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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 3)

Continuação da postagem de 23jun2020.

Por Malba Tahan

SENTI-ME sem ânimo para contrariá-lo. Respondi com uma solicitude um tanto forçada:

— Com o maior prazer!

Despedi-me do hóspede, desejei-lhe um sono tranquilo e reconfortante e subi para o meu quarto que ficava no pavimento superior da casa. Era uma noite ameníssima. O céu, sem lua, polvilhado de estrelas, deslumbrava com os diamantes de suas constelações. Ouvia-se ao longe o ganir de um cão e guarda. Pela manhã, ao despertar, tive uma das grandes surpresas de minha vida. Vou contar.

Quando acordei, depois de um sono cheio de inquietação, já bem longe ia a hora do El-fedsjer. Acerquei-me da janela e pus-me a admirar, embevecido, a estada de Bagdá, as tamareiras floridas e, ao longe, a curva prateada do rio. Homens do campo, com seus trajes grosseiros, dirigiam-se para o trabalho: mercadores de melancia e cebola, puxando magríssimos camelos de sela, seguiam o rumo do velho suk. O ar andava impregnado de um frescor de orvalho; cantavam aves alegres em todas as árvores.

Sentia-me, naquele começo de dia, de espírito leve e bem disposto. A claridade suave da manhã era como uma tâmara doce para os meus olhos. O vento trazia-me o perfume de várias ervas. Lembrei-me de Zualil, o viajante misterioso, o surpreendente aventureiro que eu acolhera como hóspede naquela noite. Teria ele despertado mais cedo para a prece?


Cumpria-me o delicado dever de chamá-lo no mesmo instante e oferecer-lhe ligeira refeição.

O Viajante Desconhecido, (imagem extraída do livro Mil Histórias Sem Fim – 2º Volume, de Malba Tahan)


Desci. A sala, em que deixara o egípcio, esclarecida por duas das três amplas janelas, estava vazia. A porta que abria para o jardim, apenas encostada, com a tranca fora do lugar, fizera-me compreender que o hóspede já havia partido. Aproveitara-se, de certo, do silêncio da madrugada para retomar sua jornada interrompida.

Suja, bem suja, é a ingratidão dos homens — disse de mim para mim, tendo o coração oprimido por veemente tristeza. — Aquele forasteiro, de aparência simpática, por mim acolhido com tanta cordialidade e que, de minhas mãos, recebera o pão e o sal da hospitalidade, fugia de minha casa como um beduíno criminoso, sem palavra de despedida, sem gesto de agradecimento. Que velhacada! Que mau impulso o teria levado a proceder daquele modo deselegante e censurável?

Estranho pressentimento assaltou-me bruscamente. Olhei para o canto da sala em que habitualmente colocava o valioso narguilé de prata. A peça não se achava mais ali. 

Fui roubado!

Apoderou-se de mim, desorientando-me, violenta e incontida onda de rancor. O viajante que eu recebera e agasalhava não passava, afinal, de um rapinante vulgar, chacal imundo, sem escrúpulos, que não hesitava em violar os sagrados deveres da hospitalidade. Iludido em minha boa fé, eu o supusera homem de bem. Chega mesmo (como fora ingênuo!) a acreditar em todas as peripécias que ele fantasiara para enganar-me com sua lábia. As incríveis aventuras do Egito, os perigos a que se sujeitara, o casamento com a tal princesa marroquina, a conspiração fracassada, a fuga para Damasco, o tesouro entregue a servo… Mimoseava-me, afinal, com seus versos cheios de doçura e encantamento e, por fim (com todos os mistérios e cantorias), não passava de um ladrão ignóbil que promete a baraka e acaba roubando um narguilé.

Estava eu absorto em tão sombrias cogitações, quando ouvi alguém cantarolar alegremente no jardim:


Se me levasses, um dia, // Ao oásis do teu amor,  // Ver-me-ias tamareira  // Dando sombra, fruto e flor!


Acerquei-me rápido da porta, abri-a e olhei para fora.

Sentado ao chão, ao lado da fonte, sob o sol tranquilo da manhã, avistei Zualil, o viajante. Estava descalço e com a cabeça descoberta. Sustentava na mão esquerda, apoiado no joelho, o precioso narguilé e ocupava-se com extraordinário cuidado em limpá-lo esfregando com um pedaço de pano. Tão absorvido estava naquele trabalho que não deu pela minha chegada.

— Olá! — chamei-o — Já estás aí há muito tempo?

Ergueu para mim o rosto risonho e colocou diante de si, com gestos cautelosos, o narguilé que rebrilhava ao sol. 

— Estás surpreendido por me veres aqui? — perguntou-me. Reconheço que não passo de um hóspede importuno, pois já devia ter prosseguido a minha jornada. Penalizou-me, porém, acordar-te ao romper do dia. Notei que estavas sob o peso de grande fadiga. Levantei-me ao primeiro chamado do muezim. Ao preparar-me para a prece, vi que o teu depósito de água estava quase vazio. Tratei de enchê-lo e, nesse trabalho, ocupei-me algum tempo. Finda a prece resolvi dar pequeno arranjo à sala em que havia pernoitado. Chamou-me a atenção este belíssimo narguilé de prata. Não posso ver uma peça de tão grande valor artístico coberta de pó e cheia de manchas. Resolvi, pois, deixá-lo bem limpo e em condições de ser admirado.

E, apontado para o narguilé, observou animado pelo meu silêncio:

— É uma joia! Já leste com atenção as legendas que nele aparecem?


Não respondi. fiquei de pé, os braços cruzados, a fitar aquele homem singular. Mas quem seria ele, afinal?

— Escuta, meu amigo — disse-lhe em tom decidido e sério — quero pedir-te perdão por uma falta gravíssima que acabo de pratica. Fiz de ti, há poucos momentos, um juízo falso e calunioso. ao notar a tua ausência e não encontrando mais esse narguilé no lugar em que havia deixado, concluí que havias fugido de minha casa, ao raiar da madrugada, roubando-me o narguilé. Fui leviano e injusto. Arrependo-me agora de ter sido tão precipitado em meu julgamento.


— Ora, ora — tornou Zualil, com sorriso meio forçado, sem se mostrar ofendido. — Não é caso para arrependimento e peço-te que não te preocupes e não te amofines com tão pouco. Todas as aparências eram contra mim e as aparências enganam ao mais avisado dos homens. O mundo anda cheio de miragens e mentiras. A vida é uma escola em que a desconfiança é o mestre-escola(1) e a má vontade para com o próximo é o “Alcorão”. Admira-me a tua sinceridade e a forma leal e delicada de teu proceder. Raras, bem raras, são as pessoas que se arrependem e confessam os falsos conceitos que formulam em relação aos outros. A tua atitude é o bastante para te redimir do erro.

E depois desse desafogo, como se quisesse desviar o rumo de nossa palestra, apontou para a base do narguilé e interpelou-me sem o menor azedume:

— Já havias reparado na legenda que aqui está? 

Fui forçado a confessar que jamais tivera a minha atenção voltada para os versos que serviam de adorno ao narguilé.

Correndo lentamente o dedo da esquerda para a direita, Zualil, sem hesitações, proferiu: “Aprende a escrever na areia”.

Omito, para encurtar as narrativas, aqui o capítulo em que o viajante misterioso conta a história cujo título é “Aprende a escrever na areia”.

Continua…

Reeditado de 08set2017.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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