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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 20jul2020.

Concluída a operação com a morte do presidente da República e a posse de seu vice-presidente, a armada norte-americana embarcou os seus marinheiros e retirou-se da baía da Guanabara. Então os funcionários da carteira de câmbio das agências do Banco do Brasil ficaram estarrecidos com a quantidade de moças da sociedade do Rio de Janeiro que se apresentaram para trocar dólares. Elas também tinham feito uma boa safra. Isso já tinha acontecido antes em escala menor, e continuaria acontecendo em escala maior todas as vezes que um frota norte-americana entrava na baía da Guanabara.1

COMO se vê, o caso é recheado de detalhes sem importância. Pequenos fatos, porém, que, somados, poderiam ter levado a resultado diferente daquele a que se chegou oficialmente, modificando a História. Inicialmente, de todas as versões, chama-nos a atenção a primeira de autoria da própria “vítima sobrevivente”, como se intitulou Carlos Lacerda, versão, aliás, que foi confirmada pelo jovem Sérgio Lacerda, seu filho: uma fuzilaria infernal com tiros de todos os lados. Nenhuma atenção chamaria, porém, se ela houvesse sido sustentada até o fim, em vez de ter sido abandonada conforme surgiam indicativos que levariam à definição de Gregório Fortunato como o mandante do crime. Depois, o fato de Lacerda ter se recusado a entregar o revólver para o delegado Jorge Pastor periciar.

Gregório Fortunato, o lado mais fraco da corda (imagem: Internet)

Ora! Olhando os fatos em relação à postura da parte contrária: o governo de Vargas. Desde o começo, o ex-ditador sempre se dispõe a colaborar com as investigações. Primeiro, designa um coronel-aviador para acompanhar os trabalhos da polícia civil; depois, transfere o caso para a Aeronáutica, que passa agir sozinha com amplos poderes a ponto de o episódio ter sido batizado pela imprensa de República do Galeão; mais tarde, desativa sua guarda pessoal ao saber que um ou mais de seus membros estão envolvidos no crime; por último, abre as portas do Catete para que soldados da Polícia da Aeronáutica arrestem o armário de Gregório Fortunato, cujo conteúdo vem a relevar segredos da família do presidente . Em todas as ocasiões necessárias, Vargas e nem outro membro do governo impuseram quaisquer dificuldades às investigações. Todavia, a única dificuldade no caso é colocada pela chamada “vítima sobrevivente”: Carlos Lacerda. Esse é outro detalhe insignificante para o qual a História não dispensou qualquer relevância.

Quanto às motivações, não faltam razões nem inimigos que, fartos das difamações e provocações lacerdianas, detinham todas as razões para ter mandado dar um “susto” no polêmico jornalista, podendo com isso terem chegado até mesmo ao homicídio. No entanto, só Nero Moura não sabia, mas era já de conhecimento público que ele se fazia acompanhar regularmente por oficiais da Aeronáutica desde maio de 1954, que informalmente lhe davam segurança física. Esse é outro detalhe que deve ser considerado. A lista de potenciais mandantes, ensaiada por nós na narrativa postada em 20 de julho corrente, é longa. Nela estão incluídos Oswaldo Aranha, Lutero Vargas, Danton Coelho, Benjamim Vargas, João Goulart, além do industrial Euvaldo Lodi e do general Mendes de Moraes, por nós antes mencionados, e outros. Qualquer um deles, habituais frequentadores do Catete, poderia ter o hábito de comentar, na presença de Gregório, fortuitamente e com alguma regularidade, sugerindo uma “cossa” no jornalista. Inquirido, Gregório tenta jogar a bomba para o colo do general e do industrial, objetivando com isso embaralhar os fatos. Mas, não tendo provas materiais, fica a palavra de um afrodescendente semianalfabeto contra a de um conceituado general, que antes fora prefeito do Distrito Federal, resultando no arquivamento do processo por parte do Superior Tribunal Militar. O general, contudo, teria mais de uma vez declarado sua antipatia a Lacerda, uma vez que, de cinco atentados que o jornalista sofrera, ele atribuía três ao general. Quanto ao industrial, Lodi escuda-se na imunidade parlamentar, com a Câmara dos Deputados negando autorização para que o parlamentar seja julgado no processo criminal. Ambas as instituições, cada uma a seu modo, corporativas. Tarde demais, portanto, Gregório percebe que caíra numa armadilha.

Não só Gregório, mas o próprio Carlos Lacerda, aos poucos, vai percebendo que pode ter sido usado. Quem ganharia e quem perderia com morte do polêmico jornalista, inimigo número de Vargas? O governo Vargas certamente perderia, mas a direita política brasileira obteria lucros eleitorais porrudos ao capitalizar o episódio — calculavam. Todavia, ainda que tenha alguma vez cogitado essa possibilidade, Lacerda, já que estava de corpo e alma no negócio, haveria de seguir tenazmente com a toada até o final. Ao cabo, não tendo ele contribuído para a causa com o seu próprio cadáver, mas sim um major da Aeronáutica, a coisa fica incomparavelmente bem mais arrumada para a causa a que se vem propondo desde a década de 1940, porque aí os militares se sentem autorizados a agir. Os fins justificam os meios, e os meios — no caso, o cadáver de Vaz — vieram a produzir os fins colimados: o encerramento da Era Vargas. Ademais, a presença de um jornalista combativo, como ele, imensamente mais útil seria à causa que a de um major-aviador dos mais discretos e, dando mais impacto junto às massas, pai de quatro crianças. Na hora agá, o major escalado de guarda-costas-de-dia, Gustavo Borges, é deslocado para uma missão aérea fora-de-sede que ocorrerá na manhã do dia seguinte, precisando de repouso noturno. Se é ele — Borges –, um oficial combativo e voluntarioso, teria sacado a arma de fogo contra o agressor, ferindo-o ou matando-o em legítima defesa. Nesse caso, o episódio dificilmente viria a ser esclarecido, em nada beneficiando a oposição e em nada abalando o governo. Lacerda, portanto, Vaz morto, teria que aparecer ferido, além de ter arriscado também sua vida na “fuzilaria infernal com tiros de todos os lados’, de modo que o crime se caracterizasse como político e não comum, afinal o major estava à paisana e fora de serviço.

Além da alusão — quase casual — à questão racial, a fotografia revela a promiscuidade reinante entre a farda e a política brasileira, num claro desvio da missão constitucional das forças armadas. (imagem: Internet)

Voltando à questão do pé de Carlos Lacerda.

Chegou-se a ventilar que Lacerda não teve o pé ferido à bala coisíssima nenhuma. Mas aí seria demais duvidar da honra dos médicos que o atenderam no hospital, e mais tarde dos peritos, que em tribunal juraram sobre a Bíblia. Mas alguns pequenos detalhes (detalhes, detalhes…), aos quais a historiografia oficial concede importância zero, teimam em surgir no curso de nossas pesquisas.

Lutero Vargas. Lutero, bem sabemos, é parte interessada. Portanto, seu testemunho é suspeito. Lutero Vargas, deputado, filho mais velho de Getúlio e desafeto de Lacerda, é também médico. Serviu como tenente-médico do Primeiro Grupo de Aviação de Caça na Itália durante a Segunda Guerra. Com a autoridade de médico ortopedista, Lutero diz que “não se engessa pé ferido à bala”, ao menos naquela época. Ademais, um ferimento à bala calibre 45 no pé, cujos ossos são minúsculos, teria produzido um rombo considerável, praticamente uma amputação.

[…] Isso o Lutero, que é ortopedista, dizia: “Não compreendo que engessem um ferimento de bala. Mas são coisas que você não pode garantir que se tenham passado dessa ou daquela maneira”.2

Lutero Sarmanho Vargas (imagem: Geni.com)

No tendencioso livro de Claudio Lacerda, de teor claramente antivarguista, a declaração de Lutero é conclusiva. Segundo o médico George Sumner Filho, de plantão no Miguel Couto naquela noite, foi colocada no pé ferido de Lacerda uma tala provisória para ser usada nas primeiras 24 horas. Depois, porém, retirada a tala e se engessa o pé esquerdo jornalista.

Essa história está ficando esquisita.

Vejam a situação: um major acompanha o jornalista para lhe dar segurança, mas, para todos os efeitos de noticiários de jornais e de rádio, está na condição de amigo. Lacerda está bem de amigos, todos eles oficiais da Aeronáutica que não hesitam em largar suas famílias em casa, dispondo-se a acompanhá-lo diariamente, em rodízio. Sim. Nessa noite, o amigo de plantão, desarmado, enfrenta um homem armado que se aproxima em atitude suspeita. Em luta corporal, acaba levando um tiro no coração. Lacerda, o alvo, sai ileso, nenhum arranhão. Morre não ele, mas sim o amigo que sai em sua defesa. Esse amigo é um major da FAB, jovem ainda, que deixa viúva e quatro crianças pequenas. Com que cara Lacerda vai se apresentar ao público, aos colegas e à família do amigo, que, na verdade, estava fazendo as vezes de guarda-costas de um político em plena campanha eleitoral? Seria, no mínimo, acusado de covarde, ao correr e deixar o major à própria sorte.

Na volta do hospital, Armando Falcão traz Lacerda num táxi. O jornalista desabafa numa crise de consciência:

“Acho que vou enlouquecer! Foi uma enorme desgraça o que acaba de acontecer. Penso que fui eu quem matou o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava na minha frente. Que horror! Que tragédia, meu Deus!”3

Mil coisas passam na cabeça do jornalista.

Recapitulando o que pontuamos no primeiro capítulo destas narrativas, a geopolítica global agora é a divisão do planeta em dois blocos antagônicos: capitalistas e comunistas. Os Estados Unidos da América do Norte agora estão sob a gestão de Dwight D. Eisenhower, que para a América Latina agora tem outra política. A CIA4 foi criada em 1947, ainda na gestão de Henry S. Truman, exatamente para isso: interferir nos governos não alinhados aos interesses estadunidenses, podendo usar esses fins no plano externo seu poderio bélico e econômico, e, internamente nesses países, fortalecendo as oposições que, desde que o mundo é mundo, almejam assumir o poder, ainda que o preço seja o servilismo e a entrega das riquezas nacionais.

Vargas toma muitas decisões contrárias aos interesses ianques: cria a Petrobras, dar os primeiros passos para a nascente Eletrobras, recusa-se a mandar tropas para a Guerra da Coreia, além de ter praticado tantas ações políticas e sociais internas que, bem trabalhadas pelas forças de uma feroz oposição, vêm ao curso de poucos anos a desestabilizá-lo em definitivo, não sem o trabalho diário da imprensa conservadora.

A CIA, que depois igualmente viria a derrubar governos de vários outros países latino-americanos, debuta em dois deles: Guatemala e Brasil. Na Guatemala, derruba o governo de Jacobo Arbenz Guzmán, cujo erro fatal foi tentar fazer a reforma agrária, entrando em conflito com a United Fruit Company, que monopolizava terras cultiváveis guatemaltecas explorando mão-de-obras baratas. No Brasil de 1954, encontra-se em pleno curso violenta campanha com o fim de apear Vargas do poder, cujas ações governamentais de cunho nacionalista conflitam com os interesses predatórios do País Sem Nome. Noutras palavras, Vargas já serviu aos interesses norte-americanos. Mas no Brasil da década de 1950 já não faz mais o jogo dos ianques, tornando indesejável sua presença no governo brasileiro. Pode e deve, portanto, ser descartado.

Continua…

Legendas:

  1. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 315;
  2. Claudio Lacerda, 1994, p. 133;
  3. Lira Neto, 2014, p. 315;
  4. CIA, sigla em inglês para Agência de Inteligência Americana, é um organismo civil do governo estadunidense responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para o presidente norte-americano e para o seu gabinete. A CIA também se engaja em atividades secretas, coleta de dados e contra-inteligência, focando em assuntos externos.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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