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O PRIMEIRO sequestro de avião!

POR INGENUIDADE e também por desconhecimento, sempre tínhamos os casos de indisciplinas, rebeldias e transgressões de milicos como coisa das camadas mais subalternas dos quartéis, que, por vezes, revoltadas com o tratamento pouco gentil que a oficialidade lhe costuma dispensar, acabava por chutar o pau da barraca. Isso porque, no quartel, perante os praças (de suboficial para baixo)1, o oficial é tido como um ser superior — não só nos aspecto hierárquico –, alguém acima do bem e do mal, um cavalheiro, um lorde, uma espécie de semi-deus. O escriba pensava assim, conforme o senso comum, até termos acesso à ficha individual de um coronel. Digamos que seu nome seja Hermenegildo, porque no caso, como diz o povo, contamos o milagre mas não o santo. Sendo espectador privilegiado, por força das nossas funções administrativas, vimos com estes olhos que a terra há de comer que a ficha desse santo homem era mais suja que a do soldado mais alterado de uma base aérea, tais eram a variedade e quantidade de punições disciplinares que seus superiores lhe haviam imposto. Tanto assim que à principal foram grampeadas mais duas fichas complementares para, no campo de punições disciplinares, serem assinaladas todas as sanções que a quarta parte dos boletins confidenciais haviam registrado. Não era pouca caca, era um penico cheio.

Pois bem.

Em busca de compreendermos o terreno em que temerariamente pisamos por longos trinta anos, vimo-nos pesquisando sobre os agitados anos de 1950, que de dourados nada têm. Descobrimos então que o período é, na realidade, no seio aeronáutico-militar uma colossal balbúrdia (tomando aqui um termo ultimamente bastante falado), um grande fuzuê do caçarolê2. Mas não só nesta força armada, como também na força de mar, estendendo-se a uma parte da oficialidade de terra. Para cada um desses meninos — cujos nomes não omitiremos pois os livros de história já os mencionam sem o menor pudor –, comparativamente ao coronel Hermenegildo, não bastava apenas um penico, mas baldes e baldes, de forma que o oficial superior do grande comando onde servimos pode ser comparado a um pacato e discreto seminarista diante daqueles. O aspecto de nobreza atribuído à oficialidade é, portanto, mera aparência, fachada apenas, e — como dizem as gentes — as aparências enganam.

ANTECEDENTES

Como já escrevemos em postagens anteriores, não se pode definir exatamente quando a maioria, o grosso da oficialidade da Força Aérea Brasileira, passa a interferir ativamente na política partidária brasileira, em contrário aos preceitos éticos que os regulamentos militares tanto zelam e prescrevem. Nenhum escrúpulo, portanto, da parte de quem deve por ofício zelar pelas instituições e do povo brasileiro têm essas crianças ao fazerem mau uso do posto (por reiteradas vezes), do cargo — das influências que posto e cargo significam, por conseguinte –, e do avião, um poderoso e dispendioso equipamento cujo manuseio o contribuinte brasileiro lhes confia. O começo das escaramuças pode ser que venha datado inicialmente a partir da própria criação do Ministério da Aeronáutica, começo de 1941; se não, a balbúrdia, quiçá, tenha sido inaugurada no segundo governo de Vargas, quando este, não dando bola para a brigadeirada mais velha, chama para o cargo de chefe da FAB o também gaúcho Nero Moura, herói nos céus da Itália, um coronel que se torna brigadeiro apenas depois de vestir pijama. O ápice das aversões, rancores e ódios de morte, com certeza, chega definitivamente nas primeiras horas de 5 de agosto de 1954, quando o projétil da arma que o pistoleiro amador Alcino aponta a Lacerda vem a atingir de morte o major-aviador Rubens Florentino Vaz, fazendo entrar em cena de vez a solidariedade corporativa entre os aviadores militares. É isso que apura o inquérito policial-militar (IPM) presidido pelo coronel-aviador João Adil de Oliveira, sendo essa a história dos vencedores que prevalece até hoje, embora, como diz o comediante, haja controvérsias.3

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, seu fidelíssimo chefe da guarda pessoal, nomenclatura da época (imagem: Google)

Os jornais, cujos proprietários em sua maioria são conservadores, apressam-se em vender a ideia de que Vaz está simplesmente acompanhando um amigo, em vez de lhe estar fazendo a função de segurança, capanga, como o próprio Moura mais tarde vem a admitir. Há, em verdade, na FAB outro comando, o do Brigadeiro, que, além de militar, é político. Gomes é um homem discreto, daqueles que atira a pedra e esconde a mão, sempre pronto a assumir os bônus sem, entretanto, jamais a arcar com os ônus; um cidadão de bem, humanista, que, vitorioso o movimento de 1964, manda ofícios circulares a todas as fábricas, oficinas, escritórios e lojas comerciais do Rio de Janeiro recomendando a não contratação de oficiais e sargentos demitidos das forças armadas.

Um pouco do 5 de agosto de 1954.

Ressentidos com a derrota eleitoral de 1950, Lacerda, Gomes, próceres da UDN, militares conservadores e proeminentes empresários aguardam pacientemente a oportunidade para apear do poder Vargas, de uma vez por todas. Encontram-na em Gregório Fortunato, gaúcho afrodescendente, semianalfabeto, que, vindo de peão simples e rude, galga a condição de homem influente. Essa nova situação de Gregório, invulgar para um afrodescendente iletrado, veladamente vem a incomodar os homens de elevada posição social que frequentam o Catete e com ele se obrigam a conviver. Inobstante, pretendendo atingir seus objetivos pessoais, vez por outra esses mesmos homens apelam à interferência de Gregório junto ao presidente, para que este os atenda num ou noutro interesse.

Muitos vivem, portanto, à sombra de Vargas. Entretanto, sem a nenor dúvida, o jornalista Carlos Lacerda, por meio de seu jornal Tribuna da Imprensa, é o opositor que mais incomoda o presidente e sua equipe de governo, pelo desgaste que seus ataques quase diários causam à imagem de Vargas, funcional e pessoalmente. Por via de consequência, essa oposição sistemática também incomoda a todos que frequentam o ambiente palaciano. Diante disso, eles — homens à paisana e de farda –, cá e acolá, conversando despretensiosamente entre si, sugerem em voz alta que Lacerda já esteja por merecer uma lição, levar um susto. Dizem-no sempre nas ocasiões em que, por acaso, o tenente Gregório está por perto, a ponto de involuntariamente escutar a conversa. Fazem-no em várias oportunidades, sempre aparentando casualidade. Gregório cai na armadilha e contrata homens para dar um susto em Lacerda. Eles não contam, porém, com a intervenção de Vaz, que, em defesa de seu protegido, entra em luta corporal com os “pistoleiros”, que, por sua vez, diante do inesperado tumulto, acabam por alvejar o major, matando-o, além de ferir o pé esquerdo de Carlos Lacerda (há controvérsias).4

Como consequência da desgraça feita, sobrevêm em seguida todos os acontecimentos que a história oficial registra, como o tal IPM da República do Galeão, instaurado sob a frágil alegação de ter ocorrido um crime militar pois o projétil usado no homicídio era de uso exclusivo das forças armadas. Vargas, de consciência limpa e sem ter como prever as terríveis consequências, concorda, e assim o caso transfere-se da esfera da polícia civil para o âmbito da Aeronáutica, exatamente nas mãos da força armada que o odeia de morte. O coronel Adil e seus homens chegam a Gregório Fortunato, e, chegando nele, buscam atingir a família de Vargas, levando-o, sob a dor de tantas outras implicações paralelas, ao suicídio nas primeiras horas de 24 de agosto de 1954. Os implicados na morte do major Vaz são presos e condenados, recaindo toda a culpa naturalmente nos mais fracos. Vagando o cargo, ocupa o vice, João Café Filho, que já vinha de algum tempo preparando-se para assumir o cargo, só não sabendo a data, Café, naturalmente, chama Eduardo Gomes para seu ministro da Aeronáutica.

Termina 1954 e vem 1955, ano eleitoral. O jogo está posto; as regras bem definidas.

Num regime democrático, qualquer um cidadão tem que aceitar de espírito desarmado o resultado que as urnas hão de revelar, porque jogo é jogado, lambari é pescado — como se diz lá em Goiás. Na linguagem futebolística, um time entra no jogo para ganhar, mas, em sã consciência, não pode descartar o empate ou até a indesejada derrota. Em eleição é quase igual, menos o empate. Todavia, eis que a comichão da conspiração e do golpe já vem de algum tempo ardendo no coração desses bons moços dispostos a aceitar o resultado, desde que o vencedor seja o candidato da UDN, o general Juarez Távora. Vitória do adversário significa, necessariamente, na visão da UDN, continuidade de um governo corrupto, autoritário, e — inaceitável — em união com os comunistas.

Portanto,

Em relação às feridas da morte de Vaz, tudo feito conforme a Lei. Os responsáveis (oficialmente) foram presos e condenados e o governo de Vargas encerrou, como as forças conservadoras pretendiam desde o primeiro dia. Aparentemente tudo em ordem. Mas, dependendo do resultado eleitoral, não. Vindo o resultado das urnas, contrário ao esperado pela UDN, este encarrega-se de reacender a sanha conspiratória na maioria da oficialidade da FAB, na Marinha e em parte do Exército, nobres cavalheiros que sempre avocam para si a condição de arautos da moralidade e de tutores da nação, O coronel Hermenegildo transgrediu o regulamento disciplinar, estes, porém, estão prestes a golpear a própria Constituição da República, tramando às escondidas contra a posse do candidato eleito, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

O carismático Juscelino Kubitschek de Oliveira é eleito presidente da República, derrotando o udenista general Juarez Távora (imagem: Google)

Mas Juscelino tem estrela.

Nos anos de 1940, a convite de Benedito Valadares, larga a medicina para dedicar-se de corpo e alma à política. Política não, que Juscelino, prefeito de BH, é um tocador de obras, daqueles madrugadores que, de manga de camisa, cedo estão nas ruas acompanhando os trabalhos dos operários e máquinas. Descobre enfim sua vocação, ele, que, além de médico, foi oficial da força pública mineira na época da revolução paulista, deixando a farda no posto de tenente-coronel. Enfim, BH tem prefeito! De prefeito a governador das Minas Gerais é um pulo; e de governador alcança a Presidência, tudo sem burlar as regras do jogo. Sua estrela brilha e ofusca adversários. Continua brilhando, pois, uma vez eleito, dotado de visão e intuição política privilegiadas, convida o general Henrique Teixeira Lott, que já está no cargo, a permanecer como seu ministro da Guerra. E é exatamente Lott quem move céus e terras para Juscelino tomar posse e governar. Sem Lott, não teríamos JK, e sem ele não teríamos Brasília. Até mesmo o primeiro automóvel, quem sabe, só chegaria lentamente anos ou décadas mais tarde, a depender da vontade da turma que até então ocupava o Palácio do Catete no intervalo entre a morte de Vargas e a posse de Juscelino, e que pretendia continuar.

Voltemos aos acontecimentos posteriores às eleições de 3 de outubro de 1955.

Tendo falecido o general Canrobert Pereira da Costa, ministro da Guerra de Eurico Gaspar Dutra, durante as cerimônias fúnebres, o coronel Jurandir Bizarria Mamede, tendo pedido a palavra, faz forte pronunciamento em que tece duras críticas ao resultado eleitoral recente. Isso desagrada fortemente o general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, que se encontra presente.

Continua…

  1. A classe dos militares é dividida em duas categorias: oficiais e praças. Os oficiais, considerados de nível superior, geralmente iniciam como segundos-tenentes e podem chegar ao posto de tenente-brigadeiro, dependendo de vários fatores, como o quadro (aviador, intendente, médico…), de cursos realizados e de outros critérios subjetivos (avaliação anual, cargos importantes exercidos, condecorações…). Os praças, vão de soldado até suboficial, sendo que nesta categoria também há divisões: cabos, soldados e taifeiros, considerados elementos de execução; e suboficiais e sargentos, genericamente chamados no seio da Força Aérea como “graduados”.
  2. Para o leitor ter uma pequena noção de quão bagunçado foi esse período, eis a relação de ministros da Aeronáutica na década: a) Nero Moura: 31jan1951 a 18ago.1954; b) Epaminondas Gomes dos Santos: 19ago1954 a 23ago1954; c) Eduardo Gomes: 24ago1954 a 10nov1955; d) Vasco Alves Secco: 11nov1955 a 19mar1956; e) Henrique Fleius: 20mar1956 a 29jul1957; e f) Francisco de Assis Correa de Mello: 30jul1957 a 30jan1961.
  3. O episódio histórico que ficou conhecido por “República do Galeão” refere-se ao Inquérito Policial-Militar (IPM) instaurado pela Aeronáutica a fim de apurar as circunstâncias do homicídio contra o major-aviador Rubens Florentino Vaz e a lesão corporal a que sofreu o jornalista e político Carlos Lacerda em 05ago1954. O IPM chega à conclusão de que o mandante do crime foi o chefe da guarda pessoal do presidente Gregório Fortunato, e que, além disso, ele exercia forte tráfico de influência em relação aos que cercavam Getúlio Vargas, lucrando financeiramente com isso. Ainda sobre o caso, há controvérsias em relação às versões apresentadas por Carlos Lacerda, que, inicialmente havia declarado sobre uma sequência de tiros (tiroteio), mas tarde mudando a versão para um único atirador. Além disso, recusa-se a fornecer sua arma para perícia.
  4. Conforme comentário acima.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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