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LIMA, o Barão de Maracanaú!

NESTES nossos trinta anos de Força Aérea presenciamos diversas situações insólitas, além de tantas outras que chegaram ao nosso conhecimento. A bem da verdade, nós mesmos chegamos a protagonizar alguma delas. De fato, a FAB abriga em suas fileiras uma variada fauna e flora, cujos atores são os milicos mais versáteis, criativos e heterogêneos. Dos mais sérios e empenhados em fazer da forma mais correta possível o seu trabalho aos come-e-dorme, chama-nos a atenção os que encaram a caserna como um grande teatro de comédias, procurando levar a rotina na flauta ainda que não seja músico. Há, ainda, aqueles que frequentam todos os lados, ora procurando trabalhar bem, ora praticando efeitos especiais a la Spielberg.

Com efeito, as severas exigências cotidianas do sistema, por vezes, não merecem ser levadas a sério, resultando que, a fim de não enlouquecer, os praças das Forças Armadas e parte de seus oficiais precisam encará-las a força de larga dose de escárnio e picardia. Era o caso do suboficial Carlos Alberto Siqueira de Lima, cujo nome verdadeiro agora, por ética, não podemos revelar; não achando outro até o final desta leitura, fica esse mesmo. Lima era, por assim dizer, um gozador, um tirador de sarro por excelência, posto que, tecnicamente, um grande profissional, não raro recebendo elogios da Subdiretoria de Pagamentos por cem por cento de acertos a cada mês na função de coordenador de saques da subseção de finanças da Base Aérea de Fortaleza.

Vejam agora o suboficial Lima. Encontra-se nesta tarde ensolarada a cotejar com atenção o boletim financeiro mensal com as fichas de atualização financeira de cabos, soldados e taifeiros. É claro que o leitor sabe o que significa o verbo cotejar, que nada mais é do que conferir os dados do primeiro documento com os do segundo, certificando-se dos acertos do sacador, ao mesmo tempo que aponta alguns erros. Era assim naquele tempo em que o computador era a máquina de escrever ou mesmo a munheca a lançar manualmente números e cifras no formulário.

Pois bem. Está concentrado nesse trabalho quando toca o telefone. “Barão, quando sai o pagamento do mês?” Lima dá uma risada sarcástica: “Deixa de ser lascado, hômi!”. Depois completa: “Dia 29 que vem.”. Repôs o velho aparelho no gancho e toca outra vez: Dessa vez é a secretaria do comandante do Esquadrão de Intendência. “Sub Lima, o major Deocleciano quer falar com o senhor agora”. “Caramba, o que será que esse fela quer comigo dessa vez?”, resmunga o velho sub.

O sub velho ao entrar na sala junta os dois calcanhares fazendo, ao mesmo tempo, uma continência relaxada quase ao nível de uma misura: “Não me pergunte se sou capaz, meu bom major, dê-me a missão”, repetia já quase mecanicamente a frase de efeito, que em geral provocava disfarçadas risadas em quem estivesse por perto. O major já o conhece, porque ele próprio é um veterano na Base Aérea de Fortaleza, tendo chegado à Unidade aspirante e, como tenente e capitão, passado por todos os cargos da Intendência. Quanto a Lima, agora um veterano, adentrou o portão das armas da Base Aérea como segundo-sargento, a partir de então segue percorrendo todas as funções na Tesouraria. Foi sacador de pagamento de soldado, depois de sargento, mais tarde de oficiais e agora, considerando a sua antiguidade e experiência na área, vemo-lo no cargo de coordenador de saque. Não, não estranhe o leitor a rotina à qual a maioria dos humanos acomoda-se. Tem gente que, marcando passo, permanece a vida inteira fazendo a mesmíssima coisa. Obrigado, Senhor, por essa rotina e pelo pão certo garantido a cada dia e soldo sagrado no final do mês. Querem ver um exemplo. Foi o próprio Barão de Maracanaú, como era conhecido o suboficial nas rodas de cerveja, samba e cachaça, que nos contou:

Base Aérea de Fortaleza (imagem: Google)

No mesmo ano em que Lima graduou-se sargento na Escola, o soldado Bezerra, seu vizinho de rua, havia sentado praça na polícia. Isso havia sido há mais de vinte anos. Já decorrido esse tempo todo, numa de suas frequentes idas a Maracanaú, o suboficial percebe extraordinário movimento na casa do soldado Bezerra, por sinal seu conterrâneo. “O que houve hômi, por que não me convidou?” A razão da festa era a promoção de Bezerra a cabo. “Mas jaááá?!!” Ao que o pobre homem, radiante e em sua simplicidade longe de perceber a ironia explícita do amigo, responde-lhe, faceiro, com outra pergunta: “E eu drumo?!”

“Sub Lima, eu o chamei aqui para parabenizá-lo pelos seus excelentes serviços e, em nome do comandante, quero dizer-lhe que o indicamos para receber a medalha Mérito Santos-Dumont”. Lima, enquanto escuta do major a notícia, vai dizendo para seus botões: Esse fíi de quenga vai me fazer comprar um quinto A novo!. Por um instante pensa em expressar a ideia, mas em vez disso, agradece a escolha e, já fazendo menção da continência, ouve ainda o major Deocleciano, ao medir o suboficial de alto a baixo, complementar: “Então, meu suboficial, de agora em diante você trate de andar com essa camisa bem engomada, a calça vincada, o cabelo cortado no padrão regulamentar e os sapatos bem engraxados”. Aí já é demais. “Mas, major, se eu fui escolhido pra receber essa medalha, é sinal de que eu estou bem assim mesmo.” Disse assim e saiu da sala, deixando o superior hierárquico sem palavras.

Mas o sistema, que possui boa memória, também tem das suas. Vejam só.

Na semana seguinte, Deocleciano chama o velho suboficial novamente à sua presença. Que será que esse corno quer agora? “Não me pergunte…”, ao que o major faz um gesto reprovador com a mão, interrompendo-o. “Lima, nós avaliamos melhor e o comandante achou por bem retirar o seu nome da relação dos condecorados”. Com o rosto espelhando satisfação, o sub assim se dirige ao major: “Muito obrigado, major, muito obrigado mesmo. Eu ia ter que fazer o treinamento e, como faz tempo que não faço essas coisas, ia acabar errando o protocolo. O major, comandante do Batalhão de Infantaria, ia me dar mijada, e ainda ia ter que mandar fazer um quinto A novo… Muito obrigado, major”.

Eis que nessa mesma época o Alto Comando determinava ao Comando-Geral de Pessoal que transferisse pessoal para as novas bases aéreas que estavam sendo construídas e prestes a ser inauguradas: Boa Vista e Porto Velho. A fim de compor o efetivo das respectivas seções de finanças dessas unidades necessário era reunir profissionais experientes. Devido aos elogios que Lima havia recebido, e não se sabe porque outras razões, o nome do Barão foi o primeiro da lista. Seria transferido para a Base Aérea de Boa Vista. O leitor amigo, do meio civil, pode até imaginar que uma movimentação como essa jamais seria um problema, vez que o militar das Forças Armadas recebe soldo também para isso: servir o Brasil em qualquer ponto do território brasileiro, onde necessário for a sua presença. Não é bem assim. A diferença entre o milico e o civil, via de regra, é que um é fardado, faz continência e faz desfile militar: um dois, três, quatro… No caso, o suboficial tem esposa com atividade remunerada em Fortaleza, filhos fazendo curso superior em Fortaleza, uma casa humilde no subúrbio, vida toda enraizada em Fortaleza. Transferir alguém nessas condições seria como cortar as duas pernas do velho milico.

Não era a primeira vez que tentavam transferi-lo. Anos antes, publicou-se a movimentação de Lima para Brasília. Ele não foi. Naquela época, uma das condições para a efetiva transferência era ter disponível moradia funcional na Capital Federal. Na Prefeitura de Aeronáutica de Brasília, órgão que administra os imóveis da Aeronáutica, um colega de turma envia uma mensagem-rádio dizendo que não havia imóveis disponíveis. Passa-se um mês, dois… seis meses, e nunca havia imóvel disponível. Assim sendo, tudo indicava que o Barão de Maracanaú terminaria seus dias de FAB no seu velho Ceará querido. Não. O comando faz publicar em boletim um extenso elogio agradecendo os excelentes serviços prestados pelo veterano militar tanto à Unidade quanto ao pessoal efetivo da guarnição. “Coronel, eu vim aqui pedir para o senhor anular esse elogio”. “Por que, sub?”. “É o mesmo que o senhor mandar me darem vinte chicotadas no lombo e depois mandar me elogiar por ter resistido”.

Mas não teve jeito. Foi para ficar por longos dois anos em Boa Vista e assim o efetivo da Base Aérea ficar bem seguro em relação às respectivas folhas de pagamento. E Maracanaú sentiu a falta do velho Barão.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Azulino (torcedor do Clube do Remo, Belém). Paraense radicado no Paraná; construtor de pontes e demolidor de muros! Passeia também pelo YouTube, no canal BLOGUEdoValentim! L.s.N.S.J.C.!

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