontro das mulheres.

Ocorreu, porém, um acidente lastimável. Ao atravessar a estrada, o mestre-escola, na precipitação com que se dirigia para as beduínas, tropeçou num galho seco e foi ao chão. A jovem que conduzia o pequenito, ao ver o meu amigo estatelado na areia, riu gostosamente. A outra levou a mão aos olhos, num gesto que denotava susto e aflição. E enquanto o mestre-escola se levantava do desastrado trambolhão e sacudia os braços para se livrar da terra, as filhas de Eva apressaram o passo e afastaram-se de nós.

— Não poderemos detê-las mais — lamentei. — Já vão longe. Que pena!

E indaguei solícito ao companheiro:

— Machucou-se?

— Nada — explicou o taleb com expressão que demonstrava certa alegria e altivez — A queda foi proposital. Ao me aproximar das duas jovens embuçadas, reconheci-as. A mais alta (a que trazia o garotinho) chama-se Samira e é casada com um malabarista; e a outra…

Fez uma ligeira pausa e concluiu como se revelasse grave segredo de sua vida:

— A outra pretendo pedir em casamento dentro de uma semana. Chama-se Edna. É minha futura noiva. (Se Alá quiser!)

Aquela declaração deixou-me confuso. Se o mestre-escola reconhecera as duas jovens, por que não as convidara? Como explicar e justificar a queda diante de sua amada, em plena estrada?

— Seria indelicado convidar moças de minha amizade para ouvir lendas contadas por estrangeiro desconhecido. aproveitei a oportunidade para certificar-me do amor de minha eleita. Atirei-me ao chão simulando uma queda. Se Edna risse de mim, é porque eu teria parecido ridículo diante de seus olhos. Ora, o verdadeiro amor é cego para o ridículo e para os defeitos. Só tem olhos para as atitudes nobres, para os gestos dignos , para as qualidades que exaltam. E Edna não riu. Com gesto natural lamentou a minha queda. Posso, pois, confiar em seu amor.

Achei que não seria oportuno discutir, naquela ocasião, com o mestre-escola. Percebi que nele latejava o ardor imaginativo dos apaixonados. Admiti como verdadeira a teoria de que o namorado, rolando por terra de pernas para cima, diante de sua amada, poderia colher prova segura do verdadeiro amor.

Vendo-me pensativo, o mestre-escola, que era um incorrigível palrador, pôs-se a discorrer sobre o amor: 

— Grande coisa é o amor, grande e absoluto bem para a vida e para a morte! Torna leve o que é pesado; esclarece o que nos parece sombrio e apaga as tristezas de nossos corações. Aligeira os sofrimentos que nos torturam e faz desaparecerem as mágoas que nos entenebrecem a existência. O amor quer ser livre e alheio a todos os interesses materiais. Para dominar a vida procura colocar-se acima da própria vida. Nada mais doce, nada mais forte, nada mais sublime do que o amor. O Amor é o acabamento com que Deus achou acertado dar por finda a perfeição de sua obra.

Cortei as considerações sentimentais do noivo de Edna dizendo:

— Tratemos, sem perda de tempo, de obter os três ouvintes para a lenda. Deixemos para mais tarde essas digressões sobre o amor. Não te esqueças de que o egípcio está em minha casa a nossa espera. Em vez de apelarmos para os passantes desconhecidos, que a esta hora escasseiam, mais eficiente e mais seguro, a meu ver, seria convidarmos pessoas de nossa amizade. Aqui perto mora o corretor Chafid Bechara. É meu amigo. Vamos procurá-lo. Será o nosso primeiro ouvinte.

taleb aceitou, mais uma vez, a minha sugestão e seguimos para a casa do corretor Bechara.

-*-*-

— Precisamos de ti, meu caro Bechara. Serás um dos cinco ouvintes. Vamos para casa. O eloquente Zualil aguarda a vossa chegada para iniciar a narrativa.

Surpreendeu-nos o corretor com uma estrepitosa risada.

— Que ingenuidade a tua! — proclamou, em tom de menosprezo, sacudindo os ombros — Andas pelas ruas, importunas os amigos, perdes um tempo precioso, e tudo para satisfazer o capricho de um hóspede imbecil. E querem, ainda, que eu colabore nessa galhofa ridícula? Que fantasia! Tenho mais que fazer. Julgas então que eu deixaria minha casa, abandonaria meus interesses, para ir ouvir sandices e baboseiras de um aventureiro que pretende falar sobre “as sete pontas de um quadrado”?

-*-*-

Entretanto, o corretor finda por os atender. Não podendo abandonar seus lucrativos negócios, propõe que dois de seus auxiliares, um botânico e um matemático, acompanhem o narrador e o mestre-escola a fim de escutarem o viajante desconhecido contar a lenda “As sete pontas do quadrado”. No entanto, para completar o número de cinco pessoas, falta ainda um ouvinte.

-*-*-

O narrador em companhia do mestre-escola conseguem, afinal, mais três ouvintes, cumprindo assim a exigência do Viajante Desconhecido para que narre a lenda das “Sete Pontas do Quadrado”. Todavia… (imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

Deixamos a residência do corretor Bechara. Éramos quatro: o mestre-escola, o matemático, o botânico e eu. Faltava apenas um para completar o total exigido pelo narrador.

Não foi difícil encontrá-lo.

Ao passarmos junto de um muro coberto de hera, que se erguia um pouco depois da casa do corretor, demos com um jovem magro, pobremente vestido, que descansava sentado numa pedra, com o rosto apoiado nas mãos. Vestia uma blusa, mais esfrangalhada do que a túnica de um mendigo. Pela barba de quinze dias, pelas mãos calosas e pelos pés deformados, parecia pessoa de baixa extração.

Saudei-o atenciosamente e perguntei-lhe:

— Queres ir, agora, em nossa companhia ouvir uma lenda?

O rapaz arrancou algumas folhinhas de hera e esmagou-as entre os dedos. Quedou-se a olhar para mim numa expressão aflitiva e respondeu-me:

— Só iriei ouvir a lenda se me deres, antes de mais nada, duas fatias de pão.

— Terás o pão que quiseres — declarei com ar risonho para incutir ânimo ao faminto.

Durante a caminhada o ilustre Esber Ketum, o botânico, prendeu-nos a atenção deliciando-nos com preciosas informações alusivas a todas as plantas e árvores que encontrávamos. Encantou-nos ao discorrer sobre as flores. Algumas indicações conservei em minha desbotada memória:

— Não é só pelo expressivo arranjo de suas pétalas, pelo inebriante perfume que exalam e pelo colorido com que se enfeitam que as flores nos atraem. Apresentam-nos outros atributos com que se impõem ao nosso estudo e à nossa admiração. Uma tem propriedades medicinais; outra recorda um episódio famoso da história. Muitas apresentam certas funções misteriosas dignas da atenção dos sábios. Há flores que exprimem pensamentos e anseios do coração. Os antigos pagãos (queira Alá esclarecer esses infiéis!) consagravam a seus deuses e honravam seus heróis com diferentes flores. Os ídolos eram enfeitados com flores. Nas flores vão os poetas buscar inspiração. Têm sido elas cantadas pela gente simples do povo. Canta é, para as albas bem formadas, a maneira gentil de exaltar, aplaudir, elogiar, enaltecer e sonhar.

O teu sorriso é uma flor, // Vivo com ele no peito; // Sorriso de amor-perfeito, // Senão de perfeito amor! / Não me esqueças! Não me esqueças! // Clama a rosa em meu jardim. // Eu é que não digo nada // A quem se esquece de mim

Ao ouvir esses versos tão delicados, lembrei-me das trovas que o egípcio cantara em minha casa. E pus-me a recordá-las:

Saudade, flor que desperta // Tristeza no coração; // Saudades dos que se foram // Dos que não voltam mais, não!  / Não choro por me deixares // Que o jardim mais rosas tem; // Choro por não encontrares, // Quem te queira tanto bem!

Ocorreu nesse momento um episódio que nos causou profunda surpresa. O jovem da túnica esfrangalhada, que se conservara num mutismo de maníaco, abeirou-se de mim como um ébrio, passeou-me os olhos dos pés à cabeça, segurou-me pelo braço e ganiu com indizível aflição:

— Com quem aprendeste essa canção? Onde a ouviste?

— Ora essa! — exclamei tomado de indisfarçável espanto — Que vês de estranho ou surpreendente nessa canção?

E contei-lhe (pois não via motivo para ocultar a verdade) que ouvira aqueles versos de um egípcio chamado Zualil, meu hóspede. E acrescentei, fitando-o meio grave e meio alegre:

— Ele está em minha casa e logo que lá chegarmos vai nos deliciar com a narrativa de uma prodigiosa lenda.

Ouvidas essas palavras o rapaz deu um salto para o lado, arrancou o turbante, atirou-o ao chão e sem pronunciar palavra ou o menor gesto de despedida, desatou a correr como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto.

O jovem mendigo desatou a correr… (imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória.

— É um maníaco! — opinou o mestre-escola com ar compungido.

— Na vida desse moço — arriscou o matemático — existe um drama. Resta descobrir a relação entre a tragédia que o envenena e a canção que o perturba.

Depois de um minuto de circunspecção, opinou o botânico: 

— Não adianta comentar o caso. Todas as conjecturas feitas a tal respeito sairão inúteis e talvez erradas. O que se apura é, em suma, o seguinte: um jovem de aparência simples e humilde é convidado a tomar parte numa reunião. Aceita o convite e dirige-se, com um grupo de amigos, para o local marcado. Em caminhou ouve, casualmente, uma canção. Arranca do turbante e foge de nós numa corrida alucinada.

— Que faremos agora? — ponderou o mestre-escola — Lá se foi o nosso quinto ouvinte. Estamos novamente reduzidos a quatro e o egípcio exigiu cinco.

— Não nos preocupemos com isso — acudiu o matemático — De cinco para quatro a diferença é só de uma unidade. E não será difícil obter o quinto ouvinte.

Seguimos rapidamente para casa. Recostado ao portão avistei um homem modestamente vestido. Era um cego que eu costumava encontrar esmolando no mercado ou no pátio da mesquita. Saudei-o com simpatia e perguntei-lhe:

— Esperas alguém, meu amigo?

Respondeu-me o cego:

— A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar.

A inesperada declaração do cego deixou-me estupidificado. Caiu-me a alma aos pés. O meu hóspede partira e deixara um cego vigiando a minha casa. Um ímpeto de cólera apoderou-se de mim. Para atender um desejo do aventureiro eu andara, como um palhaço, a procurar “ouvintes” para a tal lenda. Durante a minha ausência ele desaparecera e deixava-me em situação ridícula diante de pessoas que haviam confiado em mim.

O cego

— O tal egípcio não passa de um tratante! — repisei revoltado. — As minhas desconfianças não eram, afinal, infundadas.  

E já ia despejar sobre o meu hóspede uma série de terríveis invectivas, quando o mestre-escola me puxou pelo braço e apontou para uma casa que ficava no extremo da rua.

Continua…

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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 4)

DEPOIS que Zualil, o viajante desconhecido, conta a história cujo título é “Aprende a escrever na areia”, oferece-se para regar os canteiros do jardim de seu anfitrião, o narrador deste capítulo e de outros. Observa ele que as plantas estavam secas e definhando. O anfitrião, porém, não consente.

Adianto que o narrador, fiel ao senso comum, persiste, a partir das aparências, em fazer o pior juízo das pessoas, diferente de Zualil.

Continuação da narrativa postada em 24jun2020.

Por Malba Tahan

CONVIDEI-O a voltar comigo à sala; abri a terceira janela e encostei a porta. No centro do tapete deixei o vistoso narguilé de prata, que refulgia como uma joia. Voltando-me para o meu hóspede num tom não isento de cerimônia, disse-lhe:

O mestre-escola (imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – 2º Voluma)


— Tem paciência, meu amigo. Ficarás sozinho por algum tempo. Vou preparar nossos manjares.

E encaminhei-me para o compartimento, na ala esquerda da casa, onde se achavam o armário com os comestíveis, os cestos com frutas e as caixas de farinha e cebola. Retirei um prato com peixe frito, bolos de nozes, pão fresco, limões e tâmaras cristalizadas. Acendi o fogo e pus água para ferver. Nesses pequenos afazeres e indispensáveis arranjos, demorei-me algum tempo. Quando cheguei de volta à sala, trazendo a bandeja com licor, tive a imensa surpresa de encontrar o meu hóspede em companhia de um desconhecido. Achavam-se ambos refestelados aconchegadamente, de pernas cruzadas, e conversavam como velhos amigos, gesticulando e bracejando com remetidas fantasiosas. O recém-chegado era magro, de cabelos grisalhos, olhos mortiços e fisionomia abatida. Trajava-se com extrema modéstia. Em sua túnica esfiapada multiplicavam remendos de vários feitios.


Vendo-me aparecer, Zualil, sempre atencioso, disse ao companheiro: 


— Eis aí, ó respeitável taleb, o nosso bom e generoso amigo, dono desta hospitaleira vivenda. 


E, a seguir, voltando-se para mim, acrescentou com meio sorriso, inculpando-se da presença do intruso:

— Espero que não te aborreças com este novo hóspede. Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal? Aprovas o meu gesto?


E procurava ler no meu rosto a impressão de suas palavras.

Fiquei estarrecido na escada com a bandeja de licor na mão. O egípcio pusera para dentro de minha casa, sem me consultar, o primeiro beduíno que avistara da janela, cruzando a estrada. A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros. Entretanto, cumpria-me o dever de homologar o convite feito. Não vi, no momento, solução mais oportuna para o caso. Disse, pois, com urbanidade convencional, encarando-o com tênue sombra de dissabor: 


— O convidado de meu hóspede é sempre bem-vindo.


E, a seguir, com expressões corriqueiras, saudei o desconhecido a quem Zualil concedera o tratamento de “respeitável taleb”:

— A paz sobre ti, ó forasteiro. Aqui partilharás do sal de minha toalha.

Retribuindo a amistosa saudação que eu proferira meio constrangido, o recém-vindo respondeu (a sua voz era metálica mas não me pareceu desagradável):


— Queira Alá cobrir com suas inestimáveis bênçãos os dignos moradores desta casa. Que a misericórdia do Onipotente afaste deste lar acolhedor as tentações e erros.

E, à guisa de apresentação, ajuntou risonho e mesureiro:


— Chamo-me Iezid Chakalid e exerço a árdua proifissão de mestre-escola1. Tenho por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas.


— Pois confirmo e reitero o convite formulado pelo meu amigo Zualil. — declarei — Consentes, ó taleb, em tomar parte em nosso repasto?

— Com o maior prazer! — anuiu sem cerimônia o mestre-escola — sinto-me profundamente honrado com o vosso convite.


Momentos depois distribui sobre rica toalha os diversos pratos que havia cuidadosamente preparado, desde os bifes de carneiro com cebolada até as pastas açucaradas, feitas de amêndoas e canela. 


O mestre-escola não se fez de rogado. Devorou, com invejável apetite, todos os acepipes que lhe foram oferecidos e, durante o largo tempo que durou a refeição, não cessou um só instante de tagarelar, declamar e discutir.


Lamentou o destino do sobrinho mais velho que se casara com uma dançarina; arengou sobre as plantas que afirmara conhecer em seus menores segredos; discorreu por conceitos religiosos e remédios capazes de curar, em dois dias, a sarna de um camelo; dissertou sobre pedras preciosas e também sobre a maneira mais segura de se empregar a bússola no deserto. Falou, com extraordinária eloquência, do maravilhoso tanque existente no Paraíso, segundo a crença dos muçulmanos:

Omitiremos aqui a longa narração do mestre-escola, que discorre sobre preceitos e crenças da religião islâmica.

-*-*-

Finda a refeição, preparou-se Zualil para partir. Vestiu a túnica, ajeitou o turbante, prendeu ao ombro o albornoz e ocultou o punhal sob a faixa.


— Ainda é cedo — declarei medianamente cortês, vendo-o pronto para seguir viagem.


— A jornada que empreendo é longa — respondeu-me com certa melancolia. — Longa e fadigante. Preciso partir. Quero, porém, retribuir de qualquer forma a generosa hospitalidade que recebi nesta casa. Ofereço-te, meu amigo, três coisas igualmente preciosas. Mas, dessas três coisas, só poderás escolher uma. As três coisas que te ofereço são: um segredo, um conselho e uma lenda. Vamos! Dize-me: que preferes ouvir? 

Fitei-o cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos! Qualquer outro, em minha situação, diria ao forasteiro: “Que me importam as tuas lendas, os teus segredos ou os teus conselhos. Mal avisado vai quem se preocupa com tais baboseiras. Dispenso o teu pagamento. Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti”. Julguei, entretanto, indelicado de minha parte tratá-lo assim. Disse-lhe, pois, meio sério e meio risonho:


— Não há motivo algum para hesitar na escolha. Acabas de pôr à minha disposição um segredo, um conselho ou uma lenda. Que faria eu com o segredo? Nada. Tenho em meu poder centenas de outros que não me proporcionam a menor vantagem e deles não colho um dinar de juros. Guarda, pois, contigo o teu segredo. Não o aceito. Quanto ao conselho, julgo-o mais despiciendo ainda. É a mais comum e amenos valiosa das moedas correntes. Qualquer pasteleiro ignorante, em troca de uma fava seca, oferece-nos uma infinidade de juízos edificantes. Os livros que se amontoam pelas bibliotecas estão repletos de advertências que ninguém segue e recomendações que ninguém ouve. Ora, que faria eu com um conselho a mais a perder-se no tumulto de meus pensares? Prefiro, portanto, a lenda. Aceito-a e desejo ouvi-la.


— Julgo muito acertada a escolha — opinou com entusiasmo o mestre-escola. — A justificação que a precedeu foi magnífica. Vamos ouvir a lenda adorável e profunda que esse nobre amigo vai narrar!

E ajuntou pesaroso:

— Que pena não termos aqui dois ou três músicos para acompanhá-lo!


— Iallah! — acudiu risonhamente o meu hóspede. — Que pressa é essa? A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se “As sete pontas do quadrado” e é uma das histórias mais assombrosas do mundo. Deveria ser narrada para uma multidão que compreendesse, no mínimo, 5.439 pessoas2! Repara bem: essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida – repito – por 5.439 pessoas! Sei, porém, que esta casa não comporta os 5.439. Por esse motivo, estou disposto a fazer uma concessão toda especial. Contarei a lenda logo que possas reunir aqui, nesta sala cinco ouvintes.


Iezid, o mestre-escola, riu gostosamente.


— Pela glória de Salomão! Que extraordinária condescendência! O nosso ilustre e eloquente amigo Zualil concede o privilégio excepcional de narrar aqui, para cinco convidados, a lenda que deveria ser ouvida por 5.439 pessoas! Foi notável a redução feita no total exigido.


— Torna-se, pois, necessário convidar mais três pessoas? — insisti com bom humor.


— De certo que sim — confirmou Zualil — vai procurar pelos arredores, ao longo da estrada, no caravançará junto à ponte, nas casas vizinhas, três conhecidos teus e traze-os aqui. Logo que os cinco estiverem reunidos, darei início à lenda.

Júlio César de Mello e Souza ou Malba Tahan (imagem: Internet)


Pela segunda vez assaltou-me o desejo de despedir o hóspede sem lenda e sem mais conversa. Que capricho tolo! Exigir que o dono da casa saísse a procurar pela vizinhança três pessoas que estivessem, naquela hora da manhã, disposta a ouvir uma narrativa fantasiosa. O melhor seria optar pelo conselho e abandonar a lenda.

Continua…

  1. Professor;
  2. O número é produto de 777 x 7.

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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 3)

Continuação da postagem de 23jun2020.

Por Malba Tahan

SENTI-ME sem ânimo para contrariá-lo. Respondi com uma solicitude um tanto forçada:

— Com o maior prazer!

Despedi-me do hóspede, desejei-lhe um sono tranquilo e reconfortante e subi para o meu quarto que ficava no pavimento superior da casa. Era uma noite ameníssima. O céu, sem lua, polvilhado de estrelas, deslumbrava com os diamantes de suas constelações. Ouvia-se ao longe o ganir de um cão e guarda. Pela manhã, ao despertar, tive uma das grandes surpresas de minha vida. Vou contar.

Quando acordei, depois de um sono cheio de inquietação, já bem longe ia a hora do El-fedsjer. Acerquei-me da janela e pus-me a admirar, embevecido, a estada de Bagdá, as tamareiras floridas e, ao longe, a curva prateada do rio. Homens do campo, com seus trajes grosseiros, dirigiam-se para o trabalho: mercadores de melancia e cebola, puxando magríssimos camelos de sela, seguiam o rumo do velho suk. O ar andava impregnado de um frescor de orvalho; cantavam aves alegres em todas as árvores.

Sentia-me, naquele começo de dia, de espírito leve e bem disposto. A claridade suave da manhã era como uma tâmara doce para os meus olhos. O vento trazia-me o perfume de várias ervas. Lembrei-me de Zualil, o viajante misterioso, o surpreendente aventureiro que eu acolhera como hóspede naquela noite. Teria ele despertado mais cedo para a prece?


Cumpria-me o delicado dever de chamá-lo no mesmo instante e oferecer-lhe ligeira refeição.

O Viajante Desconhecido, (imagem extraída do livro Mil Histórias Sem Fim – 2º Volume, de Malba Tahan)


Desci. A sala, em que deixara o egípcio, esclarecida por duas das três amplas janelas, estava vazia. A porta que abria para o jardim, apenas encostada, com a tranca fora do lugar, fizera-me compreender que o hóspede já havia partido. Aproveitara-se, de certo, do silêncio da madrugada para retomar sua jornada interrompida.

Suja, bem suja, é a ingratidão dos homens — disse de mim para mim, tendo o coração oprimido por veemente tristeza. — Aquele forasteiro, de aparência simpática, por mim acolhido com tanta cordialidade e que, de minhas mãos, recebera o pão e o sal da hospitalidade, fugia de minha casa como um beduíno criminoso, sem palavra de despedida, sem gesto de agradecimento. Que velhacada! Que mau impulso o teria levado a proceder daquele modo deselegante e censurável?

Estranho pressentimento assaltou-me bruscamente. Olhei para o canto da sala em que habitualmente colocava o valioso narguilé de prata. A peça não se achava mais ali. 

Fui roubado!

Apoderou-se de mim, desorientando-me, violenta e incontida onda de rancor. O viajante que eu recebera e agasalhava não passava, afinal, de um rapinante vulgar, chacal imundo, sem escrúpulos, que não hesitava em violar os sagrados deveres da hospitalidade. Iludido em minha boa fé, eu o supusera homem de bem. Chega mesmo (como fora ingênuo!) a acreditar em todas as peripécias que ele fantasiara para enganar-me com sua lábia. As incríveis aventuras do Egito, os perigos a que se sujeitara, o casamento com a tal princesa marroquina, a conspiração fracassada, a fuga para Damasco, o tesouro entregue a servo… Mimoseava-me, afinal, com seus versos cheios de doçura e encantamento e, por fim (com todos os mistérios e cantorias), não passava de um ladrão ignóbil que promete a baraka e acaba roubando um narguilé.

Estava eu absorto em tão sombrias cogitações, quando ouvi alguém cantarolar alegremente no jardim:


Se me levasses, um dia, // Ao oásis do teu amor,  // Ver-me-ias tamareira  // Dando sombra, fruto e flor!


Acerquei-me rápido da porta, abri-a e olhei para fora.

Sentado ao chão, ao lado da fonte, sob o sol tranquilo da manhã, avistei Zualil, o viajante. Estava descalço e com a cabeça descoberta. Sustentava na mão esquerda, apoiado no joelho, o precioso narguilé e ocupava-se com extraordinário cuidado em limpá-lo esfregando com um pedaço de pano. Tão absorvido estava naquele trabalho que não deu pela minha chegada.

— Olá! — chamei-o — Já estás aí há muito tempo?

Ergueu para mim o rosto risonho e colocou diante de si, com gestos cautelosos, o narguilé que rebrilhava ao sol. 

— Estás surpreendido por me veres aqui? — perguntou-me. Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada. Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob o peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece, vi que o teu depósito de água estava quase vazio. Tratei de enchê-lo e, nesse trabalho, ocupei-me algum tempo. Finda a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala em que havia pernoitado. Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado.

E, apontado para o narguilé, observou animado pelo meu silêncio:

— É uma joia! Já leste com atenção as legendas que nele aparecem?


Não respondi. fiquei de pé, os braços cruzados, a fitar aquele homem singular. Mas quem seria ele, afinal?

— Escuta, meu amigo — disse-lhe em tom decidido e sério — quero pedir-te perdão por uma falta gravíssima que acabo de pratica. Fiz de ti, há poucos momentos, um juízo falso e calunioso. ao notar a tua ausência e não encontrando mais esse narguilé no lugar em que havia deixado, concluí que havias fugido de minha casa, ao raiar da madrugada, roubando-me o narguilé. Fui leviano e injusto. Arrependo-me agora de ter sido tão precipitado em meu julgamento.


— Ora, ora — tornou Zualil, com sorriso meio forçado, sem se mostrar ofendido. — Não é caso para arrependimento e peço-te que não te preocupes e não te amofines com tão pouco. Todas as aparências eram contra mim e as aparências enganam ao mais avisado dos homens. O mundo anda cheio de miragens e mentiras. A vida é uma escola em que a desconfiança é o mestre-escola(1) e a má vontade para com o próximo é o “Alcorão”. Admira-me a tua sinceridade e a forma leal e delicada de teu proceder. Raras, bem raras, são as pessoas que se arrependem e confessam os falsos conceitos que formulam em relação aos outros. A tua atitude é o bastante para te redimir do erro.

E depois desse desafogo, como se quisesse desviar o rumo de nossa palestra, apontou para a base do narguilé e interpelou-me sem o menor azedume:

— Já havias reparado na legenda que aqui está? 

Fui forçado a confessar que jamais tivera a minha atenção voltada para os versos que serviam de adorno ao narguilé.

Correndo lentamente o dedo da esquerda para a direita, Zualil, sem hesitações, proferiu: “Aprende a escrever na areia”.

Omito, para encurtar as narrativas, aqui o capítulo em que o viajante misterioso conta a história cujo título é “Aprende a escrever na areia”.

Continua…

Reeditado de 08set2017.

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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 2)

Continuação da postagem de 22jun2020.

Por Malba Tahan

NÃO creio que exista sob o céu de Alá homem que tenha tido vida mais enliçada e incerta. O infortúnio várias vezes com seus golpes imprevisíveis fez-me rolar ferido pelo chão, mas o desânimo jamais pisou-me sobre o corpo. Lutei pela vida; lutei sempre com destemor e constância. Começo por dizer que o meu nome é Zualil Delach. Nasci em Reyâk, pequena aldeia do Líbano. Nessa terra admirável, onde os sonhos vão buscar inspiração na realidade, passei os primeiros anos de minha infância.

Imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – 2º Volume”, de Malba Tahan.

As reminiscências desse tempo enchem-me de saudades o coração. Por tristes imposições do destino viu-se meu pai obrigado a abandonar o torrão natal e mudar-se com a família para o Egito, país que perlustrei por 32 anos. Logo que deixei a escola dos ulemás do Cairo, com meu curso completo, dediquei-me ao comércio de jóias e especiarias. A vida errante, entretanto, exercia profunda atração sobre mim. Empreguei-me como guia de caravanas e cheguei a traficar com régulos negros que tiranizavam grandes tribos no interior do Sudão. Com os lucros auferidos de minhas longas e arriscadas excursões pelo interior africano, adquiri extenso e fértil lanço de terra e fiz-me criador de carneiros. Uma peste, que assolou a região, dizimou por completo dos os meus rebanhos. Achei-me, de um momento para outro, reduzido a extrema pobreza. 

Forçado a angariar a minha subsistência, aceitei um emprego modesto: zelador de um marabu. Mas o fanatismo dos muçulmanos ortodoxos, as lutas intermináveis entre seitas rivais, as discussões e intrigas dos tolbas exacerbaram-me. Afastei-me da vida religiosa e fui viver em Alexandria onde exerci a profissão de escriba e intérprete. Instigado por alguns amigos, que percebiam em mim qualidades excepcionais, arvorei-me em médico. Exerci com habilidade e eficiência a medicina; realizei curas assombrosas que maravilharam menos os outros do que a mim próprio. A minha forma de agir, no combate às enfermidades, em muito diferia da adotada pelos charlatães e nigromantes. Aconselhava certos sucos de ervas; aplicava a sangria; receitava a salsaparrilha e chá de alface e nunca obriguei um doente a ingerir carne seca de cobra ou pó de camaleão para curá-lo das febres intermitentes. Sempre condenei a aplicação do ferro em brasa no tratamento das feridas. Bem sabia que os médicos marroquinos receitavam versículos do Alcorão que o doente era obrigado a mastigar e a engolir. De tais recursos jamais me servi.

Neste ponto fez uma ligeira pausa, passou lentamente a mão tatuada pela nuca e prosseguiu:

Ali Messud, grande chefe marroquino,  curado de grave enfermidade, concedeu-me sua filha, a formosa princesa Zobeyden, em casamento. Ao fim de alguns anos senti-me desiludido da profissão de médico. As dores físicas para as quais eu não encontrava alívio, os males sem remédio e as angústias inexprimíveis dos que apelavam para o auxílio de minha limitadíssima ciência deixaram-me a alma retalhada e cheios de tormento o coração. Nesse tempo eu possuía valiosíssima coleção de pedras preciosas. Achavam-se em meu cofre cento e três rubis e trinta e dois brilhantes de alto quilate. Vou tentar outra forma de vida — pensei levado pelo meu intransitivo desejo de correr mundo. Deixei a mulher e os filhos em companhia de meu sogro e parti para a cidade do Cairo levando todas as minhas valiosas gemas. Tinha a intenção de vender, por bom preço, as joias e, com o lucro obtido, adquirir terras para o plantio de algodão. O meu ideal foi sempre esse: viver da riqueza, mas produzindo riqueza. Ao chegar ao grande empório do Nilo, encontrei o povo agitado por intensas lutas políticas. Mal aconselhado por dois cunhados (irmãos de minha esposa) inimigos irreconciliáveis dos turcos, tomei parte numa conspiração contra o vice-governador do Egito, o perverso Ayad-Ben-Mohamed, que praticava as maiores arbitrariedades no poder. O nosso plano, para derrubar o governo e tomar conta da cidade, foi muito bem elaborado. A traição de um copta pôs tudo a perder. Fui preso juntamente com vários cúmplices e condenado à morte. Auxiliado pela dedicação de alguns amigos, logrei fugir do presídio disfarçado em derviche, e, depois de mil peripécias incríveis (será longo relatá-las todas), fui encontrar refúgio seguro na cidade de Damasco. Ocultei-me, com Mustafá Nachib (um servo dedicado que viera comigo do Cairo), no quintal de uma pequena carvoaria. Receoso de ser apanhado pelos agentes do vice-governador, pois vários espiões andavam dia e noite à minha procura, escondi todas as pedras preciosas (que consegui trazer do Egito) cosidas por dentro das dobras de meu cinto. Esse cinto encerrava em suas costuras verdadeiro tesouro. Eram noventa rubis e 25 brilhantes. As outras pedras haviam sido vendidas ou oferecidas àqueles que me haviam ajudado a fugir. Depois de refletir longamente sobre os perigos e incertezas do destino, tomei uma resolução firme e decisiva. Entreguei o precioso cinto ao fiel Mustafá e disse-lhe: “Seguirás, meu caro, com este cinto oculto sob a túnica para Bagdá. Ninguém desconfiará de ti. Quem poderia supor que um modesto servo transporta todos os haveres de um xeique? Poderás, portanto, viajar tranquilo. A cobiça dos rapinantes não terá olhos suspeitosos para ti. Dentro de seis meses, no terceiro dia de Nissan, esperarei por ti na bela Cidade dos Califas, junto ao túmulo do venerável Abu-Hafiné. Uassalã!”

Malba Tahan (imagem: Internet0

Aqui o meu estranho hóspede levantou-se, chegou à janela e olhou para o céu como se estivesse em busca de uma estrela. Decorridos alguns minutos, voltou outra vez para o lugar onde se achava e retomou tranquilo o fio de sua narrativa.

Dois dias depois, ao cair da tarde, partiu o valente Mustafá para a tumultuosa Bagdá, alistado em imponente caravana de peregrinos damascenos. Era minha intenção permanecer mais duas ou três semanas na Síria, despistar os meus implacáveis perseguidores, e seguir, depois, ao encontro do meu servo, no local e hora já aprazados. Tais planos fracassaram por completo. Grave enfermidade prendeu-me ao leito durante mais de seis meses. Várias vezes a morte pisou em minha sombra. Quando recuperei o dom precioso da saúde, era deplorável a minha situação: só, sem recursos e perseguido, dia e noite, pelos espias do tirano egípcio. O carvoeiro El-Hakim, em cuja casa eu me acoitara, ajudou-me com admirável dedicação nesse transe perigoso. Disfarcei-me em cameleiro armênio e alistei-me numa caravana que levava para o Iraque dois sacerdotes cristãos. Depois de várias peripécias (que eu jamais desejarei recordar), cheguei a esta bela e famosa cidade. E isso oito meses depois do prazo combinado com o fiel e abnegado Mustafá. Como encontrá-lo? Certo estou de que ele procurou por mim; esperou uma, duas, cinco semanas. Vendo que eu não aparecia, presumiu que a morte houvesse encerrado o meu desordenado viver. É bem possível até que tivesse deliberado voltar, a minha procura, para Damasco. Fui informado de que para além de Amrã, entre duas colinas pitorescas, existe um oásis onde residiam alguns parentes de Mustafá. Convinha pesquisar. Fui até lá, interroguei os velhos caravaneiros, visitei as tendas e nada encontrei. E hoje quando, triste e fadigado, retornava dessa inútil peregrinação, parei à porta de tua casa e fui por ti recebido. Sou forçado a concluir que o meu fiel Mustafá não se acha mais nesta cidade. Qualquer pesquisa será inútil. Seja feita a vontade de Alá!

E ficou a pensar imóvel, os olhos fitos na luz.

A figura do aventureiro egípcio pareceu-me profundamente romântica e estranha diante das duras realidades da vida. Confiava, com ingenuidade de uma criança, todos os seus haveres a um servo e a ajustava com o portador do fulgurante tesouro uma entrevista incerta, à sombra de um túmulo, na opulenta Bagdá. Quem seria capaz de nos assegurar da lealdade do servo? Mustafá era pobre. Em sua vida trabalhosa, percorria a estrada das privações inacabáveis. De repente, sem esperar, vê-se inteiramente livre, tendo a seu dispor um amontoado de joias de alto preço. E iria (uma vez dono e senhor de seu destino) devolver toda aquela fortuna ao amo? Palpitava-me que o ativo Mustafá jamais cogitara de encontrar-se com o xeique. Abalou, com a primeira caravana para a Índia ou alguma remota cidade da Pérsia, e foi gozar a existência de um príncipe, dissipando em festas e banquetes os rubis cintilantes do egípcio.

Silenciei as minhas desconfianças. Para que levar a dúvida e a inquietação ao espírito de meu hóspede? Limitei-me apenas a interrogá-lo, demonstrando interesse de bom amigo. 

— E agora? — perguntei— Que pretendes fazer?

Decorrida breve pausa, respondeu-me desconsolado:

— Seguirei amanhã para Mossul e lá ficarei aguardando o teu chamado. Estou certo de que brevemente precisarás de mim para algum cargo de prestígio.

E já reanimado, erguendo o rosto:

— Permites que eu cante aqui algumas canções de minha terra?

— Iallah! acudi radiante — Com o maior prazer. Adoro a música; a poesia exerce sobre mim grande fascinação.

Zualil ergueu-se, tomou do pequeno alaúde que repousava ao lado do narguilé, dedilhou suavemente as cordas e pôs-se a cantar com profunda melancolia:

Saudade, flor que desperta // Tristeza no coração;//Saudade dos que se foram, // Dos que não voltam mais, não. // Quem tudo quer, tudo perde // Há muito reza o rifão; // Quis a rosa dos teus lábios, // Espinho feriu-me a mão. // Não choro por me deixares, // Que o jardim mais rosas tem,  // Choro por não encontrares, // Quem te queira tanto bem.


E ali ficamos sentados na maior camaradagem, recordando episódios do passado.

De quando em vez a flecha da suspeita cortava-me o pensamento:

“Aquele singular aventureiro que eu recebera e hospedara em minha casa seria realmente digno de confiança? Qual fora o seu intuito ao prometer-me a baraka?” 

Em dado momento fitou-me risonho:

— A fadiga pesa-me nos olhos. O sono convida-me ao descanso. Permitirás que eu passe a noite em tua casa?

Reeditado de 06set2017.

Continua…

L.s.N.S.J.C.!