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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 19jul2020.

CONFERÊNCIA – Carlos Lacerda fará hoje, às 20h30m, no auditório do Externato São José (Rua Barão de Mesquita, 164) uma conferência sobre problemas da atualidade, promovida pelo Departamento Cultural da Associação dos Antigos Alunos do Externato São José.1

EM 1997, quando voltamos à Escola de Especialistas de Aeronáutica (Guaratinguetá – SP), para realizarmos um curso, o comandante dessa escola de ensino técnico da Aeronáutica havia determinado o limite de quarenta quilômetros por hora no trânsito da rua que faz a ligação entre a Escola e a Vila dos Sargentos. Quando não estava em seu gabinete de trabalho, um dos passa-tempos do brigadeiro era observar o trânsito nessa via que passa em frente à sua residência oficial. De vez em quando anotava uma placa. O condutor, geralmente um sargento ou suboficial, era chamado por um assessor do comandante para justificar-se, em geral já saindo da sala com dois dias de detenção, no mínimo. Um deles, desabafando junto ao oficial que o ouviu, largou essa: “A Escola tem o privilégio de ter o guarda de trânsito mais bem remunerado do mundo”. Isso não faria inveja a Lacerda, que dispunha de graça como guarda-costas os elementos mais qualificados do Brasil, que eram aqueles devotados dez aviadores de 1954.

O compromisso de Lacerda no Colégio São José, nessa noite de 4 de agosto de 1954, é em favor de sua candidatura a deputado federal nas eleições desse ano e também em prol de dois candidatos a vereador pela UDN: Raul Brunini e José Cândido Moreira de Souza.Vaz leva em seu automóvel o jornalista e o filho deste, Sérgio Lacerda, ao local do evento. Os problemas da atualidade — que logo se tornariam mais atualizados –, debatidos por Lacerda, somente se encerram à meia-noite. Alcino está lá à espreita, escondido sob o paletó cinza um baita revólver calibre 45 de uso militar e também pela guarda pessoal de Vargas. Estacionado próximo ao local está um táxi de Raimundo Sousa, o motorista contratado, justamente um taxista que costuma fazer ponto próximo ao Palácio do Catete. Movimento grande, muita gente saindo e Alcino olha para Climério, consultando-o: “Agora não dá”. Assim sendo, o jeito é seguirem o automóvel até o nº 180 da rua Toneleros, onde mora Lacerda.2

Alcino, que mora na Baixada Fluminense, presta também serviços de pistolagem a Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, violento político da UDN, um contraventor com larga influência na região. É o mesmo Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta e da “Lurdinha”, sua inseparável submetralhadora. Sobre ele vale a pena fazer um parêntesis para contar o seguinte episódio quando Calvalcanti era deputado federal:

[…] discursava na Câmara dos Deputados. No discurso, acusava o então presidente do Banco do Brasil, o baiano Clemente Mariani, de desvio de verbas. Antônio Carlos Magalhães, então deputado e baiano como Mariani, defendera o conterrâneo respondendo que “Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.” Tenório Cavalcanti, então, sacou o seu revólver e berrou: “Vai morrer agora mesmo!”. Alguns dos membros da Câmara Federal correram para tentar impedir o assassinato, enquanto outros fugiram do plenário. Antônio Carlos Magalhães, tremendo de medo, teve uma incontinência urinária. Mesmo assim, gritava: “Atira.” Tenório, por fim, resolveu não atirar. Rindo da situação em que ACM se encontrava, recolheu o revólver, dizendo que “só matava homem”.3

Voltando à cena do crime.

Sobre o momento dos crimes em si, circularam várias versões. Uma delas é a seguinte:

O táxi de Raimundo conduzindo Alcino e Climério chega ao endereço primeiro que o automóvel de Vaz trazendo Lacerda e seu filho Sérgio. Esperam uns dez minutos quando um carro para em frente ao prédio. Os três recém-chegados ficam conversando na calçada. Alcino sente é que a vez de agir. Atravessa a calçada e, aproximando-se, as três pessoas se assustam e percebem a sua presença. A mão de Alcino foi rápida e a arma brilhou na escuridão (segundo declarará o jornalista ao amanhecer) e descarregou o revólver em poucos segundos. O último tiro é dado contra o vigilante municipal Sálvio Romeiro, que, atraído pela barulheira, surge inesperadamente e leva um tiro no pé.4

Essa foi a versão (aqui resumida) que veio a prevalecer. A outra foi publicada no próprio jornal Tribuna da Imprensa, edição de 6 de agosto, pelo jornalista-proprietário, que mais tarde abandonaria esta versão:

“Estávamos os três na calçada (major Vaz, meu filho e eu) quando notei um homem pardo que se aproximava e, na distância de cinco metros, abriu o paletó e disparou seu revólver em cima de nós. Imediatamente, outros tiros foram disparados de outra direção, numa fuzilaria infernal”5

Mais outra versão do crime:

Ao ver um homem aproximar-se, Vaz o enfrenta e os dois travam luta corporal. Levando desvantagem e na tentativa de desvencilhar-se do oponente, Alcino atira, acertando o coração do major. Um outro tiro perfura as costas de Vaz, que cai agonizando. Enquanto isso, Lacerda corre pela rampa de acesso aos automóveis do prédio e alcança um revólver calibre 38, volta e dá alguns tiros (seis, segundo Armando Nogueira). Míope, não havia, até então, dado conta de duas situações: um corpo no chão ensanguentado e o próprio pé ferido.

De certo, em todas as versões, é a atuação do guarda municipal atingido na perna mas com tempo para anotar a placa do táxi e desferir alguns disparos no automóvel em fuga. Isso foi decisivo para se chegar aos pistoleiros e, por meio deles e sob tortura, chegarem a Gregório Fortunato. Também certeza é o corpo, um cadáver que a UDN e Lacerda já vinham buscando fazia algum tempo.

Sobrou para os mais fracos. Gregório Fortunato aqui aparece em seu julgamento em que seria condenado (imagem: Internet)

Esse episódio funesto, que levou ao fim da Era Vargas ainda nesse mesmo fatídico mês de agosto de 1954, produziu muitas manchetes e matérias de jornais, programas de rádio e até da nascente televisão brasileira, onde foram divulgadas versões e mais versões, cada uma com um detalhe diferente. A versão por Lacerda, publicada na edição de 6 de agosto da Tribuna da Imprensa, fartamente reproduzida pelos outros jornais, perdura somente até a Polícia da Aeronáutica, capitaneada pelo coronel-aviador Délio Jardim de Matos, capturar Alcino e Climério e, partir deles, chegar a Gregório Fortunato. Isso cumpria os fins: jogar luz no “mar de lamas” que corria sob o Palácio do Catete, buscando envolver Vargas e sua família. Por conta disso, a partir de então, todas as demais possibilidades são sumariamente abandonadas, razão pela qual Lacerda abandona a teoria da fuzilaria vindo de todos os lados e abraça de vez a tese de pistoleiro único — Alcino. Aliás, as fontes não deixam clara qual exatamente a participação de Climério, que provavelmente apenas fazia companhia ao pistoleiro. Prometemos estudar melhor.

Lacerda aparece nesta fotografia amparado por oficiais da Marinha do Brasil (imagem: O Globo, via Internet)

Vinte anos mais tarde, Alcino daria a sua versão. Foi-lhe mandado seguir Lacerda a fim de registrar a sua vida visando ser elaborado um farto dossiê, e partir do qual fazê-lo calar nos seus ataques a Vargas, à sua família e, por extensão, às ações policiais. Em troca, ganharia na polícia um emprego com salário fixo, além de uma carteira de policial. Sabe-se que um dos desafetos de Lacerda era o general Ângelo Mendes de Moraes, ex-prefeito do Distrito Federal, alvo da acusação de improbidade na construção do estádio de futebol Mário Filho, o Maracanã. Sobre o general pairava a suspeita de ter mandado aplicar uma surra no jornalista em 1948. No entanto, nada de conclusivo se dá com relação ao nome de Mendes de Moraes, bem como quanto a outros inimigos de Carlos Lacerda.

Demandariam muitas pesquisas, por isso deixemos de lado a longa lista de desafetos do jornalista Carlos Lacerda. Então, regressamos à cena do crime. De duas hipóteses, uma:

Primeira: Carlos Lacerda abraça a tese da fuzilaria infernal apenas visando causar impacto e assim provocar mais emoção no leitor, como nos filmes de aventura e livros de detetives policiais. Isso é bem típico dele, razão pela qual não se pode descartar. Se é fato, mais tarde, por conveniência política, não menciona mais a tal fuzilaria vindo de todos os lados; segunda: É verdade e havia mais de um pistoleiro, que se encontravam à espreita nas proximidades, e, além de Alcino, estariam um do outro lado da rua e outro na quase na esquina. Sendo foi a realidade dos fatos, naturalmente, as autoridades da Aeronáutica, uma vez chegando ao que se propunham, ou seja, aos subterrâneos do Catete, essa e qualquer outra versão são naturalmente descartadas.

Ninguém contesta que há um cadáver. Não um cadáver qualquer, mas de um militar da Aeronáutica, e não um militar comum — soldado, cabo, sargento… –, mas um oficial aviador, gente de berço. E mais: deixa viúva e filhos pequenos. Em contraponto, o assassino é um indivíduo desocupado, um mulato que vive de pequenas ocupações desonrosas, sendo um informante da polícia civil, além de ligado a um violento e notório contraventor, o Homem da Capa Preta. Pouca importância se dá a isso também: Tenório Cavalcanti é um poderoso membro da UDN.

Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta (imagem: Internet)

Além do cadáver de Vaz, que logo teria que ir à terra, Lacerda exibe durante semanas outro troféu: o pé esquerdo enfaixado e, logo depois, engessado. Com ele aparece em fotografias ao lado de almirantes, brigadeiros, generais, políticos e grandes empresários, com os jornais reproduzindo à larga quase diariamente. Uma imagem vale mais que mil palavras e ele sabia disso.

Outro detalhe que ninguém julgou importante: ao lhe ser solicitado o revólver para a perícia, o jornalista se nega a entregar a arma ao delegado.

Continua…

Legendas:

  1. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 210;
  2. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 213;
  3. Wikipédia – Tenório Cavalcanti;
  4. Carlos Heitor Cony, 1994, p. 215;
  5. Idem op. citada acima.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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