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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 21jul2020.

Menina, quer namorar comigo? Sou soldado da Base Aérea, acostumado a matar. Anedota contada pelo sr. Manoel Valentim, falecido pai deste blogueiro, exímio contador de causos, reproduzindo a fala de um folclórico sujeito bastante conhecido na localidade, um pávulo contador de vantagens.

NOVAMENTE sobre o pé esquerdo de Lacerda. Primeiro, a questão da arma não periciada; depois, o questionamento (estranhamento) médico sobre o gesso no pé ferido, que, segundo Lutero, médico ortopedista, não seria o tratamento médico indicado; e ainda uma crise de consciência; sem contarmos as diferentes versões divulgadas pelo próprio jornalista. Que mais falta?

O insuspeito livro de Claudio Lacerda Paiva nos trás o seguinte:

O que o médico [George Sumner Filho] estranha é que “dias depois, ainda no governo de Getúlio, isto é, antes do dia 24 de agosto, não sei precisar quando, misteriosamente desapareceu toda a documentação do caso: boletim de socorro, registro no livro de ocorrência e as radiografias (duas), uma anterior-posterior e outra lateral.”1

Ora essa! Já vimos que Vargas em nada obstaculizou o curso das investigações, o que bem poderia ter feito em razão de seu elevado cargo. O pé esquerdo enfaixado (engessado) de Lacerda já vem fartamente exibido em todos os principais jornais e revistas brasileiros, de forma que isso — o pé ferido à bala — já entrou para a História como verdade absoluta e incontestável. A quem interessaria, portanto, sumir com a documentação médica correspondente, comprobatória do atentado? Isso em nada teria ajudado a família Vargas, já que o crime, um homicídio, bastante explorado pela imprensa e objeto de violento inquérito e impactantes ações por parte da Aeronáutica, em nada pode ser escondido ou atenuado. Inês já é morta. Está massivamente incutido, internalizado na mente e no coração da maioria dos brasileiros dessa época, leitores de jornais e ouvintes de rádio, as impressionantes imagens do caixão de Vaz abraçado por sua jovem viúva, que continuará a vida cuidando de quatro crianças órfãs; não bastando, as fotos de Carlos Lacerda, numa ele amparado por dois soldados afrodescendentes da Polícia da Aeronáutica e noutras ao lado de oficiais de alta patente das forças armadas e de figurões da política nacional. Quartéis e parlamento a darem sustentação e prestarem solidariedade ao grande brasileiro Carlos Lacerda, um combativo jornalista incansável em denunciar a bandalheira. De que adiantaria agora à família de Vargas, ao agonizante governo de Vargas ou ao próprio Getúlio fazer desaparecer prontuários, registros e chapas de raio xis do pé esquerdo de Lacerda, que, segundo consta, teria sido ferido por Alcino, pistoleiro de Tenório Cavalcanti? O que é um peido pra quem já está cagado?

Carlos Lacerda, o causador de úlceras, teve a documentação sobre seu atendimento médico desaparecida. A quem interessaria? (imagem: Internet)

Ao contrário, não tendo declarado a verdade — quem sabe, meias verdades –, interessaria muito ao próprio Carlos Lacerda, aos oficiais da Aeronáutica da República do Galeão, à UDN, enfim, à classe dominante brasileira, o extravio dessa documentação que, afinal, poderia dar outros rumos à investigação ou, principalmente, à completa desmoralização de Lacerda junto à opinião pública, e — pior — em relação à família de Rubens Florentino Vaz e de seus amigos da Aeronáutica, incluindo o impoluto brigadeiro Eduardo Gomes. Documentos inconvenientes, que deporiam contra a versão largamente difundida: Carlos Lacerda sofreu um atentado, um crime político, e Vaz, um amigo que lhe acompanhava, (na verdade, por dever do ofício a que se obrigou, ele e mais nove colegas de quartel) toma a frente do jornalista, luta bravamente contra o pistoleiro e nisso acaba levando dois tiros. Carlos Lacerda corre para pegar em seu automóvel o revólver calibre 38 cano curto e dá vários tiros, e só aí percebe que levou um tiro (de uma arma calibre 45, um baita revólver que “reluzia na escuridão”) no pé, enquanto o amigo Vaz está caído no chão já agonizante. Essa versão poderia ter caído por terra ou até mesmo confirmada não fosse por um detalhe: a documentação médica sobre o atendimento ao jornalista desapareceu como que por encanto. Quem pôs o cágado trepado na árvore? E quem tirou?

Gregório Fortunato, também conhecido como “Anjo Negro”, foi morto em 1962 no Dia do Aviador (imagem: Copacabana em Foco, via Internet)

A fase do inquérito está a todo o vapor, com os jornais repercutindo diariamente e as rádios a cada hora. Coronel Adil, com largos poderes e seus auxiliares, oficiais aviadores colegas de Vaz, agora reforçados por outros voluntários como o explosivo Burnier, todos eles sedentos de vingança, caem em campo para apanhar o assassino e o mandante. De início, correm em várias direções até que o taxista Raimundo reconhece Climério, ex-membro da guarda pessoal e compadre de Gregório. Bingo! Já preso Alcino, falta localizar Climério, ex-integrante da guarda pessoal de Vargas. Ele é o elo que levará a FAB a Gregório. Comandada pelo coronel-aviador Délio Jardim de Matos a mais numerosa força policial da FAB, até então, é destacada para a missão.

Duzentos e cinquenta militares da FAB, entre oficiais e praças, armados de metralhadoras, granadas e fuzis, utilizaram 10 aviões, 2 helicópteros, 26 automóveis, cães de caça para encurralar Climério. […] O clima de terror que desceu sobre a cidade foi tão grande que algumas pessoas, que não tinham nada a ver com a cena, pelo simples fato de avistar um soldado da Aeronáutica se urinavam — registra, com alguma tinta de exagero, o jornalista gaúcho Rubens Vidal Araujo.2

É daí que surge o folclórico rapaz da anedota do sr. Manoel, que, nessa época, tirou a ideia — largamente difundida entre as classes populares — de que soldados da Base Aérea (FAB) são valentes e matadores, tentando com a conversa impressionar a moça.

Mais tarde, preso no Galeão, Gregório resistiria ao máximo as torturas que lhe foram aplicadas. Lá estavam entre os inquisidores o terrível Cecil Macedo Borer, o mesmo que levou à completa alienação mental o comunista alemão  Arthur Ernst Ewert, um dos artífices do movimento de 1935. Quando as evidências já não deixam dúvida e sob a ameaça de ser jogado de um avião sobre a baía de Guanabara, confessa enfim ter sido o mandante do crime, declarando, porém, ao coronel Adil que fora induzido pelo general Mendes de Moraes e pelo industrial e deputado Euvaldo Lodi. “Sujeito asqueroso esse Lacerda, bem que merecia uma surra!”. Isso não interessa, porém, aos inquisidores. A única porta agora a ser forçada é a que daria acesso direto à família Vargas.

Esse assunto rende.

Uma das versões que circularam na época especula que o atentado teria sido levado a cabo por membros da guarda palaciana onde estariam infiltrados mercenários. De concreto, sabe-se que Alcino era jagunço de Tenório Cavalcanti, da UDN. Mito ou verdade, um dos frequentadores do Catete era Armando da Fonseca, político que transitou pelo PSD, pelo PTB e, por último, depois da morte de Vargas, pela UDN de Carlos Lacerda, de quem mais tarde seria assessor quando o político e jornalista tornou-se governador da Guanabara, uma de suas ambições.

E vocês, amigos leitores, que pensam disso tudo?

Como diz o maranhense Zeca Baleiro, a mentira é uma princesa cuja beleza não gasta e a verdade vive presa no espelho da madrasta. Sendo assim, diversas são as hipóteses, delas uma só verdadeira. Vamos lá:

  1. Alcino, a mando de Gregório, aproxima-se de Lacerda com a intenção de eliminá-lo, não conseguindo porque Vaz o impede ao lutar contra ele. Diante disso, o pistoleiro puxa o Smith & Wesson 45 e lhe dá dois tiros fatais. Lacerda, enquanto isso, corre ao seu automóvel e pega o 38 e, sem óculos, dá vários tiros a esmo;
  2. Também a mando de Gregório, Alcino, em face da iluminação fraca, aproxima-se para anotar a placa do carro a fim de, depois, produzir um relatório, mas é notado por Vaz, que, desarmado, trava luta corporal contra o elemento suspeito. Idêntico desfecho da teoria anterior;
  3. O mesmo modus-operandi acima, mas a mando de Tenório Cavalcanti ou alguém a ele ligado. Alcino já tem feito igual noutras noites, mas é agora que a oportunidade se apresenta. Um oficial desarmado não poderá liquidar o pistoleiro e isso — ele vivo — é fundamental para que as investigações cheguem ao Catete, provocando a crise;
  4. Enquanto estão lutando, um terceiro (ou mais) pistoleiro age, aproveitando o momento e atinge o major, matando-o. Fere também Lacerda, caracterizando o atentado político ao mesmo tempo que crime militar. No caso, Lacerda, no calor do combate, não percebe de imediato o ferimento de arma de grosso calibre;
  5. Alcino, que mais disse ter confessado sob tortura, nega que tenha atirado no oponente. Mas que escutou o barulho de dois tiros enquanto tentava desvencilhar-se do major, para em seguida fugir correndo até a esquina onde o táxi de Raimundo, motor funcionando, estava à sua espera;
  6. Ainda. Lacerda, ao ver o amigo agonizante no chão, num raciocínio frio e rápido, dá um tiro no próprio pé.
  7. Diante disso tudo, o major agonizante, levado num carro com a cabeça repousando no colo de Lacerda até o hospital Miguel Couto, onde já chega morto, o jornalista vai em caminho raciocinando sobre o que fazer. Chegando lá, consegue convencer os médicos e equipe sobre a solução: enfaixar o pé e manter a farsa da “vítima sobrevivente”.
  8. Outra: Alcino, pistoleiro frio, sob ordem de Tenório Cavalcanti, tem a intenção de matar o major, dando-lhe dois tiros fatais, e ainda, para completar o serviço, apenas fere Lacerda, poupando sua vida. No inquérito, sob tortura, confessará o que indicarem seus interrogadores.

No caso da primeira teoria, é estranho que Alcino, sendo pistoleiro profissional, tenha se aproximado da vítima a ponto de ser por ela interpelado. Bastava à distância segura apontar a arma e atirar. Ou, como os três se demorassem conversando em frente ao prédio, aguardassem outra oportunidade. Na segunda hipótese, uma ação temerária e pouco inteligente da parte de Alcino, assim como temerária da parte de Vaz, que acabaria morto. Terceira: a oportunidade é essa. Aí está, entre os dez guarda-costas, um de pouca capacidade de ação, um oficial discreto e tranquilo, exemplar chefe de família e pai de quatro crianças, que, de tão discreto, se queda à meia-noite a conversar na rua com o amigo jornalista, esquecido do perigo que corre e da missão a que se voluntariou; Vaz entra de última hora em lugar de um outro a quem a Seção de Operações escalou, só agora, para um voo no dia seguinte. Quarta: fantástica teoria da conspiração, porém verossímil. A intenção é fazer um cadáver e a presença do major como guarda-costas (fato que já nos bastidores é amplamente conhecido) vem a convir, pois aí provoca a ação direta dos militares; de lambuja, acertam Lacerda, porém poupando-lhe a vida. Quinta teoria: igualmente às teorias anteriores, quanto à tortura creio que ele dificilmente confessaria o crime a não ser sob os métodos de Cecil Borer. Sexto: nesse caso, as chapas de raio xis seriam um óbice. Sétima hipótese: consideremos o tempo decorrido até o hospital, talvez vinte minutos, perdendo sangue e ainda com o peso da cabeça de Vaz sobre suas pernas. Difícil avaliar. Oitava e última: também teoria da conspiração, porém não descartável.

Ainda sobre o ferimento no pé, há uma outra hipótese. Gente ligada à família Vargas, tentando provar a farsa, apreende os documentos e acabam dando com os burros n’água. Nesse caso, estranha-se que nenhum outro autor tenha explorado o assunto, tampouco a fulminante equipe do Galeão tenha botado a boca no trombone.

Enfim, a verdade é tímida e recatada; já a mentira é expansiva e vaidosa. A verdade foi para o túmulo junto ao cadáver de Carlos Lacerda, de Eduardo Gomes, Gregório, Alcino, Mendes de Moraes, Getúlio Vargas, Benjamim Vargas, João Adil de Oliveira, enfim, de todos eles. De verdade, um cadáver e quatro homens condenados, o resto são mentiras e meias verdades que, maquiadas, teimam em circular até hoje pelas ruas.

Segundo o jornalista Rubens Vidal Araujo, uma de nossas fontes, Vargas cometeu em seu segundo governo os seguintes erros:

Aliou-se, sem necessidade a um oportunista, Ademar de Barros, já o conhecendo bem, tornando sua carga mais pesada em vez de aliviá-la; afastou-se de Perón, um aliado poderoso; elegeu um governador do Rio Grande, um estado-chave, um homem displicente, que não o socorreu quando devia; e teimou em governar com os inimigos.3

Nesse último erro, nós incluímos a nomeação de seu ministro da Aeronáutica, aquele que de nada sabia e que, exercendo um cargo político, não fazia política. Já seus colegas de ministérios militares faziam, e o verdadeiro comandante da FAB, o brigadeiro Eduardo Gomes, também fazia política dia e noite, nos sete dias da semana, 365 dias por ano. Mesmo erro não cometeria Juscelino, conseguindo encerrar seu mandato de cinco anos.

Gregório foi condenado a 25 anos de reclusão. Doze deles pelo atentado a Lacerda, causador de úlceras nervosas, mais até que os onze anos de cadeia pela morte de Vaz. Na prisão, oito anos decorridos, Gregório Fortunato prometia escrever um livro contando toda a sua verdade. Esse foi mais um erro, o derradeiro do tenente Gregório. Dias antes de ser libertado, foi morto por um detento. Foi precisamente no dia 23 de outubro de 1962, Dia do Aviador.

*** FIM ***

Legendas:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p. 132;
  2. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 305;
  3. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 314.

Livros consultados:

  1. ARAUJO, Rubens Vidal. Os Vargas. Rio de Janeiro: Globo, 1985.
  2. BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985.
  3. LACERDA, Claudio. Uma crise de agosto: o atentado da rua Toneleros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  4. CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo: Planeta do Brasil, 1994.
  5. MOURA, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
  6. ALMEIDA, Hamilton. Sob os olhos de Perón: o Brasil de Vargas e as relações com a Argentina. Rio de Janeiro: Record, 2005.
  7. LIRA, Neto. Getúlio: 1945 – 1954 Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Outras fontes consultadas:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Central_Intelligence_Agency
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ten%C3%B3rio_Cavalcanti
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Fortunato
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_D._Roosevelt
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_Fontes
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Filinto_M%C3%BCller
  8. https://pt.wikipedia.org/wiki/Get%C3%BAlio_Vargas
  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  10. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Gaspar_Dutra
  11. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nero_Moura
  12. https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Sider%C3%BArgica_Nacional
  13. https://flaviochaves.com.br/2018/08/12/assim-se-mata-um-presidente-no-exemplo-marcante-de-getulio-vargas/
  14. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Fernandes_Vergara
  15. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1504200113.htm
  16. https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngelo_Mendes_de_Moraes
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacobo_Arbenz_Guzm%C3%A1n
  18. https://www.geni.com/people/Lutero-Vargas/6000000014566629035

L.s.N.S.J.C.!

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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 20jul2020.

Concluída a operação com a morte do presidente da República e a posse de seu vice-presidente, a armada norte-americana embarcou os seus marinheiros e retirou-se da baía da Guanabara. Então os funcionários da carteira de câmbio das agências do Banco do Brasil ficaram estarrecidos com a quantidade de moças da sociedade do Rio de Janeiro que se apresentaram para trocar dólares. Elas também tinham feito uma boa safra. Isso já tinha acontecido antes em escala menor, e continuaria acontecendo em escala maior todas as vezes que um frota norte-americana entrava na baía da Guanabara.1

COMO se vê, o caso é recheado de detalhes sem importância. Pequenos fatos, porém, que, somados, poderiam ter levado a resultado diferente daquele a que se chegou oficialmente, modificando a História. Inicialmente, de todas as versões, chama-nos a atenção a primeira de autoria da própria “vítima sobrevivente”, como se intitulou Carlos Lacerda, versão, aliás, que foi confirmada pelo jovem Sérgio Lacerda, seu filho: uma fuzilaria infernal com tiros de todos os lados. Nenhuma atenção chamaria, porém, se ela houvesse sido sustentada até o fim, em vez de ter sido abandonada conforme surgiam indicativos que levariam à definição de Gregório Fortunato como o mandante do crime. Depois, o fato de Lacerda ter se recusado a entregar o revólver para o delegado Jorge Pastor periciar.

Gregório Fortunato, o lado mais fraco da corda (imagem: Internet)

Ora! Olhando os fatos em relação à postura da parte contrária: o governo de Vargas. Desde o começo, o ex-ditador sempre se dispõe a colaborar com as investigações. Primeiro, designa um coronel-aviador para acompanhar os trabalhos da polícia civil; depois, transfere o caso para a Aeronáutica, que passa agir sozinha com amplos poderes a ponto de o episódio ter sido batizado pela imprensa de República do Galeão; mais tarde, desativa sua guarda pessoal ao saber que um ou mais de seus membros estão envolvidos no crime; por último, abre as portas do Catete para que soldados da Polícia da Aeronáutica arrestem o armário de Gregório Fortunato, cujo conteúdo vem a relevar segredos da família do presidente . Em todas as ocasiões necessárias, Vargas e nem outro membro do governo impuseram quaisquer dificuldades às investigações. Todavia, a única dificuldade no caso é colocada pela chamada “vítima sobrevivente”: Carlos Lacerda. Esse é outro detalhe insignificante para o qual a História não dispensou qualquer relevância.

Quanto às motivações, não faltam razões nem inimigos que, fartos das difamações e provocações lacerdianas, detinham todas as razões para ter mandado dar um “susto” no polêmico jornalista, podendo com isso terem chegado até mesmo ao homicídio. No entanto, só Nero Moura não sabia, mas era já de conhecimento público que ele se fazia acompanhar regularmente por oficiais da Aeronáutica desde maio de 1954, que informalmente lhe davam segurança física. Esse é outro detalhe que deve ser considerado. A lista de potenciais mandantes, ensaiada por nós na narrativa postada em 20 de julho corrente, é longa. Nela estão incluídos Oswaldo Aranha, Lutero Vargas, Danton Coelho, Benjamim Vargas, João Goulart, além do industrial Euvaldo Lodi e do general Mendes de Moraes, por nós antes mencionados, e outros. Qualquer um deles, habituais frequentadores do Catete, poderia ter o hábito de comentar, na presença de Gregório, fortuitamente e com alguma regularidade, sugerindo uma “cossa” no jornalista. Inquirido, Gregório tenta jogar a bomba para o colo do general e do industrial, objetivando com isso embaralhar os fatos. Mas, não tendo provas materiais, fica a palavra de um afrodescendente semianalfabeto contra a de um conceituado general, que antes fora prefeito do Distrito Federal, resultando no arquivamento do processo por parte do Superior Tribunal Militar. O general, contudo, teria mais de uma vez declarado sua antipatia a Lacerda, uma vez que, de cinco atentados que o jornalista sofrera, ele atribuía três ao general. Quanto ao industrial, Lodi escuda-se na imunidade parlamentar, com a Câmara dos Deputados negando autorização para que o parlamentar seja julgado no processo criminal. Ambas as instituições, cada uma a seu modo, corporativas. Tarde demais, portanto, Gregório percebe que caíra numa armadilha.

Não só Gregório, mas o próprio Carlos Lacerda, aos poucos, vai percebendo que pode ter sido usado. Quem ganharia e quem perderia com morte do polêmico jornalista, inimigo número de Vargas? O governo Vargas certamente perderia, mas a direita política brasileira obteria lucros eleitorais porrudos ao capitalizar o episódio — calculavam. Todavia, ainda que tenha alguma vez cogitado essa possibilidade, Lacerda, já que estava de corpo e alma no negócio, haveria de seguir tenazmente com a toada até o final. Ao cabo, não tendo ele contribuído para a causa com o seu próprio cadáver, mas sim um major da Aeronáutica, a coisa fica incomparavelmente bem mais arrumada para a causa a que se vem propondo desde a década de 1940, porque aí os militares se sentem autorizados a agir. Os fins justificam os meios, e os meios — no caso, o cadáver de Vaz — vieram a produzir os fins colimados: o encerramento da Era Vargas. Ademais, a presença de um jornalista combativo, como ele, imensamente mais útil seria à causa que a de um major-aviador dos mais discretos e, dando mais impacto junto às massas, pai de quatro crianças. Na hora agá, o major escalado de guarda-costas-de-dia, Gustavo Borges, é deslocado para uma missão aérea fora-de-sede que ocorrerá na manhã do dia seguinte, precisando de repouso noturno. Se é ele — Borges –, um oficial combativo e voluntarioso, teria sacado a arma de fogo contra o agressor, ferindo-o ou matando-o em legítima defesa. Nesse caso, o episódio dificilmente viria a ser esclarecido, em nada beneficiando a oposição e em nada abalando o governo. Lacerda, portanto, Vaz morto, teria que aparecer ferido, além de ter arriscado também sua vida na “fuzilaria infernal com tiros de todos os lados’, de modo que o crime se caracterizasse como político e não comum, afinal o major estava à paisana e fora de serviço.

Além da alusão — quase casual — à questão racial, a fotografia revela a promiscuidade reinante entre a farda e a política brasileira, num claro desvio da missão constitucional das forças armadas. (imagem: Internet)

Voltando à questão do pé de Carlos Lacerda.

Chegou-se a ventilar que Lacerda não teve o pé ferido à bala coisíssima nenhuma. Mas aí seria demais duvidar da honra dos médicos que o atenderam no hospital, e mais tarde dos peritos, que em tribunal juraram sobre a Bíblia. Mas alguns pequenos detalhes (detalhes, detalhes…), aos quais a historiografia oficial concede importância zero, teimam em surgir no curso de nossas pesquisas.

Lutero Vargas. Lutero, bem sabemos, é parte interessada. Portanto, seu testemunho é suspeito. Lutero Vargas, deputado, filho mais velho de Getúlio e desafeto de Lacerda, é também médico. Serviu como tenente-médico do Primeiro Grupo de Aviação de Caça na Itália durante a Segunda Guerra. Com a autoridade de médico ortopedista, Lutero diz que “não se engessa pé ferido à bala”, ao menos naquela época. Ademais, um ferimento à bala calibre 45 no pé, cujos ossos são minúsculos, teria produzido um rombo considerável, praticamente uma amputação.

[…] Isso o Lutero, que é ortopedista, dizia: “Não compreendo que engessem um ferimento de bala. Mas são coisas que você não pode garantir que se tenham passado dessa ou daquela maneira”.2

Lutero Sarmanho Vargas (imagem: Geni.com)

No tendencioso livro de Claudio Lacerda, de teor claramente antivarguista, a declaração de Lutero é conclusiva. Segundo o médico George Sumner Filho, de plantão no Miguel Couto naquela noite, foi colocada no pé ferido de Lacerda uma tala provisória para ser usada nas primeiras 24 horas. Depois, porém, retirada a tala e se engessa o pé esquerdo jornalista.

Essa história está ficando esquisita.

Vejam a situação: um major acompanha o jornalista para lhe dar segurança, mas, para todos os efeitos de noticiários de jornais e de rádio, está na condição de amigo. Lacerda está bem de amigos, todos eles oficiais da Aeronáutica que não hesitam em largar suas famílias em casa, dispondo-se a acompanhá-lo diariamente, em rodízio. Sim. Nessa noite, o amigo de plantão, desarmado, enfrenta um homem armado que se aproxima em atitude suspeita. Em luta corporal, acaba levando um tiro no coração. Lacerda, o alvo, sai ileso, nenhum arranhão. Morre não ele, mas sim o amigo que sai em sua defesa. Esse amigo é um major da FAB, jovem ainda, que deixa viúva e quatro crianças pequenas. Com que cara Lacerda vai se apresentar ao público, aos colegas e à família do amigo, que, na verdade, estava fazendo as vezes de guarda-costas de um político em plena campanha eleitoral? Seria, no mínimo, acusado de covarde, ao correr e deixar o major à própria sorte.

Na volta do hospital, Armando Falcão traz Lacerda num táxi. O jornalista desabafa numa crise de consciência:

“Acho que vou enlouquecer! Foi uma enorme desgraça o que acaba de acontecer. Penso que fui eu quem matou o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava na minha frente. Que horror! Que tragédia, meu Deus!”3

Mil coisas passam na cabeça do jornalista.

Recapitulando o que pontuamos no primeiro capítulo destas narrativas, a geopolítica global agora é a divisão do planeta em dois blocos antagônicos: capitalistas e comunistas. Os Estados Unidos da América do Norte agora estão sob a gestão de Dwight D. Eisenhower, que para a América Latina agora tem outra política. A CIA4 foi criada em 1947, ainda na gestão de Henry S. Truman, exatamente para isso: interferir nos governos não alinhados aos interesses estadunidenses, podendo usar esses fins no plano externo seu poderio bélico e econômico, e, internamente nesses países, fortalecendo as oposições que, desde que o mundo é mundo, almejam assumir o poder, ainda que o preço seja o servilismo e a entrega das riquezas nacionais.

Vargas toma muitas decisões contrárias aos interesses ianques: cria a Petrobras, dar os primeiros passos para a nascente Eletrobras, recusa-se a mandar tropas para a Guerra da Coreia, além de ter praticado tantas ações políticas e sociais internas que, bem trabalhadas pelas forças de uma feroz oposição, vêm ao curso de poucos anos a desestabilizá-lo em definitivo, não sem o trabalho diário da imprensa conservadora.

A CIA, que depois igualmente viria a derrubar governos de vários outros países latino-americanos, debuta em dois deles: Guatemala e Brasil. Na Guatemala, derruba o governo de Jacobo Arbenz Guzmán, cujo erro fatal foi tentar fazer a reforma agrária, entrando em conflito com a United Fruit Company, que monopolizava terras cultiváveis guatemaltecas explorando mão-de-obras baratas. No Brasil de 1954, encontra-se em pleno curso violenta campanha com o fim de apear Vargas do poder, cujas ações governamentais de cunho nacionalista conflitam com os interesses predatórios do País Sem Nome. Noutras palavras, Vargas já serviu aos interesses norte-americanos. Mas no Brasil da década de 1950 já não faz mais o jogo dos ianques, tornando indesejável sua presença no governo brasileiro. Pode e deve, portanto, ser descartado.

Continua…

Legendas:

  1. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 315;
  2. Claudio Lacerda, 1994, p. 133;
  3. Lira Neto, 2014, p. 315;
  4. CIA, sigla em inglês para Agência de Inteligência Americana, é um organismo civil do governo estadunidense responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para o presidente norte-americano e para o seu gabinete. A CIA também se engaja em atividades secretas, coleta de dados e contra-inteligência, focando em assuntos externos.

L.s.N.S.J.C.!

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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 19jul2020.

CONFERÊNCIA – Carlos Lacerda fará hoje, às 20h30m, no auditório do Externato São José (Rua Barão de Mesquita, 164) uma conferência sobre problemas da atualidade, promovida pelo Departamento Cultural da Associação dos Antigos Alunos do Externato São José.1

EM 1997, quando voltamos à Escola de Especialistas de Aeronáutica (Guaratinguetá – SP), para realizarmos um curso, o comandante dessa escola de ensino técnico da Aeronáutica havia determinado o limite de quarenta quilômetros por hora no trânsito da rua que faz a ligação entre a Escola e a Vila dos Sargentos. Quando não estava em seu gabinete de trabalho, um dos passa-tempos do brigadeiro era observar o trânsito nessa via que passa em frente à sua residência oficial. De vez em quando anotava uma placa. O condutor, geralmente um sargento ou suboficial, era chamado por um assessor do comandante para justificar-se, em geral já saindo da sala com dois dias de detenção, no mínimo. Um deles, desabafando junto ao oficial que o ouviu, largou essa: “A Escola tem o privilégio de ter o guarda de trânsito mais bem remunerado do mundo”. Isso não faria inveja a Lacerda, que dispunha de graça como guarda-costas os elementos mais qualificados do Brasil, que eram aqueles devotados dez aviadores de 1954.

O compromisso de Lacerda no Colégio São José, nessa noite de 4 de agosto de 1954, é em favor de sua candidatura a deputado federal nas eleições desse ano e também em prol de dois candidatos a vereador pela UDN: Raul Brunini e José Cândido Moreira de Souza.Vaz leva em seu automóvel o jornalista e o filho deste, Sérgio Lacerda, ao local do evento. Os problemas da atualidade — que logo se tornariam mais atualizados –, debatidos por Lacerda, somente se encerram à meia-noite. Alcino está lá à espreita, escondido sob o paletó cinza um baita revólver calibre 45 de uso militar e também pela guarda pessoal de Vargas. Estacionado próximo ao local está um táxi de Raimundo Sousa, o motorista contratado, justamente um taxista que costuma fazer ponto próximo ao Palácio do Catete. Movimento grande, muita gente saindo e Alcino olha para Climério, consultando-o: “Agora não dá”. Assim sendo, o jeito é seguirem o automóvel até o nº 180 da rua Toneleros, onde mora Lacerda.2

Alcino, que mora na Baixada Fluminense, presta também serviços de pistolagem a Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, violento político da UDN, um contraventor com larga influência na região. É o mesmo Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta e da “Lurdinha”, sua inseparável submetralhadora. Sobre ele vale a pena fazer um parêntesis para contar o seguinte episódio quando Calvalcanti era deputado federal:

[…] discursava na Câmara dos Deputados. No discurso, acusava o então presidente do Banco do Brasil, o baiano Clemente Mariani, de desvio de verbas. Antônio Carlos Magalhães, então deputado e baiano como Mariani, defendera o conterrâneo respondendo que “Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.” Tenório Cavalcanti, então, sacou o seu revólver e berrou: “Vai morrer agora mesmo!”. Alguns dos membros da Câmara Federal correram para tentar impedir o assassinato, enquanto outros fugiram do plenário. Antônio Carlos Magalhães, tremendo de medo, teve uma incontinência urinária. Mesmo assim, gritava: “Atira.” Tenório, por fim, resolveu não atirar. Rindo da situação em que ACM se encontrava, recolheu o revólver, dizendo que “só matava homem”.3

Voltando à cena do crime.

Sobre o momento dos crimes em si, circularam várias versões. Uma delas é a seguinte:

O táxi de Raimundo conduzindo Alcino e Climério chega ao endereço primeiro que o automóvel de Vaz trazendo Lacerda e seu filho Sérgio. Esperam uns dez minutos quando um carro para em frente ao prédio. Os três recém-chegados ficam conversando na calçada. Alcino sente é que a vez de agir. Atravessa a calçada e, aproximando-se, as três pessoas se assustam e percebem a sua presença. A mão de Alcino foi rápida e a arma brilhou na escuridão (segundo declarará o jornalista ao amanhecer) e descarregou o revólver em poucos segundos. O último tiro é dado contra o vigilante municipal Sálvio Romeiro, que, atraído pela barulheira, surge inesperadamente e leva um tiro no pé.4

Essa foi a versão (aqui resumida) que veio a prevalecer. A outra foi publicada no próprio jornal Tribuna da Imprensa, edição de 6 de agosto, pelo jornalista-proprietário, que mais tarde abandonaria esta versão:

“Estávamos os três na calçada (major Vaz, meu filho e eu) quando notei um homem pardo que se aproximava e, na distância de cinco metros, abriu o paletó e disparou seu revólver em cima de nós. Imediatamente, outros tiros foram disparados de outra direção, numa fuzilaria infernal”5

Mais outra versão do crime:

Ao ver um homem aproximar-se, Vaz o enfrenta e os dois travam luta corporal. Levando desvantagem e na tentativa de desvencilhar-se do oponente, Alcino atira, acertando o coração do major. Um outro tiro perfura as costas de Vaz, que cai agonizando. Enquanto isso, Lacerda corre pela rampa de acesso aos automóveis do prédio e alcança um revólver calibre 38, volta e dá alguns tiros (seis, segundo Armando Nogueira). Míope, não havia, até então, dado conta de duas situações: um corpo no chão ensanguentado e o próprio pé ferido.

De certo, em todas as versões, é a atuação do guarda municipal atingido na perna mas com tempo para anotar a placa do táxi e desferir alguns disparos no automóvel em fuga. Isso foi decisivo para se chegar aos pistoleiros e, por meio deles e sob tortura, chegarem a Gregório Fortunato. Também certeza é o corpo, um cadáver que a UDN e Lacerda já vinham buscando fazia algum tempo.

Sobrou para os mais fracos. Gregório Fortunato aqui aparece em seu julgamento em que seria condenado (imagem: Internet)

Esse episódio funesto, que levou ao fim da Era Vargas ainda nesse mesmo fatídico mês de agosto de 1954, produziu muitas manchetes e matérias de jornais, programas de rádio e até da nascente televisão brasileira, onde foram divulgadas versões e mais versões, cada uma com um detalhe diferente. A versão por Lacerda, publicada na edição de 6 de agosto da Tribuna da Imprensa, fartamente reproduzida pelos outros jornais, perdura somente até a Polícia da Aeronáutica, capitaneada pelo coronel-aviador Délio Jardim de Matos, capturar Alcino e Climério e, partir deles, chegar a Gregório Fortunato. Isso cumpria os fins: jogar luz no “mar de lamas” que corria sob o Palácio do Catete, buscando envolver Vargas e sua família. Por conta disso, a partir de então, todas as demais possibilidades são sumariamente abandonadas, razão pela qual Lacerda abandona a teoria da fuzilaria vindo de todos os lados e abraça de vez a tese de pistoleiro único — Alcino. Aliás, as fontes não deixam clara qual exatamente a participação de Climério, que provavelmente apenas fazia companhia ao pistoleiro. Prometemos estudar melhor.

Lacerda aparece nesta fotografia amparado por oficiais da Marinha do Brasil (imagem: O Globo, via Internet)

Vinte anos mais tarde, Alcino daria a sua versão. Foi-lhe mandado seguir Lacerda a fim de registrar a sua vida visando ser elaborado um farto dossiê, e partir do qual fazê-lo calar nos seus ataques a Vargas, à sua família e, por extensão, às ações policiais. Em troca, ganharia na polícia um emprego com salário fixo, além de uma carteira de policial. Sabe-se que um dos desafetos de Lacerda era o general Ângelo Mendes de Moraes, ex-prefeito do Distrito Federal, alvo da acusação de improbidade na construção do estádio de futebol Mário Filho, o Maracanã. Sobre o general pairava a suspeita de ter mandado aplicar uma surra no jornalista em 1948. No entanto, nada de conclusivo se dá com relação ao nome de Mendes de Moraes, bem como quanto a outros inimigos de Carlos Lacerda.

Demandariam muitas pesquisas, por isso deixemos de lado a longa lista de desafetos do jornalista Carlos Lacerda. Então, regressamos à cena do crime. De duas hipóteses, uma:

Primeira: Carlos Lacerda abraça a tese da fuzilaria infernal apenas visando causar impacto e assim provocar mais emoção no leitor, como nos filmes de aventura e livros de detetives policiais. Isso é bem típico dele, razão pela qual não se pode descartar. Se é fato, mais tarde, por conveniência política, não menciona mais a tal fuzilaria vindo de todos os lados; segunda: É verdade e havia mais de um pistoleiro, que se encontravam à espreita nas proximidades, e, além de Alcino, estariam um do outro lado da rua e outro na quase na esquina. Sendo foi a realidade dos fatos, naturalmente, as autoridades da Aeronáutica, uma vez chegando ao que se propunham, ou seja, aos subterrâneos do Catete, essa e qualquer outra versão são naturalmente descartadas.

Ninguém contesta que há um cadáver. Não um cadáver qualquer, mas de um militar da Aeronáutica, e não um militar comum — soldado, cabo, sargento… –, mas um oficial aviador, gente de berço. E mais: deixa viúva e filhos pequenos. Em contraponto, o assassino é um indivíduo desocupado, um mulato que vive de pequenas ocupações desonrosas, sendo um informante da polícia civil, além de ligado a um violento e notório contraventor, o Homem da Capa Preta. Pouca importância se dá a isso também: Tenório Cavalcanti é um poderoso membro da UDN.

Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta (imagem: Internet)

Além do cadáver de Vaz, que logo teria que ir à terra, Lacerda exibe durante semanas outro troféu: o pé esquerdo enfaixado e, logo depois, engessado. Com ele aparece em fotografias ao lado de almirantes, brigadeiros, generais, políticos e grandes empresários, com os jornais reproduzindo à larga quase diariamente. Uma imagem vale mais que mil palavras e ele sabia disso.

Outro detalhe que ninguém julgou importante: ao lhe ser solicitado o revólver para a perícia, o jornalista se nega a entregar a arma ao delegado.

Continua…

Legendas:

  1. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 210;
  2. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 213;
  3. Wikipédia – Tenório Cavalcanti;
  4. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 215;
  5. Idem op. citada acima.

L.s.N.S.J.C.!

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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 18jul2020.

NUMA partida de futebol, sabe-se que basta um dos jogadores do time jogar mal para levar toda a equipe à derrota indesejada. Esse jogador, digamos que subornado pela diretoria da equipe adversária, não precisa cometer uma penalidade máxima sequer, nem mesmo provocar sua própria expulsão do jogo. Basta que ele faça corpo mole, como, por exemplo, não dando combate a um atacante que chega com perigo à grande área, ou então correndo em direção à bola sem a intenção de chegar nela. Coisas assim facilitam a vitória do adversário, ao mesmo tempo que deixam o tal defensor em paz com sua torcida e de bem com os colegas de trabalho.

Oh homem distraído! Deixemos, porém, o futebol de lado e volvamos ao fio da meada. Não nos dispersemos do que vínhamos escrevendo, portanto.

Reveladora esta fotografia de Lacerda amparado por dois soldados da Aeronáutica, ambos afrodescendentes . (imagem: Internet)

Não é preciso ser visionário para perceber que o País Sem Nome (como costuma dizer o amigo José A. Moita) entrega aos países da América Latina com uma das mãos para pegar de volta com as duas. Só mesmo a paixão política e ideológica de gente como Carlos Lacerda, Eduardo Gomes, de chefões da mídia e dos próceres da UDN, é incapaz de enxergar. A cegueira é um mal de que também padecem alguns oficiais da FAB, que, sob o pretexto de ameaças a quem vem sofrendo Carlos Lacerda — reações naturais de quem pelo jornalista é sistematicamente atacado — lançam-se como voluntários para lhe garantir proteção individual. Depois de um entrevero com o filho de Oswaldo Aranha, a quem Lacerda fez violentas críticas, em maio de 1954 dez aviadores militares passam então a acompanhar diariamente o jornalista em seus compromissos noturnos, já que ele é constantemente solicitado a proferir palestras, conferências e dar entrevistas. A FAB, sob a liderança negativa do Brigadeiro, transformara-se numa seção armada da UDN, da mesma forma que Lacerda, não sem interesses, assumira o cargo de porta-voz da mais atuante agremiação partidária da extrema-direita brasileira. A paixão cega desses oficiais leva-os, inclusive, a negligenciar o convívio familiar, preterindo filhos e esposa em favor da segurança do jornalista e político inescrupuloso. Sob a leniência de Nero Moura, o ministro da Aeronáutica, e sob o forte comando de Eduardo Gomes, é — intencionalmente ou não — criado o caldo de cultura para a tragédia que estava por vir. Se Getúlio tinha por proteção sua guarda pessoal de Gregório, por que não Lacerda também contar com seus próprios anjos da guarda? São esses dez oficiais — tenente-coronel Alfredo Correia, majores-aviadores Gustavo Borges, Américo Fontenelle, Moacir del Tedesco, Rubens Florentino Vaz, Haroldo Coimbra Veloso, Paulo Victor da Silva, George Dieh, Francisco Lameirão e o tenente Antônio Carreira1 — que, assumindo os riscos da empreitada, rasgam as páginas dos regulamentos e das leis militares, embora no dia a dia da caserna exijam de seus subalternos com mais rigor o cumprimento dessa mesma legislação. Deixam esses meninos, portanto, de lado suas obrigações para com a Força, para as quais recebem seu soldo dos cofres públicos, para, em vez disso, rebaixando-se, exercerem o papel de seguranças de um jornalista em plena campanha que fazia para deputado federal, correndo risco da própria vida.

Surpreendente também é a análise que Tancredo Neves faz dos ministros militares de Getúlio. De Nero Moura, diz que, embora muito leal ao presidente, nem brigadeiro era (mas coronel reformado) e não soube lidar com a Aeronáutica, que tinha uma liderança forte como a de Eduardo Gomes e estava sublevada. “Quer dizer, durante o governo Vargas houve dois ministros da Aeronáutica, do começo ao fim, o Nero e o Brigadeiro.”2

Nero Moura, o “ingênuo” ministro da Aeronáutica de Vargas, em seu gabinete de despachos. Acompanha o ministro burocrata um major-aviador. Um eduardista a serviço — ou desserviço — de Vargas, na vã tentativa de servir a dois senhores. (Imagem: Internet)

Vargas, tendo governado no período totalitário sem oposição e críticas, encontra-se desta vez acuado. Tentando reverter esse quadro, apela para a força do povo. Em 1º de maio, anuncia um aumento do salário mínimo em 100%. A reação da oposição, da classe empresarial e da imprensa, como era de se esperar, é violenta. Alguém pede seu impedimento alegando “má gestão da coisa pública”.

Diante do elevado grau de sublevação em que decaiu a Força Aérea, um anônimo coronel-aviador decide advertir Luiz Vergara, seu amigo e ex-secretário de Vargas. Vergara corre ao Catete e consegue audiência com o presidente, pondo-lhe a par da conversa que tivera com o oficial aviador. “Fizeste bem em trazer isso ao meu conhecimento. Vejo confirmadas, com pormenores, informações que tenho recebido de outras fontes”. Ora, se Vargas já sabia de tudo o que vem ocorrendo na Aeronáutica, por que razão não tomou providências a fim de reverter o quadro desfavorável. A ideia que se tem é que o presidente há muito já tem entregue os pontos, jogado a toalha. Sabia de toda a conspiração que contra si é feita no Galeão e nada faz para solucionar o problema. E o ministro da Aeronáutica, por que também não fez nada? Vargas responde: “O ministro parece ausente de tudo, falhou”.3

Não só Nero Moura tem falhado, o próprio Vargas falha ao tê-lo trazido para seu ministério. É o treinador de futebol que, tendo escalado mal o time e tardiamente percebendo a incompetência de um dos seus zagueiros, vê que nada mais há a fazer. Tudo que começa errado dificilmente termina certo, como é o caso da FAB no segundo governo de Vargas. Ninguém pode servir a dois senhores, no caso, ou os oficiais obedecem às diretrizes de Nero Moura, cuja aura de herói de guerra parece ter ficado nos céus da Itália, ou seguem as orientações do Brigadeiro bonitão e solteiro. Entre esses moços nascidos na elite carioca, a escolha já está feita desde a década de 1940, ou melhor, desde a maternidade. Em vista disso, dois anos mais tarde, Juscelino terá todo o cuidado, vendo-se, durante seu governo, obrigado a substituir por duas vezes o ministro da Aeronáutica, que é também um cargo político e não só técnico, como entendia o “ingênuo” Nero Moura.

Eu não fazia política; cuidava dos assuntos do meu ministério e atendia aos civis na sua pretensões: aviões, transportes etc. Mantínhamos uma unidade especial para facilitar os seus deslocamentos pelo país.4

Mas não nos enganemos. Nero não é ovelha e sim um lobo bem disfarçado. É ele mesmo quem diz:

Meu gabinete estava repleto de oficiais eduardistas… Quando convidei o major Deoclécio de Siqueira para ser meu oficial-de-gabinete, ele me disse: “Ministro, não posso ser oficial-de-gabinete porque sou eduardista”. Eu esclareci: “Deoclécio, eu também sou eduardista. Gosto imensamente do Eduardo, tenho respeito por ele, …”5

Quando Vargas compreende seu erro na escolha ministerial para a Aeronáutica já considera demasiado tarde. O jogo está já nos minutos finais e agora é impossível para seu time ao menos conseguir o empate. Em vez de um ministro cascudo, como será Lott na gestão de Juscelino, escolheu um “ministro dos transportes aéreos”, um burocrata (no pior sentido da palavra) e — pior de tudo — eduardista, ou seja, um lobo em pele de cordeiro. Na metáfora futebolística, Nero é um jogador que, correndo atrás da bola para não chegar, favorece a vitória do adversário. Faz isso sem ser visto com um traidor pela torcida — a História; quando muito apenas ingênuo e fraco.

Com tudo em casa, Gomes sempre se mantém a par de tudo o que acontece no governo, nos mínimos det alhes. Seus informantes estão lá comissionados no Gabinete do Ministro, livres, leves e soltos. Livre para agir, o Brigadeiro deita e rola. Entretanto, sabe que a FAB sozinha não dispõe de forças para derrubar Getúlio. Um dos pedidos de afastamento de Vargas que corria na Câmara dos Deputados estaciona, porém, sobre a mesa do deputado udenista Afonso Arinos, um jurista experiente. O Brigadeiro, eterno pretendente à Presidência, tenta convencer o deputado da UDN a encaminhar o requerimento. Todavia, Arinos, do alto de sua elevada sabedoria jurídica, nega-se a dar curso ao documento alegando que “é uma aventura fadada ao fracasso”. O senhor não está entendendo’, insiste Eduardo Gomes, “Talvez o presidente ganhasse alguns dividendos políticos momentâneos. Mas, no final de contas, a derrota da oposição deixaria os quartéis livres para agir.”6

É preciso que os quartéis — ou seja, o Exército — aja. Enquanto isso não acontece, majores da Aeronáutica resolvem fazer a sua parte, o papel ridículo a que se propuseram. Hoje, 4 de agosto de 1954, em plena campanha eleitoral, a agenda de Lacerda prevê uma conferência no Colégio São José sobre os “problemas da atualidade”, na rua Barão de Mesquita, 164, Tijuca. Pela escala de serviço, o guarda-costas desta noite é o major Gustavo Borges. De última hora, porém, Borges recebe ordens para fazer um voo na manhã seguinte para Goiás. Diante desse compromisso funcional, pede por telefone a Rubens Vaz que o substitua nessa noite. Lacerda, por sua vez, embora sentindo-se grato e ao mesmo tempo vaidoso com tamanha consideração por parte daqueles valentes oficiais, numa nesga de lucidez preocupa-se com a segurança deles. “Vocês estão se expondo, vocês têm família. Eu estou arriscando, eu estou na luta”7

Até mesmo o lunático Lacerda é capaz de enxergar o perigo a que estão expostos os aviadores do Galeão, a ponto de aconselhá-los a não deixarem a família em segundo plano. Aliás, preocupação genuína ou um aviso do que viria? Outra pergunta que jamais será respondida. Vaz, desejando “boa missão” ao colega, prontamente diz a Borges que sim, que pode ir tranquilo, que deixasse com ele. Beija o filho, de três anos de idade, que está para fazer amanhã a cirurgia de garganta, e por isso esta noite pernoitará em companhia da mãe no Hospital Central da Aeronáutica, Rio Comprido; abraça e beija ternamente a esposa Lygia Vaz. “Fica tranquila, querida. Logo, logo estarei de volta”.

Continua…

Legendas:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p. 118;
  2. Claudio Lacerda, 1994, p. 174;
  3. Lira Neto, 2014, p. 288;
  4. Nero Moura, 1996, p. 238-239;
  5. Nero Moura, 1996, p. 247;
  6. Lira Neto, 2014, p. 284;
  7. Claudio Lacerda, 1994, p. 120.

Ls.N.S.J.C.!

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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

JÁ BEM dizia um comandante nosso — e isso faz vinte e tantos anos — que a humanidade classifica-se em duas categorias: os que têm úlcera nervosa e os que causam úlceras. Há, porém, os que se enquadram nas nesses dois grupos simultaneamente. Mas, ao estudarmos a tempestuosa História brasileira do século XX, vemos que Carlos Frederico Werneck de Lacerda, o Corvo, está no segundo grupo.

No célebre Crime da rua Toneleros, em que foi matado o major-aviador Rubens Florentino Vaz, Carlos Lacerda teria sido atingido no pé esquerdo. Socorrido e levado ao hospital Miguel Couto, logo, amparado por soldados da Aeronáutica, aparece com o pé engessado ou enfaixado, numa prova inconteste (na época) do risco que sua vida sofreu, mesma sorte não tendo o major Vaz, que naquela noite de 4 para 5 de agosto de 1954 lhe fazia companhia.

Há controvérsias, como dizia um humorista televisivo. Reparem bem que o verbo ter em “teria sido atingido” não indica certeza. O futuro do pretérito é, na língua portuguesa, usado para indicar uma ação que poderia ter acontecido após outra, ou mesmo indicar incerteza. Pois sim. Muitas interrogações decorrem daquele célebre episódio histórico, a partir do qual os acontecimentos se precipitaram sobre o governo de Getúlio D. Vargas, levando-o ao suicídio na manhã de 24 de agosto de 1954, “saindo da vida para entrar na História”.

Uma das interrogações é esta: que fazia um oficial da Aeronáutica ao lado de Lacerda, feroz porta-voz da oposição ao governo Vargas? Outra: Haveria uma liderança por trás dessa ação amiga e protetora? Mais uma: Lacerda realmente levou um tiro no pé? Se sim, quem atirou? Etc, etc.

As respostas para todas essas questões seguiram ao túmulo junto com Vaz, Lacerda, Vargas, Gregório Fortunato, Eduardo Gomes… No entanto, após intenso trabalho de pesquisa e uma pitada de argúcia da nossa parte, tentaremos responder as indagações levantadas — ainda que em parte. Se não o fizermos, ao menos colocaremos minhocas na cabeça do leitor, que até então conhece apenas a versão escrita escrita pelas penas dos vencedores. Tentaremos — como é o escopo do educador e também do bom historiador — pelo menos fazer o leitor (no caso o incerto visitante destas páginas) indagar aos seus botões: Será?

Para responder tais indagações, temos que fazer outra: quem lucraria com o atentado ou mesmo a morte de um oficial da Aeronáutica e também de Carlos Lacerda? Afirmamos desde já que esses crimes (homicídio e lesão corporal) em nada ajudariam Vargas — ao contrário, como se viu, só lhe traria prejuízos, como de fato aconteceu.

Consultamos várias fontes. Numa delas, o livro de Claudio Lacerda Paiva, vemos o autor questionar as consequências que suicídio de Vargas veio a suscitar no povo brasileiro, numa comoção popular sem precedentes, a partir da leitura e farta divulgação de sua carta-testamento. No documento, o ex-presidente acusa as elites financeiras do país e o imperialismo internacional de o perseguirem sem trégua desde o primeiro dia de mandato. Diz Vargas em seu último documento, com outras palavras, que sofria perseguições por ter cuidado dos interesses nacionais e das classes menos favorecidas deste país. Ao fim, só lhe resta como saída a morte. Em contraponto, Lacerda (não o jornalista, mas o autor do livro) argumenta que não existiria o dia 24 (data da morte de Vargas) sem o dia 5 de agosto, data da morte de Vaz e da lesão corporal sofrida por Carlos Lacerda. É verdade. Continua Cláudio Lacerda argumentando que é infundada a denúncia que fez Vargas em relação ao imperialismo — EUA — que, segundo o ex-presidente, conspirava contra seu governo em alinhamento aos interesses espúrios da elite nacional e do capital internacional. Isso porque — sustenta o autor — Vargas governou o país de 1930 a 1945 como ditador, portanto, perfeitamente alinhado com a forma de agir e de pensar das autoridades estadunidenses em relação aos países sul-americanos. A América para os americanos — a mal afamada Doutrina Monroe — se via convenientemente representada nas ditaduras da América do Sul (o Brasil de Vargas incluso), formas de governo sob influência ideológica e domínio econômico do grande irmão do Norte, que controlavam as massas miseráveis e mantinham os privilégios das elites locais.

Não deixa de ter razão, ao menos em parte, Cláudio Lacerda Paiva. De fato, o período que a História destaca como Estado Novo constituiu-se numa ditadura cruel e violenta, acrescendo a ausência de uma imprensa livre, malgrado seus interesses. Vargas, à frente, demagogicamente manipulava tudo de forma a sua imagem ficar bem com o povo, sua figura esculpida como “o pai dos pobres”, ao mesmo tempo que “a mãe dos ricos”. A polícia violenta não era de Vargas, mas sim de Felinto Müller; a censura era do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de Lourival Fontes, não de Getúlio. O ditador habilmente manipulava tudo isso durante as fases de governo provisório, constitucional e ditatorial, períodos que se confundem, perfazendo os quase quinze anos de Getúlio Dornelles Vargas no Palácio do Catete.

Sustenta também Cláudio Lacerda Paiva, com letras francamente antigetulistas, que o Império não esperaria 24 anos para derrubar um ditador latino-americano, só deixando para fazê-lo em 1954. Meias-verdades.

“Seria fazer muito pouco do poderio dos Estados Unidos e de seu capitalismo achar que o ‘imperialismo ianque’ precisaria de 24 anos para derrubar um ditador latino-americano”1

Não é bem assim.

Honesto com os fatos e com os leitores, devemos separar o Brasil de Vargas em duas etapas: primeira, a que foi de 1930 a 1945, quando governou com amplos poderes, imprensa sob censura, ausência de liberdade, unidades federativas sob intervenção etc; segunda, a de 1951 a 1954, em que volta ao poder por força do voto popular, sob plena vigência da Constituição da República de 1946, a que jurou obedecer. Lacerda Paiva, a fim de consubstanciar seus argumentos, embaralha os fatos pondo as duas fases de Getúlio no mesmo balaio, querendo com isso evidenciar a seus leitores um Vargas autoritário, censurador, corrupto e demagogo. Demagogo pode ser, mas agora já não autoritário, censurador e corrupto. Corrupto também não, já que, ao retirar-se em São Borja encontra-se mais pobre de que quando saiu em 1930. Ao mesmo tempo, o autor pinta a classe média, militares, jornalistas, grandes empresários como legítimos representantes da probidade e do patriotismo, cidadãos impolutos, cujo objetivo único é o bem-estar da Pátria, incluindo aí o afastamento definitivo de maus brasileiros como os famigerados comunistas.

De fato, na primeira etapa, o governo de Vargas, embora ele pessoalmente tenha flertado com o Nazismo, mantém estreitos vínculos com o dos Estados Unidos da América, de Franklin Delano Roosevelt. Tudo coberto e alinhado, com o Norte e o Nordeste brasileiro servindo de trampolim aos ianques para a Europa na Segunda Guerra, em troca da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), meta de Vargas para que o Brasil ingresse finalmente na era industrial. Diferente cenário, porém, encontra o Gaúcho quando volta ao Catete em 31 de janeiro de 1951 e isso seus detratores fazem questão de esconder. Não conta mais com amplos poderes nem os Estados Unidos são o mesmo de antes.

Para chegarmos mais perto da verdade e sopesar os prós e contras, sendo fiel aos fatos, ou seja, imparcial, fomos em busca de outras fontes, como sempre o fazemos em respeito aos eventuais visitantes desta página.

Primeiro, tentaremos responder porque oficiais-aviadores bancavam os capangas de Carlos Lacerda.

Nesta segunda fase em que Vargas torna ao poder desta vez pelo voto popular, ele derrota nas urnas o brigadeiro Eduardo Gomes, fluminense de Petrópolis. Vargas já havia derrotado, ainda que indiretamente, o mesmo oficial-general nas eleições de 1945 quando este foi derrotado pelo general Eurico Gaspar Dutra. Gomes, um dos sobreviventes dos 18 do Forte em 1922, quando foi gravemente ferido, constitui-se então num líder moral dos aviadores militares brasileiros, amado e reverenciado pela oficialidade da Força Aérea Brasileira. A maioria absoluta dos oficiais aviadores é oriundo da classe média, tendo tido oportunidade de receberem boa educação formal, e assim ingressarem na respeitada e cobiçada carreira militar. Assim sendo, é natural que se vejam representados em Eduardo Gomes, militar, aviador, católico fervoroso, portanto, um homem de bem e patriota.

Em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, dá como certa a vitória nas eleições presidenciais. Terminada a Guerra, a arenga mundial agora não é mais entre Aliados e o Nazi-fascismo, da primeira fase de Vargas, e sim entre Capitalistas e Socialistas — EUA vs. URSS. Se eleito, o Brigadeiro governaria milimetricamente alinhado aos norte-americanos, exercendo o poder com mãos de ferro, empenhando-se em pôr em ordem tudo o que considerava errado na condução do país até então, além de, principalmente, afastar de uma vez por todas o comunismo (não importando os meios), ideologia nefasta cuja influência se via notar também no âmbito das forças armadas brasileiras. Na hora agá, Vargas, lá de sua estância em São Borja, influencia no eleitor e, em vez do Brigadeiro, o eleito é o apagado candidato mato-grossense o general Eurico Gaspar Dutra. Não deu nesta, bem que poderá dar na próxima. Em 1950, porém, Gomes acaba derrotado diretamente por Getúlio. Como no futebol, vira freguês de caderno de Getúlio.

Vote no Brigadeiro / Que é bonito / E é solteiro”

Era uma propaganda eleitoral em favor do brigadeiro Eduardo Gomes destinada a convencer o eleitorado feminino, cujo voto fora instituído em 1934 por iniciativa de Getúlio Vargas. Ironia. Não interessava ao eleitorado, vê-se aí pela propaganda, o que o Brigadeiro faria no governo se eleito, mas sim que era bonito e solteiro. Mal a mulherada sabia a razão do celibato de Eduardo Gomes, que viveu e morreu solteiro. Cala-te boca!. Não tendo família, casa-se com a Força Aérea.

Lacerda, logo após ser socorrido, aparece aqui amparado por militares da Aeronáutica. Pé esquerdo engessado (imagem: Internet)

No mundo, o panorama é outro. Agora, Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas engalfinham-se em busca de consolidar e ampliar áreas de influência. É o primeiro e o segundo mundo disputando os territórios do terceiro mundo, os países não alinhados como os subdesenvolvidos territórios da América Latina. Em lugar de Henry Truman, o mesmo que mandou bombardear o Japão, assumirá a presidência estadunidense em janeiro de 1953 o republicano Dwight D. Eisenhower, que dará aos países sul-americanos tratamento mais pragmático.

Os oficiais aviadores do Rio de Janeiro são quase todos eduardistas e, naturalmente, antigetulistas e, mais tarde antijuscelinistas, também depois antijanguistas. Eleito, Getúlio já começa com o pé esquerdo ao chamar para seu ministro da Aeronáutica o coronel da Reserva Nero Moura, que, embora herói de guerra com 62 missões realizadas, não ascendeu ao generalato. O título de brigadeiro, pelo qual é tratado, deve-se ao que está em sua cédula de identidade e no contracheque. Discreto, Gomes nada menciona publicamente sobre a escolha de Vargas, mas — sabe-se lá — em seu íntimo é provável que tenha largamente reprovado a nomeação de um coronel para comandar brigadeiros. Ao menos alguns gestos e ações do Brigadeiro sinalizam nesse sentido. Sabe-se, no entanto, que Vargas, pretendendo conciliar as coisas e querendo ter um minuto de paz e conseguir pôr em prática sua administração, tenta mais de uma vez chamar a UDN para o governo. Gomes impõe a condição de que seja substituído Nero Moura. O general Newton Estillac Leal, ministro da Guerra, também não é bem visto pelos conservadores, acusado por oficiais pela UDN de acobertar oficiais e sargentos comunistas no Exército.

“A nomeação de Estillac Leal para o Ministério da Guerra teve o claro sentido de prestigiar a ala nacionalista do Exército. A escolha de Estillac foi a que causou maiores polêmicas nos círculos militares. A nomeação do coronel Nero Moura para a Aeronáutica também foi questionada devido às suas ligações com o presidente, do qual fora piloto particular.”2

“Nesse contexto, Vargas tentou novamente atrair a UDN para o governo. Um dos elementos consultados, o brigadeiro Eduardo Gomes, considerou inadiável a substituição do ministro da Aeronáutica, Nero Moura. […]”3

Não incomoda, na realidade, a Gomes nem a outros brigadeiros o fato de Nero Moura ter sido piloto de Vargas. Isso é apenas pretexto. Incomodam-se mesmo é por Moura ser mais moderno que todos eles, um pecado grave na caserna. Cientes estão também de que Nero Moura houvesse continuado a carreira seria no mínimo brigadeiro. Moura, porém, sentindo que as ações heroicas dos veteranos da Guerra causavam desconforto nos oficiais-aviadores que ficaram no Brasil, trata de, tão logo obtenha pela lei as condições para tal, pedir transferência para a Reserva Remunerada, o que lhe garante o posto e o salário de brigadeiro-do-ar. Quanto a Estillac Leal, o general é a favor da criação da Petrobrás. O nacionalismo, no caso, contraria os interesses norte-americanos, sendo encarado pela direita brasileira como coisa de comunista.

Mais uma.

Vargas nega a participação do Brasil na Guerra da Coreia, como exigia o governo dos Estados Unidos da América. No contexto da Guerra Fria, o conflito envolve os ianques contra russos e chineses, resultando no que hoje são Coreia (do sul) e Coreia do Norte. Com o Brasil não mandando tropas, soldados para morrerem numa guerra que não é nossa, os grandes irmãos do Norte passam a dificultar a liberação de recursos financeiros, inviabilizando a execução do Plano Lafer de reaparelhamento e desenvolvimento, como era de interesse de Vargas.

A partir de maio de 1954, o jornalista Carlos Lacerda passa a se fazer acompanhar por dez apaixonados oficiais aviadores, com prejuízo das respectivas convivências familiares. (imagem: Internet)

Outra.

Criticando seu antecessor, o general Dutra, por ter congelado o valor do salário-mínimo durante os cinco anos de seu governo, Vargas resolve conceder reajuste de trezentos cruzeiros para um mil e duzentos cruzeiros, contrariando os interesses da classe patronal brasileira. Como resumo da ópera, Vargas, que antes já era rejeitado por diversas razões, cria agora mais desafetos, tanto aqui no país como lá no hemisfério norte do continente americano. Internamente, o porta-voz das elites nacionais se chama Carlos Frederico Werneck de Lacerda, e o Ministério da Aeronáutica tem dois comandantes: um oficial, Nero Moura; outro de fato, o brigadeiro Eduardo Gomes.

O cerco a Vargas vai se fechando.

Em 1954, chega às mãos de Lacerda um documento dando conta de que Juan Domingo Perón, presidente argentino, pretende criar o Pacto ABC, que consiste na união de Argentina, Brasil e Chile, que juntos formariam um poderoso bloco de países sul-americanos a fim de anularem a influência do gigante Estados Unidos da América sobre eles. Perón, segundo o rascunho fornecido a Carlos Lacerda, almeja formar na América do Sul o que, mais tarde, viria a ser o Merco-sul. Ocorre que na época a Argentina é economicamente superior ao Brasil. As forças armadas consideram o país vizinho um potencial inimigo. Os jornais caem de pau em cima de Vargas e a oposição pede abertura de processo visando afastar o presidente.

“Para a oposição, aquela seria a prova cabal de que Getúlio cogitara submeter o Brasil ao domínio político e militar do peronismo, endossando uma ‘integração sul-americana num arquipélago de repúblicas sindicalistas contra os Estados Unidos’ — segundo a definição de Carlos Lacerda”4

“Nós estamos ameaçados de que um dia os países superiores e superindustrializados, que não dispõem de alimentos nem de matéria-prima, mas que têm extraordinário poder, usem esse poder para nos despojar dos elementos de que dispomos em abundância”, teria dito Perón em discurso. “Penso que o ano 2000 nos surpreenderá unidos ou dominados”, prosseguira, referindo-se à América Latina.5

Carlos Lacerda, o Corvo (imagem: Blog do Flávio Chaves, via Internet)

Cabra visionário esse Perón. De fato, conforme previu Juan Domingo Perón, no ano 2000 o Brasil se via governado pelo neoliberal Fernando Henrique Cardoso, e a Argentina estava sob o comando de Fernando de la Rúa, outro adepto da economia de livre mercado. De Fernando em Fernando, a América Latina vai se enterrando e sucumbindo sob pesado jugo do poderoso país nortista. A oposição a Vargas colocava, como se pode notar, peronismo, sindicalismo, nacionalismo e outros ismos, tudo no mesmo balaio, resumindo esses substantivos abstratos num só: comunismo. Na época, alinhar-se aos interesses norte-americanos não representava, na visão da oposição, um problema, já à Argentina, sim. Coisas do Brasil.

Continua…

Referências:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p.24;
  2. Paulo Brandi, 1983, p. 237;
  3. Paulo Brandi, 1983, p 254;
  4. Lira Neto, 2014, p. 278;
  5. Lira neto, 2014, p. 278.

L.s.N.S.J.C.!

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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 14jul2020.

Nunca vi coisa igual a esta! Os aviadores rebeldes querem derrubar o governo e vão para Aragarças. E a gente tem de sair atrás deles por tudo quanto é lado, e eles fugindo. Parece coisa desses meninos que roubam automóvel só para provocar perseguição”. Juscelino Kubitschek, Jornal do Brasil de 5dez1959.

JUSCELINO, Lott e Drummond. Que têm em comum estes nomes? O médico por profissão e político (melhor seria dizer: administrador público) por paixão, o vocacionado militar de mãos de ferro e o célebre poeta têm a mesma origem territorial e cultural: Minas Gerais. Ora, ora! Quando, no episódio anterior destas narrativas, mencionamos a pedra no meio do caminho dos golpistas, nem sequer havíamos associado a origem do poeta à do protagonista maior desta história. Drummond, mineiro de Itabira; Juscelino, mineiro de Diamantina. O primeiro formado em Farmácia; o segundo em Medicina. Parece, parece — ou seria apenas coincidência — que os mineiros se unem em torno do nome do seu governador, a fim de ser restituído a Minas um direito não escrito, que lhe fora tirado em 1930. Relembrando: os coronéis da república do café-com-leite, quebrando um acordo de cavalheiros, pretendem eleger o paulista Júlio Prestes, em vez do mineiro Antônio Carlos. Era a vez do leite em lugar do café, a prevalecer o o rodízio. Diante dessa briga, aproveita-se um gaúcho, o estancieiro Getúlio Dorneles Vargas, que, congregando os outros caudilhos do Rio Grande — até mesmo figadais adversários –, acaba por assumir o poder, dele só saindo quinze anos depois. Vargas encerra por vias revolucionárias a República Velha. Com a espada entraste, pela espada sairás — parafraseando as Sagradas Escrituras. Tirou pelas armas o café paulista; com um tiro no peito, deixa Café no fogo esquentando a principal cadeira do Palácio do Catete. Política é destino; política também é oportunidade. É aí que entra o mineiro JK, recuperando pelo voto popular para as Minas Gerais o poder que lhe haviam retirado vinte e tantos anos atrás. Liberdade ainda que tardia. Bem depois — bem depois, é verdade — por vias pavimentadas pelas urnas, o comando da República é devolvido a Minas. Mas a vida de Juscelino no comando do Brasil não seria tão fácil assim. É obra e graça do mineiro Henrique Lott que, movendo céus e terras, o povo de Minas se vê novamente representado, já que, por pouco — muito pouco mesmo — o eleito JK não teria sofrido o mesmo destino de Antonio Carlos e de Júlio Prestes. A História é irônica: é na luta de um ressentido São Paulo contra o governo de Vargas que um anônimo médico mineiro dá-se a conhecer, primeiro à gente de BH, depois a Minas e, por derradeiro, aos brasileiros.

Drummond, atualizando seus versos modernistas, diria que há agora mais uma pedra no caminho de Juscelino. Sim, uma pedra — mais uma — no caminho de um mineiro. Pela lei da compensação, há também outra na vida dos rebeldes que não apenas o caixão da dona Regina Farry.

Quando chegam os golpistas a Aragarças a bordo dos três C-47 roubados, uma das primeiras providências é conseguirem adeptos, entre a guarnição militar local e os funcionários de campo, da “revolução” que pretendem provocar. Assim o fazem. Não é difícil para um oficial das forças armadas fazê-lo, bastando uma simples ordem acompanhada de poucas e superficiais explicações. Além da força da platina, há a desinformação, uma praga que assola de forma arrebatadora a população mais simples, ou seja, noventa por cento do nosso povo, sobretudo considerando o tempo — década de 1950 — e o espaço (interior do Brasil Central) em que acontecem estas histórias. Se alguém não concordar, é feito prisioneiro. É assim que rapidamente conseguem recrutar homens para apontar armas para passageiros e tripulantes do Constellation, feitos prisioneiros em hotel; guardar pontes e outras instalações julgadas de interesse dos rebeldes; dirigir jipes e caminhões, além de outros trabalhos manuais, como carregar caminhões e aviões com mantimentos, armamento, munições, combustíveis… Para tudo é necessário contar com braços. É assim que agem os revoltosos em Aragarças, Xavantina e noutras praças. No entanto, essa gente rude e humilde não é treinada para guardar gente nem tampouco combater e matar pessoas. Estão lá por um emprego, garantindo o pão para a família e para si. Um deles, não se sabe se funcionário da Aeronáutica contratado ou mesmo de trabalhador de outra empresa como o Departamento de Estradas de Rodagem, está agora lá na cabeceira da ponte sobre o rio das Garças com a ordem de não permitir a saída de ninguém. Campanella precisa ir a Barra do Garças, calcula que uma simples explicação ao homem não é suficiente para que ele lhe deixe atravessar, mas talvez uma gratificação em dinheiro venha a fazê-lo mudar de ideia deixando-o, repentinamente, mais compreensivo. Assim, junto à carteira de jornalista dobra discretamente uma nota de quinhentos cruzeiros. O documento, na verdade, de nada serve já que, calcula, o homem nem saiba ler. Mas todo analfabeto sabe reconhecer dinheiro e o homem, pela cara de Dom João VI na cédula, vê ali o ordenado de dois dias ou mais de trabalho duro. O jornalista molha o pé da planta também do homem da outra ponte, que se encontra fincado no lado de Mato Grosso. Para Campanella Neto, dói em sua alma mineira ver sua porta-cédula desfalcada daquelas duas notas, mas não enxerga outro remédio. Precisa passar esses três telegramas. Terá então feito o seu dever de brasileiro, sobretudo de mineiro, e ainda — principalmente isto — a notícia lhe dará a notoriedade profissional que raros jornalistas (na verdade, começou como fotógrafo) conseguem. Está em jogo o governo de JK. Pede ao atendente da agência dos Correios e Telégrafos local para transmitir uma mensagem para Joel Silveira, seu editor-chefe da revista O Mundo Ilustrado:

“Telegramas enviados pelo jornalista Campanella Neto denunciaram que Aragarças é o esconderijo dos revoltosos…’” É Heron Domingos, com seu vozeirão, anunciando em primeira mão pelo célebre noticioso radiofônico Repórter Esso.

Outra mensagem é enviada ao presidente do Senado Federal e uma terceira para o conterrâneo ministro da Guerra, marechal Henrique Lott, mineiro de Sítio (atual Antônio Carlos).

Desfalcou sua porta-cédula em mil cruzeiros mas não deixaria barato para aqueles caras, que, se raciocinassem com a mineirice daquele jornalista entrometido, teriam mandado reforçar a vigilância sobre ele, não dando chance a Campanella Neto de escapar e fazer o estrago que faria. Uma pedra no caminho. Não demorariam a chegar os paraquedistas comandados pelo tenente-coronel França.

No sábado, 4 de dezembro, enquanto Veloso, Gerseh, Barata e outros tripulantes e ainda o viúvo e um cadáver voam rumo ao Tapajós e Amazonas, Burnier e Mascarenhas, num dos Beechcraft e Leuzinger, no C-47 2060, ainda permanecem voando nos arredores com o fim de desativar radiofaróis e providências outras, na vã tentativa de atrapalhar o progresso das tropas legalistas. Noutras palavras: salvar a própria pele. Inobstante, dois C-47 chegam a Aragarças trazendo os paraquedistas.

Feita a missão, desavisado, Leuzinger decide voltar ao que, uma hora antes, era o QG dos rebeldes. Voando sobre Aragarças, vê dois C-47. Manda mensagem por rádio e não obtém resposta. Silêncio. Ainda assim, renitente, ele decide aterrissar o 2060. Militares, camuflados com graxa preta no rosto estão escondidos na mata em redor da pista. O avião para, sem contudo cortar os motores. A porta se abre. Nesse momento um militar do EB grita: “Por ordem do coronel França, o senhor e sua tripulação estão presos!”. Leuzinger imediatamente fecha a porta e dá uma volta de 180 graus no avião, tentando fazê-lo decolar. Os paraquedistas tentam impedir a decolagem rolando tambores de gasolina na pista, mas o rebelde ignora. Acionando mais fortemente os motores, Leuzinger consegue elevar um pouco o aparelho para, em seguida, o avião cair, por não ter velocidade suficiente para alçar voo. A tropa do EB abre fogo, sob as ordens de metralhar as rodas do avião dadas pelo tenente-coronel França. As balas, no entanto, devem também ter atingido o tanque de gasolina. O tenente Leuzinger, demais tripulantes e sete ou oito funcionários civis, que haviam aderido ao movimento, têm tempo ainda de descer correndo para se precipitarem nas matas ao redor. Logo o oficial é preso e também alguns tripulantes e civis. O avião, o C-47 2060, devido à carga que transportava — armamento e munições –, transforma-se numa imensa chama, causando um estrepitoso barulho de explosão.

Poucos sabem, mas a vida de JK nos cinco anos de governo não foi nada fácil. Havia muitas pedras no caminho. (imagem: Internet)

Perseguido pelos militares legalistas, Leuzinger logo é preso, porém se nega a revelar o nome dos demais revoltosos que o acompanhavam. A essa altura, os dois C-47 restantes estão se aproximando de Santarém, porém o rádio traz a notícia de que o aeródromo já está ocupado por forças legalistas. Diante disso, decidem voar para Jacareacanga, tentando repetir o movimento de 1956. Lá avistam a pista interditada e uma aeronave da FAB, um Lockheed Lodestar L-18. Quase sem combustível, pedem autorização para pousar. O sargento operador do rádio, porém, responde que o oficial em comando, major Feitosa “não dialoga com revoltosos”. Esse L-18 estava voando pela região em missão de manutenção de equipamentos de rádio quando, diante da situação emergencial, seu comandante, o major Feitosa, do Parque de Aeronáutica de São Paulo, recebe ordens para comandar as ações em Jacareacanga a fim de impedir o pouso de qualquer aeronave em poder dos rebeldes.Veloso conhece bem a região. Voando pelas redondezas, avista um descampado onde há um cemitério meio abandonado e, contíguo, um campo de futebol. Gerseh, piloto excepcional, manobrando o 2063, consegue pousar no local. De lá, vão a pé com destino às instalações que estão ocupadas por Feitosa. Como estes estão desarmados, fica fácil para os rebeldes tomarem conta do campo. Desobstruem a pista e Gerseh retorna ao local para trazer o avião até o aeródromo.

Aeronave Lodestar L-18 (imagem: Internet)

Durante o voo, Barata e os oficiais do EB que ocupam o outro avião, o 2025, tendo perdido contato com o 2063, voltam e juntam-se a Burnier, que de posse de um Beechcraft, encontra-se em Cachimbo. De lá, voam sob uma noite chuvosa para um país vizinho, onde pedem asilo político.

E o caixão com o corpo?

A alternativa proposta por Veloso ao sr. Farry era a seguinte: voariam para Santarém onde um voo comercial levaria para Belém o viúvo e o caixão com o corpo da falecida. Ele, resignado e correndo contra o tempo, não enxerga outra opção a não ser concordar. No entanto, por Santarém já estar ocupada por tropas do EB, partem para Jacareacanga. Chegando lá, Veloso propõe ao viúvo que sepulte a falecida lá mesmo. Ele diz: “Nesse caso, terão que enterrar dois cadáveres: o dela e o meu”. Nesse instante, o sargento do rádio entrega a Veloso uma mensagem cifrada de alguém dizendo que “as tropas legalistas estão chegando; e “Jânio” acaba de renunciar à renúncia, ou seja, “mantém sua candidatura presidencial”. Com isso, urge se mandarem para fora do país e pedir asilo. Paraquedistas hostis estão a caminho; Jânio continua candidato; e, por último, não têm como alimentar toda a gente. As opções são: Bolívia, Paraguai e Argentina. Feitosa concorda com a proposta de Veloso de partir para Belém no L-18 e levar o corpo da falecida e o viúvo. Os dois assumem o compromisso de não revelar às autoridades detalhes sobre os revoltosos. Fica assim solucionado, enfim, o problema do corpo da senhora Regina Coeli Farry, que finalmente encontrará descanso.

O Constellation já está na Argentina onde Charles Herba e Éber Teixeira Pinto pedem asilo político; Veloso, Gerseh, Barata, o tenente-coronel e o capitão do EB partem para o Paraguai, de onde mais tarde migram para a Argentina; enquanto Burnier, Mascarenhas e outros rebeldes se asilam na Bolívia. Ficam no exílio durante todo o ano de 1960. Juscelino tentou anistiá-los mas o parlamento não levou adiante o projeto-de lei, considerando, entre outras motivações, a gravidade do caso: o sequestro de civis mediante o uso de arma de fogo. Com exceção de Veloso, que era engenheiro, todos os outros sobrevivem durante esse ano exercendo empregos humildes. Próspero Punaro Barata Neto, que vinte anos depois vem a ser comandante da Base Aérea de Belém, empurra em Buenos Aires carrocinha de sorvete. Jânio, para azar do Brasil, vence as eleições e, mal assume, anistia a todos esses moleques.

Certa estava dona Letícia ao espinafrar o marido, que, juntando-se aos conspiradores e rebeldes, teria passado um ano inteirinho sem ver a cor e sentir o sabor da lasanha. O coronel Hermegildo, mencionado no primeiro capítulo destas narrativas, perto dessas figuras mencionadas parece um anjinho. Nessa brincadeira, com o dinheiro do contribuinte brasileiro, Burnier, Veloso, Barata e outros bandidos falsificaram documento, roubaram aviões militares e civis, sequestraram uma aeronave comercial, puseram dezenas de pessoas em perigo de vida prejudicando-as suas rotinas de vida, colocaram-nas em privação de liberdade, trataram com indignidade gente viva e morta, causaram a destruição de uma aeronave, gastaram combustíveis e munições, enfim, fizeram o diabo. Mereciam pagar todo o prejuízo causado aos combalidos cofres públicos por eles tão defendidos de forma hipócrita, além de responderem por tudo diante dos tribunais. Mas como no Brasil o certo é o errado e o errado é o certo, quem, nesse episódio, posicionou-se do lado legal acabou se dando mal, porque, afinal de contas, essa gente de farda tanto fez, tanto fez, que acabou por tomar o poder. Qualquer um cidadão brasileiro, bastando ter agido em nome das causas populares, praticando dez por cento desses crimes, padeceria uma eternidade na cadeia, no mínimo. Em nome de Deus e da Família, uma vez vitoriosos, esses homens de bem, esses cristãos caluniaram, difamaram, perseguiram, demitiram, prenderam, torturaram, mataram, e com isso destruíram famílias e reputações, transformando este país num imenso tribunal de exceção com o escopo de varrer do mapa todo e qualquer um que ousasse pensar diferente. Sobrevieram trevas neste território auriverde, permanecendo por longos 21 anos.

*** FIM ***

Livros consultados:

  1. LACERDA, C. Uma crise de agosto: o atentado da rua Toneleros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  2. CONY, C. H. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo: Planeta, 1994.
  3. ARGOLO, J.; RIBEIRO, K.; FORTUNATO, L. A direita explosiva no Brasil: a história do Grupo Secreto que aterrorizou o País com suas ações, atentados e conspirações. Rio de Janeiro: Mauad, 1996.
  4. CONY, C. H. JK: nasce uma estrela. Rio de Janeiro: Record, 2002.
  5. MOREIRA, P. R. Bela noite para voar: um folhetim estrelado por JK. Rio de Janeiro: Relume, 2005.
  6. COUTO, R. C. O essencial de JK: visão, grandeza, paixão e tristeza. São Paulo: Planeta, 2013.
  7. NETO, Lira. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Outras fontes:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_de_Aragar%C3%A7as
  2. https://ahistoriabemnafoto.blogspot.com/2007/06/histria-da-foto-de-campanella-neto.html
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Teixeira_Lott
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Paulo_Burnier
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Panair_do_Brasil
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
  8. http://www.sentandoapua.com.br/portal3/content/view/Renato%20Goulart%20Pereira/63/
  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  10. https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis_Correia_de_Melo
  11. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Alves_Seco
  12. https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Fleiuss_(militar)
  13. https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Fortunato
  14. https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%A2nio_Quadros
  15. http://www.catalinasnobrasil.com.br/site/fabs/1062-eber-teixeira-pinto.html
  16. http://www.catalinasnobrasil.com.br/site/fabs/576-pr%C3%B3spero-punaro-barata-netto.html
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_Coimbra_Veloso
  18. https://www25.senado.leg.br/web/senadores/senador/-/perfil/3011
  19. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_ministros_da_Aeron%C3%A1utica_do_Brasil

L.s.N.S.J.C.!