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AÇAÍ com peixe frito! (segunda parte)

… Continuidade da postagem de 7jun2020.

INICIEI a andar de um lado para outro, de um setor daqui para ali, como que a procurar um ponto de partida para o trabalho a que fora incumbido. Assim, saí do refeitório e entrei na cozinha, local úmido e insalubre por natureza; sapateei um pouco e fui à secretaria do rancho, mas, uma vez lá, nada enxerguei de anormal, além de papéis, arquivos, prateleiras e o matraquear infernal das máquinas de escrever. Como acréscimo, naturalmente, o olhar atravessado dos escreventes. Depois de entrar e sair da câmara fria – e isso não durou mais que quatro segundos – resolvi então visitar a despensa.

Imagem: Google

Trazia nas mãos uma prancheta com alguns papéis, uns relatórios que o próprio rancho enviava diariamente ao nosso setor; continham dados e gráficos sobre o consumo de material gasto. Também dispunha em mão do cardápio semanal, um documento com três assinaturas que discrimina as refeições diárias que são usualmente servidas à tropa, café, almoço e jantar, com previsão da segunda-feira a domingo. Já sabia que, para localizar algum indício de mal feito ou coisa assim, me faltava a experiência de quem já havia trabalhado antes no setor. Diferentemente do capitão que conferiu o estoque de carne, um rancheiro experiente que fora transferido para a Secretaria de Finanças (sediada na Capital Federal) justamente por essa razão, eu jamais havia trabalhado em rancho.

Então, como achar algo de errado? O que eu vira até então sinalizava exatamente no sentido contrário, ou seja, tudo indicava que estava  em dia e em ordem, que o estoque de gêneros conferia com os números escriturados. Não que torcesse por algo errado, mas a ideia de que eu estava perdendo meu tempo me aborrecia, mexendo com a vaidade. Simultaneamente, havia em mim algum sentimento de culpa por está ali fuçando a vida alheia. A câmara fria totalmente carregada de carne me dera a ideia de que o conteúdo daquele recinto gelado era por demais pequeno para alimentar a tropa, na ocasião cerca de três mil homens e mulheres. Mas isso fora já explicado e justificado.

Na despensa andei de um lado para outro, a observar os estrados e as prateleiras do setor, sob os olhares desconfiados do despenseiro, um taifeiro-mor gordo, cujo nome — se ainda lembro bem — era Siqueira.

Bati com os olhos nos gêneros expostos nas prateleiras. Era para o consumo da semana cheia. Lá estavam estocados farinha de trigo, farinha de mandioca, óleo de soja, sardinha enlatada, manteiga, alguns temperos em recipientes de vidro… Sobre os estrados, grandes fardos de feijão, arroz e volumosas mantas de charque.

Aparentemente tudo certo. Nada a objetar, com exceção de…

As etiquetas. Nas prateleiras, sob cada produto havia uma etiqueta de papelão em que o despenseiro registrava a quantidade em estoque, bem como as entradas e saídas do material, conforme iam sendo feitas novas aquisições ou baixa dos gêneros que iam para a cozinha. Chamou-me a atenção o fato de que os registros diários fossem feitos a lápis e não à tinta. Todas as etiquetas estavam com anotações a lápis. Aí estava a visão de alguém leigo em rancho, talvez exatamente por isso essa rotina me chamava a atenção.

E lápis se apaga com facilidade.

Vi aí uma clara possibilidade de fraude. Nem precisaa ser perito no assunto. Bem provável que tivesse caroço embaixo daquele angu. O diacho da comichão de detetive me ardia e, por isso, deixei escapar um esboço de sorriso no rosto — confesso.

Voltei à minha seção e nessa mesma tarde me pus ao trabalho. Principiei a confrontar os números. Número de pessoas alimentadas a cada refeição em relação às quantidades de alimento oferecidas. Fui anotando em relatório tudo o que pudesse ser pesado, desprezando as hortaliças e temperos.

Máquinas de calcular e de escrever sobre a mesa.

Isso foi por vários dias. Ao cabo de uma semana, cheguei a uma conclusão: “Chefe, essa tropa é a mais bem alimentada do mundo”. Disse com uma ponta de exagero, pois talvez as tropas norte-americanas consumissem igual ou mais que as calorias e proteínas que meus cálculos apontavam. “Será?”, respondeu-me o chefe com essa singela pergunta que mais expressa uma dúvida.

Qual seria a dúvida dele? Sobre a lisura do pessoal do rancho ou sobre o meu trabalho? Quem sabe o tenente-coronel, meu superior hierárquico, estivesse imaginando que eu agia mal intencionado ao por em dúvida a honestidade alheia, que eu tivesse algum inimigo – ou vários – a quem quisesse prejudicar, ou mesmo que estaria simplesmente enganado.

Na segunda-feira seguinte, voltei à mesma despensa de rancho. O almoço desse dia foi peixe frito, arroz e, como sobremesa, açaí com tapioca. Um manjar para o paraense. Com o cardápio na mão, fui observar o movimento dos itens alimentícios. Peixe, arroz, o próprio açaí, tapioca e óleo de soja enlatado.

Fui à cozinha e observei o frenético trabalho dos cozinheiros. Havia um cheiro forte de fritura. Não há dúvida de que muito óleo era necessário para fritar toda aquela quantidade de peixe. Depois daí, tive a ideia de ir ao local onde eram geralmente depositadas as latas vazias de óleo. Fiz uma contagem: 23 latas vazias. Onde estariam as outras? Pois era visível que muito mais óleo de soja era preciso para fritar todo o peixe, visível até para um leigo como eu. Lembrei que é uma prática comum, segundo se comentava, os restaurantes da cidade reutilizarem os óleos de outras frituras. Numa leitura rápida no cardápio da semana anterior, vi que foi servido galeto no almoço da quinta-feira passada. Então, tornei à despensa e fui ver o movimento desse item. Para essa refeição – peixe frito com açaí – estava assinalada a saída de 46 latas de óleo. Mas, se achei só 23 latas, onde estariam as outras 23?

À tarde dessa mesma segunda-feira, sentei-me à máquina de escrever e produzi um robusto relatório, repleto de números e altas cifras. Carreguei forte nesse movimento diário observado, ressaltando com detalhes a quantia de óleo gasta, as latas vazias por mim encontradas e a etiqueta a lápis. Não esqueci também do fato de que na quinta-feira anterior o cardápio foi frango frito — galeto.

Entreguei o relatório e, com uma continência, me retirei do gabinete. Considerei cumprida a minha missão, mas, meu espírito se inquietava por algo que nem eu mesmo sabia dizer.

O tempo passou. Certa manhã, um mês depois, notei um grande movimento de oficiais que entravam no gabinete do chefe logo aos primeiros minutos do expediente. Eram todos do esquadrão de intendência. Portas fechadas e luz vermelha sinalizando que a reunião não devia ser interrompida. Lá dentro estavam, além do atual chefe do rancho, o tesoureiro, o chefe da seção de procuras e compras, o chefe de material e até o chefe da seção de registros.

Pelo tempo que decorreu — quase duas horas –, a conversa rendeu. Ao saírem, todos olharam para mim. Eu correspondi com um “bom dia”, pois entendi ter sido cumprimentado por cada um deles.

Alguns sorrisos meio forçados, de forma que logo compreendi ter algo de errado ocorrido. Embora curioso, não procurei saber do que fora discutido. Mais tarde, porém, uma semana depois, um deles me confiou o conteúdo da reunião.

O chefe do rancho procurou o coronel Horário e relatou estar numa situação desconfortável, porque o agente fiscalizador mandara um dos seus oficiais fazer auditoria no rancho, e isso vinha causando um grande desconforto no seu efetivo. Nenhum deles era ladrão para serem fiscalizados da forma como estavam. Um deles, o Siqueira, despenseiro, ameaçou pedir transferência para a reserva. O tenente-coronel, meu chefe, chamado pelo comandante, decidiu pedir essa reunião, quando, num gesto pouco usual e aparentemente contrário à rígida hierarquia, apresentou suas desculpas aos tenentes e capitães presentes, prometendo que nunca mais o fato se repetiria.

A culpa, pelo que entendi da conversa, recaiu exclusivamente sob a minha pessoa.

Mas, se o assunto estava restrito ao rancho, como que estavam lá todos os oficiais da área administrativa? E, quanto ao despenseiro, sei que quando chegar a hora, ele pedirá sua transferência para a reserva e gozará sua aposentadoria sem ao menos se preocupar com o andamento do rancho, se vai bem ou mal. No entanto, fez esse tipo de chantagem com a chefia. Ninguém é insubstituível.

Na primeira oportunidade, eu mesmo pedi para ser transferido de setor. Passei então a exercer novo cargo e tomei cuidado para nunca mais interferir no rancho, um setor cujo efetivo estava acima de qualquer suspeita.

Horácio logo foi promovido. Dois anos mais tarde, voltou garboso e estrelado, para comandar toda a Zona.

E hoje, toda vez que provo do delicioso açaí, não consigo esquecer do caso.

Então, caros amigos, aí está posto o caso. Pode até ser que esse assunto caiba na página de um livro — como escreveu Machado de Assis — mas na verdade nada quero dizer mais, nem ao menos suspeitar. Deus me livre!

L.s.N.S.J.C.!

Reedição de 1jun2017.

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

2 respostas em “AÇAÍ com peixe frito! (segunda parte)”

Nunca procurei briga com o Rancho. Soube de alguns taifeiros qie escarravam na comida de seus desafetos. Ao contrário, fui tratado com whiskies, vinhos, queijos e outras iguarias como camarão e lagosta que sobravam dos banquetes na casa do brigadeiro. Morava sozinho no quartel, que ficava a 20km da cidade e por isto tomava café bem reforçado antes da tropa chegar, diferente do que tomavam. Melhor que o do rancho dos oficiais. Almoçava normal junto com os demais, mas o jantar era um lauto jantar regado a vinho importado. Era somente eu que morava de graça num dos luxuosos apartamentos destinados ao pessoal do CTA quando vinha lançar foguete. O taifeiro de plantão fazia a comida do pessoal em serviço. Nunca sequer discuti com o pessoal do rancho.

Curtido por 1 pessoa

Sim. Sei de casos em que o taifeiro passava o bife no “orelha”. Nessa ocasião, o meu personagem entrou nessa furada por conta da sua obrigação funcional. Quanto a mim, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay!”.

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