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QUANDO ao preconceito social se junta o ciúme!

TRABALHAR em Base Aérea não é coisa das mais simples. No caso, base aérea localizada na mesma cidade de quartel comandado por brigadeiro. Em Belém, testemunhei mais de uma vez o murmúrio de comandantes sobre o infortúnio de estar próximo a oficiais estrelados. Não têm muita autonomia para exercer o comando – queixavam-se.

Com efeito, um sem número de vezes vi, com alguma dose de insatisfação, sargento, cabo ou taifeiro desfalcarem o efetivo da Unidade para completarem o já farto efetivo do Comando Aéreo local, a mando de seu comandante, o major-brigadeiro de plantão. Ao comandante da Base Aérea só restava mesmo dizer amém, em nome da hierarquia e da disciplina e, é claro, da própria carreira. Jamais os censurei por isso, porque, na verdade, eu procederia da mesma forma. Sendo um pedido ou convite do brigadeiro, é uma ordem.

Numa dessas, o brigadeiro resolveu criar uma escala de “diretor-de-dia” ao cassino de oficiais, o COAGB1. Criou assim, de supetão, sem consulta nem algum estudo, por simples que fosse. “Quem manda aqui sou eu”. Vossa Excelência falou, tá falado. Assim, todos os tenentes e capitães das unidades da área concorreriam ao serviço de escala recém-criado, que, por sinal, não durou muito. Foi só o dito cujo virar às costas, passando o comando para outro estrelado, e o serviço foi extinto. Mas a ideia era aliviar a carga dos tenentes, capitães e majores, diretores do clube social. Era uma sexta-feira, dia de meio expediente, quando quase lá pelas doze horas, me toca o telefone. Era a minha vez.

Não tendo nenhum impedimento e nem a cara-de-pau para inventar alguma desculpa, como muitos tenentes faziam, disse ao escalante que domingo às nove estaria lá no COAGB para exercer as funções. No meu íntimo, fiquei insatisfeito com aquilo, não pela escala em si, já que dentre tantas funções a que me propus, uma delas era exatamente essa: serviço de escala. Todo prazer me diverte. O que me contrariava era o fato de não ter participado de nenhuma instrução a respeito, nem mesmo uma NPA havia sido divulgada entre a tenentada, cuja classe eu me incluía então. Em suma, não me encontrava devidamente preparado para a missão e isso — sendo eu um perfeccionista — me incomodava.

COAGB, também conhecido por T1, Belém – PA (imagem: Google)

Fui. Naquele domingo ensolarado, típico de Belém, uma vez lá no clube, procurei conhecer as instalações circulando pela extensa área do COAGB. Depois disso, não conseguindo ler nem mesmo uma NPA2 ou instruções correlatas, resignei-me, procurando uma mesa para aguardar o tempo passar, rezando, porém, para não dar nenhum bochincho. Levando um livro para ler, de vez em quando me levantava e circulava em torno da piscina,o lugar mais frequentado, além do próprio salão de refeições em que me encontrava. Tudo normal: pessoas se refrescando na piscina, crianças se divertindo nos toboáguas, homens e mulheres no restaurante, enfim, tudo a contento.

Notei que, à tarde, numa mesa próxima à minha encontravam-se quatro mulheres que, entre petiscos e doses de caipirinha ou de cerveja, divertiam-se em gostosas risadas por conta da alegre conversação entre elas. Era quase cinco horas, quando, já prestes a encerrar meu horário, uma delas, por sinal a mais animada, chamou-me: “Você é o diretor-de-dia?”. Respondi que sim. “Olhe lá na piscina”. Olhei e não consegui ver nada de anormal. “Lá tem uma menina, uma morena de cabelos crespos, que não é sócia do clube”. Como eu ia saber. O bom senso não orientava a sair pedindo carteirinha de sócio a toda a gente presente, centenas provavelmente, que eu não conhecia exatamente por não ser membro da diretoria. Se aquelas pessoas estavam lá é porque foram admitidas; simples assim. Mas, diante da certeza da senhora que me abordara, tendo ela caracterizado a pessoa estranha ao ambiente, fui até lá e indaguei de um rapaz que a acompanhava. Disse-lhe sobre a queixa da senhora e ele, demonstrando surpresa e alguma dose de contrariedade, respondeu-me tratar de uma moça de seu conhecimento, que fora por ele convidada. Ele era filho de um major do DTCEA-BE3, que nesse dia não estava presente no clube. Mas, para mim, vale a palavra e, se ele convidou a amiga, tendo ela na portaria admitida ao ambiente, não seria eu quem discordaria, porque, na verdade, não havia problema algum..

Voltando à senhora, ela passou a contar que a moça era “uma qualquer”, indigna, portanto, de frequentar o clube e que, no domingo anterior, ela havia proporcionado um “espetáculo” diante dos homens presentes no salão, sambando e, com isso, os divertindo, tendo eles ao final dado vivas e batido palmas, além de outras manifestações verbais. Mais tarde, fiquei sabendo à boca miúda que um dos homens, a que a moça divertia com o samba, era exatamente o marido da senhora, que, neste domingo seguinte, estava viajando pela Amazônia. Na minha mente formou-se de imediato a imagem da moça, como centro das atenções masculinas, sambando e os homens, em sua volta, formando um círculo, batendo palmas, numa roda de samba tipicamente carioca. Era um major, cujo nome omito aqui, o esposo da tal senhora. Mas não foi só isso. Já “alta”, por causa das doses acumuladas de caipirinha, ela, sem que eu perguntasse, continuou a dizer em voz alta, entre tantas coisas, que era esposa do major fulano e que seu pai era um brigadeiro. “Tenente, você já ouviu falar do major-brigadeiro Moreira?”. Eu na verdade sabia quem era o brigadeiro Moreira, exatamente o paraninfo da minha turma de formação em Belo Horizonte, tendo sido comandante do Corpo de Alunos em Guaratinguetá nos anos 1970. Foi exatamente de suas mãos que recebi o diploma de conclusão do curso. No entanto, simplesmente respondi que não conhecia o aludido oficial-general, ilustre sogro do major apreciador de sambas e de morenas trigueiras.

Diante do tumulto que já não era possível esconder, a moça, tendo escutado a conversa que eu, com alguma dose de cuidado, tivera com o amigo, disse-me assim constrangida: “Pode deixar, que eu vou embora”. Nisso, o rapaz, por sinal bastante educado, aparentando seus dezoito ou dezenove anos, foi até à senhora e explicou que ele havia convidado a moça e que, de acordo com o regulamento do clube (que eu desconhecia pelas razões já mencionadas), isso não se constituía em infração… A senhora, interrompendo-o e não querendo saber de conversa, foi destilando ao rapaz, e também para quem quisesse, ouvir toda a sorte de impropérios.

Eu fiquei ali, sem saber ao certo o que fazer. Ainda bem que a humilde moça, apanhando seus pertences, vestiu-se e se mandou, sem maiores problemas. Chegando em casa, peguei do telefone e relatei o problema ao meu comandante.

Legendas:

  1. Cassino dos Oficiais da Aeronáutica da Guarnição de Belém, também conhecido como T1;
  2. Norma-Padrão de Ação, espécie de instruções para determinado procedimentos ou serviço;
  3. Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Belém.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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