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O VIAJANTE desconhecido! (capítulo final)

… Continuação da narrativa postada em 26jun2020.

Por Malba Tahan

LÁ vem ele!

E tinha razão. Era Zualil, o egípcio, que caminhava apressado como se viesse a alguma importante missão. Quando Zualil se aproximou do portão, onde eu me achava em companhia dos quatro homens, não pude dominar a minha exasperação. Exprobrei-lhe a forma incorreta e leviana com que procedera durante a minha ausência.

Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza (imagem: Internet)

— Para atender à tua exigência descabida — disse-lhe com desagrado — fui com o mestre-escola em busca de três ouvintes para a tal lenda que pretendias narrar; trouxe comigo dois sábios famosos (e apontei para os auxiliares do corretor Bechara); assegurei-lhes que estavas a nossa espera. E qual não foi o meu espanto ao verificar que havias ido, como um cameleiro em dia de folga, vaguear pelos arredores. E o mais grave, ainda, é que esta casa, entregue aos teus cuidados, deixaste, inteiramente abandonada, ou melhor, sob a vigilância inútil de um cego. Não me parece que este homem (e apontei para o cego) que vive mergulhado nas trevas da cegueira, seja o vigia mais indicado para zelar pela moradia e pelos bens de um amigo. 

O egípcio ouviu impassível as acres invectivas que eu proferia com estouvado desabrimento. E disse, arrastando a voz com a serenidade de um derviche1:

— Sinto discordar de ti mais uma vez. Não pratiquei leviandade alguma nem aceito a acusação de imprudência ou descaso. Imprecas um amigo antes de ouvir as razões e os motivos que o levaram a proceder da forma que te parece errada ou censurável. Vou contar-te o que sucedeu e verás se devo ou não ser inteiramente absolvido da falta por que me condenas.

O Viajante Desconhecido, um homem singular. Seria mesmo um Xeique? Ou apenas um reles farsante de boa lábia? (do livro “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, de Malba Tahan)

— Achava-me aqui, neste portão, a tua espera quando vi passar um velho marceneiro que eu conhecera. Era um homem bom e digno que me auxiliara em viagem. Pareceu-me aflito. Chamei-o e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Com voz angustiada, respondeu-me que saíra de casa em busca de remédios para o filho mais moço que adoecera de repente. Disse-lhe então: “Conheço a Medicina; tenho grande prática na cura de moléstias crônicas e agudas. Irei socorrer teu filho”. Alegrou-se o pobre pai. Havia, porém, uma dificuldade. Como deixar abandonada a casa de meu amigo? Nesse momento avistamos este cego que passava apalpando o chão com o seu pesado bordão: “Aquele homem – pensei – poderá substituir-me enquanto vou socorrer o enfermo.” Abordado por mim e informado de tudo, o cego prontificou-se a servir-me. “Podes partir tranquilo – disse-me – e não te preocupes com a casa que ficará sob meu cuidado”. Não tive, pois, dúvida alguma em deixar tua casa vigiada pelo cego. Era pessoa que me inspirava confiança. Ninguém desempenharia melhor tão delicado encargo. O cego, apesar das trevas que o rodeiam, percebe a vida, ouve o que se passa em redor. Faltando-lhes o sentido da vista, apura e desenvolve todos os outros. Reconhece as pessoas que dele se aproximam; os lugares ponde passa; as coisas mais simples que o rodeiam. Tem por norma a prudência, aliada à cordura e à moderação. É cauteloso no agir e no falar. Sabe como se defender; orienta-se com segurança, pois a sua bússola é a inteligência esclarecida pela luz do raciocínio. Na incerteza do terreno, evita pisar em falso. Há cegos mais cautelosos do que o vidente mais precavido.

E como eu o fitasse com obstinada desconfiança, ele prosseguiu:

— Queres a prova de que este cego merecia a confiança que nele depositei? Ele nos vai dizer quais foram as pessoas que, durante a nossa ausência, passaram por esta rua.

Respondeu o cego baixando o rosto e falando pausadamente:

— Notei que cruzaram esta rua um burriqueiro surdo, duas mulheres (uma delas conduzia uma criança), um pescador e dois músicos.

“Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero” (do livro de Malba Tahan “Mil Histórias sem Fim – volume 2”, ed. de 1952)

Acudiu Zualil com entusiasmo:

— Aí está a prova! Nada lhe passou despercebido! Estava sempre atento e vigilante. Quem melhor poderia zelar pela segurança de tua casa? Afastei-me daqui, é verdade, mas assim o fiz para socorrer uma criança em perigo de vida. Salvei-a. Estou satisfeito. Que juiz seria capaz de me condenar?

Nesse ponto Dorak, o matemático, observou, dirigindo-se ao egípcio:

— A tua forma nobre e correta de proceder só pode merecer elogios de nossa parte. Dirão os irrefletidos que confiaste num cego. A pior cegueira, a meu ver, não é aquela que anuvia os olhos, mas sim a outra – a que obscurece a alma.

E voltando-se para o mestre-escola (que se achava a seu lado) interpelou-o:

— Conhece a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

-*-*-

Então o matemático conta a história do “Burro amarelo, bem amarelo“, que omitiremos nesta sequência narrativa.

-*-*-

ALLAHUR abkbar! (Deus é grande!) Retomo, agora a minha narrativa já mais de uma vez interrompida. A lenda do “Burro amarelo, bem amarelo”, referida com tanta eloquência e oportunidade pelo erudito calculista Zoraik, foi ouvida em meio do maior silêncio. Duas ou três vezes assaltou-me o desejo de interpelar o narrador e isso acontecia sempre suas palavras feriam pontos delicados de nossa doutrina. Contive-me, porém, e conservei-me imóvel e silencioso, como um túmulo, entre o bom cego e o mestre-escola. Coube a Zualil, o egípcio, que era, na verdade, o caid el-markahn, a grata incumbência de fazer o elogio do narrador. O nosso amigo, pondo-se de pé rapidamente, ajeitou o turbante, meditou alguns instantes de mãos na cintura, com desembaraço e simpatia, e assim falou:  

— É fácil coroar com rutilantes elogios as narrativas que nos divertem, educam e encantam. Tal é o caso da lenda do “burro amarelo”, que acabamos de ouvir. Envolve sábios conceitos, inesquecíveis ensinamentos e judiciosas conclusões. Leva-nos a meditar sobre terríveis malefícios da cegueira espiritual que, embora não atinga os olhos, fecha para sempre o coração. Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero. Guiemos os cegos de espírito pelas veredas do bem e da verdade. O guia para eles será a salvação. Quero finalizar esta rápida apreciação recordando os versos de um cego – versos nos quais o poeta exalta o poder do amor materno:  

Não choro a minha cegueira / Choro a falta do meu guia; / Minha mãe, quando era viva, / Eu era um cego que via

E as palavras de Zualil tinham aquela consonância agradável que o leve sotaque egípcio tornara mais sugestiva.  

— Que lindos versos! — comentei alçando a voz para que todos me ouvissem. — E terão, como as encantadoras trovas da “Flor da Saudade”, a força mágica que perturba os homens? — força mágica? — estranhou Zualil arregalando os olhos — Qahyat en-nébi! Como descobriste força mágica em meus versos?  

Era meu dever esclarecer a dúvida. Recapitulei, portanto, ao egípcio, com todas as minúcias, o singular episódio que ocorrera quando voltávamos da casa do corretor Bechara. Contei que um jovem, pobremente vestido, aceitara o convite para ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Exigira, apenas, como pagamento duas fatias de pão. E vinha o mendigo, muito tranquilo a meu lado, quando me ouviu declamara os versos da “Flor da saudade”:

Saudade, flor que desperta  / Tristeza no coração; / Saudades do que se foram / Dos que não voltam mais não!

Com palavras mal articuladas, indagou o rapaz qual era o autor daqueles versos. Respondi como devia, pois não me pareceu justo ocultar a verdade. Operou-se, nesse instante, a força mágica dos versos. O desconhecido atirou por terra o turbante e fugiu a correr como um louco. E tal foi o ímpeto de sua fuga que julgamos impossível tentar evitá-la. A revelação daquele caso — que para nós não passava de um banal acidente de rua — causou em Zualil um abalo indescritível. Cobriu-se-lhe o rosto de alegria. Todo seu corpo tremia. Tive a impressão de que a tatuagem que lhe cobria o dorso da mão esquerda tornara-se mais azulada. Sacudiu-me pelo ombro com convulsiva energia e interpelou-me febricitante, numa agitação que só um ataque de loucura poderia justificar: — Que rapaz foi esse? É mesmo certo que fugiu ao ouvir o meu nome? Onde estava? Ualalu! Quero saber a verdade! O rapaz era moreno? Trazia um punhal na cintura? Como estava vestido? Assediado pelas aflitivas perguntas do egípcio, senti-me confuso e estonteante. O mestre-escola veio em meu auxílio, e com a maior calma, como se estivesse diante de um discípulo, forneceu ao conturbado egípcio todos os informes exigidos. Ocorreu, nesse momento, uma cena inesperada que nos deixou no espírito indelével lembrança.  

Zualiu, com a face iluminada de intensa alegria, perdeu a compostura e pôs-se a pular nomeio da sala e a gritar como um possesso agitando os braços:

— Estamos ricos! Louvado seja o sapientíssimo! Estamos ricos!

Havia no estupendo homem o que quer que o arrebatava da realidade para o mundo fictício das alegrias estonteantes. — Infeliz amigo! — deplorei com sincera lástima — Assaltou-o perigoso ataque de demência! Ouve falar da fuga de um mendigo e conclui que vai receber todas as riquezas do gênio de Aladim! Olhei para o mestre-escola, para o calculista e para o botânico. Li nas fisionomias que todos eles compartilhavam da minha opinião em relação ao estado mental do egípcio. O cego não se moveu. Permaneceu como estava, sentado no tapete, com a cabeça baixa apoiada nas mãos. Ao notar a estranheza com que recebíamos as suas exaltadas manifestações de alegria, achou Zualil que era seu dever esclarecer aquela cena que tivera por origem a “Flor da saudade”. Passeou a mão pela fronte, pelos olhos e impando de satisfação, contou-nos o seguinte:

— As informações que ouvi dos amigos trouxeram-me a convicção de que esse jovem que fugiu desatinadamente ao ouvir o meu nome — revelado por causa dos versos — é o meu servo Mustafá. Como já tive ocasião de contar, em Damasco, sob ameaça de morte, confiei todos os meus haveres a Mustafá e ordenei que seguisse para o Iraque. Combinamos um encontro em certo recanto desta cidade; não nos foi possível, porém, comparecer no dia marcado, e desencontrei-me do homem que conduzia o meu tesouro. Passaram-se muitos meses. Nunca mais o encontrei. Julguei-o morto ou desaparecido. Já havia perdido a esperança de recuperar toda a minha fortuna quando sou avisado de que Mustafá se acha nesta cidade e que foi informado de meu paradeiro. É certo que, dentro em pouco, virá procurar-me.

— Deixemos de sonhos e devaneios — objetei com um gesto incrédulo — Não creio que Mustafá apareça nesta casa! Admitamos que era ele, precisamente, o mendigo que vimos fugir pela estrada. Pela situação miseranda em que o encontramos, faminto e andrajoso, implorando fatias de pão, não devia trazer consigo tesouro algum! É lá admissível que um homem que tem em seu poder várias dezenas de rubis e mancheias de brilhantes, passe privações pelas estradas de Bagdá!? A verdade é outra. Mustafá fugiu porque não desejava avistar-se com o seu amo. Não pretende prestar contas do tesouro que lhe foi confiado.

Zualil franziu o rosto numa negação e recriminou sem titubear, reforçando-se por ser claro e decidido:

— Duvidas da integridade e das boas intenções de Mustafá? Não acreditas na lealdade do humilde servo? A fuga é perfeitamente justificável. No momento em que recebeu a notícia de minha presença nesta casa, não trazia em seu poder o cinto que contém as gemas preciosas. Sem revelar o segredo, correu para ir buscá-lo. Para maior segurança, deixara o tesouro bem oculto em lugar secreto. Fiquem certos de que dentro de alguns momentos ele aparecerá aqui.

E já mais calmo, sempre confiante, o egípcio prosseguiu com gesto bem composto:

— Grandes males advém para o mundo da falta de mútua confiança entre os homens. Esforcemo-nos por acreditar naqueles que nunca fizeram por desmerecer de nossa confiança. Evitemos os juízos temerários; as suposições caluniosas e infundadas.  Arranquemos de nossos corações todas as suspeitas, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno.

E, depois de ligeira pausa, acrescentou sem se dirigir a nenhum de nós:

— Logo que Mustafá chegue, entrarei na posse de todo meu tesouro e serei um dos homens mais ricos desta cidade. Quero, pois, demonstrar que sou generoso com os amigos.

Dirigindo-se ao matemático Dorak, declarou jubiloso com um clarão de simpatia na face:

— Vais receber, meu amigo, quinze mil dinares-ouro e vinte camelos de boa raça. O mesmo presente darei ao mestre-escola, ao preclaro botânico e ao cego que nos acompanhou!

E a seguir voltou-se para mim e disse avigorando a frase com intencional demora:

— Ao dono desta casa, que tão gentilmente me acolheu, oferecerei, como prova de minha gratidão, trinta mil dinares-ouro e quarenta camelos de boa raça. O dobro precisamente! Lembras-te do que te disse? Estás com a baraka! A fortuna veio ao teu encontro!  

Aquele homem singular, que na realidade nada tinha de seu, imaginava-se riquíssimo e distribuía promessas de ouro por todos nós. Era de admirar a delicadeza de sua sensibilidade e o incomparável primor de seu idealismo.

Fez-se largo silêncio.

De repente, o cego ergueu-se às apalpadelas e declarou, num gesto de espanto, com voz trêmula:

— Atenção, meus amigos! Alguém acaba de chegar! Ouço passos no jardim!

Corri alvoroçado para a porta que tinha serventia para o jardim, descerrei-a e olhei para fora.

O quadro que caiu sob meus olhos deixou-me estarrecido.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto.

Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança.

Aquela cena deixou-nos emocionados.

O mestre-escola, sempre sereno e judicioso, ponderou que seria mais acertado limitar, naquele momento, as expansões naturais de alegria. Fazia-se mister, no primeiro momento, socorrer o famélico Mustafá antes que o keif da jornada o abatesse para sempre.

Mustafá, o servo leal. Até que ponto é possível a lealdade? Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

E assim fizemos. Merecia o dedicado servo as nossas atenções. Procurei cercá-lo de todas as honras, pois pesava-me na consciência o feio crime de ter duvidado de sua inquebrantável lealdade.

Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

Depois de reconfortado com fina e abundante merenda, retirou Mustafá o cinto que trazia oculto sob a túnica. Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna, lindíssima coleção de rubis e brilhantes. Aquelas gemas, vendidas em Bagdá, dariam mais de duzentos mil dinares.

Como eram lindas aquelas pedrinhas vermelhas! Pareciam gotas de sangue cristalizadas. Era um prazer segurá-las e senti-las pesar na concha da mão.

O único que não desejou sopesar as pedras preciosas foi o cego.

Disse afinal Mustafá, dirigindo-se placidamente a seu amo, o xeique Zualil:

— Infelizmente não me foi possível trazer a coleção completa. Fui obrigado a desfazer-me de um rubi. Trago aqui oitenta e nove, quando na realidade, ao partir para Damasco, havia recebido noventa.

— Não importa! sobreveio atencioso o egípcio — Seria irrisório tomar-se em consideração tão insignificante perda. É possível até que tenha se desprendido durante a viagem.

Fim! 

  1. Dervixe: Monge muçulmano; no islamismo, aquele que faz votos de caridade, pobreza e humildade; dervis; daroês: a maioria dos dervixes leva uma vida nômade de abnegação, vivendo as esmolas.

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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