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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 08jul2020.

MENINO enxerido esse coronel Mamede! Não estava nem escalado para falar, quando, de surpresa, pede a palavra para elogiar as qualidades do morto, destacando seu desempenho antigetulista, sendo o de cujus um dos expoentes de extrema-direita brasileira com larga influência nas forças armadas. Acresceu à sua fala severas críticas à eleição de Juscelino, que venceu por estreita margem de votos o general Juarez Távora, candidato da UDN1. Mamede deixa evidente — e só cego não vê — que se encontra em pleno curso uma espúria manobra nos bastidores cujo objetivo é não permitir a posse de JK, dando poder a um governo militar.

O discurso do coronel Mamede nas cerimônias fúnebres do general Canrobert, aparentemente fortuito, chama muito a atenção do mineiro Henrique Teixeira Lott, alertando-o para o movimento conspiratório que vem sendo alimentado nos gabinetes do Rio de Janeiro, ao arrepio da legalidade constitucional. Primeiro, o teor do discurso do coronel Mamede, um flagrante desrespeito à presença do ministro da Guerra, que, em reação só não interrompe o orador por seguir as normas protocolares e ainda por respeito ao falecido cujo corpo estava prestes a descer à terra. Segundo, porque, encerrada a fala, Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados (que dias depois viria a substituir Café Filho, com problemas de saúde — há controvérsias) apressa-se a cumprimentar o coronel Mamede apertando-lhe calorosamente a mão, em sinal de evidente aprovação. Humm! Debaixo desse angu tem caroço — percebe Lott.

O general Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott, ministro da Guerra, esmaga em 11 de novembro de 1955, o movimento conspiratório que estava em andamento a fim de não permitir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira ao cargo de presidente da República, para o qual havia sido eleito em 3 de outubro de 1955 com apenas 36,5% dos votos válidos (imagem: Internet).

Até então, Lott, sempre correto e leal, não dava ouvidos a rumores que circulavam à boca miúda dando conta de que estava em andamento um movimento destinado a não dar posse a Juscelino, sob a fragílima alegação de que ele não fora eleito com a maioria dos votos válidos. O teor do discurso do coronel e, em seguida, a aprovação do também mineiro Carlos Luz, porém, davam agora a certeza de que o ministro da Guerra precisava. Ademais, em 10 de novembro, pedindo ele audiência a Luz, que ocupa há dois dias a cadeira de presidente da República, este lhe dá um chá-de-cadeira de quase duas horas. Finalmente recebido, Luz não o atende em relação à punição disciplinar que o general pleiteia contra Mamede. O coronel encontra-se servindo na Escola Superior de Guerra, portanto, fora da subordinação ao ministro da Guerra, razão pela qual o ministro pede a providência ao presidente. Além da queda, o coice. Além de não atender o ministro em relação ao coronel Mamede, anuncia a sua demissão. É 10 de novembro, e ele deve passar a pasta para Fiúza de Castro, general de pijama, ainda nesse dia. É muita humilhação! Tanto que, não fosse demitido, ele próprio pediria sua exoneração.

Refletindo com mais serenidade e aconselhado pelo general Denys, decide, porém, não passar o cargo ao apressado Fiúza, a quem pede tempo para esvaziar as gavetas. “Vamos deixar essa formalidade para amanhã”. Não prega os olhos nessa noite. A protelação de Lott quanto à passagem de cargo levanta desconfianças no interino Carlos Luz, que, visando esclarecimentos, às quatro horas da manhã de 11 de novembro telefona para o gabinete do general, que, todavia, recusa-se a atender. Nessa hora, os quartéis do Rio de Janeiro e de outras grandes capitais de estado já estão agitados com homens armados, explosivos e tanques, que logo estarão circulando pelas ruas. Os prédios dos ministérios da Aeronáutica e da Marinha são cercados; O acesso à Base Aérea do Galeão é bloqueado.

Os aviadores — com atuação destacada do major-aviador Burnier — reagem. Ao menos, tentam reagir. Põem no ar 22 C47 Douglas, cuja autonomia é de doze horas, além de reforçarem a defesa interna das bases aéreas sediadas no Rio, visando com isso impedir a ocupação por parte das tropas do Exército, que se acercam destas com numerosas e bem treinadas tropas de infantaria, muitos veículos blindados e grosso armamento e explosivos. Depois de muitos quiproquós, as aeronaves abandonam o Rio voando para São Paulo, visando com isso receberem orientações de seu líder, até nesse momento ministro da Aeronáutica, o brigadeiro Eduardo Gomes, que havia se refugiado em Santos. A ideia inicial é transferir o grosso da Força Aérea do Rio para São Paulo, estado que é governado pelo temperamental Jânio Quadros. Todavia, o matogrossense nem dá as caras, numa mostra de que a direita política brasileira tenta escorar-se numa estaca podre — como, aliás, mais tarde ficará comprovado.

Ao final, tendo Lott e Denys escancarado à opinião pública a conspiração em curso, os parlamentares José Maria Alkmim, Ovídeo de Abreu e Tancredo Neves articulam para que o Congresso declare o afastamento de Carlos Luz por tramar contra a Constituição da República. Café Filho, repentinamente recuperado das coronárias, tenta regressar ao cargo. No entanto, as fortes suspeitas de que ele esteja mentindo quanto à doença cardíaca, a fim de abrir caminho ao golpe, levam o Congresso a afastá-lo também, declarando seu impedimento. Ainda em 11 de novembro, o catarinense Nereu Ramos, vice-presidente do Senado e o próximo na lista sucessória, assume interinamente a Presidência com a missão de garantir a posse de Juscelino no dia 31 de janeiro de 1956. Ramos nomeia para a Aeronáutica o brigadeiro Vasco Alves Seco em lugar do conspirador Eduardo Gomes. Carlos Lacerda asila-se na Cuba de Fulgêncio Batista, que ainda é área de lazer dos estadunidenses ricos, para, somente depois, migrar para o país do Tio Sam, onde também não se adaptou, partindo depois para Portugal.

Mas as nuvens permanecem fortemente carregadas.

Inconformados com o episódio, onze dias depois, num sábado de carnaval, oficiais da FAB, sob a liderança do major-aviador Haroldo Coimbra Velloso, rebelam-se contra Juscelino e seu ministro da Guerra, o general Lott, no episódio histórico que ficará conhecido como “Revolta de Jacareacanga“, já fartamente reportado aqui no BLOGUEdoValentim!. Novamente, Lott, que vem exercendo com mãos de ferro o comando do Exército, consegue debelar a conflagração, para a tranquilidade de JK, que passa a pôr em prática seu plano de governo, cujo lema é “50 anos em cinco”, focando no binômio “Energia e Transportes”. Velloso é preso em 29 de fevereiro e já no dia seguinte, 1º de março de 1956, Juscelino manda ao Congresso projeto de lei anistiando todos os revoltosos. Político hábil, JK sabe que não é possível governar o país sob odioso grau de oposição, como vem ocorrendo até então. Precisa, portanto, de tranquilidade e por isso trata de serenar os ânimos, desarmando psicologicamente seus ferrenhos adversários.

JK, para conseguir tranquilidade para governar, precisava de militares de pulso firme. Já contava com o general Lott, ministro da Guerra, porém ainda não confiava em seu ministro da Aeronáutica (imagem: Internet)

Mas ainda assim os ânimos entre os aviadores não se encontram serenados.

Por não ter conseguido disciplinar seus oficiais e trazê-los à legalidade constitucional, o fraco Alves Seco é demitido em 20 de março de 1956. Para seu lugar, é nomeado o major-brigadeiro Henrique Fleiuss, que, contudo, será exonerado em 30 de julho de 1957, cedendo seu posto a Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco. Fleiuss cai por ter realizado um almoço em homenagem ao coronel João Adil de Oliveira, o homem que presidiu o IPM conhecido como a “República do Galeão“, ou seja, um dos mais ferrenhos antivarguistas da FAB, consequentemente, antijuscelinista. Humm! Um lobo em pele de cordeiro. Diante dessa evidência, que irrita profundamente o presidente JK, não lhe resta outra decisão a não ser demitir Henrique Fleiuss. O próximo da lista é exatamente Mello Maluco.

Mello Maluco ganha a alcunha já no tempo de Escola do Realengo, quando, nos primórdios da aviação brasileira, costumava exibir seus dotes de exímio piloto ao dar voos rasantes na praia para assustar os banhistas. Menino peralta esse Mello! Divertia-se exibindo-se à namorada ao, por várias vezes, dar rasantes no quintal da casa dela, além de executar com o avião outras manobras extravagantes e perigosas, pondo em polvorosa a pacata população do Rio de Janeiro das décadas de 1920 e 30. Inobstante, diante das frouxas regras de aviação de então, não sofria punições por isso. Sendo ele ótimo piloto, segue sem prejuízos à carreira. Criado o Ministério da Aeronáutica, naturalmente os aviadores do Exército — que era o seu caso — e os da Marinha passam a integrar o corpo de oficiais da Aeronáutica. Malgrado o apelido, a nova força armada facilita a Mello, que já se encontra no posto de tenente-coronel, o acesso aos demais postos seguintes, bastando apenas cumprir interstício e ir dizendo “sim, senhor” e “não, senhor”. É, depois da queda de Fleiuss, o homem que chega a ministro da Aeronáutica, e que — dentro do mínimo — dá tranquilidade a Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Major-brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco, foi o terceiro ministro da Aeronáutica no governo de Juscelino (imagem: Internet).

Fazemos aqui outro parêntesis.

JK sempre foi um político hábil e de grande visão administrativa desde prefeito de Belo Horizonte nos anos de 1940. Sabe que, principalmente nessa época, nenhum presidente consegue governar o país sem o apoio dos militares e dos parlamentares. Quanto ao parlamento, está tranquilo pois seu partido político, o PSD, juntamente com o PTB e outras pequenas agremiações de esquerda, detém a maioria nas duas casas, embora não folgada. Já, quanto às forças armadas, tem como lição o exemplo contraproducente de Getúlio Vargas, quando, desprezando a hierarquia dos quartéis, nomeou um coronel para o mais alto cargo da FAB. Juscelino sabe então que necessita a seu lado de homens de pulso firme, não só para gerir as pastas militares como para manter a ordem nos quartéis, e, por conseguinte, garantir os preceitos constitucionais. Para o Ministério da Guerra, já encontrou o homem certo: Henrique Lott, que, convidado, reluta a aceitar a missão. Mal assume a Presidência, porém, percebe que Alves Seco, o ministro da Aeronáutica que decidira manter, tem vários problemas em relação à sua oficialidade. Os problemas disciplinares ficariam explícitos na “Revolta de Jacareacanga”, quando muitos oficiais se negaram a combater os revoltosos, causando um desgaste desnecessário. Na produção da Rede Globo de Televisão “JK” há um episódio em que Juscelino (na pele do ator José Wilker) aborrece-se com Alves Seco. Essas cenas dão clareza ao público de hoje quanto à questão da indisciplina que corroía a Aeronáutica da década de 1950.

JK teve problemas em relação à Aeronáutica, força armada em que reinava a indisciplina. Por isso, ainda em 1956, primeiro ano de seu governo, exonera o brigadeiro Vasco Alves Seco e nomeia para o posto o brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco

No final de 1958, Mello viaja para os Estados Unidos da América. JK , por não confiar no zero dois da lista hierárquica, nomeia para ocupar interinamente o cargo de ministro da Aeronáutica não o próximo brigadeiro, como lógico seria, e sim exatamente o agora marechal Henrique Teixeira Lott. O fato vem a desagradar imensamente a oficialidade, da brigadeirada à tenentada, todos com ódio mortal ao oficial-general que, três anos antes, humilhara a Aeronáutica, fazendo o brigadeiro Eduardo Gomes fugir no cruzador Almirante Tamandaré em companhia de Carlos Luz, Carlos Lacerda e do coronel Mamede, o orador desastrado. Era a primeira vez que uma força armada seria comandada por militar de outra força. Uma humilhação. Na cerimônia de posse do general no cargo de ministro da Aeronáutica, a maioria dos brigadeiros recusam-se a comparecer.

Um dos oficiais mais revoltados é o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier. E é exatamente o tenente-coronel Burnier que irá liderar uma — a segunda no mesmo governo — revolta com o fim de derrubar do poder o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Velloso, anistiado e agora tenente-coronel, também está metido nessa escaramuça.

Em 11 de novembro de 1955, o então major Burnier exerce o cargo de chefe do pessoal da Base Aérea do Galeão e também, pelo regulamento de Base Aérea da época, o oficial de segurança e defesa da unidade. Entendido em armamentos e explosivos, arma fortíssima defesa no Galeão, com direito a tripés de metralhadoras ponto cinquenta e granadas. Numa dessas ações, determina ao capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen que atire no “inimigo”. Zanoni, todavia, nega-se a executar a ordem absurda: “Eu não posso disparar contra meus irmãos…”. Diante disso, Burnier retruca: “Seu covarde, está preso! Prendam esse moleque aí em cima!”.

No Palácio do Catete, em 11 de novembro de 1955, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott”. Barão de Itararé

Outro vulto de destaque nesse episódio é a pessoa do major-aviador Renato Goulart Pereira, ajudante de ordens do presidente Juscelino e herói da Segunda Guerra, o mesmo oficial mencionado no vídeo da produção televisiva já por nós citada. Goulart, que na época é piloto líder no Primeiro Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz, recebe ordens para liderar dezoito aviões Gloster Meteor, para deslocá-los a São Paulo, com ordens de bombardear qualquer navio ou unidade aérea que se declare hostil aos golpistas. O oficial declara, então, ao brigadeiro golpista: “Farei o deslocamento mas não cumprirei a ordem do bombardeio. Não jogo bombas em brasileiros.”

Vejam como o mundo dá voltas.

Mais tarde, é a vez de Burnier se negar a cumprir ordens. Em 1957, segundo suas próprias palavras, é escalado para pilotar um avião com a missão de transportar dois mil tijolos para Brasília. Nega-se. “Então o sr. será preso”, ao que ele responde: “Podem me punir, é o máximo que conseguirão fazer!”. Burnier comenta indignado: “Agora, vejam vocês, edificar uma cidade levando tijolos de avião! Uma barbaridade!”

Convenhamos. Há algo de errado — de muito errado — num homem que considera normal matar seres humanos, brasileiros como ele, mas se declara indignado ao transportar de avião material de construção. Além do mais, há controvérsias quanto ao declarado por Burnier. Os jornais faziam oposição sistemática ao governo de Juscelino, como aliás já se era de esperar. Publicavam quase que diariamente notícias como essa objetivando queimar o governante diante da opinião pública. Quiçá, o próprio Burnier tenha levado essa “notícia” à imprensa.

Juscelino, em seu livro de memórias, assevera que aeronaves da FAB transportaram no início das obras de Brasília apenas equipamentos básicos como geradores, combustível, materiais de escritório, alimentos, até que as estradas Anápolis — Brasília e Belo Horizonte — Brasília, ora em construção, estivessem abertas e em condições de tráfego. No entanto, uma mentira dita mil vezes acaba passando por verdade. Alguém falava algo, os jornais publicavam; um parlamentar de oposição se pronunciava, os jornais no dia seguinte reproduziam. Ao cabo de uma semana ou duas, o povo passa a repetir a história sem questionar. E ainda que, de fato, alguma aeronave tenha transportado material básico de construção? Anos antes, Veloso havia trabalhado na construção de alguns aeródromos no interior do Brasil, certamente algum material teve que ser levado para lá de avião. Este humilde escriba, mais tarde, na década de 1980, na ampliação de Cachimbo, viu para lá serem transportados muitos materiais a bordo de aeronaves C-130.

Agora, em final de 1959, Burnier, acompanhado de Veloso e de outros militares e civis, está prestes a liderar a “Revolta de Aragarças”. Dias antes, Jânio Quadros anuncia a retirada de seu nome para concorrer a presidente nas eleições que ocorrerão no ano seguinte, razão política que serve como mote para o movimento sedicioso.

Continua…

Referências:

  1. Sigla de União Democrática Nacional, partido político de extrema-direita da época.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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