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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 14jul2020.

Nunca vi coisa igual a esta! Os aviadores rebeldes querem derrubar o governo e vão para Aragarças. E a gente tem de sair atrás deles por tudo quanto é lado, e eles fugindo. Parece coisa desses meninos que roubam automóvel só para provocar perseguição”. Juscelino Kubitschek, Jornal do Brasil de 5dez1959.

JUSCELINO, Lott e Drummond. Que têm em comum estes nomes? O médico por profissão e político (melhor seria dizer: administrador público) por paixão, o vocacionado militar de mãos de ferro e o célebre poeta têm a mesma origem territorial e cultural: Minas Gerais. Ora, ora! Quando, no episódio anterior destas narrativas, mencionamos a pedra no meio do caminho dos golpistas, nem sequer havíamos associado a origem do poeta à do protagonista maior desta história. Drummond, mineiro de Itabira; Juscelino, mineiro de Diamantina. O primeiro formado em Farmácia; o segundo em Medicina. Parece, parece — ou seria apenas coincidência — que os mineiros se unem em torno do nome do seu governador, a fim de ser restituído a Minas um direito não escrito, que lhe fora tirado em 1930. Relembrando: os coronéis da república do café-com-leite, quebrando um acordo de cavalheiros, pretendem eleger o paulista Júlio Prestes, em vez do mineiro Antônio Carlos. Era a vez do leite em lugar do café, a prevalecer o o rodízio. Diante dessa briga, aproveita-se um gaúcho, o estancieiro Getúlio Dorneles Vargas, que, congregando os outros caudilhos do Rio Grande — até mesmo figadais adversários –, acaba por assumir o poder, dele só saindo quinze anos depois. Vargas encerra por vias revolucionárias a República Velha. Com a espada entraste, pela espada sairás — parafraseando as Sagradas Escrituras. Tirou pelas armas o café paulista; com um tiro no peito, deixa Café no fogo esquentando a principal cadeira do Palácio do Catete. Política é destino; política também é oportunidade. É aí que entra o mineiro JK, recuperando pelo voto popular para as Minas Gerais o poder que lhe haviam retirado vinte e tantos anos atrás. Liberdade ainda que tardia. Bem depois — bem depois, é verdade — por vias pavimentadas pelas urnas, o comando da República é devolvido a Minas. Mas a vida de Juscelino no comando do Brasil não seria tão fácil assim. É obra e graça do mineiro Henrique Lott que, movendo céus e terras, o povo de Minas se vê novamente representado, já que, por pouco — muito pouco mesmo — o eleito JK não teria sofrido o mesmo destino de Antonio Carlos e de Júlio Prestes. A História é irônica: é na luta de um ressentido São Paulo contra o governo de Vargas que um anônimo médico mineiro dá-se a conhecer, primeiro à gente de BH, depois a Minas e, por derradeiro, aos brasileiros.

Drummond, atualizando seus versos modernistas, diria que há agora mais uma pedra no caminho de Juscelino. Sim, uma pedra — mais uma — no caminho de um mineiro. Pela lei da compensação, há também outra na vida dos rebeldes que não apenas o caixão da dona Regina Farry.

Quando chegam os golpistas a Aragarças a bordo dos três C-47 roubados, uma das primeiras providências é conseguirem adeptos, entre a guarnição militar local e os funcionários de campo, da “revolução” que pretendem provocar. Assim o fazem. Não é difícil para um oficial das forças armadas fazê-lo, bastando uma simples ordem acompanhada de poucas e superficiais explicações. Além da força da platina, há a desinformação, uma praga que assola de forma arrebatadora a população mais simples, ou seja, noventa por cento do nosso povo, sobretudo considerando o tempo — década de 1950 — e o espaço (interior do Brasil Central) em que acontecem estas histórias. Se alguém não concordar, é feito prisioneiro. É assim que rapidamente conseguem recrutar homens para apontar armas para passageiros e tripulantes do Constellation, feitos prisioneiros em hotel; guardar pontes e outras instalações julgadas de interesse dos rebeldes; dirigir jipes e caminhões, além de outros trabalhos manuais, como carregar caminhões e aviões com mantimentos, armamento, munições, combustíveis… Para tudo é necessário contar com braços. É assim que agem os revoltosos em Aragarças, Xavantina e noutras praças. No entanto, essa gente rude e humilde não é treinada para guardar gente nem tampouco combater e matar pessoas. Estão lá por um emprego, garantindo o pão para a família e para si. Um deles, não se sabe se funcionário da Aeronáutica contratado ou mesmo de trabalhador de outra empresa como o Departamento de Estradas de Rodagem, está agora lá na cabeceira da ponte sobre o rio das Garças com a ordem de não permitir a saída de ninguém. Campanella precisa ir a Barra do Garças, calcula que uma simples explicação ao homem não é suficiente para que ele lhe deixe atravessar, mas talvez uma gratificação em dinheiro venha a fazê-lo mudar de ideia deixando-o, repentinamente, mais compreensivo. Assim, junto à carteira de jornalista dobra discretamente uma nota de quinhentos cruzeiros. O documento, na verdade, de nada serve já que, calcula, o homem nem saiba ler. Mas todo analfabeto sabe reconhecer dinheiro e o homem, pela cara de Dom João VI na cédula, vê ali o ordenado de dois dias ou mais de trabalho duro. O jornalista molha o pé da planta também do homem da outra ponte, que se encontra fincado no lado de Mato Grosso. Para Campanella Neto, dói em sua alma mineira ver sua porta-cédula desfalcada daquelas duas notas, mas não enxerga outro remédio. Precisa passar esses três telegramas. Terá então feito o seu dever de brasileiro, sobretudo de mineiro, e ainda — principalmente isto — a notícia lhe dará a notoriedade profissional que raros jornalistas (na verdade, começou como fotógrafo) conseguem. Está em jogo o governo de JK. Pede ao atendente da agência dos Correios e Telégrafos local para transmitir uma mensagem para Joel Silveira, seu editor-chefe da revista O Mundo Ilustrado:

“Telegramas enviados pelo jornalista Campanella Neto denunciaram que Aragarças é o esconderijo dos revoltosos…’” É Heron Domingos, com seu vozeirão, anunciando em primeira mão pelo célebre noticioso radiofônico Repórter Esso.

Outra mensagem é enviada ao presidente do Senado Federal e uma terceira para o conterrâneo ministro da Guerra, marechal Henrique Lott, mineiro de Sítio (atual Antônio Carlos).

Desfalcou sua porta-cédula em mil cruzeiros mas não deixaria barato para aqueles caras, que, se raciocinassem com a mineirice daquele jornalista entrometido, teriam mandado reforçar a vigilância sobre ele, não dando chance a Campanella Neto de escapar e fazer o estrago que faria. Uma pedra no caminho. Não demorariam a chegar os paraquedistas comandados pelo tenente-coronel França.

No sábado, 4 de dezembro, enquanto Veloso, Gerseh, Barata e outros tripulantes e ainda o viúvo e um cadáver voam rumo ao Tapajós e Amazonas, Burnier e Mascarenhas, num dos Beechcraft e Leuzinger, no C-47 2060, ainda permanecem voando nos arredores com o fim de desativar radiofaróis e providências outras, na vã tentativa de atrapalhar o progresso das tropas legalistas. Noutras palavras: salvar a própria pele. Inobstante, dois C-47 chegam a Aragarças trazendo os paraquedistas.

Feita a missão, desavisado, Leuzinger decide voltar ao que, uma hora antes, era o QG dos rebeldes. Voando sobre Aragarças, vê dois C-47. Manda mensagem por rádio e não obtém resposta. Silêncio. Ainda assim, renitente, ele decide aterrissar o 2060. Militares, camuflados com graxa preta no rosto estão escondidos na mata em redor da pista. O avião para, sem contudo cortar os motores. A porta se abre. Nesse momento um militar do EB grita: “Por ordem do coronel França, o senhor e sua tripulação estão presos!”. Leuzinger imediatamente fecha a porta e dá uma volta de 180 graus no avião, tentando fazê-lo decolar. Os paraquedistas tentam impedir a decolagem rolando tambores de gasolina na pista, mas o rebelde ignora. Acionando mais fortemente os motores, Leuzinger consegue elevar um pouco o aparelho para, em seguida, o avião cair, por não ter velocidade suficiente para alçar voo. A tropa do EB abre fogo, sob as ordens de metralhar as rodas do avião dadas pelo tenente-coronel França. As balas, no entanto, devem também ter atingido o tanque de gasolina. O tenente Leuzinger, demais tripulantes e sete ou oito funcionários civis, que haviam aderido ao movimento, têm tempo ainda de descer correndo para se precipitarem nas matas ao redor. Logo o oficial é preso e também alguns tripulantes e civis. O avião, o C-47 2060, devido à carga que transportava — armamento e munições –, transforma-se numa imensa chama, causando um estrepitoso barulho de explosão.

Poucos sabem, mas a vida de JK nos cinco anos de governo não foi nada fácil. Havia muitas pedras no caminho. (imagem: Internet)

Perseguido pelos militares legalistas, Leuzinger logo é preso, porém se nega a revelar o nome dos demais revoltosos que o acompanhavam. A essa altura, os dois C-47 restantes estão se aproximando de Santarém, porém o rádio traz a notícia de que o aeródromo já está ocupado por forças legalistas. Diante disso, decidem voar para Jacareacanga, tentando repetir o movimento de 1956. Lá avistam a pista interditada e uma aeronave da FAB, um Lockheed Lodestar L-18. Quase sem combustível, pedem autorização para pousar. O sargento operador do rádio, porém, responde que o oficial em comando, major Feitosa “não dialoga com revoltosos”. Esse L-18 estava voando pela região em missão de manutenção de equipamentos de rádio quando, diante da situação emergencial, seu comandante, o major Feitosa, do Parque de Aeronáutica de São Paulo, recebe ordens para comandar as ações em Jacareacanga a fim de impedir o pouso de qualquer aeronave em poder dos rebeldes.Veloso conhece bem a região. Voando pelas redondezas, avista um descampado onde há um cemitério meio abandonado e, contíguo, um campo de futebol. Gerseh, piloto excepcional, manobrando o 2063, consegue pousar no local. De lá, vão a pé com destino às instalações que estão ocupadas por Feitosa. Como estes estão desarmados, fica fácil para os rebeldes tomarem conta do campo. Desobstruem a pista e Gerseh retorna ao local para trazer o avião até o aeródromo.

Aeronave Lodestar L-18 (imagem: Internet)

Durante o voo, Barata e os oficiais do EB que ocupam o outro avião, o 2025, tendo perdido contato com o 2063, voltam e juntam-se a Burnier, que de posse de um Beechcraft, encontra-se em Cachimbo. De lá, voam sob uma noite chuvosa para um país vizinho, onde pedem asilo político.

E o caixão com o corpo?

A alternativa proposta por Veloso ao sr. Farry era a seguinte: voariam para Santarém onde um voo comercial levaria para Belém o viúvo e o caixão com o corpo da falecida. Ele, resignado e correndo contra o tempo, não enxerga outra opção a não ser concordar. No entanto, por Santarém já estar ocupada por tropas do EB, partem para Jacareacanga. Chegando lá, Veloso propõe ao viúvo que sepulte a falecida lá mesmo. Ele diz: “Nesse caso, terão que enterrar dois cadáveres: o dela e o meu”. Nesse instante, o sargento do rádio entrega a Veloso uma mensagem cifrada de alguém dizendo que “as tropas legalistas estão chegando; e “Jânio” acaba de renunciar à renúncia, ou seja, “mantém sua candidatura presidencial”. Com isso, urge se mandarem para fora do país e pedir asilo. Paraquedistas hostis estão a caminho; Jânio continua candidato; e, por último, não têm como alimentar toda a gente. As opções são: Bolívia, Paraguai e Argentina. Feitosa concorda com a proposta de Veloso de partir para Belém no L-18 e levar o corpo da falecida e o viúvo. Os dois assumem o compromisso de não revelar às autoridades detalhes sobre os revoltosos. Fica assim solucionado, enfim, o problema do corpo da senhora Regina Coeli Farry, que finalmente encontrará descanso.

O Constellation já está na Argentina onde Charles Herba e Éber Teixeira Pinto pedem asilo político; Veloso, Gerseh, Barata, o tenente-coronel e o capitão do EB partem para o Paraguai, de onde mais tarde migram para a Argentina; enquanto Burnier, Mascarenhas e outros rebeldes se asilam na Bolívia. Ficam no exílio durante todo o ano de 1960. Juscelino tentou anistiá-los mas o parlamento não levou adiante o projeto-de lei, considerando, entre outras motivações, a gravidade do caso: o sequestro de civis mediante o uso de arma de fogo. Com exceção de Veloso, que era engenheiro, todos os outros sobrevivem durante esse ano exercendo empregos humildes. Próspero Punaro Barata Neto, que vinte anos depois vem a ser comandante da Base Aérea de Belém, empurra em Buenos Aires carrocinha de sorvete. Jânio, para azar do Brasil, vence as eleições e, mal assume, anistia a todos esses moleques.

Certa estava dona Letícia ao espinafrar o marido, que, juntando-se aos conspiradores e rebeldes, teria passado um ano inteirinho sem ver a cor e sentir o sabor da lasanha. O coronel Hermegildo, mencionado no primeiro capítulo destas narrativas, perto dessas figuras mencionadas parece um anjinho. Nessa brincadeira, com o dinheiro do contribuinte brasileiro, Burnier, Veloso, Barata e outros bandidos falsificaram documento, roubaram aviões militares e civis, sequestraram uma aeronave comercial, puseram dezenas de pessoas em perigo de vida prejudicando-as suas rotinas de vida, colocaram-nas em privação de liberdade, trataram com indignidade gente viva e morta, causaram a destruição de uma aeronave, gastaram combustíveis e munições, enfim, fizeram o diabo. Mereciam pagar todo o prejuízo causado aos combalidos cofres públicos por eles tão defendidos de forma hipócrita, além de responderem por tudo diante dos tribunais. Mas como no Brasil o certo é o errado e o errado é o certo, quem, nesse episódio, posicionou-se do lado legal acabou se dando mal, porque, afinal de contas, essa gente de farda tanto fez, tanto fez, que acabou por tomar o poder. Qualquer um cidadão brasileiro, bastando ter agido em nome das causas populares, praticando dez por cento desses crimes, padeceria uma eternidade na cadeia, no mínimo. Em nome de Deus e da Família, uma vez vitoriosos, esses homens de bem, esses cristãos caluniaram, difamaram, perseguiram, demitiram, prenderam, torturaram, mataram, e com isso destruíram famílias e reputações, transformando este país num imenso tribunal de exceção com o escopo de varrer do mapa todo e qualquer um que ousasse pensar diferente. Sobrevieram trevas neste território auriverde, permanecendo por longos 21 anos.

*** FIM ***

Livros consultados:

  1. LACERDA, C. Uma crise de agosto: o atentado da rua Toneleros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  2. CONY, C. H. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo: Planeta, 1994.
  3. ARGOLO, J.; RIBEIRO, K.; FORTUNATO, L. A direita explosiva no Brasil: a história do Grupo Secreto que aterrorizou o País com suas ações, atentados e conspirações. Rio de Janeiro: Mauad, 1996.
  4. CONY, C. H. JK: nasce uma estrela. Rio de Janeiro: Record, 2002.
  5. MOREIRA, P. R. Bela noite para voar: um folhetim estrelado por JK. Rio de Janeiro: Relume, 2005.
  6. COUTO, R. C. O essencial de JK: visão, grandeza, paixão e tristeza. São Paulo: Planeta, 2013.
  7. NETO, Lira. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Outras fontes:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_de_Aragar%C3%A7as
  2. https://ahistoriabemnafoto.blogspot.com/2007/06/histria-da-foto-de-campanella-neto.html
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Teixeira_Lott
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Paulo_Burnier
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Panair_do_Brasil
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
  8. http://www.sentandoapua.com.br/portal3/content/view/Renato%20Goulart%20Pereira/63/
  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  10. https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis_Correia_de_Melo
  11. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Alves_Seco
  12. https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Fleiuss_(militar)
  13. https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Fortunato
  14. https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%A2nio_Quadros
  15. http://www.catalinasnobrasil.com.br/site/fabs/1062-eber-teixeira-pinto.html
  16. http://www.catalinasnobrasil.com.br/site/fabs/576-pr%C3%B3spero-punaro-barata-netto.html
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_Coimbra_Veloso
  18. https://www25.senado.leg.br/web/senadores/senador/-/perfil/3011
  19. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_ministros_da_Aeron%C3%A1utica_do_Brasil

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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