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A FAB e a Revolta de Jacareacanga (parte 2)!

... Continuação da postagem do dia 03jun2020.

NESSE mesmo dia, o fatídico 11 de fevereiro de 1956, desembarcando na Capital Federal, o brigadeiro-do-ar Antônio Alves Cabral, comandante da Primeira Zona Aérea, é pessoalmente informado pelo brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Melo, o Melo Maluco, sobre a insurreição ocorrida e das providências imediatas que a situação requer da parte da FAB. Belém, sede da Primeira Zona, comandada pelo brigadeiro Cabral, equivalente à toda Amazônia Legal, nessa década é considerado um fim-de-mundo. Para lá iam transferidos a castigo oficiais e sargentos considerados problemas. Isso naturalmente não se aplica aos comandantes; ao contrário, é um prêmio bastante cobiçado. Mas é exatamente pela distância da Capital Federal que agora o brigadeiro Cabral encontra-se no Rio de Janeiro, onde tratará de assuntos de interesse de seu comando e de unidades subalternas.

Major Veloso (imagem: Google)

O brigadeiro Cabral, mineiro de Divinópolis, é um apaixonado pelas coisas da Força Aérea Brasileira, um entusiasta cujo nome está registrado no rol dos pioneiros da aviação militar brasileira. Isso porque ele foi um forte defensor da união das duas aviações, a militar e a naval. Na década de trinta, o então capitão Cabral, da arma de aviação do Exército, encabeça um grupo de oficiais das duas aviações (a militar e a naval) com vistas a uma acalorada discussão do tema: a criação do Ministério do Ar. Criado o Ministério em janeiro de 1941, automaticamente todos os oficiais recém-transferidos para a FAB ganham um posto, o que impulsiona as respectivas carreiras. Por isso, e pelas razões já por nós aqui registradas (a má vontade de capitães, majores e alguns tenentes aviadores), ele próprio comandará uma expedição que dará combate a Veloso e seu grupo. Como bom mineiro, não titubearia, portanto, arriscando sua carreira, pois, como se sabe, todo capitão quer ser major assim como todo brigadeiro de duas estrelas almeja ganhar mais uma. Não sujaria sua bela biografia em função da loucura de uns dois ou três aventureiros.

De posse da informação passada por Melo Maluco, o oficial-general se encaminha ao Gabinete do Ministro, o brigadeiro Vasco Alves Secco, de quem recebe instruções. Despedindo-se da autoridade, dirige-se agora à sala de radiotelegrafia, a fim de passar imediatas e urgentes ordens ao coronel-aviador Almir dos Santos Policarpo, seu chefe de Estado-Maior. Este oficial, ciente da gravidade da situação, mandará o quanto antes tropas da companhia de polícia para proteger os campos de aviação da região conflagrada, alvos em potencial da parte dos oficiais rebelados, que podem tomar de assalto também esses aeródromos e os adjacentes. Os oficiais comandante dessas guarnições (Santarém e Itaituba) já estão escalados: tenente Glazner e Chaves, respectivamente. (Nota: há divergências entre as fontes: uns mencionam só o tenente Glazner)

Todavia, o ministro Alves Secco, um gaúcho de Porto Alegre, e o brigadeiro Cabral não têm a mínima ideia do grau de resistência que logo encontrarão no seio da FAB. Não obstante, a sorte parece estar do lado dos legalistas. No dia seguinte, por meio do oficial de operações, o coronel Policarpo é informado de uma aeronave a serviço do Correio Aéreo Nacional, procedente de Caiena, Guiana Francesa. Trata-se de um Douglas C47 matrícula 2059, comandado pelo major-aviador Paulo Victor da Silva, tendo como copiloto o tenente Carlos César Petit de Araújo, e os sargentos Jorge João Günther Pfiffer, Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço, completando a tripulação. É nesse avião que embarcarão os homens para guarnecer os campos. O brigadeiro Cabral, que está regressando, é informado de cada passo.

Brigadeiro Alves Secco, ministro da Aeronáutica (imagem: Google)

No dia 13, antes de Paulo Victor, o major José Guilherme decola num AT11 Beechcraft (C-45) com destino a Jacareacanga, levando consigo panfletos a serem lançados sobre o aeródromo. Os papéis contém mensagem para que os revoltosos se entregue e que a população desobstrua a pista. Em Santarém dá ordens ao comandante do destacamento, tenente Braga, que seguisse com a tropa para Jacareacanga no avião que estará vindo sob o comando do major Paulo Victor. A ordem é cumprida, deixando Santarém temporariamente desguarnecida.

Apresentando-se ao coronel, o major Paulo Victor passa por um conflito interior. O dilema é se decide por cumprir a determinação ou recusa-a, pois Veloso é seu amigo de longa data, o que não é do conhecimento nem do coronel Policarpo nem do brigadeiro Cabral. No entanto, sabe que, se recusar, será enquadrado por insubordinação e preso de forma incomunicável, como virá a ocorrer com alguns de seus colegas. Assim, após segundos de vacilação, fingindo lealdade, recebe as instruções necessárias, plano de voo e tudo o mais, ganhando tempo para tomar a decisão. Durante o dia 13, segunda-feira, o 2059, depois de voltar de Porto Nacional aonde fora levar combustível, se vê reabastecido e carregado com muito armamento e embarcado de homens com a missão de proteger os aeródromos de Porto de Moz, Itaituba e Santarém, podendo — se as condições permitirem — ocupar Jacareacanga.

O major Paulo Victor ao lado de um índio munduruku e de Veloso (imagem: Google)

Durante o voo, sensações intranquilas que geram desconforto e inquietações no espírito povoam a mente de Paulo Victor, com mil coisas se passando, tudo quase ao mesmo tempo. A amizade dele com Veloso estreita-se justamente na época das construções das pistas de pouso. Lembra-se que certa feita, exatamente na semana em que Juscelino foi confirmado como candidato à presidência, eles — Paulo Victor e Veloso — faziam uma missão que tinha como finalidade interditar dezenas de pistas no Estado de Mato Grosso, que eram utilizadas por grileiros. Terminada a missão, seguiram para Cachimbo, um espetacular trabalho de Veloso. Com orgulho, ele mostrava ao amigo sua grande obra. A pista fora construída em cima de uma imensa laje de pedra, que foi aplainada fazendo as vezes do concreto. A iluminação das casas vinha de uma pequena usina que ele e os caboclos construíram aproveitando as quedas de uma cachoeira nas proximidades (no rio Braço Norte, que este humilde escriba conheceu na década de 1990). Estava presente em Cachimbo o jornalista Arlindo Silva, da revista O Cruzeiro, por meio do qual nos chega estas informações preciosas. Conhecendo o lado político partidário dos dois oficiais, o jornalista provoca: “Que tal? Vocês não acham que este é um grande lugar para se organizar um exército de caboclos e índios e esperar que a turma do outro lado chegue até aqui? Garanto que eles demorariam um ano. Mas até que chegassem…”. Caramba! — deixa escapar Paulo Victor um palavrão. Foi isso que deu a ideia a Veloso; o sacana nem me disse nada. Olha para o lado para sondar a expressão facial do seu companheiro de voo e conclui que o tenente Petit é ainda muito novo para se aventurar. Melhor não lhe dizer nada, por enquanto.

Décadas mais tarde, já tenente-brigadeiro, Paulo Victor conta:

“Eu era como um irmão do Veloso. Estava em viagem pela Amazônia quando ele saiu dos Afonsos. Ele decolou já com ordem de prisão. Eu havia saído do Rio de Janeiro para Belém, num voo regular do Correio Aéreo que chegava a Caiena, nas Guianas. Dizem que eu já sabia qual era a missão do Veloso, mas isso é falso. De Belém eu sai em missão para transportar combustível para Porto Nacional. Tinha intenção de ajudar o Veloso. Como a guerra estava perdida, minha ideia era pelo menos retirá-lo para outro lugar. Voltei a Belém e recebi a missão de sobrevoar Jacareacanga e, se possível, ocupar o lugar. Resolvi aderir ao Veloso”.

O 2059 chega a Porto de Moz e deixa uma fração de tropa. Ótimo — pensa Paulo Victor — esses não nos darão combate. Ficam lá um sargento, um cabo e cinco soldados. Até então simula estreito cumprimento da missão que lhe haviam ordenado seus superiores em Belém; ilude, portanto, a tropa. Idêntico procedimento faz nas escalas em Santarém e Itaituba, deixando aí uma tropa comandada pelo tenente Glazner. Logo em seguida, aproa o C47 para Jacareacanga.

Enquanto isso, no sítio da rebelião, Veloso conta com uma “tropa” leal, disposta a lutar, ainda que não tivesse a mínima ideia das reais motivações. O plano inicial de Veloso e Lameirão era somente esse: estruturar a resistência nesse local ermo, esperando que demais focos de rebelião naturalmente se estabelecessem em todo o território nacional.

Quando Paulo Victor corta os motores do 2059, Veloso, Lameirão, Cazuza e mais dez homens armados cercam a aeronave, dando voz de prisão à tripulação assim que esta desembarca.

Continua…

Referências:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  2. OLIVEIRA, Juliano de. Força Aérea Brasileira: doutrina e estrutura da geopolítica (do Prata à Amazônia – 1964/2003). 2005.
  3. MOREIRA, Pedro Rogério. Bela Noite para Voar: um folhetim estrelado por J.K.. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
  4. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, edição de 24fev1956, sábado.
  5. http://www.projetomemoria.art.br/JK/biografia/3_levante.html
  6. http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=Paulo_Victor_da_Silva
  7. http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/cabral-antonio-alves
  8. https://histatual.blogspot.com/search?q=jacareacanga.
  9. Visão pessoal do autor.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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