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CANUDOS e o outro olhar de José Augusto Moita!

FOI por meio do Facebook que mantive contato pela primeira vez com José Augusto Moita. Seu sobrenome incomum chamou-me a atenção por ter eu, em 1979, travado conhecimento de um sargento em Anápolis, provavelmente parente. Havia em Belém outro sargento Moita. Descubro, enfim, que a família Moita é numerosa. A postagem que focou para a sua figura era uma em que aparecia ao lado do Silva Filho, outro colega de farda de Anápolis conhecido por Marinheiro, que, segundo dizem, foi um exímio centroavante, tendo até jogado pelo Calouros do Ar Futebol Clube, de Fortaleza. Sei que até o Marinheiro pegou uma punição disciplinar por ter jogado em time profissional sem autorização. Mas isso é outro assunto.

Tornemos ao Moita.

“Então, você foi um dos poucos militares que não perdeu o juízo?”, foi o primeiro contato por meio do sistema de mensagens do Facebook. Daí em diante, tornou-se para mim — como também para centenas de amigos — uma rotina diária travar contato virtual com essa grande figura, um extraordinário e sincero amigo, por meio de suas mensagens super bem-humoradas no Facebook.

Homem de palavra, prometeu nos visitar aqui no Sudoeste Paranaense, Dois Vizinhos, cidade distante à beça da Capital do Estado e de outros centros. De posse do nosso endereço, exatamente no dia 19 de junho de 2019, lá pelas sete da noite, quando eu e a patroa estávamos sorvendo o sagrado mate amargo da noitinha, que ele, dona Ivone e Dímitri, um de seus filhos, chegam à nossa humilde residência, numa viagem de mais de 10 mil quilômetros em que buscavam conhecer vários rincões brasileiros e pavimentar amizades, que, por sinal, são muitas e sinceras.

Na manhã de 18 de julho de 2020, recebemos o livro de J. A. Moita. Ele ainda, conforme seu divertido senso de humor, ainda me batizou de “Antonio Valentim Mendes Maciel”, fazendo-me, de certa forma, parente do Conselheiro

Dentre nossos assuntos em comum, um dos preferidos de Moita é sobre a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, que a História trouxe à baila com o nome de Antonio Conselheiro. Aliás, não só essa saga desse grande homem como a de outros severamente combatidos por um sistema perverso estão entre os temas de interesse desse inteligentíssimo amigo, que, aliás, dedica-se também à bela arte da música.

Uma das caricaturas de Antônio Conselheiro disponíveis na Internet (imagem: Google)

A visitação dessa querida família constituiu-se numa bela surpresa para nós, ao mesmo tempo que não. Logo, estávamos à mesa em debates políticos, assunto de nosso largo interesse por termos correndo nas veias o sangue do inconformismo. E era uma prosa de velhos amigos. Na verdade, nunca antes havíamos nos visto pessoalmente, para a estupefação de minha esposa Bernardete Kleinibig. “Meu Deus, como é possível?”. Da mesma forma, por saber de seu interesse pela vida e pela verdade acerca do Conselheiro, não nos surpreendeu totalmente a edição do livro Canudos ou Belo Monte: um outro olhar, que ora nos dedicamos a ler atenta e interessadamente.

Devo dizer, a bem da verdade, que, pelo fato de este humilde escriba estar envolvido com outros afazeres (acadêmicos, domésticos e as escritas do Blogue), foi exatamente a Bernardete que, interessada, logo se ocupou, com larga dose de curiosidade, de conhecer sobre a vida e triste fim de Antônio Conselheiro, que a pena de José Augusto Moita nos dá agora um outro olhar. O que ele teria escrito, afinal? À medida que a Alemoa vai se dedicando à leitura, isto geralmente à boca da noite e depois do mate, minha companheira faz comentários e perguntas. Eu lhe respondia, à minha maneira meio tosca e superficial, sobre esse assunto a que Moita dedicou-se de forma a resgatar a verdade sobre Conselheiro e seus seguidores, cruelmente massacrados pelo Exército Brasileiro. “Conselheiro e sua gente queriam apenas a paz. Nada tinham de fanáticos e violentos, como se propagou à larga”, era eu que dizia com outras palavras.

E agora este escriba está a concluir a leitura dessa vibrante narração do escriba cearense. Dá-nos a impressão de estar lá entre os soldados ou no meio dos sertanejos conselheiristas, entre cartuchos lançados ao solo e zunidos infernais de projéteis. Esse dom, o de conduzir o leitor para o cenário, somente poucos o possuem.

Todo livro reflete o tempo em que é escrito e o espaço social vivido pelo autor, inserido que está numa determinada sociedade. Há que se considerar também os interesses do escritor, nem sempre honestos. Com Conselheiro não seria diferente. De seu principal divulgador, Euclides da Cunha, percebe-se que o escritor e jornalista fluminense veio a ser conhecido mais por sua verve literária, menos pelos dotes de biógrafo. Poucos sabem — inclusive nós não desconhecíamos — a existência de muitos outros autores se lançaram à missão de escrever sobre esse injustiçado homem. Moita foi desmascarando um a um deles.

Acusar alguém ou um grupo de monarquista era para aquela sociedade do final do século XIX o mesmo que, hoje, tachar grupos de insatisfeitos de esquerdistas e comunistas, ou mesmo subversivos ou coisa assim, sem que ao menos se faça alguma reflexão. Era o caso dos republicanos recém-instalados no poder: estavam ali sob o espectro de Pedro II e de seus seguidores. No caso, Conselheiro, atraindo em redor de si toda a sorte de seguidores desesperançados da vida, acaba por atrair a ira dos poderosos de então, como hoje são os integrantes de movimentos sociais como os Sem Teto ou Sem Terra, ou denominações equivalentes.

Líderes inatos, como veio a ser Conselheiro, tornam-se, sem que o desejem, uma grande ameaça a quem detém o poder, atraindo para si o ódio tanto de senhores de terra — a elite agrária que mandava e ainda manda no país — como da Igreja de então, cujos ministros se sentiam ameaçados por sua liderança inconteste e natural. Foi o caso, por exemplo (e falando em Igreja) de um galileu que esteve no planeta Terra há vinte séculos. Dos coronéis e dos padres e bispos até o poder político formal, de início estadual e depois federal, é um pulo. Aos fazendeiros não interessavam comunidades socialistas como Belo Monte em que, à semelhança dos primeiros agrupamentos cristãos, seus habitantes tinham tudo (por pouco que fosse) em comum. Ao clero também não era interessante a perda de milhares de ovelhas e ainda, para piorar, a existência de um outro pastor, sendo este, embora não pretendesse, mais próximo em sentimentos e missão do Grande Mestre Nazareno do que eles próprios. E se viesse a prosperar Belo Monte a ponto de inspirar o surgimento de outros Canudos? E, em razão disso, sobreviesse a carência dos peões que, a troco de uma cuia de farinha para si e seus filhos, se sujeitavam às ordens da elite agrária? Era, portanto, imperativo combater exemplarmente esses subversivos que teimavam em mudar a sociedade, único modelo então existente, antes que fosse tarde.

Aí está o Exército disposto a cumprir ordens — qualquer que sejam elas — em nome da República e da Pátria. Combater uma legião de famintos não devia ser assim um bicho-de-sete-cabeças. Quanto à opinião pública, aí estão os jornais prontos a apoiar coronéis, assim como os padres estavam também reunidos em torno da proposta eugenista, ainda que isso viesse a contrariar os preceitos evangélicos. Portanto, a população — como é até hoje, infelizmente — está sempre pronta a receber como verdade absoluta tudo o que o papel aceitar, sem o menor espírito crítico. O governo central e o Exército, porém, não contam com a crueza do sertão, lugar inóspito que só o próprio sertanejo — esse forte, como propagou o fluminense Euclides da Cunha — conhece. Também não considerou a tenacidade dos homens de Conselheiro que lutavam por uma vida melhor, portanto, pela esperança de cada um deles, de suas famílias e, inclusive, pela própria liderança de Antonio Vicente, a quem veneravam e respeitavam certamente. É assim que vem uma, duas, três expedições, todas derrotadas.

Derrotados, diante da opinião pública é necessário pintar o inimigo como jagunços fortemente armados e coisas do tipo. Ninguém, nem os generais, nem a imprensa, nem o coronelato e a Igreja, admitirá jamais que o Exército foi derrotado também por sua própria incompetência e por tantos outros aspectos e detalhes que bem Moita trouxe à luz da verdade. Era preciso construir o mito do Conselheiro, um homem violento, um tirano, que conduzia seus homens — incluindo mulheres e crianças — a peso de forte treinamento militar e de intrincadas estratégias de guerra. A mentira falada mil vezes passa a ser tomada como verdade e isso o poder sabe bem fazer. Contribuíram para isso muitos autores, que Moita exaustivamente pesquisou, ao repetirem mentiras sabendo que o povo as tomaria por verdades que, infelizmente, chegaram aos dias de hoje.

É aí que entra o papel dos grandes brasileiros de hoje. Revisitar a história, desmistificando-a. Fazer releituras das “verdades absolutas” que desde sempre, principalmente durante um período longo de 21 janeiros, insistem em empurrar goela abaixo da população brasileira. A nossa geração tem essa obrigação: não descansar enquanto não ver a verdade dos fatos restabelecida e — mais — insistir na propagação desses “outros olhares”, bem diversos das ideias romantizadas que os falsos patriotas teimam em divulgar: o Exército é patriota e quem insiste em indicar outro modo de vida, mais justo e fraterno, esse é violentamente perseguido, desmentido, preso e eliminado. Não só Conselheiro e seus principais homens deviam morrer, mas todos — mulheres, velhos, crianças, sãos e doentes… — a fim de que não sobrasse uma testemunha sequer e com isso a mentira contada não corresse riscos de ser desmascarada.

Monarquistas!? Aquela pobre gente mal sabia o que isso significa. Utilizando-nos da comparação, figura de linguagem fartamente empregada por Moita em sua obra, vejo o caso da “adesão” do Pará ao Brasil, ocorrido de forma violenta em quase um ano depois de 7 de setembro de 1822. Um grupo de comerciantes portugueses pretendia que o Grão-Pará permanecesse ligado ao Império Português, o que não interessava a Dom Pedro. A população humilde e miserável estava, porém, à margem desses acontecimentos e interesses, de forma que tanto faz como tanto fez, visto que a mudança ou a manutenção de uma condição política não mudaria a vida dos humildes paraenses. Que interessava o Império ou República àquela gente miserável e ignorante de tudo? Mas a República precisava de um pretexto para massacrar milhares de homens, mulheres e crianças em nome dos interesses de uma elite, o poder, seja ele fardado, à paisana ou de batina.

Jagunços?! Ora, qualquer um de nós sabe que estes se prestam a servir os endinheirados deste mundo e seu ofício é perseguir os menos favorecidos. De outra forma, o coronelato não teria prosperado nestas terras de Santa Cruz. Um homem manso e de bons propósitos como foi Antonio Vicente Mendes Maciel jamais teria as condições monetárias e de temperamento a conduzir mercenários. Conselheiro, tal como o Homem de Nazaré, só dispunha de palavras e de esperanças. Ainda assim a mentira, contada mil vezes, colou.

Concluída a leitura!

Trabalho de fôlego esse o do Moita. Um exemplo para a nossa geração, que consideramos esclarecida. A História, tal qual ela nos foi passada, é a versão das classes dominantes deste país, e isso nós — que dispomos de empatia e não esquecemos das nossas origens — precisamos mudar, a fim de conduzir aos nossos netos esse outro olhar.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

2 respostas em “CANUDOS e o outro olhar de José Augusto Moita!”

Emocionado e comovido com o seu relato. Você tocou mais fundo nessa chaga, que infelizmente não é única, da nossa história; feita de injustiça e de sangue dos mais pobres.
Quer contrair comigo uma dívida?
Prometa-me que escreverá um livro contando o que sofreram outros brasileiros pelas mãos do Estado, os mártires do Contestado.
Muito grato, estimado amiguirmão.
Saudações Conselheiristas!

Curtido por 1 pessoa

CREIO que eu não teria a mesma paixão pelo assunto “Contestado” como você teve por “Canudos”. Para mim, escrever bem e com propriedade é preciso antes de tudo se apaixonar pelo assunto. O meu estilo de escrita não casa muito bem com o tema. O meu jeito é, de vez em quando, inserir uma piada ou um adágio popular de forma que o assunto se torne mais leve para o leitor. Por enquanto, a minha paixão é os anos 1950 e a FAB.

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