Categorias
Uncategorized

O PRIMEIRO sequestro de avião!

... Continuação da narrativa postada em 12jul2020.

“Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí / Queimando pestanas organizando suas batalhas / Os guerrilheiros nas alcovas / Preparando na surdina suas mortalhas / A cada conflito mais escombros… Isso tudo acontecendo / E eu aqui na praça / Dando milho aos pombos”. Zé Geraldo

MAS — como dizia Drummond — tinha uma pedra no meio do caminho. Em outras palavras, a lei de Eddie Murphy, que um dia declarou: se alguma coisa tiver que dar errado, dará e no pior momento possível. Nessa sequência novelesca pela disputa do poder, vamos às pedras que estavam no caminho. Em 5 de agosto de 1954, o susto teria produzido o efeito esperado em Carlos Lacerda se a bala que Alcino, o pistoleiro amador, não tivesse atingido Vaz, o major da FAB, que se metera na frente do jornalista. Vaz pagou com a própria vida pelo fato de estar na hora errada, no local errado e em companhia errada. Sua morte causa comoção e Lacerda aparece com o pé engessado, embora não dê sua arma para perícia. A direita brasileira vem muito a lucrar com o corpo de um militar morto nessa circunstância especial pois com isso consegue pôr fim à Era Vargas. Outra pedra: no dia 1º de novembro de 1955, ocasião das cerimônias fúnebres em honra ao general Canrobert Pereira da Costa, o discurso inoportuno do coronel Jurandir de Bizarria Mamede alerta o ministro da Guerra, general Henrique Lott, de que há em curso uma conspiração a fim de não permitir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito em 3 de outubro último ao cargo de presidente da República. Mais uma pedra: na chamada Revolta de Jacareacanga, liderada pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso, o movimento não obteve a massiva adesão que se esperava devido, segundo experientes analistas, ao fato de que seus planejadores terem sido muito discretos ao não alertarem os potenciais rebeldes a aderirem à causa. Quando potenciais revoltosos tomam conhecimento das ações de Veloso e Lameirão, por meio da imprensa, já não se encontram em estado de ânimo suficiente para uma empreitada de tal vulto e risco. Ademais, neste caso, o coronel, incumbido de, a partir da Base Aérea de Belém, comandar as ações, é preso mal põe os pés em Val-de-Cães. Os legalistas já estavam ariscos.

No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / Tinha uma pedra / No meio do caminho tinha uma pedra. Carlos Drummond de Andrade (imagem: Internet)

E agora? Qual a pedra que estaria no meio do caminho dos rebeldes?

Desembarcados os passageiros do Constellation, eles são reunidos na minguada estação de passageiros de Aragarças. Antes, desde as sete da manhã, já se encontram lá os sete oficiais que tinham roubado os três C-47 do Galeão — Burnier, Veloso, Lebre, Baratta, Gerseh, Mendes e Tarcísio. O grupo de Belo Horizonte, que, não conseguindo roubar o T-6 da FAB, acabaram decolando com um Beechcraft de uma empresa particular — Mascarenhas, Leuzinger e o advogado Luís Mendes de Morais — só chegam ao lugarejo já por quase o meio-dia, porque, na pressa nem notaram que havia pouco combustível. Com isso, têm que fazer uma escala em Pirapora, Minas. Antes disso, desavisado, pousa para reabastecer em Aragarças um Beechcraft da FAB procedente da Base Aérea de Campo Grande, cujo destino seria Belém. Seus tripulantes — tenentes Edsen e Castelo Branco, da FAB, e o passageiro, tenente Quinn, do Exército — não concordam em aderir à “revolução” e, por isso, recebem voz de prisão sendo a aeronave incorporada ao patrimônio dos rebeldes, que agora detém o controle de seis aviões: os três C-47 do Galeão (matrículas 2025, 2060 e 2063), o Beechcraft civil de BH, o quadrimotor Constellation da Panair e este último avião. Logo após esse fato, ainda de manhã, Burnier e Mascarenhas, depois de reunidos a fim de decidirem as ações imediatas, vão de caminhão para Xavantina, a cidade mais próxima, já do outro lado do rio, em Mato Grosso. Chegando lá, tomam, em nome da “revolução”, a cidade e o destacamento local conseguindo, entre a guarnição militar e funcionários, mais adesões, além de, naturalmente, mais combustível e outros materiais julgados úteis. Regressam ao QG à tarde.

João Paulo Moreira Burnier, líder da revolução que não aconteceu (imagem: Internet).

Já experiente em situações como essa, Veloso reúne passageiros e tripulação recém-chegados e anuncia curto e grosso em voz alta: “Estamos na revolução e os senhores estão presos. Serão encaminhados ao hotel local”. O oficial, por ser uma figura já conhecida da imprensa, Campanella Neto, equivocadamente, atribui a Veloso a liderança da rebelião, em vez de Burnier, que coordena outras atividades. Na Revolta de Jacareacanga, a única vítima foi Cazuza, que morreu sem saber a causa por que lutava. Agora, nesta, a única vítima já chegou morta. “Eu quero que vocês e essa tal revolução vão pro raio que os parta, seus filhos de puta!”. Diante da perplexidade inicial de Veloso, alguém lhe sopra no ouvido. O autor do impropério é o Sr. Farry, o indignado viúvo da senhora Regina Coely, cujo caixão está alojado no bagageiro do Constellation aguardando sepultamento a ocorrer em Belém, onde se encontram suas raízes familiares. O coitado, não sem motivo, está abaladíssimo, e, entre lágrimas e xingamentos, não se conforma com o tratamento indigno a que aqueles homens, em nome de uma tal revolução, dispensam à defunta e a ele próprio, além de causarem largo prejuízo emocional aos parentes e amigos que aguardam o ente querido na Capital Paraense. Regina, a falecida esposa, nem mesmo depois de morta pode descansar em paz?!. O corpo está embalsamado mas a funerária do Rio garante a conservação por apenas 48 horas. E agora, o que fazer? Na pequena Aragarças não há serviço de frigorífico adequado para conservação de cadáver.

Essa foi uma das pedras no caminho dos dublês de revolucionários. Antes mesmo da chegada das tropas enviadas pelo marechal Henrique Lott e comandadas pelo tenente-coronel França, os rebeldes já têm sofrido a primeira derrota moral. Mas a existência de um cadáver não é o único problema grave. Um pouco afastada do grupo, sentada num banco de madeira do acanhado salão de passageiros, abaladíssima emocionalmente está a senhora Jaísa Lott, jovem viúva do tenente-aviador Lott, sobrinho do ministro da Guerra, morto em acidente aeronáutico ocorrido há quinze dias em Belém. A viúva, tendo ido a Belém para os funerais do esposo, lá deixou pertences e os filhos, e agora estava retornando para trazê-los de volta.

Logo mais tarde, um pouco mais calmo, o viúvo aceita uma solução alternativa.

Campanella, no hotel-fazenda onde ele, os demais passageiros e alguns membros da tripulação, estão alojados, circula para lá e para cá em volta do prédio, organizando mentalmente as ideias de tudo que ora vivencia. Logo constata que nos limites da cidade há duas pontes: uma sobre o rio das Garças e outra sobre o rio Araguaia, ambas ligando Aragarças a Barra do Garças (Mato Grosso). É uma cidade mais populosa; logo, há uma agência de correios e telégrafos. Precisa ir até lá para passar telegramas a fim de transmitir, em absoluta primeira mão, as agitadas novidades políticas que está a testemunhar e ainda de relevância maior que a construção da estrada Belém–Brasília. Sem muita vigilância, resolve ir a pé e, havendo um homem de metralhadora vigiando a ponte, di-lhe que é jornalista e, diante da cara de paisagem do homem, apresenta-lhe a carteira de jornalista acompanhada de quinhentos cruzeiros; na segunda ponte, a sobre o Araguaia, novamente molha a mão do outro guarda. Passa três mais relevantes telegramas de sua carreira jornalística e regressa. Já no hotel, nota que o sargento que cuidava da vigilância agora conversa descontraidamente com os passageiros, tendo ele deixado displicentemente a metralhadora sobre um banco. Enquanto isso, surge um jipe do qual desembarcam o engenheiro e piloto civil Charles Herba, imponentemente fardado de coronel da FAB, e o advogado Luís Mendes de Moraes Neto. Perguntam sobre as pessoas mais importantes entre os passageiros. Levam com eles, como reféns, o senador maranhense Remy Archer, então presidente do Banco da Amazônia, o seu assessor de imprensa, Paulo Oliveira, e um engenheiro (aqui não identificado). Ficam os três com os rebeldes no QG da rebelião, no aeroporto de Aragarças.

Pouco depois das vinte horas, o jipe traz de volta o jornalista e o engenheiro. O senador, porém, é mantido no aeroporto como refém. Mais tarde, esse mesmo jipe vem apanhar o copiloto e o radiotelegrafista do Constellation, pois ambos estão no hotel junto com os passageiros, enquanto o comandante e o mecânico já eram mantidos presos no interior do próprio avião. Veloso — contam o assessor de imprensa e o engenheiro — constantemente fazia o gesto nervoso de consultar o relógio e apontar para o céu, como se estivesse esperando as adesões prometidas e que nunca chegaram.

Campanella Neto registrou a prisão dos revoltosos (imagem: A História bem na Foto, blog).

Aproximadamente, às quatro da madrugada de 4 de dezembro o Constellation e mais quatro aviões levantam voo. O quadrimotor da Panair, com Charles Herba e Éber Teixeira Pinto, tem como destino Buenos Aires, com direito a quatro tripulantes do quadrimotor e mais o senador Remy Archer, como escudo dos dois revoltosos. Os demais, ocupantes de dois C-47 e dos dois Beechcraft, seguirão para Cachimbo, Santarém e Jacareacanga. Cientes da iminente chegada da tropa de paraquedistas, fogem os valentes rebeldes. Ou recuam, para usar um velho eufemismo de guerra. Retirada estratégica é outro termo.

Continua…

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s