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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

JÁ BEM dizia um comandante nosso — e isso faz vinte e tantos anos — que a humanidade classifica-se em duas categorias: os que têm úlcera nervosa e os que causam úlceras. Há, porém, os que se enquadram nas nesses dois grupos simultaneamente. Mas, ao estudarmos a tempestuosa História brasileira do século XX, vemos que Carlos Frederico Werneck de Lacerda, o Corvo, está no segundo grupo.

No célebre Crime da rua Toneleros, em que foi matado o major-aviador Rubens Florentino Vaz, Carlos Lacerda teria sido atingido no pé esquerdo. Socorrido e levado ao hospital Miguel Couto, logo, amparado por soldados da Aeronáutica, aparece com o pé engessado ou enfaixado, numa prova inconteste (na época) do risco que sua vida sofreu, mesma sorte não tendo o major Vaz, que naquela noite de 4 para 5 de agosto de 1954 lhe fazia companhia.

Há controvérsias, como dizia um humorista televisivo. Reparem bem que o verbo ter em “teria sido atingido” não indica certeza. O futuro do pretérito é, na língua portuguesa, usado para indicar uma ação que poderia ter acontecido após outra, ou mesmo indicar incerteza. Pois sim. Muitas interrogações decorrem daquele célebre episódio histórico, a partir do qual os acontecimentos se precipitaram sobre o governo de Getúlio D. Vargas, levando-o ao suicídio na manhã de 24 de agosto de 1954, “saindo da vida para entrar na História”.

Uma das interrogações é esta: que fazia um oficial da Aeronáutica ao lado de Lacerda, feroz porta-voz da oposição ao governo Vargas? Outra: Haveria uma liderança por trás dessa ação amiga e protetora? Mais uma: Lacerda realmente levou um tiro no pé? Se sim, quem atirou? Etc, etc.

As respostas para todas essas questões seguiram ao túmulo junto com Vaz, Lacerda, Vargas, Gregório Fortunato, Eduardo Gomes… No entanto, após intenso trabalho de pesquisa e uma pitada de argúcia da nossa parte, tentaremos responder as indagações levantadas — ainda que em parte. Se não o fizermos, ao menos colocaremos minhocas na cabeça do leitor, que até então conhece apenas a versão escrita escrita pelas penas dos vencedores. Tentaremos — como é o escopo do educador e também do bom historiador — pelo menos fazer o leitor (no caso o incerto visitante destas páginas) indagar aos seus botões: Será?

Para responder tais indagações, temos que fazer outra: quem lucraria com o atentado ou mesmo a morte de um oficial da Aeronáutica e também de Carlos Lacerda? Afirmamos desde já que esses crimes (homicídio e lesão corporal) em nada ajudariam Vargas — ao contrário, como se viu, só lhe traria prejuízos, como de fato aconteceu.

Consultamos várias fontes. Numa delas, o livro de Claudio Lacerda Paiva, vemos o autor questionar as consequências que suicídio de Vargas veio a suscitar no povo brasileiro, numa comoção popular sem precedentes, a partir da leitura e farta divulgação de sua carta-testamento. No documento, o ex-presidente acusa as elites financeiras do país e o imperialismo internacional de o perseguirem sem trégua desde o primeiro dia de mandato. Diz Vargas em seu último documento, com outras palavras, que sofria perseguições por ter cuidado dos interesses nacionais e das classes menos favorecidas deste país. Ao fim, só lhe resta como saída a morte. Em contraponto, Lacerda (não o jornalista, mas o autor do livro) argumenta que não existiria o dia 24 (data da morte de Vargas) sem o dia 5 de agosto, data da morte de Vaz e da lesão corporal sofrida por Carlos Lacerda. É verdade. Continua Cláudio Lacerda argumentando que é infundada a denúncia que fez Vargas em relação ao imperialismo — EUA — que, segundo o ex-presidente, conspirava contra seu governo em alinhamento aos interesses espúrios da elite nacional e do capital internacional. Isso porque — sustenta o autor — Vargas governou o país de 1930 a 1945 como ditador, portanto, perfeitamente alinhado com a forma de agir e de pensar das autoridades estadunidenses em relação aos países sul-americanos. A América para os americanos — a mal afamada Doutrina Monroe — se via convenientemente representada nas ditaduras da América do Sul (o Brasil de Vargas incluso), formas de governo sob influência ideológica e domínio econômico do grande irmão do Norte, que controlavam as massas miseráveis e mantinham os privilégios das elites locais.

Não deixa de ter razão, ao menos em parte, Cláudio Lacerda Paiva. De fato, o período que a História destaca como Estado Novo constituiu-se numa ditadura cruel e violenta, acrescendo a ausência de uma imprensa livre, malgrado seus interesses. Vargas, à frente, demagogicamente manipulava tudo de forma a sua imagem ficar bem com o povo, sua figura esculpida como “o pai dos pobres”, ao mesmo tempo que “a mãe dos ricos”. A polícia violenta não era de Vargas, mas sim de Felinto Müller; a censura era do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de Lourival Fontes, não de Getúlio. O ditador habilmente manipulava tudo isso durante as fases de governo provisório, constitucional e ditatorial, períodos que se confundem, perfazendo os quase quinze anos de Getúlio Dornelles Vargas no Palácio do Catete.

Sustenta também Cláudio Lacerda Paiva, com letras francamente antigetulistas, que o Império não esperaria 24 anos para derrubar um ditador latino-americano, só deixando para fazê-lo em 1954. Meias-verdades.

“Seria fazer muito pouco do poderio dos Estados Unidos e de seu capitalismo achar que o ‘imperialismo ianque’ precisaria de 24 anos para derrubar um ditador latino-americano”1

Não é bem assim.

Honesto com os fatos e com os leitores, devemos separar o Brasil de Vargas em duas etapas: primeira, a que foi de 1930 a 1945, quando governou com amplos poderes, imprensa sob censura, ausência de liberdade, unidades federativas sob intervenção etc; segunda, a de 1951 a 1954, em que volta ao poder por força do voto popular, sob plena vigência da Constituição da República de 1946, a que jurou obedecer. Lacerda Paiva, a fim de consubstanciar seus argumentos, embaralha os fatos pondo as duas fases de Getúlio no mesmo balaio, querendo com isso evidenciar a seus leitores um Vargas autoritário, censurador, corrupto e demagogo. Demagogo pode ser, mas agora já não autoritário, censurador e corrupto. Corrupto também não, já que, ao retirar-se em São Borja encontra-se mais pobre de que quando saiu em 1930. Ao mesmo tempo, o autor pinta a classe média, militares, jornalistas, grandes empresários como legítimos representantes da probidade e do patriotismo, cidadãos impolutos, cujo objetivo único é o bem-estar da Pátria, incluindo aí o afastamento definitivo de maus brasileiros como os famigerados comunistas.

De fato, na primeira etapa, o governo de Vargas, embora ele pessoalmente tenha flertado com o Nazismo, mantém estreitos vínculos com o dos Estados Unidos da América, de Franklin Delano Roosevelt. Tudo coberto e alinhado, com o Norte e o Nordeste brasileiro servindo de trampolim aos ianques para a Europa na Segunda Guerra, em troca da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), meta de Vargas para que o Brasil ingresse finalmente na era industrial. Diferente cenário, porém, encontra o Gaúcho quando volta ao Catete em 31 de janeiro de 1951 e isso seus detratores fazem questão de esconder. Não conta mais com amplos poderes nem os Estados Unidos são o mesmo de antes.

Para chegarmos mais perto da verdade e sopesar os prós e contras, sendo fiel aos fatos, ou seja, imparcial, fomos em busca de outras fontes, como sempre o fazemos em respeito aos eventuais visitantes desta página.

Primeiro, tentaremos responder porque oficiais-aviadores bancavam os capangas de Carlos Lacerda.

Nesta segunda fase em que Vargas torna ao poder desta vez pelo voto popular, ele derrota nas urnas o brigadeiro Eduardo Gomes, fluminense de Petrópolis. Vargas já havia derrotado, ainda que indiretamente, o mesmo oficial-general nas eleições de 1945 quando este foi derrotado pelo general Eurico Gaspar Dutra. Gomes, um dos sobreviventes dos 18 do Forte em 1922, quando foi gravemente ferido, constitui-se então num líder moral dos aviadores militares brasileiros, amado e reverenciado pela oficialidade da Força Aérea Brasileira. A maioria absoluta dos oficiais aviadores é oriundo da classe média, tendo tido oportunidade de receberem boa educação formal, e assim ingressarem na respeitada e cobiçada carreira militar. Assim sendo, é natural que se vejam representados em Eduardo Gomes, militar, aviador, católico fervoroso, portanto, um homem de bem e patriota.

Em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, dá como certa a vitória nas eleições presidenciais. Terminada a Guerra, a arenga mundial agora não é mais entre Aliados e o Nazi-fascismo, da primeira fase de Vargas, e sim entre Capitalistas e Socialistas — EUA vs. URSS. Se eleito, o Brigadeiro governaria milimetricamente alinhado aos norte-americanos, exercendo o poder com mãos de ferro, empenhando-se em pôr em ordem tudo o que considerava errado na condução do país até então, além de, principalmente, afastar de uma vez por todas o comunismo (não importando os meios), ideologia nefasta cuja influência se via notar também no âmbito das forças armadas brasileiras. Na hora agá, Vargas, lá de sua estância em São Borja, influencia no eleitor e, em vez do Brigadeiro, o eleito é o apagado candidato mato-grossense o general Eurico Gaspar Dutra. Não deu nesta, bem que poderá dar na próxima. Em 1950, porém, Gomes acaba derrotado diretamente por Getúlio. Como no futebol, vira freguês de caderno de Getúlio.

Vote no Brigadeiro / Que é bonito / E é solteiro”

Era uma propaganda eleitoral em favor do brigadeiro Eduardo Gomes destinada a convencer o eleitorado feminino, cujo voto fora instituído em 1934 por iniciativa de Getúlio Vargas. Ironia. Não interessava ao eleitorado, vê-se aí pela propaganda, o que o Brigadeiro faria no governo se eleito, mas sim que era bonito e solteiro. Mal a mulherada sabia a razão do celibato de Eduardo Gomes, que viveu e morreu solteiro. Cala-te boca!. Não tendo família, casa-se com a Força Aérea.

Lacerda, logo após ser socorrido, aparece aqui amparado por militares da Aeronáutica. Pé esquerdo engessado (imagem: Internet)

No mundo, o panorama é outro. Agora, Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas engalfinham-se em busca de consolidar e ampliar áreas de influência. É o primeiro e o segundo mundo disputando os territórios do terceiro mundo, os países não alinhados como os subdesenvolvidos territórios da América Latina. Em lugar de Henry Truman, o mesmo que mandou bombardear o Japão, assumirá a presidência estadunidense em janeiro de 1953 o republicano Dwight D. Eisenhower, que dará aos países sul-americanos tratamento mais pragmático.

Os oficiais aviadores do Rio de Janeiro são quase todos eduardistas e, naturalmente, antigetulistas e, mais tarde antijuscelinistas, também depois antijanguistas. Eleito, Getúlio já começa com o pé esquerdo ao chamar para seu ministro da Aeronáutica o coronel da Reserva Nero Moura, que, embora herói de guerra com 62 missões realizadas, não ascendeu ao generalato. O título de brigadeiro, pelo qual é tratado, deve-se ao que está em sua cédula de identidade e no contracheque. Discreto, Gomes nada menciona publicamente sobre a escolha de Vargas, mas — sabe-se lá — em seu íntimo é provável que tenha largamente reprovado a nomeação de um coronel para comandar brigadeiros. Ao menos alguns gestos e ações do Brigadeiro sinalizam nesse sentido. Sabe-se, no entanto, que Vargas, pretendendo conciliar as coisas e querendo ter um minuto de paz e conseguir pôr em prática sua administração, tenta mais de uma vez chamar a UDN para o governo. Gomes impõe a condição de que seja substituído Nero Moura. O general Newton Estillac Leal, ministro da Guerra, também não é bem visto pelos conservadores, acusado por oficiais pela UDN de acobertar oficiais e sargentos comunistas no Exército.

“A nomeação de Estillac Leal para o Ministério da Guerra teve o claro sentido de prestigiar a ala nacionalista do Exército. A escolha de Estillac foi a que causou maiores polêmicas nos círculos militares. A nomeação do coronel Nero Moura para a Aeronáutica também foi questionada devido às suas ligações com o presidente, do qual fora piloto particular.”2

“Nesse contexto, Vargas tentou novamente atrair a UDN para o governo. Um dos elementos consultados, o brigadeiro Eduardo Gomes, considerou inadiável a substituição do ministro da Aeronáutica, Nero Moura. […]”3

Não incomoda, na realidade, a Gomes nem a outros brigadeiros o fato de Nero Moura ter sido piloto de Vargas. Isso é apenas pretexto. Incomodam-se mesmo é por Moura ser mais moderno que todos eles, um pecado grave na caserna. Cientes estão também de que Nero Moura houvesse continuado a carreira seria no mínimo brigadeiro. Moura, porém, sentindo que as ações heroicas dos veteranos da Guerra causavam desconforto nos oficiais-aviadores que ficaram no Brasil, trata de, tão logo obtenha pela lei as condições para tal, pedir transferência para a Reserva Remunerada, o que lhe garante o posto e o salário de brigadeiro-do-ar. Quanto a Estillac Leal, o general é a favor da criação da Petrobrás. O nacionalismo, no caso, contraria os interesses norte-americanos, sendo encarado pela direita brasileira como coisa de comunista.

Mais uma.

Vargas nega a participação do Brasil na Guerra da Coreia, como exigia o governo dos Estados Unidos da América. No contexto da Guerra Fria, o conflito envolve os ianques contra russos e chineses, resultando no que hoje são Coreia (do sul) e Coreia do Norte. Com o Brasil não mandando tropas, soldados para morrerem numa guerra que não é nossa, os grandes irmãos do Norte passam a dificultar a liberação de recursos financeiros, inviabilizando a execução do Plano Lafer de reaparelhamento e desenvolvimento, como era de interesse de Vargas.

A partir de maio de 1954, o jornalista Carlos Lacerda passa a se fazer acompanhar por dez apaixonados oficiais aviadores, com prejuízo das respectivas convivências familiares. (imagem: Internet)

Outra.

Criticando seu antecessor, o general Dutra, por ter congelado o valor do salário-mínimo durante os cinco anos de seu governo, Vargas resolve conceder reajuste de trezentos cruzeiros para um mil e duzentos cruzeiros, contrariando os interesses da classe patronal brasileira. Como resumo da ópera, Vargas, que antes já era rejeitado por diversas razões, cria agora mais desafetos, tanto aqui no país como lá no hemisfério norte do continente americano. Internamente, o porta-voz das elites nacionais se chama Carlos Frederico Werneck de Lacerda, e o Ministério da Aeronáutica tem dois comandantes: um oficial, Nero Moura; outro de fato, o brigadeiro Eduardo Gomes.

O cerco a Vargas vai se fechando.

Em 1954, chega às mãos de Lacerda um documento dando conta de que Juan Domingo Perón, presidente argentino, pretende criar o Pacto ABC, que consiste na união de Argentina, Brasil e Chile, que juntos formariam um poderoso bloco de países sul-americanos a fim de anularem a influência do gigante Estados Unidos da América sobre eles. Perón, segundo o rascunho fornecido a Carlos Lacerda, almeja formar na América do Sul o que, mais tarde, viria a ser o Merco-sul. Ocorre que na época a Argentina é economicamente superior ao Brasil. As forças armadas consideram o país vizinho um potencial inimigo. Os jornais caem de pau em cima de Vargas e a oposição pede abertura de processo visando afastar o presidente.

“Para a oposição, aquela seria a prova cabal de que Getúlio cogitara submeter o Brasil ao domínio político e militar do peronismo, endossando uma ‘integração sul-americana num arquipélago de repúblicas sindicalistas contra os Estados Unidos’ — segundo a definição de Carlos Lacerda”4

“Nós estamos ameaçados de que um dia os países superiores e superindustrializados, que não dispõem de alimentos nem de matéria-prima, mas que têm extraordinário poder, usem esse poder para nos despojar dos elementos de que dispomos em abundância”, teria dito Perón em discurso. “Penso que o ano 2000 nos surpreenderá unidos ou dominados”, prosseguira, referindo-se à América Latina.5

Carlos Lacerda, o Corvo (imagem: Blog do Flávio Chaves, via Internet)

Cabra visionário esse Perón. De fato, conforme previu Juan Domingo Perón, no ano 2000 o Brasil se via governado pelo neoliberal Fernando Henrique Cardoso, e a Argentina estava sob o comando de Fernando de la Rúa, outro adepto da economia de livre mercado. De Fernando em Fernando, a América Latina vai se enterrando e sucumbindo sob pesado jugo do poderoso país nortista. A oposição a Vargas colocava, como se pode notar, peronismo, sindicalismo, nacionalismo e outros ismos, tudo no mesmo balaio, resumindo esses substantivos abstratos num só: comunismo. Na época, alinhar-se aos interesses norte-americanos não representava, na visão da oposição, um problema, já à Argentina, sim. Coisas do Brasil.

Continua…

Referências:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p.24;
  2. Paulo Brandi, 1983, p. 237;
  3. Paulo Brandi, 1983, p 254;
  4. Lira Neto, 2014, p. 278;
  5. Lira neto, 2014, p. 278.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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