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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 11jul2020.

Em Val-de-Cães, Belém, uma pequena multidão se aglomera nervosa defronte ao guichê da Panair do Brasil. Impacientes, cobram informações sobre o voo noturno, vindo do Rio de Janeiro. São sete horas da manhã de 3 de dezembro, uma sexta-feira, e o avião, que deveria ter chegado por volta das seis horas, até agora nada. Teria acontecido o pior? Sem muito o que fazer, mas tentando acalmar os familiares que estão lá à espera de amigos e parentes, os funcionários da companhia fazem insistentes contatos telefônicos com os escritórios da empresa no Rio. Dentre as famílias que se acotovelam no local, há uma em estado de profundo pesar. Muito abalados, do choro e da consternação inicial, o estado de ânimo dos parentes da senhora Regina Coeli Farry evolui para a preocupação e o desespero, comungando dos mesmos sentimentos da pequena multidão presente.

PARA fazer acontecer o terceiro movimento rebelde contra JK, o segundo em pleno governo, Burnier, em conjunto com outros conspiradores militares e civis, inclui um major-aviador entre os passageiros de um Constellation da Panair do Brasil,1 que faria um voo noturno do Rio de Janeiro para Belém, Pará. Nessa época, o oficial da FAB tinha, por lei, permissão para voar na aviação comercial como fiscal, podendo inclusive entrar na cabine de quaisquer aviões civis. O major-aviador Éber Teixeira Pinto, escolhido para a missão, embarca em companhia do piloto civil e engenheiro Charles Herba no quadrimotor Constellation como “fiscal de rota”, apresentando ao guichê da companhia e ao comandante da aeronave uma permissão falsificada em que consta o carimbo do Clube de Aeronáutica (local onde os conspiradores costumam reunir-se), e não do Ministério da Aeronáutica, e a assinatura do brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da Terceira Zona Aérea, também falsa.

Constellation, o quadrimotor da Pan Air do Brasil, que fazia a rota Rio — Belém nos anos de 1950, foi vítima do primeiro sequestro da aviação comercial do Mundo. Era o Brasil fazendo escola! (imagem: Carta Maior, via internet).

Burnier e Veloso esperam contar com a adesão de mais trezentos cidadãos de bem, entre militares e civis em diversas cidades do país, para a “Revolta de Aragarças”. Entretanto, apenas doze homens topam participar da aventura: oito oficiais da FAB, dois oficiais do Exército e dois civis pegam em armas contra o governo de JK na noite de 2 de dezembro de 1959. São eles: Tenentes-coronéis Burnier, Veloso e Lebre (Geraldo Labarthe Lebre), o major-aviador Éber Teixeira Pinto, os capitães-aviadores Gerseh Nerval Barbosa, Próspero Punaro Baratta Neto e Washington Amud Mascarenhas e o tenente-aviador Leuzinger Marques Lima; do Exército, o coronel Luís Mendes da Silva e o capitão Tarcísio Nunes Ferreira; e os civis: o engenheiro e aviador Charles Herba e o advogado Luís Mendes de Morais. Esses meninos estão prestes a realizar três ações de guerra revolucionária no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e nos céus da Bahia, convergindo ao final para Aragarças, Goiás, que será o quartel-general da “revolução”. Utilizarão seis aviões: três C-47, dois Beechcraft (um civil e um militar) e o Constellation da Panair, sob sequestro.

Na madrugada de 3 de dezembro, as sentinelas da Base Aérea do Galeão em nada desconfiam quando passa pelo Portão da Guarda um caminhão militar dirigido pelo capitão Baratta e com o tenente-coronel Lebre a seu lado. Na carroceria do veículo encontra-se a carga de armas, munições, combustíveis, víveres (alimentos) e mais cinco oficiais rebeldes, que se escondem embaixo da lona impermeável. Uma vez na pista, os sete oficiais se dividem em três grupos, cada um deles roubando um C-47, que se encontram prontos para o combate desde véspera, devidamente abastecidos, com as baterias carregadas e plano de voo fajuto prontinho dando como missão instrução noturna de instrumentos. Decolam de imediato para a cidadezinha de Aragarças, no Brasil Central. Antes, haviam planejado utilizar também um avião de combate sediado na Base Aérea de Santa Cruz com a finalidade de bombardear os palácios do Catete e das Laranjeiras, respectivamente, local de trabalho e de residência do presidente e sua família. Na última hora, uma autoridade naval mais sensata, a quem é dado conhecer o plano subversivo, dissuade Burnier da terrível intenção de eliminar Juscelino e sua família. A autoridade promete em troca uma grande adesão das forças navais, o que, na hora agá, não ocorreu.

Dentre o que é planejado pelos conspiradores está a elaboração de uma carta-manifesto que, na noite de 2 de dezembro, deverá ser entregue ao jornalista e deputado Carlos Lacerda, acompanhada de um convite.

Nessa noite de quinta-feira, Carlos Lacerda encontra-se em seu apartamento no bairro do Flamengo, Rio. Morava no número 180 da rua Tonelero, Copacabana, até final de 1955, pouco depois da última conspiração em que tinha se envolvido na vã tentativa de um golpe militar para evitar que Juscelino tomasse posse. Malogrado o movimento e temendo ser preso, teve que se refugiar no cruzador Almirante Tamandaré, em companhia de outros conspiradores. Logo em seguida, lembrando do ocorrido nas primeiras horas de 5 de agosto de 1955, quando, graças a intervenção do major Vaz, não perde a vida, decide sair do país. Eleito deputado federal no ano anterior, e assumido a legislatura em 15 de março de 1955, pede licença à Câmara dos Deputados deixando o suplente em seu lugar. Vai para Cuba e logo em seguida para os Estados Unidos da América onde, para sobreviver, dedica-se a traduzir filmes. Não se adaptando à vida no exterior, e considerando que JK anistiara em março de 1956 todos os rebeldes, resolve voltar ao país, reassumindo o mandato parlamentar. Passa a residir no Flamengo, mesmo prédio em que mora o também conservador Eduardo Gomes.

Lacerda está agora próximo à mesa de datilografia matutando sobre o que escrever para a Tribuna da Imprensa, cuja edição de 3 de dezembro ainda está em aberto. Enquanto isso, dona Letícia Abruzzini, sua dedicada esposa e excelente cozinheira, encontra-se preparando uma saborosa lasanha. É nesse momento que toca a campainha. Não está esperando ninguém, mas um homem público como ele é sempre bastante requisitado e, por isso, não estranha o fato. O porteiro, que geralmente anuncia por telefone os visitantes, desta vez não telefona. Na verdade, mal os dois visitantes se identificam como oficiais da Aeronáutica, o porteiro, já acostumado, os interrompe franqueando-lhes de imediato o ingresso sem delongas. Se são da Aeronáutica, é claro que são pessoas já esperadas pelo Brigadeiro. Na verdade, a visita é para Carlos Lacerda, e não para o brigadeiro Eduardo Gomes.

Os dois homens, que estão à paisana, se identificam. Lacerda, em seu livro de memórias políticas, declara que jamais dirá o nome desse emissário (ele fala em apenas um homem). No entanto, o insuspeito (neste caso) Burnier dá nome aos bois: o coronel-aviador Gustavo Borges e o capitão-aviador José Chaves Lameirão, que acompanha o oficial superior, o mesmo que participou da Revolta de Jacareacanga há mais de três anos passados. Após os cumprimentos de praxe, Borges lhe estende uma folha de papel. É a chamada carta-manifesto, documento em que os conspiradores declaram as razões para a “revolta”. Uma delas e mais imediata é que Jânio da Silva Quadros, ex-governador de São Paulo, dias antes havia anunciado sua desistência à candidatura ao cargo de presidente da República para as eleições de outubro de 1960, ano seguinte. Ora, todas as esperanças da direita política brasileira estão concentradas no nome do ex-governador paulista e agora deputado federal pelo Paraná. O homem é imbatível nas urnas e agora nos apronta uma dessas?! Lacerda lê o manifesto com atenção, deixando transparecer a sua vontade em aderir de pronto à causa. Precisa decidir-se o quanto antes pois no Galeão os aviões estão prontos e decolarão agora ainda pela madrugada, ou seja, em poucas horas. “Preciso consultar alguém”, diz o jornalista levantando-se e se dirigindo à cozinha.

A intenção é conseguir a adesão de Lacerda e também de outros figurões. Uma adesão de peso, como a do proeminente jornalista, seria um feito capaz de balançar o país. Os quartéis aderirão ao movimento e os jornais apoiarão a causa, provocando um efeito cascata — pensam os conspiradores. Como consequência, haverá um golpe militar em que os milicos tomarão conta de tudo. Juscelino será preso e condenado, saindo definitivamente do cenário político brasileiro.

“Deixa de ser louco, Carlos!. Se quiseres partir para essa aventura maluca, que o faças, mas fica sabendo que estás procurando a morte num movimento inócuo, que não dará em nada, como não deu em nada os outros”, sentencia dona Letícia. “Já escapaste da morte por duas vezes. Sossega, Leão!”. Lacerda despede-os com a negativa acompanhando-os até a porta. Mal a porta do elevador se fecha, o jornalista pega o telefone e disca o número do brigadeiro Eduardo Gomes. Nada diz sobre o assunto nem dos recém-visitantes, apenas pede para visitá-lo agora.

Gomes há muito mantém a fama de opositor sereno ao mesmo tempo de eterno revolucionário. De um tempo para cá, porém, comporta-se como aquele zagueiro que vai ao ataque só na boa. Mal lê, entre muxoxos, o documento e balança negativamente a cabeça. “Esses caras são uns tolos!”, deixa escapar. Sendo daqueles que só vai na boa, é de sua índole aguardar os acontecimentos, para, dando tudo certo, colher os louros da vitória — afinal, é a maior liderança da Aeronáutica; saindo errado, seu nome não aparecerá, mantendo assim a fama de homem sereno e correto e de comandante impoluto. Raciocina que o instável Jânio logo mudará de ideia mantendo a candidatura. Ele está certo. Jânio, conforme as doses de uísque que bebe, muda de ideia como quem troca de camisa. Trata-se, porém, de um dos políticos mais inteligentes e calculistas do século. Não só inteligente, como ambicioso, não mencionando uma palavra sem um propósito. Como prefeito de São Paulo, Jânio vestia-se de mendigo indo de surpresa para as feiras e mercados da cidade a fim de vistoriar a qualidade dos produtos comercializados e os preços praticados. Claro que sempre havia fotógrafos e jornalistas a acompanhá-lo. Gomes, com a experiência de quem foi duas vezes candidato, calcula que a desistência anunciada do ex-governador de São Paulo é apenas para inglês ver, um jogo de cena provavelmente com o fim de fortalecer os apoios deixando mais sólida financeiramente a campanha presidencial. O Brigadeiro pega o telefone e disca um número. Dá ciência ao interlocutor, sem mencionar detalhes, de que há em curso um plano conspiratório. Faz assim calculando que, enquanto o marechal Lott estiver à frente do Exército, nenhum movimento sedicioso tem como prosperar, além de lhe proporcionar um álibi. Além do mais, sabe que dessa vez a UDN finalmente chegará ao poder por meio de Jânio, mas um movimento sedicioso poderá pôr tudo a perder.

Lacerda, em seu livro de memórias, declara que teve ímpetos de aderir à causa, não fosse o conselho de dona Letícia e a decisão de Eduardo Gomes, que, além de não aprovar a aventura, ainda dá conhecimento do caso a um deputado do governo, com quem mantinha relações pessoais. Já Burnier, em livro, declara que não era a intenção convidar Lacerda para pegar em armas. Os oficiais visitantes da noite de 2 de dezembro não foram com a intenção de convidá-lo, mas de simplesmente entregar a carta-manifesto para que o deputado a lesse em plenário e também, como jornalista, a publicasse em seu jornal. Isso daria impacto e certamente faria angariar significativas adesões e apoio à rebelião.

O jornalista e político Carlos Frederico Werneck de Lacerda, que recebeu esse nome em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels, destacou-se com um dos maiores políticos da extrema direita brasileira (imagem: sentinela lacerdista)

O jornalista Campanella Netto, da revista O Mundo Ilustrado, está na lista de passageiros do Constellation da Panair. Seu destino é Belém, onde deverá fazer um trabalho sobre a rodovia Belém — Brasília, ora em construção. Sai do Rio às 23 horas, ele e mais 34 passageiros vivos. O avião ganha altura e segue tranquilamente rumo ao Norte brasileiro. Termina logo a madrugada e chegam sobre o avião os efeitos dos primeiros e tímidos raios solares. Campanella, após consultar o relógio de pulso, pergunta ao passageiro do lado que horas deverão pousar no destino; este, um paraense que já fez várias vezes esse voo, di-lhe que, o tempo estando bom como agora, aproximadamente às seis horas a aeronave pousará em Val-de-Cães. “Há algo errado, então”, diz o jornalista, “porque os raios de sol não estão vindo do nosso lado direito”. Chamando o comissário mais próximo para fazer a observação, percebe que o rapaz lhe dá um sorriso esquisito dizendo que está tudo bem. Era cinco e meia da manhã de sexta-feira.

No aeroporto da Pampulha, Belo Horizonte, o major-aviador Mascarenhas, o tenente-aviador Leuzinger e o advogado Luís Mendes de Moraes roubam um Beechcraft da empresa de mineração Samitre do Brasil e partem para Aragarças. A intenção verdadeira dos golpistas era voarem com um T-6 abarrotado de armamentos e munições. No entanto, não conseguem alcançar as baterias que foram deixadas fora do alcance. Para cumprirem a palavra dada, entram na aeronave particular que está lá dando sopa, Mascarenhas gira o contato e dá partida no aparelho. Em vez das metralhadoras de chão e munições, levam caixas de maçãs para Aragarças.

Enquanto isso, comissários e comissárias de serviço no Constellation, de nada suspeitam quando Éber, fardado, levanta-se para visitar a cabine de comando. Ele e Charles Herba entram para a História como os primeiros sequestradores de um avião comercial no Mundo. Brasil fazendo escola! Os rebeldes passam pelo radiotelegrafista Pedro de Azevedo e pelo engenheiro de voo Jean-Louis Bourdon, parando atrás do assento do comandante Mário Borges. De soslaio, o copiloto Alberto Cavedagne espanta-se com a pistola de calibre 45mm engatilhada na nuca do comandante. Nesse momento, o avião sobrevoa o município de Barreiras, Bahia, em direção ao norte. Os sequestradores mandam virar à esquerda, direção ao oeste. O comandante adverte que as condições precárias da pista de Aragarças não permitem receber um avião de grande porte, com risco para o Constellation e para a vida dos passageiros. “Não quero saber! Vamos pousar em Aragarças, custe o que custar!”, responde o major. Ordena a Pedro de Azevedo, o radiotelegrafista de voo, que continue enviando mensagens normalmente como se o avião continuasse na rota Rio — Belém.

Veloso, anistiado por Juscelino, novamente metido numa conspiração para derrubar o governo de JK, desta vez secundando o explosivo Burnier (imagem: Internet)

Com o sequestro de um avião de passageiros como o Constellation, além de manter o governo em permanente estado de tensão, os rebeldes têm agora um valioso apoio logístico. Com sua fabulosa autonomia, o quadrimotor é capaz de alcançar qualquer local do território brasileiro e também países vizinhos, em hipótese de fuga.

Observando o solo, lá em baixo os passageiros só vislumbram florestas, sem grandes pontos de referência. O comissário aproxima-se para explicar aos preocupados passageiros: “O aeroporto de Belém está interditado e o avião está voltando para descer em Barreiras, em torno de trinta minutos”. Campanella Neto não se dá por satisfeito. “Xii! Tem algo de podre no ar”. Ora, se o avião estivesse realmente voltando para o sul, por que diabos os raios solares não estão incidindo sobre o lado esquerdo da aeronave? Passam-se os trinta minutos e nada. Todos reclamam explicações por parte do comandante, enquanto os comissários, sorrindo forçadamente, tentam acalmar os passageiros. Às 8h15min, acendem os letreiros com recomendações de “não fumar” e de “apertar os cintos”, sinalizando de o avião está em procedimento de pouso. Alguns minutos depois, o avião pousa num modesto aeródromo de pista de grama. Ninguém compreende quando o comissário traz a informação: estamos em Aragarças. O jornalista atrasa-se um pouco para descer, ficando sozinho com um comissário, que lhe revela apavorado que “um major da FAB obrigou com uma arma o comandante a mudar a rota”. Campanella, que havia deixado as máquinas fotográficas a bordo, volta correndo para apanhá-las. Percebe aí um furo de reportagem de proporções gigantescas. É o último passageiro a desembarcar e, como não havia escadas para aquele tipo de avião, os rebeldes fazem encostar um caminhão.

Continua…

  1. Constellation: Avião quadrimotor de fabricação norte-americana pela Lookheed no período de 1943 a 1958, muito utilizado pela aviação comercial e como aeronave militar; Panair do Brasil foi uma companhia aérea pioneira na aviação comercial brasileira, sendo a principal empresa aérea de 1930 a 1950, perdendo mercado nessa década em razão do crescimento da Varig.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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