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A FAB e a Revolta de Jacareacanga!

… Continuação da postagem de 31maio2020.

CONCEITUADOS pela sociedade como arautos da moralidade, esses moços bem-nascidos, internamente, ou seja, do lado de dentro dos muros dos quartéis, estabelecem uma claríssima divisão de classes. De um lado, os comandantes e chefes, os oficiais, cuja origem social está nas classes mais privilegiadas do país, e, de outro, as praças, aí englobando do suboficial (no caso da Aeronáutica e Marinha; subtenente, no Exército e nas polícias militares) até o soldado, com alguns poucos privilégios e distinções dos sargentos e suboficiais em relação aos cabos, soldados e taifeiros. Para um praça, o oficial é considerado uma espécie de semi-deus; igualmente visão tem a sociedade civil. Até hoje lembro dos oficiais da Escola de Especialistas, instituição militar onde entrei com apenas dezesseis anos. Em dia de chuva, de longe um oficial podia ser distinguido por causa das insignias, claramente ostensivas de modo que aluno algum (ou suboficial, sargento, cabo ou soldado) jamais tinha como confundi-lo, chamando-o de “você” ou mesmo deixar de saudá-lo com a devida continência regulamentar. Na década de 1950, a diferenciação era muito evidente, e assim — por exemplo — no refeitório dos oficiais era servido do bom e do melhor, inclusive o desjejum (refeições dignas de um príncipe, com os taifeiros trajados à caráter); já para os praças a comida era apenas razoável, contando sempre com a má vontade dos taifeiros. Os uniformes, embora da mesma cor (cáqui), também eram ostensivamente diferentes e até o sapato do oficial era marrom e não preto, como o dos praças. O oficial tinha praticamente o poder de mandar recolher ao xadrez. Isso tudo não é de graça: havia claramente uma distinção de classes, bem diverso do que preconizam os regulamentos, que enfatizam o espírito de corpo. Com o advento da Aeronáutica, essa força obteve das classes sociais elevadas a preferência. Antes era a Marinha em relação ao Exército, e assim, há naturalmente uma hierarquia social entre as três forças. Na FAB, além de oficial militar, o jovem teria o status de ser chamado de aviador. Dessa forma, o sonho de toda família era casar suas filhas com um oficial-aviador. Enquanto o oficial provinha de classe social elevada (com raríssimas exceções, pois de vez em quando algum pobre consegue entrar de penetra), os praças em sua maioria absoluta vêm das classes populares, da pobreza, da periferia e do interior, ou seja, já vem humildes lá de fora, prontos para obedecer. Veloso e Lameirão foram gerados nessa realidade.

Os jornais fantasiavam criando um clima de pânico. Isso vendia jornais. (imagem: Google)

Feitas essas considerações, voltemos àquele sábado, 11 de fevereiro de 1956.

Timidamente, um oficial, já com o avião em movimento, dá alguns tiros tentando acertar os pneus do AT11 Beechcraft, talvez tenha torcido para não acertar o alvo. Indiferentes ao fato e à não autorização da torre, Veloso e Lameirão decolam rumo a Cachimbo, deixando atônitos os controladores de voo. São mais ou menos seis da manhã.

Veloso é por natureza um homem discreto e, como era de se esperar, a missão fora planejada em segredo, pois, além dos dois oficiais executores, apenas duas outras pessoas sabem do plano. Elas estão incumbidas de fazer os necessários contatos com as unidades aéreas, a fim de dar todo o suporte material e bélico ao movimento, desencadeando a insurreição por todo o território brasileiro. As demais unidades aéreas da FAB, com grande poder de fogo, sediadas em Fortaleza, Recife e Salvador, de imediato tomarão parte da missão, rumando para Jacareacanga, região remota do país, onde, devido às dificuldades de logística, não devem ser alcançadas, tampouco combatidas com facilidade. Os revoltosos passarão a ditar as regras. Em seguida, os colegas da Marinha também entrarão em cena, manobrando os navios de modo a não permitir embarque das tropas mobilizadas para combater os revolucionários. Dar-se-á um efeito dominó. Não tem como falhar — imaginam.

O sábado se constitui numa dura jornada para os dois corajosos — porém temerários — oficiais, porque o AT11 é uma aeronave sem grande autonomia. Assim têm, nessa jornada, que fazer pousos intermediários em Uberlândia, Aragarças, Xavantina e Cachimbo, sendo esta última pista de aviação – assim dão a entender – o destino da dupla, onde se refugiariam. Mas, chegando a Cachimbo, voam para Jacareacanga, estado do Pará, margem oeste do rio Tapajós, onde efetivamente os dois oficiais montam seu quartel-general.

A Revolta de Jacareacanga, que os livros de História escondem, foi notícia nos principais jornais do país. (imagem: Google)

Cachimbo, destino bastante óbvio pela ligação de Veloso com a pista de aviação, é, portanto, apenas um despiste. Seu plano real é fazerem sua base de operações em local mais remoto, mais isolado, um lugar onde não possam ser alcançados por terra e cujo acesso fluvial é bastante difícil. Dessa maneira ganharão tempo, enquanto seus companheiros dos demais esquadrões de combate da FAB se preparam para juntar-se a Veloso e Lameirão. Chegam exaustos ao destino dez horas mais tarde, por volta das dezesseis.  Em cada um dos aeródromos por que passaram, mal pisam o solo e tratam de: primeiro: intimidarem o encarregado, geralmente um sargento, com sua hierarquia (se não der certo, se utilizam de armas de fogo); segundo: inutilizarem o equipamento de rádio, retirando o cristal, de modo a não serem denunciados, e assim atrasar a perseguição aérea por parte das forças legalistas.

Em Jacareacanga, assim que pousam, Veloso dá voz de prisão ao efetivo destacado — um sargento e cinco ou seis cabos e soldados, além de alguns civis –, que são obrigados por ele a imediatamente obstruíram a pista de pouso com a colocação de troncos de árvores, tambores de combustível vazios e outros objetos em toda a sua extensão. Os oficiais rebeldes passam então a comandar aquele pequeno destacamento militar, que dista de três a quatro quilômetros do rio Tapajós, estruturando-o para a resistência. Aguardam então o tal efeito dominó nas bases aéreas.

Logo depois, já com os últimos raios de sol, embora cansados, dirigem-se logo ao vilarejo, a fim de localizar Cazuza, como é conhecido o caboclo José Barbosa Filho, elemento de confiança, que é por Veloso simbolicamente declarado cabo. Podemos imaginar o quanto esse ato simbólico tenha massageado o ego de um homem humilde como ele. Para o agora cabo Cazuza, é “Deus no céu e o major Veloso na terra”; está disposto a tudo por seu comandante, até mesmo arriscar a própria vida, embora não tenha ideia da luta em que está agora empenhado. Logo corre a conversa na localidade sobre a presença de Veloso e populares se acercam dele e de Lameirão, prontos a servi-lo.

No meio daquela gente simples, mas que ignora inteiramente os meandros da política nacional, Veloso se sente entre lisonjeado e constrangido — por tímido que é — com o tratamento amável que aqueles caboclos e suas famílias lhe dispensam. Seu semblante, ele sisudo por natureza, denuncia a alegria ao revê-los. Conhece a quase todos pelo nome ou apelido e a vários deles cuidou com remédios, a outros lhes deu roupas usadas, e a um ou outro até mesmo deu dinheiro para suprir eventuais necessidades. Tudo durante o tempo em que trabalhavam na construção da pista e das outras construções do campo. É um povo pobre, quase miserável, que, inocentemente, estimam aquele homem de farda como um pai.

A missão de agora se apresenta mais complexa, bem mais complexa, que apenas construir pistas. Bem mais complexa.

Após uma breve conversa, sem entrar em pormenores, auxiliados pelo cabo Cazuza, reúnem e armam a quase todos, que agora se constituem em soldados fiéis ao comandante Veloso e ao subcomandante Lameirão. O contingente disponível e voluntário não é suficiente, sendo necessário também contar com a ajuda de índios mundurucus, perfazendo um total de aproximadamente duzentos “soldados”, conforme se apurará mais tarde.

A partir de então, Veloso e Lameirão passam longas e entediantes horas a monitorar as comunicações da 1ª Zona Aérea, procurando saber do movimento de tropas que certamente serão mobilizadas para lhes dar combate.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, ao ser comunicado da rebelião pelo ministro da Aeronáutica, o presidente Juscelino Kubistchek assim declara:

“Trata-se de uma incontida explosão de ódio acumulado, pois nem tive ainda tempo de errar. Usarei de energia e severidade contra aqueles que falharem nos deveres da Pátria, ameaçando o regime”.

Não se poderia esperar outra atitude da parte de JK. Tais palavras dizem com todas as letras que o governo federal não está disposto a dar vida fácil aos revoltosos. Diante desse gravíssimo fato, é preciso que o presidente assim se pronuncie de modo a não transparecer a seus adversários ser um homem medroso e pusilânime, e assim dar senha que a rebelião prospere; ao mesmo tempo, não convém passar outra imagem a seus eleitores e ao povo em geral.

Quanto ao clima reinante nas altas esferas da FAB, os registros existentes divergem. Para alguns jornalistas, a reação foi imediata, sem vacilações; já a maioria deles, querendo talvez valorizar o episódio, a fim de vender mais jornal, noticia nos primeiros dias que a Aeronáutica e a Marinha fazem corpo mole.

Pode ser que veladamente ocorra essa espécie de má vontade da parte do ministro e dos demais oficiais-generais a ele diretamente subordinados. Alegando dificuldades, é possível que o próprio ministro, o brigadeiro Vasco Alves Secco e — dizem alguns historiadores — um comandante da Marinha em Belém, acabam por retardar as primeiras ordens e ações de combate à rebelião. É claro que, por força dos cargos que ocupam, essas autoridades militares não o dizem abertamente. Numa linguagem futebolística, o caso parece aquele jogador que corre para não chegar na bola. Mas a verdade é que essas autoridades, por força da relevância dos cargos que ocupam, agem de imediato contra os rebeldes, embora — como veremos adiante — o próprio brigadeiro Alves Secco seja eduardista, embora ostensivamente não o professe. De fato, a dificuldade está na oficialidade que se situa entre capitães a tenentes-coronéis, vez que a maioria dos oficiais — como aqui já expomos — da Aeronáutica e da Marinha são francamente hostis a Juscelino, além, naturalmente se oporem a dar combate a um colega de farda. O predestinado JK, no entanto, conta com a fidelidade da maioria do Exército, personificada na liderança férrea do general Lott, e isso mais uma vez vem a favorecê-lo, contrariando as pretensões políticas de oficiais de mar e de ar.

Passamos a detalhar o clima reinante nos quartéis, em especial da Aeronáutica.

Com o país já em estado de sítio há três meses, situação que já vem desde 11 de novembro de 1955, o ambiente nos quartéis das três forças (principalmente da Aeronáutica), agravado pela rebelião recém-promovida por Veloso, então se apresenta como o mais tenso possível. Os comandantes de unidades militares, aferrados à legalidade, à hierarquia e à disciplina, a que juraram perante à Bandeira, determinam a caça às bruxas. Por determinação dos comandos superiores, criam nas respectivas unidades militares subalternas a figura do superior-de-dia. Assim, além do oficial-de-dia, que cuida da rotina diária, um major ou capitão passa a dar serviço diário na unidade, com a missão de controlar o efetivo, tendo poderes de recolher ao xadrez suspeitos de qualquer infração disciplinar, por leve que seja esta. Decreta-se “prontidão parcial”, podendo a situação evoluir para “total”, sendo que qualquer fato anormal verificado no seio da tropa deve ser levado de imediato ao conhecimento do comandante, de modo a situação ser avaliada e, sendo o caso, prontamente reprimida. O ambiente de cizânia, que já existia antes desde agosto de 1954, chega ao seu ápice, com os oficiais e praças, por exemplo, sendo proibidos de se reunirem em grupos de dois ou mais, para não ser configurado motim. Na mesa de rancho, o mais antigo presente será responsabilizado por qualquer comentário de teor político-partidário, a menos que leve, em menor tempo possível, o fato ao conhecimento de seu superior, sob pena de ele próprio, considerado conivente, sofrer severa punição, pois, como se sabe, mato tem olho e paredes têm ouvidos.

Nessa rebelião, em particular, na Aeronáutica, principalmente na Base Aérea de Belém, significativo número de oficiais-aviadores são presos disciplinarmente por se negarem a dar combate aos revoltosos, seus colegas, hipotecando-lhes solidariedade. Além disso, os hangares e demais locais onde se localizam aviões, combustíveis e armamento passam a sofrer severa vigilância, com a ativação de postos adicionais de sentinela. Quanto à sargentada e aos cabos, soldados e taifeiros, estes nada sabem, a não ser o que noticiam diariamente os jornais com boa dose de exageros. Para a absoluta maioria deles, independente do lado que vencer, nada mudará para o bem ou para o mal; apenas cumprem regularmente suas funções, dizendo “sim, senhor” ou “não, senhor”, desde que haja a garantia do soldo no final do mês.

Continua…

Referências:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_Coimbra_Veloso
  3. MOREIRA, Pedro Rogério. Bela Noite para Voar: um folhetim estrelado por J.K.. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
  4. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, edição de 24fev1956, sábado.
  5. https://www.infoescola.com/historia-do-brasil/revolta-de-jacareacanga/ , acessada em 02jun2020.
  6. Visão pessoal do autor.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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