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A FAB e a Revolta de Jacareacanga (parte 3)!

… Continuação da postagem de 04jun2020.

PASSADOS TRÊS dias, é tempo mais que bastante para ter sido desencadeado o tal efeito dominó. Mas nada disso acontece e os colegas não virão a não ser para dar combate a Veloso e Lameirão. Em que bela encrenca eu me meti! Quem terá roído a corda? E as duas pessoas, que ficaram de acionar os outros elementos, por que não o fizeram? A essa altura, Veloso, que, andando para lá e para cá, fumava um cigarro atrás do outro, já tem consigo certeza de que foi vítima de um grave erro. E agora? O importante, porém, nessas horas é não baixar o moral da tropa e, por essa razão, deixa de compartilhar tais apreensões com seus homens.

Sem muito o que fazer, Veloso e Lameirão revezam-se monitorando constantemente as comunicações. No dia 14 ficam sabendo do tal C47 a transportar tropas para a região. Em contato com um correligionário, cujo nome jamais mencionará, em código previamente combinado, sabem a matrícula da aeronave: o 2057, um C47 do Primeiro Grupo de Aviação, sediado na Base Aérea dos Afonsos. Mais tarde esse mesmo contato lhe passa o nome do comandante: Paulo Victor. Veloso abre um sorriso tímido: Estamos em casa. Um avião do porte do C47, que está a caminho, é capaz de transportar significativa fração de tropa armada, mais armamento, munição e víveres. Não será um reforço nada desprezível.

O C47 2059 sob o comando de Paulo Victor adere aos revoltosos (imagem: Google)

Determina então que desobstruam a pista, permitindo o pouso da aeronave. Mas seguro morreu de velho, como diz o povo, então ele monta uma poderosa guarda a fim de evitarem surpresas desagradáveis ao ser aberta a porta do avião.

“Porra, Veloso, por que tu não me avisaste?”, reclama Paulo Victor com um sorriso.

A farsa vai até aí. Embora nem precise, Paulo Victor declara-se logo a favor dos insurgentes. Porém o 2P, tenente Petit, e os sargentos Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço se negam a participar do movimento. Solidário ao comandante da aeronave e ao movimento, porém, declara-se o primeiro-sargento Jorge João Günther Pfiffer.

Veloso dá voz de prisão aos legalistas, determinando a Cazuza que mantenha forte esquema de segurança, visando a que eles não fujam. O dia seguinte prometia ser intenso.

Um pouco mais sobre a amizade entre Veloso e Paulo Victor.

Paulo Victor tem um grande amigo desde a Escola Militar, pois são da mesma turma: Haroldo Coimbra Veloso. Ambos são designados para Belém e, depois da guerra, no início de 1945 vão também juntos para o Rio de Janeiro, para a Diretoria de Rotas Aéreas, que era dirigida por ninguém menos que o famoso brigadeiro Eduardo Gomes. Em 1950, Paulo Victor vai para o ITA para graduar-se engenheiro, porque naquele tempo engenharia era uma prerrogativa do oficial-aviador, inexistindo o quadro de oficiais engenheiros que só vem a ser criado nos anos 1970. Sobre a tal República do Galeão, como ficou conhecido o IPM levado a efeito pela Aeronáutica para apurar as circunstâncias da morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz, é o próprio Paulo Victor, já idoso, quem diz: “Nós assumimos as operações todas, o Veloso e eu, na Diretoria de Rotas Aéreas. E conseguimos prender toda guarda pessoal do Getúlio. A situação estava de tal maneira – não havia praticamente autoridade, e então nós assumimos e o Exército e a Marinha vieram atrás. Fomos a vários lugares. Fomos a Queluz, onde tinha uma fazenda do Osvaldo Aranha. Mas pegamos todos eles,”

Voltemos à mal afamada rebelião.

Os sentimentos de Veloso se renovam. Agora seu espírito está possuído de grande ânimo e de esperanças com a adesão inesperada de Paulo Victor. Logo virão os outros –imagina otimista. Entretanto, logo que o amigo lhe relata a circunstância de mera casualidade em que se viu metido, seu espírito volta à realidade, cessando o entusiasmo de antes.

Ainda nessa mesma data, Paulo Vítor envia mensagem-radio ao ministro da Aeronáutica declarando seu apoio aos revolucionários:

GG GABAER SBRJ 

COMUNICO VOSSENCIA MINHA TOTAL SOLIDARIEDADE MOVIMENTO LIDERADO MAJOR VELOSO PT MAJ AV PAULO VICTOR DA SILVA”

Com a adesão de um aviador e a conquista de um avião de porte, como era o C47, o panorama tático da rebelião muda de figura, possibilitando a Veloso controlar os outros campos de aviação da região, Tapajós acima: Itaituba, Belterra e Santarém. Almeja assim, prolongando a luta, vencer os legalistas pelo cansaço, tempo suficiente para que, enfim, seus colegas de farda decidam entrar em ação, com Salvador, Recife e Fortaleza deslocando seus aviões para o interior do país, como fora planejado.

Nesse ínterim, há vários problemas disciplinares graves em unidades da Força Aérea, envolvendo oficiais simpatizantes do movimento rebelde. Diariamente os principais jornais publicam as ações repressivas aos simpatizantes do movimento. O brigadeiro Guedes Muniz é preso por dez dias por ter enviado um telegrama ao brigadeiro Cabral. Na Base Aérea da Pampulha são detidos quatro oficiais do efetivo de unidades sediadas no Rio de Janeiro, todos acusados de apoiar os revoltosos. Vários oficiais em Belém são designados pelo brigadeiro Cabral para sair em missão de combate a Veloso, porém se negam a cumprir tais ordens, sendo, por isso, presos de modo incomunicável. Esses oficiais recusam-se a cumprir missões de atemorização contra o aeródromo de Santarém, onde estão Veloso e Lameirão, e contra o de Jacareacanga, em que Paulo Vítor camufla entre folhagens o 2059.

Sem tempo a perder, nessa mesma tarde, comandado por Lameirão, o 2059 retorna a Itaituba, agora já do outro lado do combate, levando forte contingente armado para render as tropas ali desembarcadas no dia anterior. Dominam facilmente o aeródromo e, no fim desse dia, retornam à Jacareacanga, conduzindo presos o tenente Glazner, alguns graduados e soldados.

Com Belterra também sob controle, agora é a vez de Santarém.

É manhã de quarta-feira, 15 de fevereiro. Decolam o At11 1523, que estava camuflado com folhas e arbustos, Lameirão comandando e Cazuza como artilheiro; e também o C47 2059, pilotado por Veloso e Paulo Victor, transportando 25 homens fortemente armados. Os aviões chegam a Santarém, e, ao abrir-se a porta do 2059, Veloso dá voz de prisão ao efetivo do destacamento e à guarnição armada que no dia anterior desembarcou lá. Dessa forma o destacamento de Santarém é agora ocupado sem a menor resistência. Logo, Lameirão manda interditar a pista. Ao mesmo tempo, Veloso assume, em nome da Força Aérea, o comando da força policial santarena, interditando o telégrafo e ainda neutralizando as comunicações de rádio e das companhias de aviação civil; para isso confisca os cristais dos equipamentos. Manda também montar um posto de vigilância no trapiche do Instituto Agronômico do Norte, bairro da Prainha, com a missão de controlar as embarcações. Nesse dia, estabelecendo os revoltosos seu QG em Santarém, passam ali a aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Concluídas essas primeiras providências, Veloso, fazendo uso do sistema de alto-falantes do diretório local do Partido Social Democrático, comunica à população que a cidade está agora sob controle da Força Aérea, mas é um controle pacífico e que todos podem continuar com seus afazeres de rotina, sem, porém, entrar em detalhes sobre os reais objetivos do movimento.

Dois dias depois, os sargentos tripulantes do 2059, Oliveira, Rocha, Lourenço e o tenente Petit fogem. Em 17, pegam carona a bordo de um barco com destino a Belém.

Nessa mesma data acontecimentos fervilham na capital do Estado. Uma verdadeira operação de guerra vem sendo montada pelo comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Cabral. Um navio fluvial, o Presidente Vargas, está em preparo para transportar elevado contingente de militares da Aeronáutica e do Exército, que segundo algumas fontes são seiscentos homens, outras estimam em quatrocentos e uma última, em “apenas” trezentos soldados. Sob a supervisão direta do brigadeiro, o tenente-coronel Hugo Delayte é designado como o comandante da operação orquestrada para prender Veloso e acabar com a rebelião. O navio será escoltado pelas corvetas Cananeia e Cabedelo e apoiado por aviões Catalina, aeronaves do tipo anfíbio, ou seja, preparadas também para pousar na água. A bordo dessas aeronaves estão cerca de 45 paraquedistas do Exército que desembarcarão na margem esquerda do rio Tapajós, antes de um trecho encachoeirado, e daí seguirão a pé até o campo de Jacareacanga. Não podem simplesmente saltar na pista porque Veloso determinara aos índios mundurukus colocarem estacas pontiagudas ao longo de toda a pista, bem como nas cercanias descampadas, como informam as fotografias tiradas pelo B17, de Recife, que sobrevoa diariamente a região.

A aeronave dos Diários Associados (imagem: Google)

No dia 18, sábado, pede permissão para pousar uma aeronave dos Diários Associados. Diante de tamanha repercussão que ganha o caso, Francisco de Assis Chateubriand Bandeira de Mello, o célebre paraibano magnata das comunicações, resolve enviar dois de seus melhores jornalistas e mais dois fotógrafos a fim de cobrirem ao vivo os fatos. Veloso, depois de pensar por poucos segundos, enfim autoriza que desobstruam a pista permitindo que o teco-teco pouse com a equipe de reportagem. Isso dará visibilidade ainda maior ao movimento, uma publicidade que poderá encorajar os colegas da FAB e das outras armas a se juntarem à insurreição. É graças a aos registros feitos por esses profissionais que hoje podemos contar essa história aqui neste espaço, pois, como já dissemos aqui, a maioria dos jornais partia para o sensacionalismo dando uma visão exagerada dos acontecimentos. Entre o povo, por conta do que sai diariamente nos jornais, várias anedotas circulam. Uma delas diz que os oficiais, aproveitando o carnaval, estão, na verdade, divertindo-se em lugares bucólicos do Tapajós em companhia de belas moças.

Antes fosse.

Do dia 15 ao 22, as forças rebeldes mantém-se com alguma tranquilidade, apesar dos constantes voos rasantes de um AT11 que faz missão de atemorização. Com o tempo, todos, inclusive a equipe de repórteres e fotógrafos dos Diários acostumam-se à rotina barulhenta.

Consta que ainda em 18 de fevereiro, sábado, teria chegado a Belém um coronel com a incumbência de “assumir” o comando da Base Aérea de Belém e assim deflagrar de vez todo o movimento rebelde, pois, como se sabia, bastava um comando de um oficial de alta patente para que os militares aderissem em definitivo ao movimento. Entretanto, uma denúncia velada veio a frustrar tais propósitos. Assim que pisa o solo de Belém, o oficial é detido e preso de forma incomunicável. Todavia, essa informação carece de fontes confiáveis. Pesquisando na edição de 24 de fevereiro do Correio da Manhã, identificamos a prisão de um comandante da Marinha. Seria esse o homem? Porém, a bem da verdade, precisaríamos de pesquisas mais aprofundadas a fim de relacionar esse fato com a chegada do tal coronel, preso em Belém.

Nessa data a situação encontra-se de acordo com o seguinte quadro:

  1. SANTARÉM: sob o comando dos rebeldes. Veloso e Lameirão no comando;
  2. ITAITUBA: aeródromo ocupado pelos rebeldes;
  3. JACAREACANGA: comandada por Paulo Victor;
  4. BELTERRA: há aí uma guarnição de Veloso, como opção a Santarém.

O comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Antônio Alves Cabral, pede ajuda ao Rio a fim de enfrentar os atos de rebeldia em seu comando. Ora, a designação de um brigadeiro para comandar pessoalmente a operação, o oficial da Aeronáutica de maior patente em toda a região Norte, por si só já diz como o governo encara a situação, colocando todo o empenho na sufocação imediata da rebelião, antes que o movimento tome corpo. Na linguagem futebolística, é não deixar o adversário gostar do jogo. Como já amplamente dito nesta página, os oficiais em sua maioria estão a favor dos rebeldes, sendo eles do mesmo perfil ideológico. Assim, de fato enfrentando dificuldades para recrutar combatentes, o ministro Alves Secco, cuja imagem já está queimada diante do presidente, resolve apelar para a diplomacia. Envia como observador e conselheiro o major Celso Resende Neves, que é instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior. Ele é reconhecidamente um oficial equilibrado, de qualquer ponto de vista que se analise, especialmente o político. Celso reúne todos aqueles jovens aviadores de Belém e lhes mostra o mal que estavam fazendo contra a sua própria carreira, ao recusarem o cumprimento de missões ordenadas por seus superiores. Os argumentos do representante da legalidade convencem os pilotos a não aderirem à rebeldia. “Está bem, Major, nós voltaremos a voar”, assentiu o capitão Burlamarque Barreira. Mas como todo bom oficial companheiro, o capitão quer preservar o espírito de camaradagem com os colegas rebelados. E pergunta a Celso: “Se Paulo Victor precisar de uma Peça para o C47, nós poderemos ajudá-lo?” Responde, cavalheirescamente, o Major Celso: “Belo gesto de sua parte, desde que eu não fique sabendo”.

Ainda assim, o ministro não se sente confortável. Alves Secco teme que os convocados finjam estar ao lado da legalidade, e — a exemplo de Paulo Victor — se bandeiem para o lado dos revoltosos, e – o pior -, munidos de poderosa arma de guerra: o avião. Igualmente, teme o contrário: os loucos por sangue, que saiam metralhando e bombardeando sem critério. É um comandante que preza a paz, malgrado a imagem negativa que acaba passando a JK.

Em Santarém os B17, aviões conhecidos como “Fortalezas Voadoras” sobrevoavam a cidade despejando folhetos conclamando a população a se afastar dos insurretos, a exemplo do que já fazem nas demais localidades tomadas pelos rebeldes.

A fim de dar final a esta novela, O Presidente Vargas zarpa do porto de Belém no dia 21 de fevereiro, sob escolta das duas corvetas. O brigadeiro Cabral a bordo.

Navio Presidente Vargas (imagem: Google)

Continua…

Referências:

  1. https://histatual.blogspot.com/search?q=jacareacanga.
  2. MOREIRA, Pedro Rogério. Bela Noite para Voar: um folhetim estrelado por J.K.. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
  3. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, edição de 24fev1956, sábado.
  4. http://www.aeitaonline.com.br/wiki/index.php?title=Paulo_Victor_da_Silva
  5. Visão pessoal do autor.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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