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PARA um bom entendedor!

HÁ CINCO décadas atrás trabalhava na Base Aérea de Belém um oficial bem peculiar, cuja vocação, além da farda, era enxergar o escândalo e a indiscrição. Essa história entendedores entenderão — como se diz hoje. Para um bom entendedor meia palavra basta.

Vou nomeá-lo, para fins desta leitura, como Sinclair Bastos de Gouvêa. Já não anda mais sobre a Terra; podemos elogiá-lo, pois, à vontade — como dizia Machado. Sobre ele costumava contar um oficial conhecido nosso, contemporâneo na mesma Unidade, que, em toda oportunidade que o oficial fazia sindicâncias, em vez de focar no fim propriamente das investigações, tendia a demonstrar algum outro vício, problema ou situação de uma ou mais pessoas envolvidas, geralmente direcionando para fatos delicados. Explicando melhor, se a sindicância destinava-se a apurar um furto na vila residencial, Sinclair somente levemente mencionava o objeto em si: o furto. Em vez disso, procurava vasculhar a vida íntima das pessoas e famílias por ventura envolvidas. “E aí, Sinclair, o que descobriu?” Não havia descoberto nada conclusivo sobre o furto, mas que alguém da história era homossexual. Noutra oportunidade, sobre um quiproquó entre a família de um suboficial e a de um primeiro-sargento, sendo indagado pelo comandante, responde que “Nada consegui apurar sobre a briga, senhor comandante, a não ser que o suboficial é corno”. E assim ia.

Era o que esse amigo contemporâneo falava sobre o tal Sinclair, cria eu que com alguma dose de exagero a título de humor. Chegaria o tal oficial com muito custo a tenente-coronel, último posto possível a oficial especialista, na época. Ele, quando capitão, levou uma carona de três ou quatro anos. Explico: carona é quando alguém deixa de ser promovido na época própria, ficando atrasado em relação aos colegas de mesma turma. Isso se torna motivo de vergonha para o caroneado, já que se vê ultrapassado por militares mais modernos que ele. Sinclair somente conseguiu a sonhada promoção a major quando a sua própria turma já estava nas bocas de tenente-coronel. Qual foi a razão para tal vexame? Vejamos.

Sinclair, formado em Direito, fora designado para mais uma de suas famosas sindicâncias. Desta vez era sobre uma quadrilha de agiotagem que vinha agindo no âmbito da Aeronáutica de Belém. Nessa oportunidade, porém, não conseguiu, embora muito houvesse se esforçado, encontrar no curso das investigações nem problemas conjugais, nem opções sexuais, nem mocinhas namoradeiras, nem sargentos e soldados indiscretos, nada. No entanto, abusando do juridiquês — sabem aquele gênero textual usado e abusado pelos advogados e juízes? Isso –, causa boa impressão ao comandante que, maravilhado com o rebuscamento vernacular do oficial, dirige-lhe rasgados elogios. Tendo vagado o cargo de chefe da Seção de Investigação e Justiça da Base, convida-o a assumir o posto. Convite de comandante — como se sabe na caserna — é ordem.

Vaidoso, o capitão declina do convite. “Não, senhor, esse é um cargo de tenente e eu sou capitão”. Naquele tempo, se levava bastante a sério essas coisas de cargo, e normalmente um tenente assumiria sem problemas um cargo de capitão, e a razão é bem simples: o salário vinha junto com o cargo, representando no final do mês um contracheque mais gordo. Havia filas e rodízios até de capitães querendo assumir postos de major e assim por diante. Até que alguma autoridade, decentemente, acaba com essa farra, revogando o artigo da lei de remuneração dos militares que tratava da regalia.

Tornando ao vaidoso oficial.

Desconcertado, o comandante, desfazendo o sorriso, naturalmente não gostou nada da negativa, melindrando-se. Onde já se viu tanto atrevimento? Quedou-se mais brabo ainda quando Sinclair, piorando a situação, complementa: “De baixo pra cima só o bidê!”. Era o que faltava! Em nome da disciplina, o comandante lhe aplica oito dias de detenção e, como pena acessória muito comum na época, expede ofício dirigido ao comandante da Primeira Zona expondo os motivos para que o capitão Sinclair fosse transferido para outra localidade, preferência bem distante de Belém. Depois de algumas semanas, o boletim da Diretoria de Pessoal publica a portaria de movimentação de Sinclair para Canoas, região de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

“E agora?”, diz de si para si mesmo Sinclair. Ele, divorciado há anos, naturalmente possuía seu vasto círculo de amizades em Belém desde que, dez anos antes, havia chegado de Curitiba ostentando nos ombros a estrela de aspirante-a-oficial. “E agora, como vai ser?”. Mas é com o andar da carroça que se ajeitam os jerimuns. Bastando um mês em terras riograndenses, o nosso bravo capitão consegue um apartamento que passa a dividir com um amigo gaúcho. Esse amigo — fiquei sabendo por terceiros porque o próprio Sinclair assim o disse — geralmente era visto em companhias masculinas em número bem maior que de femininas. Cala-te boca! Precisando de alguém para repartir as despesas de moradia, convida Sinclair para ocupar o tal apê. “Opa!”, Sinclair logo, logo está a recompor um círculo de amizades tal que o de Belém, que ficou para trás, não fazia inveja.

Ocorre que, tendo falecido esse amigo, em circunstâncias que a própria família discretamente não divulga, com dois anos Sinclair resolve pedir transferência de volta. O comandante anterior já estava noutra comissão.Parou no Pará, parou; tomou açaí, ficou.

Todavia, as caronas foram se sucedendo de forma que a tendência natural seria vê-lo hoje no posto de o capitão mais antigo do mundo — como costuma dizer o velho capitão Sebastião, capelão da Escola na minha época. Resolveu apelar ao ministro. Chegando ao gabinete da autoridade, expõe as suas razões num expediente de oito laudas. O ministro, ciente de várias histórias circulantes na FAB sobre Belém, não querendo deixar barato, lhe declara: “Pode deixar, capitão, que na próxima data você será promovido. Mas, olhe! Não vá fazer igual ao capitão De Sá.”. A autoridade, de certo, era municiada pelos agentes do A2 sobre a diversa fauna e flora que povoam a FAB, em particular na tal base aérea de então. Devo explicar que o capitão Carlício Ramos de Sá, nome de guerra De Sá — Carlício para os íntimos — não era nada discreto em suas amizades, em geral rapazes altos e bonitos. “O senhor me desculpe, Excelência, mas eu não sou desse tipo”, devolve Sinclair, para não deixar a autoridade sem resposta.

Enfim, promovido. Ao cabo de mais quatro anos, chega a última promoção ao posto de tenente-coronel com a qual encerraria a carreira. Com uns dois meses no novo posto, chega-lhe um major que, de olho na vaga, dá o azar de propor a Sinclair que peça reserva e com isso lhe dê a oportunidade de também ele ser promovido. Era assim que geralmente funcionava: o oficial especialista, uma vez promovido a tenente-coronel, logo metia requerimento, abrindo vaga na fila para os oficiais mais modernos também chegarem ao posto final. “Veja bem, coronel Sinclair”, atalhou o temerário major, “Veja se pede logo a reserva.”. O velho oficial, do alto de sua vaidade, retruca: “Eu estou gostando de ser chamado de coronel. Já até mandei fazer o quinto A novo”. “Mas existe um pacto de que a gente assim que chega a tenente-coronel, dá logo a vez para os outros”. “Ocorre, major, que eu não assinei esse pacto.”. E assim, tomando gosto pela nova patente, o coronel Sinclair, embora já com seus 35 anos de serviço, cinco a mais do que a legislação lhe dava, ainda teima em permanecer na ativa por dois anos. Numa ocasião, ele recebe uma ficha de recomendação. Era comum nesse tempo o oficial superior preencher ficha abonando ou não outros oficiais que estavam próximos em tempo à promoção. Chega-lhe às mãos justamente a ficha desse major para que Sinclair recomende ou não a sua promoção. Ele, em sua face espelhando um sádico prazer, dá como negativo, ou seja, preenche bola preta. E mais: acrescenta a seguinte observação: “O referido oficial transgrediu a ética militar ao abordar-me sugerindo que eu pedisse reserva para que ele pudesse ser promovido, atentando assim contra a ética militar que o Estatuto dos Militares bem recomenda ao oficial da ativa”.

De fato, o major termina seus tempos na FAB como major. Quanto a Sinclair, tendo ele finalmente atingido a data limite que era estabelecida pela legislação, se vendo como oficial da reserva, dedica-se à advogacia. Tinha um escritório ali próximo à Praça da Bandeira.

Mas a história não termina aqui.

Já estabelecido há anos como advogado, os casos que lhe chegavam às mãos envolviam militares, em maioria. Um desses foi o de um taifeiro que, numa brincadeira entre eles, sofre uma queimadura no antebraço e mão. Era um trote que, por pouco, não atinge proporções maiores. O colega lhe ateia álcool, risca um fósforo e, perdendo o controle da brincadeira, fazendo menção de atirar em direção ao amigo, acaba por atingi-lo. O resultado é que, após sindicância e inquérito, o caso chega à Justiça Militar.

Um amigo, cujo nome não posso expor aqui, também tinha por advogado o mesmo Sinclair. E este, conversador e saudoso do ambiente fabiano de outrora, se põe a falar e — nisso — indiscretamente fala sobre o caso do taifeiro. “Ah, mas esse aí é!”, e prossegue, “Pela voz, pelo andar, pelos trejeitos…”.

Diante disso, voltamos ao caso das sindicâncias indiscretas e chegamos à conclusão de que o colega contemporâneo, por sinal alencarino, dizia a verdade. Há uns que têm vocação ao escândalo. Ocorre que essas pessoas mais falam sobre si do que sobre os outros.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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