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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo 5)

NO CAPÍTULO anterior, a descrição que faz o narrador-anfitrião do mestre-escola é, na verdade, uma crítica velada que emite Malba Tahan sobre a desvalida condição do professor, situação que não alterou muito da década de 1950 para cá:

“O recém-chegado era magro, de cabelos grisalhos, olhos mortiços e fisionomia abatida. Trajava-se com extrema modéstia. Em sua túnica esfiapada multiplicavam remendos de vários feitios.”

Esclarecemos que Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, era professor de Matemática, além de um exímio contador de histórias.

… Continuação da narrativa postada em 25jun2020.

Por Malba Tahan

O MESTRE-ESCOLA puxando-me pelo braço animou-me sibilante:  — Vamos, meu amigo. Estou interessado em ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Deve ser muito curiosa. E digo-te com seriedade: até hoje ninguém conseguiu traçar essa figura que a tal lenda nos promete: um quadrado de sete pontas. Deixa os ouvintes por minha conta. Trago aqui uma legião de curiosos.

Eis o que sucedeu:

O professor Júlio César de Mello e Souza (imagem: BBC)

Tomada a resolução, não mais refleti sobre a exigência frívola e infantil formulada pelo singular egípcio. Vesti-me num abrir e fechar de olhos, enrolei na cabeça um turbante qualquer, à cintura prendi minha bolsa de passeio e, seguido pelo taleb Iezid, deixei a casa e fui para a estrada de Bagdá. Que pretendíamos naquela manhã de sol? Realizar tarefa urgente? Concluir rendoso trabalho? Nada de útil; nada de aproveitável. A nossa intenção era encontrar três pessoas que se dispusessem, naquela hora, a ouvir em nossa companhia, a lenda intitulada “As sete pontas do quadrado”, que o extraordinário Zualil me ofereceu como retribuição pelas atenções recebidas.

. . . . . . . . . . . . . . .

Depois de abordarmos um burriqueiro surdo (essa história está aqui), vimos surgir, a pequena distância, caminhando para o nosso lado, com passos leves e rápidos, duas mulheres. Velavam-se ambas com os seus espessos haics. Uma delas, a mais alta, arrastava pela mão uma criança morena e quase nua. Trazia a outra, no braço, um grande cesto a transbordar de frutas, peixes e verduras.

— Convidemos aquelas mulheres — recomendei em voz baixa ao mestre-escola. — É bem possível que elas não sejam surdas e possam atender ao nosso apelo. O pequeno completará o número de ouvintes exigido pelo egípcio.

— Bem lembrado — anuiu o taleb — um auditório com duas jovens beduínas e um inocente garotinho será muito agradável ao egípcio. 

Isto dito, caminhou decidido, em linha reta ao encontro das mulheres.

Ocorreu, porém, um acidente lastimável. Ao atravessar a estrada, o mestre-escola, na precipitação com que se dirigia para as beduínas, tropeçou num galho seco e foi ao chão. A jovem que conduzia o pequenito, ao ver o meu amigo estatelado na areia, riu gostosamente. A outra levou a mão aos olhos, num gesto que denotava susto e aflição. E enquanto o mestre-escola se levantava do desastrado trambolhão e sacudia os braços para se livrar da terra, as filhas de Eva apressaram o passo e afastaram-se de nós.

— Não poderemos detê-las mais — lamentei. — Já vão longe. Que pena!

E indaguei solícito ao companheiro:

— Machucou-se?

— Nada — explicou o taleb com expressão que demonstrava certa alegria e altivez — A queda foi proposital. Ao me aproximar das duas jovens embuçadas, reconheci-as. A mais alta (a que trazia o garotinho) chama-se Samira e é casada com um malabarista; e a outra…

Fez uma ligeira pausa e concluiu como se revelasse grave segredo de sua vida:

— A outra pretendo pedir em casamento dentro de uma semana. Chama-se Edna. É minha futura noiva. (Se Alá quiser!)

Aquela declaração deixou-me confuso. Se o mestre-escola reconhecera as duas jovens, por que não as convidara? Como explicar e justificar a queda diante de sua amada, em plena estrada?

— Seria indelicado convidar moças de minha amizade para ouvir lendas contadas por estrangeiro desconhecido. aproveitei a oportunidade para certificar-me do amor de minha eleita. Atirei-me ao chão simulando uma queda. Se Edna risse de mim, é porque eu teria parecido ridículo diante de seus olhos. Ora, o verdadeiro amor é cego para o ridículo e para os defeitos. Só tem olhos para as atitudes nobres, para os gestos dignos , para as qualidades que exaltam. E Edna não riu. Com gesto natural lamentou a minha queda. Posso, pois, confiar em seu amor.

Achei que não seria oportuno discutir, naquela ocasião, com o mestre-escola. Percebi que nele latejava o ardor imaginativo dos apaixonados. Admiti como verdadeira a teoria de que o namorado, rolando por terra de pernas para cima, diante de sua amada, poderia colher prova segura do verdadeiro amor.

Vendo-me pensativo, o mestre-escola, que era um incorrigível palrador, pôs-se a discorrer sobre o amor: 

— Grande coisa é o amor, grande e absoluto bem para a vida e para a morte! Torna leve o que é pesado; esclarece o que nos parece sombrio e apaga as tristezas de nossos corações. Aligeira os sofrimentos que nos torturam e faz desaparecerem as mágoas que nos entenebrecem a existência. O amor quer ser livre e alheio a todos os interesses materiais. Para dominar a vida procura colocar-se acima da própria vida. Nada mais doce, nada mais forte, nada mais sublime do que o amor. O Amor é o acabamento com que Deus achou acertado dar por finda a perfeição de sua obra.

Cortei as considerações sentimentais do noivo de Edna dizendo:

— Tratemos, sem perda de tempo, de obter os três ouvintes para a lenda. Deixemos para mais tarde essas digressões sobre o amor. Não te esqueças de que o egípcio está em minha casa a nossa espera. Em vez de apelarmos para os passantes desconhecidos, que a esta hora escasseiam, mais eficiente e mais seguro, a meu ver, seria convidarmos pessoas de nossa amizade. Aqui perto mora o corretor Chafid Bechara. É meu amigo. Vamos procurá-lo. Será o nosso primeiro ouvinte.

taleb aceitou, mais uma vez, a minha sugestão e seguimos para a casa do corretor Bechara.

-*-*-

— Precisamos de ti, meu caro Bechara. Serás um dos cinco ouvintes. Vamos para casa. O eloquente Zualil aguarda a vossa chegada para iniciar a narrativa.

Surpreendeu-nos o corretor com uma estrepitosa risada.

— Que ingenuidade a tua! — proclamou, em tom de menosprezo, sacudindo os ombros — Andas pelas ruas, importunas os amigos, perdes um tempo precioso, e tudo para satisfazer o capricho de um hóspede imbecil. E querem, ainda, que eu colabore nessa galhofa ridícula? Que fantasia! Tenho mais que fazer. Julgas então que eu deixaria minha casa, abandonaria meus interesses, para ir ouvir sandices e baboseiras de um aventureiro que pretende falar sobre “as sete pontas de um quadrado”?

-*-*-

Entretanto, o corretor finda por os atender. Não podendo abandonar seus lucrativos negócios, propõe que dois de seus auxiliares, um botânico e um matemático, acompanhem o narrador e o mestre-escola a fim de escutarem o viajante desconhecido contar a lenda “As sete pontas do quadrado”. No entanto, para completar o número de cinco pessoas, falta ainda um ouvinte.

-*-*-

O narrador em companhia do mestre-escola conseguem, afinal, mais três ouvintes, cumprindo assim a exigência do Viajante Desconhecido para que narre a lenda das “Sete Pontas do Quadrado”. Todavia… (imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

Deixamos a residência do corretor Bechara. Éramos quatro: o mestre-escola, o matemático, o botânico e eu. Faltava apenas um para completar o total exigido pelo narrador.

Não foi difícil encontrá-lo.

Ao passarmos junto de um muro coberto de hera, que se erguia um pouco depois da casa do corretor, demos com um jovem magro, pobremente vestido, que descansava sentado numa pedra, com o rosto apoiado nas mãos. Vestia uma blusa, mais esfrangalhada do que a túnica de um mendigo. Pela barba de quinze dias, pelas mãos calosas e pelos pés deformados, parecia pessoa de baixa extração.

Saudei-o atenciosamente e perguntei-lhe:

— Queres ir, agora, em nossa companhia ouvir uma lenda?

O rapaz arrancou algumas folhinhas de hera e esmagou-as entre os dedos. Quedou-se a olhar para mim numa expressão aflitiva e respondeu-me:

— Só iriei ouvir a lenda se me deres, antes de mais nada, duas fatias de pão.

— Terás o pão que quiseres — declarei com ar risonho para incutir ânimo ao faminto.

Durante a caminhada o ilustre Esber Ketum, o botânico, prendeu-nos a atenção deliciando-nos com preciosas informações alusivas a todas as plantas e árvores que encontrávamos. Encantou-nos ao discorrer sobre as flores. Algumas indicações conservei em minha desbotada memória:

— Não é só pelo expressivo arranjo de suas pétalas, pelo inebriante perfume que exalam e pelo colorido com que se enfeitam que as flores nos atraem. Apresentam-nos outros atributos com que se impõem ao nosso estudo e à nossa admiração. Uma tem propriedades medicinais; outra recorda um episódio famoso da história. Muitas apresentam certas funções misteriosas dignas da atenção dos sábios. Há flores que exprimem pensamentos e anseios do coração. Os antigos pagãos (queira Alá esclarecer esses infiéis!) consagravam a seus deuses e honravam seus heróis com diferentes flores. Os ídolos eram enfeitados com flores. Nas flores vão os poetas buscar inspiração. Têm sido elas cantadas pela gente simples do povo. Canta é, para as albas bem formadas, a maneira gentil de exaltar, aplaudir, elogiar, enaltecer e sonhar.

O teu sorriso é uma flor, // Vivo com ele no peito; // Sorriso de amor-perfeito, // Senão de perfeito amor! / Não me esqueças! Não me esqueças! // Clama a rosa em meu jardim. // Eu é que não digo nada // A quem se esquece de mim

Ao ouvir esses versos tão delicados, lembrei-me das trovas que o egípcio cantara em minha casa. E pus-me a recordá-las:

Saudade, flor que desperta // Tristeza no coração; // Saudades dos que se foram // Dos que não voltam mais, não!  / Não choro por me deixares // Que o jardim mais rosas tem; // Choro por não encontrares, // Quem te queira tanto bem!

Ocorreu nesse momento um episódio que nos causou profunda surpresa. O jovem da túnica esfrangalhada, que se conservara num mutismo de maníaco, abeirou-se de mim como um ébrio, passeou-me os olhos dos pés à cabeça, segurou-me pelo braço e ganiu com indizível aflição:

— Com quem aprendeste essa canção? Onde a ouviste?

— Ora essa! — exclamei tomado de indisfarçável espanto — Que vês de estranho ou surpreendente nessa canção?

E contei-lhe (pois não via motivo para ocultar a verdade) que ouvira aqueles versos de um egípcio chamado Zualil, meu hóspede. E acrescentei, fitando-o meio grave e meio alegre:

— Ele está em minha casa e logo que lá chegarmos vai nos deliciar com a narrativa de uma prodigiosa lenda.

Ouvidas essas palavras o rapaz deu um salto para o lado, arrancou o turbante, atirou-o ao chão e sem pronunciar palavra ou o menor gesto de despedida, desatou a correr como um beduíno perseguido por um bando de panteras negras do deserto.

O jovem mendigo desatou a correr… (imagem extraída do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

Ficamos estupefatos. Para a estranha atitude do jovem não achávamos explicação satisfatória.

— É um maníaco! — opinou o mestre-escola com ar compungido.

— Na vida desse moço — arriscou o matemático — existe um drama. Resta descobrir a relação entre a tragédia que o envenena e a canção que o perturba.

Depois de um minuto de circunspecção, opinou o botânico: 

— Não adianta comentar o caso. Todas as conjecturas feitas a tal respeito sairão inúteis e talvez erradas. O que se apura é, em suma, o seguinte: um jovem de aparência simples e humilde é convidado a tomar parte numa reunião. Aceita o convite e dirige-se, com um grupo de amigos, para o local marcado. Em caminhou ouve, casualmente, uma canção. Arranca do turbante e foge de nós numa corrida alucinada.

— Que faremos agora? — ponderou o mestre-escola — Lá se foi o nosso quinto ouvinte. Estamos novamente reduzidos a quatro e o egípcio exigiu cinco.

— Não nos preocupemos com isso — acudiu o matemático — De cinco para quatro a diferença é só de uma unidade. E não será difícil obter o quinto ouvinte.

Seguimos rapidamente para casa. Recostado ao portão avistei um homem modestamente vestido. Era um cego que eu costumava encontrar esmolando no mercado ou no pátio da mesquita. Saudei-o com simpatia e perguntei-lhe:

— Esperas alguém, meu amigo?

Respondeu-me o cego:

— A pessoa que se achava nesta casa foi obrigada a partir e pediu-me que aqui ficasse de vigia, até o dono regressar.

A inesperada declaração do cego deixou-me estupidificado. Caiu-me a alma aos pés. O meu hóspede partira e deixara um cego vigiando a minha casa. Um ímpeto de cólera apoderou-se de mim. Para atender um desejo do aventureiro eu andara, como um palhaço, a procurar “ouvintes” para a tal lenda. Durante a minha ausência ele desaparecera e deixava-me em situação ridícula diante de pessoas que haviam confiado em mim.

O cego

— O tal egípcio não passa de um tratante! — repisei revoltado. — As minhas desconfianças não eram, afinal, infundadas.  

E já ia despejar sobre o meu hóspede uma série de terríveis invectivas, quando o mestre-escola me puxou pelo braço e apontou para uma casa que ficava no extremo da rua.

Continua…

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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