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ARIANO Suassuna e o jeito peculiar da gente nordestina!

EM TODO bairro, vila, aldeia, vilarejo, povoado, em todas as comunidades urbanas ou rurais, grandes, médias e pequenas, há ao menos uma pessoa representante de cada uma das características adiante:

Imagem: Google (Alexandre, acervo JC Imagem)

O avarento, a beata, a recatada, o fofoqueiro, o contador de causos, o tímido, o expansivo, o conquistador, o valente, o gabola… Não raro há os que reúnem mais de uma desses perfis psicológicos.

Existe, portanto, em nosso meio social, qualquer seja ele, uma diversa e variada fauna e flora capaz de abastecer a nossa imaginação e dar recheio às conversas cotidianas entre amigos, compadres e famílias. Há, ao mesmo tempo, em cada lugar, alguém disposto a captar tais caracteres psicológicos e levá-los adiante, reproduzindo-os, seja em forma de causos ou até no teatro, cinema, rádio e tevê, exagerando o modo de ser dessas figuras exóticas, ao mesmo tempo que naturais.

Está, enfim — seja onde for –, ali representada toda a sociedade, com seus problemas, sua vida, seu cotidiano. E como tempero, nesses mesmos grupos sociais, há um outro fenômeno social cuja origem e disseminação poucos são capazes de explicar. São os apelidos ou alcunhas, nomes populares que pegam a tal ponto de tornar-se muito conhecidos. Pouquíssima gente — não raras vezes só mesmo só a própria família — reconhecem o nome de batismo do sujeito apelidado. “Você conhece o João da Silva?” — Você pode indagar numa determinada comunidade. Não, ninguém conhece. “Você sabe onde mora o Peteco?” Aí um rapaz responde: “Sim, eu sei. Ele é irmão do Zé Torto, e mora bem ali naquela casa.”, completa apontando com um dedo.

Pois bem.

Essa personagem tão diferenciada não possuía apelido. Escapou dessa sina por esses caprichos da vida, que às vezes livra um ou outro de algo que não poupou a outros, da mesma forma que um homem chegando à velhice sem ter alteradas suas feições, sem calvície nem barriga. Então, nesse fim-de-mundo onde vivíamos, lá no interior do Pará, às proximidades da rodovia Belém – Brasília, de vez em quando, geralmente lá pelo horário do almoço, recebíamos a visita de um homem já maduro em idade, que se constituía num espetáculo à parte. Damião era seu nome, em torno do qual nós nos reuníamos para ouvir suas histórias, não importando se fatos verídicos ou causos. No final, sendo verdadeiras ou não, viravam invariavelmente “causos”, porque ele sempre dava um jeito de aumentar a narrativa, acrescentando detalhes por conta própria.

Nunca soubemos, mas, a julgar pelo sotaque e pelo tipo físico, o velho devia ter origem nordestina. Solteirão — não se sabe se por convicção ou por força de ter simplesmente deixado o tempo passar –, seu Damião era alfabetizado e, mais, gostava de ler e, mais ainda, dispunha de tempo para ler. Esse hábito salutar lhe levava a tirar conclusões em relação às pessoas, frutos de observações quanto a comportamento, personalidade e, também, delas em relação ao grupo social. Em terra de cego, como diz o velho adágio, quem tem um olho é rei. Damião, o sangrador de onças, transformava todo esse saber autodidático em divertidos causos, para o entretenimento e diversão de seus ouvintes, que eram muitos na redondeza. De observador a analista popular, e disso à função de entreter e divertir. Em quase todo os lugares há alguém como ele.

Do representante para o povo representado.

Ariano Vilar Suassuna (imagem: Wikipédia)

É um fato notório que o nosso irmão nordestino geralmente é possuidor da marcante verve humorística, com o seu sotaque peculiar dando um sabor todo especial às palavras numa entonação quase cantada, variando de um estado para outro. Assim, o sertanejo, com o seu jeito próprio de ser, é exemplo de sabedoria ao conduzir a vida sob boas gargalhadas, malgrado as vicissitudes. Não é à toa que as telenovelas ambientadas no Nordeste são garantia de êxito junto ao público. O povo, depois de um árduo dia de trabalho, do transporte cheio, senta-se no sofá e vai assistir sua telenovela com a certeza de dar fartas risadas.

Acabamos de reler o O Santo e a Porca, do paraibano Ariano Suassuna, dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor, célebre autor de Auto da Compadecida. Trata-se de uma peça teatral cujo enredo é, como todas as outras obras de Suassuna, ambientado no Nordeste brasileiro, em cujo seio há um inesgotável manancial folclórico, bastando para isso reunir um bom observador e, ao mesmo tempo, dotado da capacidade de contar histórias. De suas observações, Ariano sabe, como poucos, levar todos esses tipos peculiares ao palco, e dos palcos para os livros e para a televisão e cinema. Nenhuma graça haveria se em tudo isso não existisse em doses cavalares o bom humor, gerador das boas gargalhadas, que, por sua vez, suavizam a dureza da vida. Pois sim, esse homem, que bem poderia ter sido uma autoridade pública, um circunspecto advogado ou médico, um bem-sucedido empresário, veio a dedicar-se a essa missão nobre: a de dar um pouco de alegria a todos nós, cuidando de transformar o cotidiano duro na leveza gostosa do riso, e para tal retratou como poucos o avarento, o beato, o esperto, o poderoso, além de outros tipos; enfim, as relações sociais.

Dizia Suassuna que em sua época de juventude os cursos universitários de prestígio social se resumiam em três: Medicina, Engenharia e Direito. Não tendo ele aptidão para ser médico nem para engenheiro, não servindo para nada, sobrou para ele cursar Ciências Jurídicas. Nem para isso julga-se apto, até que descobrira sua verdadeira vocação: o teatro. Livrou-se o Brasil de um medíocre homem de leis para ganhar um genial dramaturgo e contador de histórias.

Voltemos ao velho Damião.

Um dos casos em que Damião costumava se ocupar era o causo da onça. “Seu Damião, como foi mesmo aquele caso da onça?”. E ele contava mais uma vez a peripécia mais afamada, e a cada vez acrescentava um elemento. Vinte e tantos anos mais jovem, estava ele caçando nas selvas amazônicas quando, certa hora, depara-se com o animal. Que fazer, pensa ele, agora? Num lampejo, tem a ideia. Então, largando a espingarda, pega da faca com uma das mãos e com a outra o chapéu. A onça avança e nisso — superando a agilidade da fera — Damião lança o chapéu na cara do animal. A onça, surpreendida, se debate, e ele, aproveitando-se da distração do animal, crava-lhe com toda a força a faca no sovaco, atingindo o coração.

Vejam se essa história não se enquadra no personagem Chicó, o mentiroso? Essa questão da onça faz parte já do folclore nordestino, muito popular entre os caçadores contadores de causos. E quantos Joões Grilos nós já não vimos por este mundo de meu Deus? Quem dirá o próprio Suassuna, que, tendo ele nascido em palácio (seu pai foi governador da Paraíba), larga a advocacia e se lança aos palcos dedicando-se a retratar figuras populares como o padre, o bispo, o delegado, o fazendeiro e os tipos mais humildes, como o pião, a doméstica, o balconista. É desses últimos que se espera as tiradas de humor, os pequenos golpes e mentiras inventadas em nome da sobrevivência, ao mesmo tempo gerando gargalhadas porque, afinal de contas, a forma de a gente se vingar dos poderosos (política, igrejas, sistemas…) é usando da esperteza.

Imagem: Google

Por isso, jamais censuraremos — ao contrário, louvaremos — gente que, como o velho Damião, ocupava-se, entre mentiradas e fatos verídicos, em nos alegrar, mesmo a troco da boia.

L.s.N.S.J.C.!

 

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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