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O TIRO no pé de Carlos Lacerda!

… Continuação da narrativa postada em 21jul2020.

Menina, quer namorar comigo? Sou soldado da Base Aérea, acostumado a matar. Anedota contada pelo sr. Manoel Valentim, falecido pai deste blogueiro, exímio contador de causos, reproduzindo a fala de um folclórico sujeito bastante conhecido na localidade, um pávulo contador de vantagens.

NOVAMENTE sobre o pé esquerdo de Lacerda. Primeiro, a questão da arma não periciada; depois, o questionamento (estranhamento) médico sobre o gesso no pé ferido, que, segundo Lutero, médico ortopedista, não seria o tratamento médico indicado; e ainda uma crise de consciência; sem contarmos as diferentes versões divulgadas pelo próprio jornalista. Que mais falta?

O insuspeito livro de Claudio Lacerda Paiva nos trás o seguinte:

O que o médico [George Sumner Filho] estranha é que “dias depois, ainda no governo de Getúlio, isto é, antes do dia 24 de agosto, não sei precisar quando, misteriosamente desapareceu toda a documentação do caso: boletim de socorro, registro no livro de ocorrência e as radiografias (duas), uma anterior-posterior e outra lateral.”1

Ora essa! Já vimos que Vargas em nada obstaculizou o curso das investigações, o que bem poderia ter feito em razão de seu elevado cargo. O pé esquerdo enfaixado (engessado) de Lacerda já vem fartamente exibido em todos os principais jornais e revistas brasileiros, de forma que isso — o pé ferido à bala — já entrou para a História como verdade absoluta e incontestável. A quem interessaria, portanto, sumir com a documentação médica correspondente, comprobatória do atentado? Isso em nada teria ajudado a família Vargas, já que o crime, um homicídio, bastante explorado pela imprensa e objeto de violento inquérito e impactantes ações por parte da Aeronáutica, em nada pode ser escondido ou atenuado. Inês já é morta. Está massivamente incutido, internalizado na mente e no coração da maioria dos brasileiros dessa época, leitores de jornais e ouvintes de rádio, as impressionantes imagens do caixão de Vaz abraçado por sua jovem viúva, que continuará a vida cuidando de quatro crianças órfãs; não bastando, as fotos de Carlos Lacerda, numa ele amparado por dois soldados afrodescendentes da Polícia da Aeronáutica e noutras ao lado de oficiais de alta patente das forças armadas e de figurões da política nacional. Quartéis e parlamento a darem sustentação e prestarem solidariedade ao grande brasileiro Carlos Lacerda, um combativo jornalista incansável em denunciar a bandalheira. De que adiantaria agora à família de Vargas, ao agonizante governo de Vargas ou ao próprio Getúlio fazer desaparecer prontuários, registros e chapas de raio xis do pé esquerdo de Lacerda, que, segundo consta, teria sido ferido por Alcino, pistoleiro de Tenório Cavalcanti? O que é um peido pra quem já está cagado?

Carlos Lacerda, o causador de úlceras, teve a documentação sobre seu atendimento médico desaparecida. A quem interessaria? (imagem: Internet)

Ao contrário, não tendo declarado a verdade — quem sabe, meias verdades –, interessaria muito ao próprio Carlos Lacerda, aos oficiais da Aeronáutica da República do Galeão, à UDN, enfim, à classe dominante brasileira, o extravio dessa documentação que, afinal, poderia dar outros rumos à investigação ou, principalmente, à completa desmoralização de Lacerda junto à opinião pública, e — pior — em relação à família de Rubens Florentino Vaz e de seus amigos da Aeronáutica, incluindo o impoluto brigadeiro Eduardo Gomes. Documentos inconvenientes, que deporiam contra a versão largamente difundida: Carlos Lacerda sofreu um atentado, um crime político, e Vaz, um amigo que lhe acompanhava, (na verdade, por dever do ofício a que se obrigou, ele e mais nove colegas de quartel) toma a frente do jornalista, luta bravamente contra o pistoleiro e nisso acaba levando dois tiros. Carlos Lacerda corre para pegar em seu automóvel o revólver calibre 38 cano curto e dá vários tiros, e só aí percebe que levou um tiro (de uma arma calibre 45, um baita revólver que “reluzia na escuridão”) no pé, enquanto o amigo Vaz está caído no chão já agonizante. Essa versão poderia ter caído por terra ou até mesmo confirmada não fosse por um detalhe: a documentação médica sobre o atendimento ao jornalista desapareceu como que por encanto. Quem pôs o cágado trepado na árvore? E quem tirou?

Gregório Fortunato, também conhecido como “Anjo Negro”, foi morto em 1962 no Dia do Aviador (imagem: Copacabana em Foco, via Internet)

A fase do inquérito está a todo o vapor, com os jornais repercutindo diariamente e as rádios a cada hora. Coronel Adil, com largos poderes e seus auxiliares, oficiais aviadores colegas de Vaz, agora reforçados por outros voluntários como o explosivo Burnier, todos eles sedentos de vingança, caem em campo para apanhar o assassino e o mandante. De início, correm em várias direções até que o taxista Raimundo reconhece Climério, ex-membro da guarda pessoal e compadre de Gregório. Bingo! Já preso Alcino, falta localizar Climério, ex-integrante da guarda pessoal de Vargas. Ele é o elo que levará a FAB a Gregório. Comandada pelo coronel-aviador Délio Jardim de Matos a mais numerosa força policial da FAB, até então, é destacada para a missão.

Duzentos e cinquenta militares da FAB, entre oficiais e praças, armados de metralhadoras, granadas e fuzis, utilizaram 10 aviões, 2 helicópteros, 26 automóveis, cães de caça para encurralar Climério. […] O clima de terror que desceu sobre a cidade foi tão grande que algumas pessoas, que não tinham nada a ver com a cena, pelo simples fato de avistar um soldado da Aeronáutica se urinavam — registra, com alguma tinta de exagero, o jornalista gaúcho Rubens Vidal Araujo.2

É daí que surge o folclórico rapaz da anedota do sr. Manoel, que, nessa época, tirou a ideia — largamente difundida entre as classes populares — de que soldados da Base Aérea (FAB) são valentes e matadores, tentando com a conversa impressionar a moça.

Mais tarde, preso no Galeão, Gregório resistiria ao máximo as torturas que lhe foram aplicadas. Lá estavam entre os inquisidores o terrível Cecil Macedo Borer, o mesmo que levou à completa alienação mental o comunista alemão  Arthur Ernst Ewert, um dos artífices do movimento de 1935. Quando as evidências já não deixam dúvida e sob a ameaça de ser jogado de um avião sobre a baía de Guanabara, confessa enfim ter sido o mandante do crime, declarando, porém, ao coronel Adil que fora induzido pelo general Mendes de Moraes e pelo industrial e deputado Euvaldo Lodi. “Sujeito asqueroso esse Lacerda, bem que merecia uma surra!”. Isso não interessa, porém, aos inquisidores. A única porta agora a ser forçada é a que daria acesso direto à família Vargas.

Esse assunto rende.

Uma das versões que circularam na época especula que o atentado teria sido levado a cabo por membros da guarda palaciana onde estariam infiltrados mercenários. De concreto, sabe-se que Alcino era jagunço de Tenório Cavalcanti, da UDN. Mito ou verdade, um dos frequentadores do Catete era Armando da Fonseca, político que transitou pelo PSD, pelo PTB e, por último, depois da morte de Vargas, pela UDN de Carlos Lacerda, de quem mais tarde seria assessor quando o político e jornalista tornou-se governador da Guanabara, uma de suas ambições.

E vocês, amigos leitores, que pensam disso tudo?

Como diz o maranhense Zeca Baleiro, a mentira é uma princesa cuja beleza não gasta e a verdade vive presa no espelho da madrasta. Sendo assim, diversas são as hipóteses, delas uma só verdadeira. Vamos lá:

  1. Alcino, a mando de Gregório, aproxima-se de Lacerda com a intenção de eliminá-lo, não conseguindo porque Vaz o impede ao lutar contra ele. Diante disso, o pistoleiro puxa o Smith & Wesson 45 e lhe dá dois tiros fatais. Lacerda, enquanto isso, corre ao seu automóvel e pega o 38 e, sem óculos, dá vários tiros a esmo;
  2. Também a mando de Gregório, Alcino, em face da iluminação fraca, aproxima-se para anotar a placa do carro a fim de, depois, produzir um relatório, mas é notado por Vaz, que, desarmado, trava luta corporal contra o elemento suspeito. Idêntico desfecho da teoria anterior;
  3. O mesmo modus-operandi acima, mas a mando de Tenório Cavalcanti ou alguém a ele ligado. Alcino já tem feito igual noutras noites, mas é agora que a oportunidade se apresenta. Um oficial desarmado não poderá liquidar o pistoleiro e isso — ele vivo — é fundamental para que as investigações cheguem ao Catete, provocando a crise;
  4. Enquanto estão lutando, um terceiro (ou mais) pistoleiro age, aproveitando o momento e atinge o major, matando-o. Fere também Lacerda, caracterizando o atentado político ao mesmo tempo que crime militar. No caso, Lacerda, no calor do combate, não percebe de imediato o ferimento de arma de grosso calibre;
  5. Alcino, que mais disse ter confessado sob tortura, nega que tenha atirado no oponente. Mas que escutou o barulho de dois tiros enquanto tentava desvencilhar-se do major, para em seguida fugir correndo até a esquina onde o táxi de Raimundo, motor funcionando, estava à sua espera;
  6. Ainda. Lacerda, ao ver o amigo agonizante no chão, num raciocínio frio e rápido, dá um tiro no próprio pé.
  7. Diante disso tudo, o major agonizante, levado num carro com a cabeça repousando no colo de Lacerda até o hospital Miguel Couto, onde já chega morto, o jornalista vai em caminho raciocinando sobre o que fazer. Chegando lá, consegue convencer os médicos e equipe sobre a solução: enfaixar o pé e manter a farsa da “vítima sobrevivente”.
  8. Outra: Alcino, pistoleiro frio, sob ordem de Tenório Cavalcanti, tem a intenção de matar o major, dando-lhe dois tiros fatais, e ainda, para completar o serviço, apenas fere Lacerda, poupando sua vida. No inquérito, sob tortura, confessará o que indicarem seus interrogadores.

No caso da primeira teoria, é estranho que Alcino, sendo pistoleiro profissional, tenha se aproximado da vítima a ponto de ser por ela interpelado. Bastava à distância segura apontar a arma e atirar. Ou, como os três se demorassem conversando em frente ao prédio, aguardassem outra oportunidade. Na segunda hipótese, uma ação temerária e pouco inteligente da parte de Alcino, assim como temerária da parte de Vaz, que acabaria morto. Terceira: a oportunidade é essa. Aí está, entre os dez guarda-costas, um de pouca capacidade de ação, um oficial discreto e tranquilo, exemplar chefe de família e pai de quatro crianças, que, de tão discreto, se queda à meia-noite a conversar na rua com o amigo jornalista, esquecido do perigo que corre e da missão a que se voluntariou; Vaz entra de última hora em lugar de um outro a quem a Seção de Operações escalou, só agora, para um voo no dia seguinte. Quarta: fantástica teoria da conspiração, porém verossímil. A intenção é fazer um cadáver e a presença do major como guarda-costas (fato que já nos bastidores é amplamente conhecido) vem a convir, pois aí provoca a ação direta dos militares; de lambuja, acertam Lacerda, porém poupando-lhe a vida. Quinta teoria: igualmente às teorias anteriores, quanto à tortura creio que ele dificilmente confessaria o crime a não ser sob os métodos de Cecil Borer. Sexto: nesse caso, as chapas de raio xis seriam um óbice. Sétima hipótese: consideremos o tempo decorrido até o hospital, talvez vinte minutos, perdendo sangue e ainda com o peso da cabeça de Vaz sobre suas pernas. Difícil avaliar. Oitava e última: também teoria da conspiração, porém não descartável.

Ainda sobre o ferimento no pé, há uma outra hipótese. Gente ligada à família Vargas, tentando provar a farsa, apreende os documentos e acabam dando com os burros n’água. Nesse caso, estranha-se que nenhum outro autor tenha explorado o assunto, tampouco a fulminante equipe do Galeão tenha botado a boca no trombone.

Enfim, a verdade é tímida e recatada; já a mentira é expansiva e vaidosa. A verdade foi para o túmulo junto ao cadáver de Carlos Lacerda, de Eduardo Gomes, Gregório, Alcino, Mendes de Moraes, Getúlio Vargas, Benjamim Vargas, João Adil de Oliveira, enfim, de todos eles. De verdade, um cadáver e quatro homens condenados, o resto são mentiras e meias verdades que, maquiadas, teimam em circular até hoje pelas ruas.

Segundo o jornalista Rubens Vidal Araujo, uma de nossas fontes, Vargas cometeu em seu segundo governo os seguintes erros:

Aliou-se, sem necessidade a um oportunista, Ademar de Barros, já o conhecendo bem, tornando sua carga mais pesada em vez de aliviá-la; afastou-se de Perón, um aliado poderoso; elegeu um governador do Rio Grande, um estado-chave, um homem displicente, que não o socorreu quando devia; e teimou em governar com os inimigos.3

Nesse último erro, nós incluímos a nomeação de seu ministro da Aeronáutica, aquele que de nada sabia e que, exercendo um cargo político, não fazia política. Já seus colegas de ministérios militares faziam, e o verdadeiro comandante da FAB, o brigadeiro Eduardo Gomes, também fazia política dia e noite, nos sete dias da semana, 365 dias por ano. Mesmo erro não cometeria Juscelino, conseguindo encerrar seu mandato de cinco anos.

Gregório foi condenado a 25 anos de reclusão. Doze deles pelo atentado a Lacerda, causador de úlceras nervosas, mais até que os onze anos de cadeia pela morte de Vaz. Na prisão, oito anos decorridos, Gregório Fortunato prometia escrever um livro contando toda a sua verdade. Esse foi mais um erro, o derradeiro do tenente Gregório. Dias antes de ser libertado, foi morto por um detento. Foi precisamente no dia 23 de outubro de 1962, Dia do Aviador.

*** FIM ***

Legendas:

  1. Claudio Lacerda, 1994, p. 132;
  2. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 305;
  3. Rubens Vidal Araujo, 1985, p. 314.

Livros consultados:

  1. ARAUJO, Rubens Vidal. Os Vargas. Rio de Janeiro: Globo, 1985.
  2. BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985.
  3. LACERDA, Claudio. Uma crise de agosto: o atentado da rua Toneleros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  4. CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo: Planeta do Brasil, 1994.
  5. MOURA, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
  6. ALMEIDA, Hamilton. Sob os olhos de Perón: o Brasil de Vargas e as relações com a Argentina. Rio de Janeiro: Record, 2005.
  7. LIRA, Neto. Getúlio: 1945 – 1954 Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Outras fontes consultadas:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Central_Intelligence_Agency
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ten%C3%B3rio_Cavalcanti
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_Fortunato
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Franklin_D._Roosevelt
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_Fontes
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Filinto_M%C3%BCller
  8. https://pt.wikipedia.org/wiki/Get%C3%BAlio_Vargas
  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  10. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Gaspar_Dutra
  11. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nero_Moura
  12. https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Sider%C3%BArgica_Nacional
  13. https://flaviochaves.com.br/2018/08/12/assim-se-mata-um-presidente-no-exemplo-marcante-de-getulio-vargas/
  14. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Fernandes_Vergara
  15. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1504200113.htm
  16. https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%82ngelo_Mendes_de_Moraes
  17. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacobo_Arbenz_Guzm%C3%A1n
  18. https://www.geni.com/people/Lutero-Vargas/6000000014566629035

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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