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PELOS TRAPÉZIOS da vida e das letras!

UM AMIGO alertou-me sobre a maneira trapezoide como escrevo. Diz ele que o escriba pula de um assunto para outro, deste para um terceiro, depois volta ao primeiro, numa loucura, fazendo do texto uma espécie de trapézio circense. O amigo está certo. Não só a escrita como a minha própria vida é assim mesmo, como o pensamento que voa vadio como uma pipa no ar, como me lembra a canção do Boca Livre; uma verdadeira metamorfose ambulante, como canta o eterno Raul, dizendo mais tarde o contrário do que disse ontem, em que se vai da esquerda para a direita e vice-versa, e também de cima para baixo e versa-vice, e em diagonal às vezes. Tudo junto e misturado.

O escriba na festa dos 59 aninhos.; 23 da Flaviane. Muita juventude acumulada, numa reunião com os amigos regada a vinho e cerveja e ouvindo o Pompeu com suas músicas a la Raul Seixas. (arquivo pessoal)

Pois saibam, meus senhores, que gosto muito da leitura, e da leitura vou passando aos textos, para depois tornar aos escritos. Também gosto muito de ouvir e escutar, cantar e dançar — embora não dance bem e nem a voz seja das melhores. Músicas das boas (e só das boas, não importando estilo, ritmo e época). E o que observo é que cada gente, homem, mulher, criança, adulto ou velho, tem o seu jeito e maneira de tudo: de andar, de vestir, de falar, cantar, e com certeza de escrever (se a arte lhe apetece, naturalmente). Na escrita, literária ou não, observo que a cada escrevente é dado um jeito, um tipo, um modo, um estilo. Que seria de Monteiro se não houvesse Guimarães? Da mesma forma que coexistem no mesmo universo musical Chico e Gilberto. Que graça teria Machado se não existisse Barreto? Assim é a humanidade, onde todos são incrivelmente iguais, ao mesmo tempo que diversos e controversos. É tudo um mistério, que nem o saramandaico pavão de Ednardo seria capaz de decifrar.

Mas, não importando o modo, a razão, o assunto, só digo que, como Dom Aírton du Monte costumava falar em suas escritas poéticas, escrever me faz um bem danado, não importando se o produto é quadrado, redondo, retangular, oval ou trapezoide.

Nem só de escrever, porém, vive o homem. Ouvir também é bom, e a boa música (a boa música) igualmente me faz um bem danado. Transitando no espaço temporal e geográfico, dando asa à saudade — que ninguém é de ferro –, gravei dia desses uma boa lista de músicas do norte e do nordeste, maior parte delas dos anos 70 e 80. Mesclei nesse arquivo Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Ednardo, Belchior, Zé Geraldo, Zé Ramalho a outros ótimos como Nilson Chaves, Arraial do Pavulagem, Nazaré Pereira, uma miscelânea de ritmos, estilos, melodias e vozes. Depois lembrei da Bahia — eu estava esquecendo a Bahia — e resolvi acrescentar alguns baianos (a Bahia também é norte e nordeste), incluindo os clássicos Gil, Caetano, Moraes Moreira. Pego o carro e vou ao mercado, à farmácia, à musculação. Aonde quer que precise ir, vou escutando essas músicas que tanto me fazem viajar (no tempo e no espaço). Volto ao passado juvenil, revendo os fatos e as pessoas que dele fizeram parte, e ao Norte e Nordeste, relembrando a nossa gente e a nossa cultura, diversas e maravilhosas. Gente de todos os quadrantes e azimutes, do leste a oeste e de norte a sul. Faço sempre o caminho mais comprido, como Zé Rodrix dizia — e ainda me diz, e assim vou variando o itinerário de forma a prolongar o percurso para aproveitar mais o repertório.

A música me inspira, como já disse. Inspiram-me também a paisagem, as árvores, flores dos canteiros das ruas e as pessoas que vejo pelo caminho, de sorte que o coração se pega dividido entre a alegria de chegar em casa e a saudade das letras e melodias que a alma vinha saboreando ao rodar pelas ruas e avenidas da cidade. Tudo isso me faz bem porque, ao retornar com alma reabastecida, torno ao velho PC e me dano a escrever, a produzir, de início um esqueleto, projeto, ideia, que vai tomando forma… e isso tudo me faz um bem danado.

Com a alemoa , minha namorada e companheira de vida. (arquivo pessoal)

Outro dia o barbeiro me indagava: o que o senhor faz na vida? Já vivo preparado para essa pergunta, pois ele não é a primeira pessoa a me fazer a indagação. Se responder que leio, escrevo, escuto, ando e vivo, pensará ele, à moda dos sulistas: “Mas é um vadio!” De certa forma sou — admito. Aí respondo simplesmente: “Não faço nada, e não fazer nada é uma arte.”. Mas não venha com música ruim que eu perco o bom humor! Nada daqueles caras que cantam como se estivessem fazendo força no vaso. Não, que esses “sertanejos” universitários se formem e fiquem desempregados.

Leio, escrevo, ouço, cantarolo, dirijo e vejo, volto e mudo uma planta de lugar, como costumava fazer Cássia Eller. Contribui para esse vidão a condição de estar aposentado e viver numa cidade pequena. Admito que não é pra qualquer um. Mas a gente deve fazer de tudo para afastar o Alemão, porque, afinal, já temos 59 anos de sonho e sangue e de América do Sul, atualizando o poeta Belchior.

E assim caminham a vida e a humanidade.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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