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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 18jul2020.

NUMA partida de futebol, sabe-se que basta um dos jogadores do time jogar mal para levar toda a equipe à derrota indesejada. Esse jogador, digamos que subornado pela diretoria da equipe adversária, não precisa cometer uma penalidade máxima sequer, nem mesmo provocar sua própria expulsão do jogo. Basta que ele faça corpo mole, como, por exemplo, não dando combate a um atacante que chega com perigo à grande área, ou então correndo em direção à bola sem a intenção de chegar nela. Coisas assim facilitam a vitória do adversário, ao mesmo tempo que deixam o tal defensor em paz com sua torcida e de bem com os colegas de trabalho.

Oh homem distraído! Deixemos, porém, o futebol de lado e volvamos ao fio da meada. Não nos dispersemos do que vínhamos escrevendo, portanto.

Reveladora esta fotografia de Lacerda amparado por dois soldados da Aeronáutica, ambos afrodescendentes . (imagem: Internet)

Não é preciso ser visionário para perceber que o País Sem Nome (como costuma dizer o amigo José A. Moita) entrega aos países da América Latina com uma das mãos para pegar de volta com as duas. Só mesmo a paixão política e ideológica de gente como Carlos Lacerda, Eduardo Gomes, de chefões da mídia e dos próceres da UDN, é incapaz de enxergar. A cegueira é um mal de que também padecem alguns oficiais da FAB, que, sob o pretexto de ameaças a quem vem sofrendo Carlos Lacerda — reações naturais de quem pelo jornalista é sistematicamente atacado — lançam-se como voluntários para lhe garantir proteção individual. Depois de um entrevero com o filho de Oswaldo Aranha, a quem Lacerda fez violentas críticas, em maio de 1954 dez aviadores militares passam então a acompanhar diariamente o jornalista em seus compromissos noturnos, já que ele é constantemente solicitado a proferir palestras, conferências e dar entrevistas. A FAB, sob a liderança negativa do Brigadeiro, transformara-se numa seção armada da UDN, da mesma forma que Lacerda, não sem interesses, assumira o cargo de porta-voz da mais atuante agremiação partidária da extrema-direita brasileira. A paixão cega desses oficiais leva-os, inclusive, a negligenciar o convívio familiar, preterindo filhos e esposa em favor da segurança do jornalista e político inescrupuloso. Sob a leniência de Nero Moura, o ministro da Aeronáutica, e sob o forte comando de Eduardo Gomes, é — intencionalmente ou não — criado o caldo de cultura para a tragédia que estava por vir. Se Getúlio tinha por proteção sua guarda pessoal de Gregório, por que não Lacerda também contar com seus próprios anjos da guarda? São esses dez oficiais — tenente-coronel Alfredo Correia, majores-aviadores Gustavo Borges, Américo Fontenelle, Moacir del Tedesco, Rubens Florentino Vaz, Haroldo Coimbra Veloso, Paulo Victor da Silva, George Dieh, Francisco Lameirão e o tenente Antônio Carreira1 — que, assumindo os riscos da empreitada, rasgam as páginas dos regulamentos e das leis militares, embora no dia a dia da caserna exijam de seus subalternos com mais rigor o cumprimento dessa mesma legislação. Deixam esses meninos, portanto, de lado suas obrigações para com a Força, para as quais recebem seu soldo dos cofres públicos, para, em vez disso, rebaixando-se, exercerem o papel de seguranças de um jornalista em plena campanha que fazia para deputado federal, correndo risco da própria vida.

Surpreendente também é a análise que Tancredo Neves faz dos ministros militares de Getúlio. De Nero Moura, diz que, embora muito leal ao presidente, nem brigadeiro era (mas coronel reformado) e não soube lidar com a Aeronáutica, que tinha uma liderança forte como a de Eduardo Gomes e estava sublevada. “Quer dizer, durante o governo Vargas houve dois ministros da Aeronáutica, do começo ao fim, o Nero e o Brigadeiro.”2

Nero Moura, o “ingênuo” ministro da Aeronáutica de Vargas, em seu gabinete de despachos. Acompanha o ministro burocrata um major-aviador. Um eduardista a serviço — ou desserviço — de Vargas, na vã tentativa de servir a dois senhores. (Imagem: Internet)

Vargas, tendo governado no período totalitário sem oposição e críticas, encontra-se desta vez acuado. Tentando reverter esse quadro, apela para a força do povo. Em 1º de maio, anuncia um aumento do salário mínimo em 100%. A reação da oposição, da classe empresarial e da imprensa, como era de se esperar, é violenta. Alguém pede seu impedimento alegando “má gestão da coisa pública”.

Diante do elevado grau de sublevação em que decaiu a Força Aérea, um anônimo coronel-aviador decide advertir Luiz Vergara, seu amigo e ex-secretário de Vargas. Vergara corre ao Catete e consegue audiência com o presidente, pondo-lhe a par da conversa que tivera com o oficial aviador. “Fizeste bem em trazer isso ao meu conhecimento. Vejo confirmadas, com pormenores, informações que tenho recebido de outras fontes”. Ora, se Vargas já sabia de tudo o que vem ocorrendo na Aeronáutica, por que razão não tomou providências a fim de reverter o quadro desfavorável. A ideia que se tem é que o presidente há muito já tem entregue os pontos, jogado a toalha. Sabia de toda a conspiração que contra si é feita no Galeão e nada faz para solucionar o problema. E o ministro da Aeronáutica, por que também não fez nada? Vargas responde: “O ministro parece ausente de tudo, falhou”.3

Não só Nero Moura tem falhado, o próprio Vargas falha ao tê-lo trazido para seu ministério. É o treinador de futebol que, tendo escalado mal o time e tardiamente percebendo a incompetência de um dos seus zagueiros, vê que nada mais há a fazer. Tudo que começa errado dificilmente termina certo, como é o caso da FAB no segundo governo de Vargas. Ninguém pode servir a dois senhores, no caso, ou os oficiais obedecem às diretrizes de Nero Moura, cuja aura de herói de guerra parece ter ficado nos céus da Itália, ou seguem as orientações do Brigadeiro bonitão e solteiro. Entre esses moços nascidos na elite carioca, a escolha já está feita desde a década de 1940, ou melhor, desde a maternidade. Em vista disso, dois anos mais tarde, Juscelino terá todo o cuidado, vendo-se, durante seu governo, obrigado a substituir por duas vezes o ministro da Aeronáutica, que é também um cargo político e não só técnico, como entendia o “ingênuo” Nero Moura.

Eu não fazia política; cuidava dos assuntos do meu ministério e atendia aos civis na sua pretensões: aviões, transportes etc. Mantínhamos uma unidade especial para facilitar os seus deslocamentos pelo país.4

Mas não nos enganemos. Nero não é ovelha e sim um lobo bem disfarçado. É ele mesmo quem diz:

Meu gabinete estava repleto de oficiais eduardistas… Quando convidei o major Deoclécio de Siqueira para ser meu oficial-de-gabinete, ele me disse: “Ministro, não posso ser oficial-de-gabinete porque sou eduardista”. Eu esclareci: “Deoclécio, eu também sou eduardista. Gosto imensamente do Eduardo, tenho respeito por ele, …”5

Quando Vargas compreende seu erro na escolha ministerial para a Aeronáutica já considera demasiado tarde. O jogo está já nos minutos finais e agora é impossível para seu time ao menos conseguir o empate. Em vez de um ministro cascudo, como será Lott na gestão de Juscelino, escolheu um “ministro dos transportes aéreos”, um burocrata (no pior sentido da palavra) e — pior de tudo — eduardista, ou seja, um lobo em pele de cordeiro. Na metáfora futebolística, Nero é um jogador que, correndo atrás da bola para não chegar, favorece a vitória do adversário. Faz isso sem ser visto com um traidor pela torcida — a História; quando muito apenas ingênuo e fraco.

Com tudo em casa, Gomes sempre se mantém a par de tudo o que acontece no governo, nos mínimos det alhes. Seus informantes estão lá comissionados no Gabinete do Ministro, livres, leves e soltos. Livre para agir, o Brigadeiro deita e rola. Entretanto, sabe que a FAB sozinha não dispõe de forças para derrubar Getúlio. Um dos pedidos de afastamento de Vargas que corria na Câmara dos Deputados estaciona, porém, sobre a mesa do deputado udenista Afonso Arinos, um jurista experiente. O Brigadeiro, eterno pretendente à Presidência, tenta convencer o deputado da UDN a encaminhar o requerimento. Todavia, Arinos, do alto de sua elevada sabedoria jurídica, nega-se a dar curso ao documento alegando que “é uma aventura fadada ao fracasso”. O senhor não está entendendo’, insiste Eduardo Gomes, “Talvez o presidente ganhasse alguns dividendos políticos momentâneos. Mas, no final de contas, a derrota da oposição deixaria os quartéis livres para agir.”6

É preciso que os quartéis — ou seja, o Exército — aja. Enquanto isso não acontece, majores da Aeronáutica resolvem fazer a sua parte, o papel ridículo a que se propuseram. Hoje, 4 de agosto de 1954, em plena campanha eleitoral, a agenda de Lacerda prevê uma conferência no Colégio São José sobre os “problemas da atualidade”, na rua Barão de Mesquita, 164, Tijuca. Pela escala de serviço, o guarda-costas desta noite é o major Gustavo Borges. De última hora, porém, Borges recebe ordens para fazer um voo na manhã seguinte para Goiás. Diante desse compromisso funcional, pede por telefone a Rubens Vaz que o substitua nessa noite. Lacerda, por sua vez, embora sentindo-se grato e ao mesmo tempo vaidoso com tamanha consideração por parte daqueles valentes oficiais, numa nesga de lucidez preocupa-se com a segurança deles. “Vocês estão se expondo, vocês têm família. Eu estou arriscando, eu estou na luta”7

Até mesmo o lunático Lacerda é capaz de enxergar o perigo a que estão expostos os aviadores do Galeão, a ponto de aconselhá-los a não deixarem a família em segundo plano. Aliás, preocupação genuína ou um aviso do que viria? Outra pergunta que jamais será respondida. Vaz, desejando “boa missão” ao colega, prontamente diz a Borges que sim, que pode ir tranquilo, que deixasse com ele. Beija o filho, de três anos de idade, que está para fazer amanhã a cirurgia de garganta, e por isso esta noite pernoitará em companhia da mãe no Hospital Central da Aeronáutica, Rio Comprido; abraça e beija ternamente a esposa Lygia Vaz. “Fica tranquila, querida. Logo, logo estarei de volta”.

Continua…

Legendas:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p. 118;
  2. Claudio Lacerda, 1994, p. 174;
  3. Lira Neto, 2014, p. 288;
  4. Nero Moura, 1996, p. 238-239;
  5. Nero Moura, 1996, p. 247;
  6. Lira Neto, 2014, p. 284;
  7. Claudio Lacerda, 1994, p. 120.

Ls.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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