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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 27jan2021.

EDMILSON, garoto pobre, era um candidato do Piauí que, chegando a Belém para um concurso à Escola de Especialista, apesar de muito dedicar-se, não conseguiu na ocasião ser aprovado. Sem dinheiro para voltar à terra natal, é levado à presença do comandante da Base, a quem pede para permanecer hospedado na Base Aérea até a data do próximo certame, quando, aprovado ou não, deixaria a unidade. Magnânimo, o coronel autoriza a permanência com condição (justa, por sinal) de o jovem ajudar nos trabalhos de rancho ou de outra subunidade. No rancho, o negrinho fica lá trabalhando, a ajudar nos afazeres diários do rancho das praças, civis e sargentos, enquanto nas horas vagas disciplinadamente queima as pestanas nos livros e apostilas. A dormida precária  era no alojamento dos taifeiros.

Pobre rapaz!

Diariamente era humilhado pelos taifeiros, que, aproveitando-se do reforço inesperado e da necessidade dele, destinavam às suas mãos as tarefas mais duras e insalubres. Não bastasse, os vocativos mais frequentes que dirigiam ao rapaz eram imbecil, burro, abestado, jumento, filho de puta e outros vocábulos elogiosos. Extravasando seus recalques, destinavam também ao jovem petelecos e cascudos.

Mas, como já citei, o teatro da vida impõe o seu próprio roteiro.

Decidido a dar fim nesse rosário de humilhações a que era todos os dias submetido, apegava-se com mais afinco aos estudos. Além da Escola de Especialistas, também candidatou-se à Escola de Aeronáutica (somente mais tarde era criada a Academia da Força Aérea). No entanto, foi novamente reprovado no concurso da Escola, mas… por ironia, logrou êxito no da Escola de Aeronáutica.

Em quatro anos voltaria oficial.

Numa fase da história brasileira em que um oficial das Forças Armadas tinha a prerrogativa de mandar recolher ao xadrez, os taifeiros do rancho passaram a preocupar-se com a boa sorte do piauiense, e também, principalmente, com a deles. Se não fosse reprovado que saísse aviador – era desejo deles; jamais saísse oficial intendente, mas, se por acaso formasse oficial da Intendência, que não regressasse a Belém. Se viesse de volta a Belém, que fosse classificado no QG da 1ª Zona e não na Base Aérea, onde provavelmente seria chefe de rancho, cargo em que seus algozes lhe deveriam obediência hierárquica incondicional.

Oh sociedade hipócrita e vil! Ela exalta o poderoso e pisa o mais fraco.

A vida é pródiga em mostrar que as pessoas tratam as outras em função do status social que possuem, e este, embora raro, às vezes se modifica. A nova condição de Edmilson, futuro oficial da Força Aérea, muda da água para o vinho o tratamento nada cavalheiresco que até então lhe é dispensado; os taifeiros agora já não mais pegam pesado com o rapaz e até lhe permitem comer junto com eles da comida que sobra dos oficiais, em vez da babugem que restava dos pratos dos soldados como antes.

Matriculado, Edmilson, movido pela mágoa do período em que era cotidianamente humilhado, não pensava noutra proa a não ser a da Base Aérea de Belém. Ademais, sendo do Piauí, Belém era rota natural. Findo o curso, foi exatamente essa unidade que lhe coube. Volta então à Base Aérea de Belém, onde é designado chefe de rancho. Houve muito taifeiro a sentir na pele as voltas que dão os ponteiros do relógio da vida.

Voltando ao meu caso.

O prazo para a matrícula na Escola fatalmente teria se esgotado, vez que eu já estava duas semanas defasado em relação ao restante da turma, que seguia plenamente adaptada à rotina do Corpo de Alunos.

Cinco minutos. Que teria sido de mim?

Afastadas tais inquietações, que felizmente não se efetivaram pela ação piedosa do meu benfeitor anônimo, quedei-me a imaginar a tal escola enquanto o veículo seguia tranquilo seu curso rotineiro. Apesar do esforço mental, a única imagem que me vinha a mente era de um prédio quadrilongo de três ou quatro andares, salas de aula de um lado e de outro do corredor, escadas, pilotis, acrescido talvez de uma quadra de esportes e piscina. A mente não ia além disso. Com efeito, a imagem feita era exatamente a colégio Augusto Meira, onde fazia o segundo grau.

Impossível imaginar uma coisa que os olhos jamais viram antes. Sem nunca se ver ao menos uma fotografia, a imagem desenhada pela mente sempre será em função do que já se conhece, as experiências anteriormente vividas.

O ônibus passava por algumas cidades: Resende, Cruzeiro… Em cada uma delas este escriba se mantinha arisco, imaginando que poderia Guará, atento para não passar direto sem imaginar que Aparecida, o destino final do Viação Sampaio, fica bem próxima, bastando pegar um ônibus urbano, detalhe que só ficaria sabendo depois. No entanto, o motorista, experiente, não permitiria acontecer semelhante descuido.

Corriam as horas e nada de chegar a Guará.

“Lorena!”, avisa o condutor. Informado, Guará era a próxima estação. Ao desembarcar, imediatamente fui à procura de informações sobre como chegar à Escola. Deveria pegar o “Escola”. Isso já mais de onze da noite. De camisa mangas curtas, passo a senti frio enquanto aguardava o tal “Escola”, que nada de chegar. Não vinha. Havia naturalmente outros ali a aguardar seu ônibus, entre eles alguns militares; soldados em sua maioria. Logo deduzi que iam também para lá a fim de pernoitarem e dia seguinte cumprirem o expediente. Nada do tal “Escola”, e passei a imaginar que essa linha já teria encerrado a sua atividade diária, o que me deixou angustiado. Vi então ao longe, aproximar-se de nós um coletivo cujo letreiro parecia ser “Vila dos Sangrentos”. Nome estranho! Era uma espécie de dislexia motivada provavelmente pelo cansaço e ansiedade, coisa natural a um garoto sozinho em terra estranha àquela hora de uma noite fria. Por frações de segundo, hesitei, mas enfim, antes que o “Vila dos Sargentos” arrancasse, decidi imitar os soldados e embarquei no ônibus cuja pintura externa indicava ser da empresa “Pássaro Marrom”.

E se houvesse na cidade outro quartel da Aeronáutica? Foi um pensamento que me ocorreu repentinamente e que durou pouquíssimo tempo. Já embarcado, o cobrador me informa que de fato a Escola fazia parte do itinerário daquela linha. Ufa! Estava chegando lá. Fiquei de olho nos movimentos dos soldados e nas placas de sinalização. Avistando já o portão da guarda onde os soldados de serviço cumpriam seus quartos de hora e o letreiro “Bem-vindo à Escola de Especialistas de Aeronáutica”, a minha preocupação agora era tão somente chegar ao local previsto para apresentar a documentação indicando a finalidade da minha presença na instituição.

Desconhecendo as instalações da Escola, desci junto com os soldados e, barrado no prédio onde eles entraram — a companhia IG –, o soldado de plantão orienta-me sobre o local exato onde eu deveria me apresentar, um tal de “Corpo de Alunos”. Agradeci e rumei para lá passando em frente ao prédio que logo no dia seguinte identificaria como Rancho dos alunos.

“Bati na porta errada. Era do outro lado.”

Estava lá: “Corpo de Alunos”, dizia o letreiro. Bati. Bati novamente e nada. Ninguém atendia. Já quase no desespero, eis que sou surpreendido por uma fala firme: “Alto lá, identifique-se!”.

O sentinela, um aluno de segunda série, me apontava um fuzil. Sem ter tido tempo de sentir medo ou algo assim, informei-lhe que estava lá para ser matriculado na Escola, ao que o futuro colega me manda apenas dar alguns passos e depois dobrar à esquerda, e ali me atenderiam. Estava batendo na porta que dá acesso à administração do Corpo de Aluno, na lateral do prédio (foto abaixo), onde funcionava as seções e o comando da subunidade.

Atendido pelo aluno-de-dia e seu auxiliar, apresentei a documentação informando-lhe, com palavras confusas, o motivo da minha presença. Creio que foi acionado o sargento-de-dia, que por sua vez, deve ter falado com o oficial-de-permanência ao CA (naquele tempo havia um oficial de serviço somente para cuidar dos assuntos do Corpo de Alunos). Considerando o avançado da hora (já passava da meia-noite), providenciaram para mim cama e cobertor na própria companhia de Infantaria, onde em princípio me apresentei.

***

Era a minha primeira noite de centenas na Escola de Especialistas de Aeronáutica nos dois próximos longos anos. Dormi muito bem, enfim recuperando as energias da extenuada viagem de mais de doze horas em que cruzei o país de norte a sul.

Acordei com a alvorada. Chamou-me a atenção a estatura elevada dos soldados, em comparação à minha figura, um franzino de um metro e sessenta e dois, 51 quilos. Talvez ali se alojasse uma companhia de PA.

Depois do café, ao iniciar o expediente administrativo da unidade, encaminham-me ao sargento Juliano, um primeiro-sargento, que me acompanha à Seção Mobilizadora, para a entrega dos papéis, coleta de impressões digitais e fotografia. Estava matriculado. Logo eu entraria na rotina dos meus futuros colegas, que já aclimatados, treinados e fardados, comportavam-se, a meu ver, como se veteranos fossem.

Tentaria sobreviver.

L.s.N.S.J.C.!

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 25jan2021.

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava.

“Esse rapaz vai perder a droga desse ônibus…”.

Leia também: Era uma vez

Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, amigo.

Viação Pássaro Marrom (fonte: O Especialista em Revista, jul1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado.

Enquanto o Viação Sampaio rodava pela Via Dutra rumo ao Vale do Paraíba, distraía-me observando a paisagem de campos e cidades.  Apesar do cansaço pela longa e agitada jornada, não tinha sono. Ainda mais em razão do susto do Rio de Janeiro, quando, sem querer, vencido pela exaustão, cochilei e logo estava totalmente entregue, prestes a perder o horário do transporte.

Embora desagradável, o medo é algo necessário à sobrevivência animal. E eu era um animal que precisava sobreviver a qualquer custo na selva em que então fora lançado.

Não fosse o gesto cristão daquele bom homem, fatalmente eu perderia o ônibus, contratempo que me faria também jogar no mato aquela oportunidade que, já nem esperando, se avizinhava ao alcance de minhas mãos. Sim. Sem dinheiro para mais uma passagem, nem imagino o que seria de mim naquele mato sem cachorro. Diante dum infortúnio de tal magnitude, que seria desse jovem de outro estado, sem parente nem derente ou conhecidos numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pouco dinheiro no bolso, e ainda por cima tímido? Imaginei depois que, pedindo apoio aqui e acolá e informando da minha condição de candidato a um concurso da Aeronáutica, a menção do nome dessa instituição acabaria por me conduzir ao quartel da FAB mais próximo, talvez o III COMAR. Ficaria por lá — imagino — vagando, filando a boia e dormindo onde pudesse por conta da caridade do comandante ou de algum chefe de gabinete por dias ou semanas, até que me mandassem de volta no próximo avião com destino ao Pará.

Provavelmente me fariam trabalhar em troca de comida e pouso, como, anos depois fui saber, acontecera com o piauiense Edmilson.

Foi assim:

Continua…

L.s.N.S.J.C.!

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

… Continuação da postagem de 22jan2021.

NUMA tarde calorosa, volto para casa remoendo o gosto amargo da derrota. Pela primeira vez tive consciência do que significa perder alguma coisa. Não que vislumbrasse a real importância do concurso, mas — verdade seja dita — já havia me acostumado com a ideia de ingressar na tal escola. Além do mais, jamais havia sido reprovado em nada, malgrado a fragilidade do ensino público e reconhecer minhas limitações intelectuais.  A aprovação inesperada na primeira fase dos exames me dera a vã esperança de que conseguiria também êxito nos eventos seguintes, que seriam o exame psicotécnico e a entrevista com o oficial.

De outra parte, em nenhum um momento, porém, pensei no gostinho que essa derrota — que mais tarde se confirmaria provisória — causaria em meus colegas de estudos e de brincadeiras de rua. A inocência da vida, até poucos tempo antes, não havia me permitido enxergar da parte de Alcemir e Raimundo qualquer sentimento de hostilidade ante à perspectiva de que eu, e não eles, saísse vencedor do concurso. Mas ao final, até então, saíra conforme eles no íntimo desejavam. Se eu não venci, ele também não, era o que pensava cada um desses “amigos”.

A inocência que mais adiante me atrasaria a vida, é a mesma que em certas ocasiões me livraria de alguns perigos.

Paradoxo.

Paralelamente, havia, em relação a meus pais, a curiosidade dos vizinhos, pois, sem que eu tivesse consciência, o meu feito — a aprovação nos exames intelectuais — virara notícia na vizinhança. Nada notava de diferente quando, do nada, as pessoas me abordavam. Numa época em que era considerado bem de vida um chefe de família que trabalhasse de carteira assinada, o Garoto, com seus dezesseis anos, não tinha nenhuma ideia de que, diante daquela comunidade pobre e sem perspectivas maiores, ele passara, de uma hora pra outra, a ser visto como alguém prestes a galgar uma posição acima — bem acima, comparativamente — na escala social: um emprego público com garantia de um salário certo todo mês, com bônus de ostentar farda, traje que naquela época era razão de respeito e admiração por parte da população mais simples.

Das pessoas conhecidas da nossa família algumas pessoas torciam sinceramente a meu favor, enquanto outros se torciam de inveja, ainda que de maneira disfarçada. Meu pai, chamando-me a um canto, disse em voz baixa: “Antonio, não fiques chateado com isso. Estuda e enfrenta o próximo concurso. O segredo é a alma do negócio.” Somente essa última parte do conselho paterno foi me dar alguma noção — mínima, até —  dos sentimentos  nada nobres que de fato parte da vizinhança nutria em relação a um garoto que quase nada sabia da vida. Era a primeira vez que tinha conhecimento real da existência de sentimentos ruins como a inveja.

Nem todos.

Raimundo e Alcemir. Raimundo, que mais tarde ingressaria no Corpo de Bombeiros do Pará, era um cara dissimulado, daqueles que escondia suas derrotas e propagandeava vitória, por mínima que esta fosse; mentiroso também. Alcemir, por sua vez, era (ou é ainda) um sujeito presunçoso, gabola, vaidoso, o mais forte, o mais bonito e o mais inteligente. Ao menos se considerava.

Ainda hoje me recordo da fala do Alcemir: “Vai estudar, Gandola, que estás precisando!”. Meu apelido entre eles era Gandola por causa de um personagem do Jô Soares no humorístico televisivo Planeta dos Homens. Nesse quadro o homem chega para pedir emprego, mas com uma ressalva, pois “Quem me mandou aqui foi o Gandóoolaa!”. Não tínhamos a mínima ciência de que o humorista fazia a alusão a uma peça de uniforme militar. Numa associação de ideias, Gandola era um poderoso militar de alta patente do Exército, provavelmente um general. É claro que imediatamente o candidato ao emprego era admitido, tal era a influência, ou o medo que tinham do tal Gandola. Pois é. Eu gostava de falar “Gandóoolaa!”. De tanto repetir o bordão, passaram-me a chamar de Gandola. Por ironia, em pouco tempo iniciaria a vida militar fazendo uso rotineiro dessa peça de fardamento. E olha que eu nem sabia que a tal escola me formaria militar. Aliás, não só eu que não sabia, creio que 99 por cento dos brasileiros nem desconfiavam que Jô Soares tirava sarro dos militares por meio desse e de outros personagens televisivos.

O teatro da vida, no entanto, impõe seu próprio roteiro.

Rapidamente esqueci o trauma da reprovação e o sorriso de alívio da turma. Como era julho, mês de férias escolares, cumprindo minha obrigação filial de todos os anos, acompanhei meu pai ao interior do Estado para ajudá-lo nas tarefas da roça de mandioca, serviço que fazia todo julho e também nas férias de final e início de ano. Geralmente meu pai contava comigo e com meu irmão Walter como mais dois braços nas tarefas de colono pobre, mas desta vez, por alguma razão que não me recordo, meu irmão permaneceu na cidade em companhia de minha mãe e de meus outros irmãos.

Corria a última dezena do mês, quando certa noite fomos surpreendidos por alguém que batia à porta da humílima cabana que habitávamos. Uma sombra de apreensão percorreu ligeiramente o espírito de meu pai. Quem seria àquela hora da madrugada?  Aberta a porta e foi surpresa ainda maior ao depararmos com o Francisco, um vizinho nosso, irmão do Raimundo.

No dia anterior um rapaz trajando canícula azul claro, cinto de lona largo, calça azul escuro e borzeguim preto batia no número 352 da passagem Dionísio Bentes. Cumprindo ordens, o soldado deixava em casa a cópia de um documento que me convocava para a Escola com urgência.

JJ COMAR UNO SBBE

INFO VOSSENCIA CANDT ANTONIO VALENTIM MOREIRA APROV CONC ADM CFS 2/77 DESTA ESCOLA PTVG SOL VOSSENCIA DET PROVD RFR CANDT APRES ESPAER UU VG MUNIDO DOC PREVISTA ET INSPSAU FINDE LETRA BRAVO IRIS PT  ESPAER SBGW

Francisco tinha em mão o tal papel, que mais tarde eu conheceria por radiograma ou mensagem-rádio,  que então me convocava para estar presente na Escola de Especialistas até a tal data. E essa data, um dia da primeira semana de agosto, estava próxima, sendo necessária a minha presença sob pena de perder a oportunidade de ouro, o cavalo selado que me passava na estrada. Urgia, portanto, que eu estivesse em Belém para a inspeção de saúde e reunir a papelada que minha mãe correria atrás, contando com o apoio de meu padrinho Alberto.

Meio grogue e até contrariado por ter sido acordado naquela hora, além de ainda não compreendendo direito o que se passava, vesti-me, peguei minhas coisas e acompanhei o homem de volta a Belém. Até hoje, quando lembro dessa noite, fico a me perguntar como o bom Francisco conseguiu nos achar naquele fim-de-mundo. É certo que minha mãe deu as instruções, mas ainda assim chegar lá e de noite não era tarefa simples. Bem, como disse a dona Maria, o próprio Francisco, talvez subestimando o grau de dificuldade da empreitada, ofereceu-se para localizar-me e trazer-me de regresso à capital. Não o fazendo, ela própria teria ido ao meu encontro com a alvissareira notícia. Jamais esquecerei de ti, meu amigo, onde quer que estejas hoje.

Foi uma luta renhida, uma correria danada. Além disso, para garantir a chegada até Guaratinguetá, era preciso conseguir uma carona em avião da própria Aeronáutica, porque de ônibus demoraria muito e perderia o prazo, de avião comercial não tínhamos dinheiro para a passagem.  Tínhamos que contar também com o calendário do Correio Aéreo Nacional, que, pelos ventos a favor, previa uma aeronave entre Belém e Rio. Do Rio até Guará, seguiria de ônibus.

E o Benedito, por onde andará?

Mais uma lembrança. No Hospital de Aeronáutica, estava eu à espera do dentista me chamar. Encontravam-se também alguns soldados em inspeção de saúde. Um deles me ficou marcado: o Benedito. Ao perceber aquele jovem esmirradinho, raquítico, não me perdoou, principiando a fazer troça da minha musculatura de Tarzan depois da gripe. Ironicamente, dizia a seus colegas  que eu provavelmente estava ali para ingressar como soldado da PA. A Polícia da Aeronáutica (a PA) é uma tropa de elite conhecida pela truculência onde somente são admitidos soldados de um metro e oitenta para cima. Eu estava naturalmente longe disso, por isso servi de alvo cômico para o gracioso Benedito.

Tem nada não.

Dias, numa noite, antes da esperada viagem, meu pai, cumprindo sua vocação de grande conselheiro, como da outra vez, me chama a um canto: “Antonio, um conselho: seja sempre honesto”. Não entendi bem a necessidade daquelas palavras, somente mais tarde fui associá-las à minha condição de servidor público, de que em breve estaria investido. Manoel, o sábio, por muitas vezes certamente ouvira notícias de funcionário público corrupto, enriquecimento ilícito, desfalques, como era a palavra técnica mais comum para esse tipo de crime de dilapidação do dinheiro público, hoje mais conhecida como corrupção financeira. Jamais esqueci dessas sábias palavras de meu pai, que ora se encontra no plano celestial.

E nessa primeira terça-feira de agosto eu estava ali cedinho. O sargento fazia a chamada e pesava as bagagens. “Você vai estudar pra caramba”, alertou-me ele, quando informado de que meu destino final era a Escola, com a autoridade de quem passou dois anos lá. Recordo também que se encontrava presente um oficial, creio que primeiro-tenente especialista (se não fosse especialista devia ser engenheiro), a julgar pelas insígnias que só mais tarde eu identificaria. Olhando em direção ao militar, tio Antônio Rodrigues falou: “São esses homens que mandam no Brasil”. Nunca esqueci também dessas palavras embora não soubesse o que realmente queriam dizer.

***

Despedi-me dos dois com as bênçãos de minha mãe chorosa e embarquei naquele avião rumo a um futuro desconhecido.

Um futuro que a gente não sabe aonde vai dar.

Uma vez autorizado o embarque, acomodei-me num dos primeiros assentos da aeronave, um Bandeirante administrativo equipado com poltronas e cuja tripulação — dois oficiais-aviadores e um sargento — trajava o uniforme que depois eu conheceria como o sétimo, e não o macacão de voo que hoje é usual em aeronaves militares. Já taxiando, o sargento mecânico de voo cuidava dos passageiros orientando de forma gentil sobre cinto de segurança e outras coisas; chegando a mim, pediu que eu me levantasse e ocupasse o último lugar, que, na configuração original da aeronave, era um assento sanitário com a opção de ser adaptado para assento normal, caso o avião estivesse com lotação máxima. Era o caso. Obediente, fui para o final da aeronave, atei o cinto, e, como se fosse um passageiro veterano, quedei-me tranquilo e despreocupado enquanto, barulhento, o aparelho levantava voo.

Sem que me desse conta (como sempre), o episódio representava na prática uma das duas palavras que passaria a ouvir com frequência desde o primeiro dia de Escola até o meu último da carreira, trinta anos depois: hierarquia. A outra era a disciplina.  Havia, portanto, uma hierarquia a ser observada até mesmo na ocupação dos assentos de um avião militar. No caso, o sargento com os olhos treinados avaliando os passageiros, todos civis, para, a partir disso, os classificar numa escala hierárquica que ele, plenamente adaptado ao sistema militar, reconheceria até mesmo na maneira de andar de cada um. Ao Garoto, simples em tudo, de trajes simples, naturalmente caberia o derradeiro lugar.

Faço essas observações com o olhar maduro de hoje e percebo que, sem que notem, as pessoas naturalmente costumam fazer essa espécie de avaliação em toda e qualquer situação ou ambiente onde se encontrem. Não vai aqui, porém, nenhuma menção de censura ao sargento-mecânico, porquanto o militar apenas, sem maiores reflexões, reproduzia o que a sociedade, mormente a classe militar, diz ser natural fazer. Diferente atitude, porém, creio eu, poderia ser tomada caso este que escreve estas memórias fosse um homem de outra aparência, elevada estatura, bem trajado.

Em voo, espichando o pescoço, ocupei-me em observar a paisagem lá embaixo. Em nenhum momento sequer senti medo; não por ser corajoso — que não era — mas por não ter noção alguma do perigo. Apesar da timidez, tentei puxar assunto com um casal que sentava próximo. Eles, porém, não me deram a mínima atenção; foi como se eu estivesse invisível.

Com o decorrer de minutos e horas, pensamento vai e pensamento vem, e, do nada, a mente me passou a imaginar a tal escola e, por conseguinte, a inquietar-se com tudo o que poderia me aguardar; era o desconhecido que me afligia.

Que script teria o Diretor Supremo para mim reservado? Estaria o Garoto em condições de encená-lo?

Mil conjecturas me povoam o espírito. Compreendo hoje que tal mudança súbita de comportamento psicológico devia-se ao fato de que, pela primeira vez, encontrava-me sozinho no mundo, ou seja, sem a presença de pai e mãe, de alguém que tomasse a frente em relação às minhas necessidades. Era isso. Antes tinha casa, comida e roupa lavada, embora nenhum dinheiro. Minha vida pacata de estudante colegial terminava. Até então ia para o colégio, fazia as tarefas escolares, convivia com mestres e colegas, mas, ao final, voltava para a segurança de um lar. De agora em diante não mais seria assim.

Estava compulsoriamente desmamado.

Vejo hoje a necessidade dessa independência quase que involuntária que, de repente, alcançava; ela chegaria um dia. Só não sabia e não esperava que me emancipasse dos meus pais tão cedo porque, como venho narrando, não me julgava preparado. De agora em diante seria tudo por minha conta e agora me preocupava o fracasso e, pior, a decepção que viesse a causar a meus pais, que tanto me apoiaram.

Além disso, o medo do desconhecido que se aproximava.

E essa tal escola, como seria? Quais desafios exatamente me seriam propostos? Conseguiria me adaptar? Eu, que me considerava um jovem cujo comportamento oscilava entre a displicência e a hiperatividade.

Até então questões como essas nem por um instante me haviam passado pela cabeça. Agora, uma vez naquele avião, após uma sequência quase involuntária de acontecimentos que me haviam conduzido ao embarque para longe, eis que tomo ciência de que era, a partir daí, tudo por minha conta e o máximo que meus pais podiam fazer agora por mim era unicamente rezar, além de torcer para que tudo corresse bem. A verdade é que nem eles e nem eu tínhamos noção do seria exatamente essa tal escola e o curso em que eu estava prestes a iniciar. As informações que me chegavam e àqueles jovens que comigo prestaram o concurso eram sempre bastante vagas, imprecisas, incompletas… “Estude por conta do governo federal”… “Força Aérea Brasileira”… “Escola de Especialistas”.

Especialista de quê exatamente?

O panfleto dizia “fardamento igual a sargento, exceto nas divisas”. Então usaríamos farda, é isso? A única farda que a mente de estudante me mostrava no momento era a do colégio Augusto Meira. Alguém falou em sargento. Sargento: era isso que eu ia sair ao final. Dessa patente eu só lembrava do sargento Garcia, do seriado Zorro da tevê. Para mim a figura de um sargento me remetia imediatamente a um cara maduro, forte, sisudo, rígido, com um bigode imenso. E eu mal tinha dezesseis anos; dois anos depois, dezoito, e não me imaginava nada disso. Também lembro que me falaram em dureza, que o regime militar é exigente. Quem falara? Ah sim, meu padrinho Alberto. Passei a concentrar em meu Alberto, padrinho de crisma, um sujeito solteirão lá com os seus quarenta ou cinquenta anos. A idade não dava bem pra definir por causa de sua feição indígena, ele que era natural de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Era formado em Contabilidade, muita moral para um índio. Deixou cedo seu povo e foi estudar em colégio de freiras. Lembrei aí que ele falara num amigo que era tenente em Pirassununga. Pirassununga? Guaratinguetá? Nunca ouvi falar nessas cidades. O padrinho era um cara bem relacionado, condição bem útil naquele tempo.

E agora? Não dá mais pra voltar e desistir de tudo. Uma vez que estava naquele avião, o jeito era prosseguir.

Tamanha era a ansiedade que me dominava que nem dormir eu conseguia. Logo eu, um cara bom de sono. Desejei ter em mãos um bom livro ou mesmo uma revista para ler. Além de tudo, depois do avião ainda teria que pegar um ônibus para a tal cidade de Guaratinguetá. Quanto custaria a passagem e que horas partiria? E se eu me perdesse no Rio? Com tais insistentes pensamentos me povoando a mente, de repente notei que o avião perdia altitude…  olhando pela janela, via a paisagem mais definida, próxima. Pelo jeito o avião aproximava-se de alguma pista de pouso.

Diante dessas divagações meio confusas, com os olhos de hoje vejo que o indivíduo nada mais é que um prisioneiro. Um prisioneiro da sociedade que te impõe determinados comportamentos e regras; um prisioneiro das necessidades básicas que precisam ser satisfeitas; depois preso a outros objetivos, prisioneiro de um agente poderoso — o Estado, da família que te cobra atitudes coerentes com que essa mesma sociedade preconiza. Esse aprisionamento, que te transforma (para o bem e para o mal),  vai trabalhando devagarinho tua vida e tua personalidade sem que tu ao menos percebas. Existe alguém totalmente livre?

Deixemos de divagações filosóficas e sociológicas. Pousamos em Carolina, Maranhão.

O escriba orgulhosamente empunhava a bandeira paraense

Parada técnica para reabastecimento.

Vi que os pilotos seguiram para uma sala, da qual somente muito mais tarde saberia o nome: Sala AIS. Nós, os passageiros, também descemos para espichar as pernas, toalete e comer alguma coisa, enquanto o mecânico permanecia para acompanhar o reabastecimento. Não comi nada. Não que estivesse sem fome, mas sim para economizar os poucos cruzeiros (talvez cem ou pouco mais) que meu pai havia me dado para as despesas imediatas. Deixaria para enganar o estômago em Brasília, a próxima escala.

Partimos rumo à capital federal.

Chegando lá, num dado momento, tomando coragem e procurando vencer a crônica timidez juvenil, aproximei-me do sargento-mecânico. Era um senhor de aparência simpática, talvez com seus 35 anos. Ele foi bastante gentil para comigo quando lhe perguntei sobre ônibus para chegar do aeroporto Santos Dumont até a rodoviária. Expliquei-lhe que meu destino final não era o Rio e sim Guaratinguetá, São Paulo. Cumprimentando-me pela convocação, deu-me informações certinhas: “Pegue o primeiro ônibus com o letreiro ‘Rodoviária Novo Rio’, não tem o que errar”. Agradeci.

Logo depois, procurei comer alguma coisa, mas com o cuidado de pedir o sanduíche mais barato. Para economizar o do refrigerante, comi o misto-quente a seco.

O trecho Brasília-Rio, bem mais curto, não me trouxe mais pensamentos inquietantes. Logo estávamos em procedimentos finais para o pouso na cidade que até dezessete anos  e alguns meses atrás sediara o poder federal. Da janela, procurava observar o máximo a paisagem da cidade que já conhecia pela tevê.

Peguei a malinha e, seguindo as orientações do sargento, procurei o ponto de ônibus mais próximo e para aguardar o primeiro coletivo que tivesse a placa “Rodoviária Novo Rio”.

Eram quatro e meia da tarde.

Assim que paguei a passagem, pedi ao cobrador que me informasse onde era a rodoviária, e ele fez um meneio de cabeça. Então, ia observando a paisagem e apontando mentalmente os pontos diferentes e os iguais  em comparação à minha cidade. Cheguei à conclusão de que havia mais pontos coincidentes do que estranhos. Lembrei logo dos livros de História que enfatizam a colonização portuguesa no Brasil e a arquitetura do Rio bem confirmava o que diziam os livros. Prestei também atenção em duas jovens, bonitas por sinal, que sentavam à minha frente. Iam elas descontraidamente conversando, enquanto eu observava o sotaque, não vendo nada de diferente em relação à maneira como nós falávamos naquela época, salvo uma ou outra gíria. O cobrador me dá o sinal avisando que eu descesse na parada seguinte: “Aí, xará!. A rodoviária é na próxima parada!”.

Agradeci.

Na rodoviária Novo Rio, atento ao horário já avançado, quase noite, fui correndo com os olhos os guichês. Achei! Viação Sampaio. Fui lá e comprei passagem para o próximo ônibus que saía às seis da tarde. Já passava das cinco. Com o bilhete no bolso, procurei um banco vago e sentei segurando com firmeza a minha mala pelo medo de ser roubado. Ao cabo de poucos minutos a cabeça me torna a rememorar todos os lances do longo dia, desde quando acordei antes das cinco, o ônibus para o aeroporto, a chamada para o avião, o embarque, as horas que permaneci na aeronave… Esse breve descanso me dizia que estava exausto, cansado, muito cansado… Breve chegaria finalmente ao destino… exausto, cansado, muito cansado…

De repente acordei com alguém batendo no meu ombro esquerdo: “Rapaz, teu ônibus sai em cinco minutos.”

Continua…

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 21jan2021.

INICIAVA bem cedo para mim aquela longa e agitada jornada. Às cinco e meia da matina, em companhia de minha mãe e o velho Antônio Rodrigues, meu tio, encontrava-me na estação de passageiros do aeroporto, que naquele tempo era destacada da estação de voos comerciais. O avião da FAB, um Bandeirante administrativo estava lá no pátio estacionado, onde havia pernoitado. O mecânico de voo já o inspecionava, checando tudo o que era necessário para dar a aeronave como pronta para longa viagem a que se destinava, conforme ordem de missão, em procedimentos que mais tarde eu conheceria como pré-voo. O Bandera cruzaria o Brasil de norte a sul, sobrevoando seis Estados brasileiros, destino Rio de Janeiro, em minha primeira viagem aérea. Faria escala técnica em dois aeródromos: Carolina e Brasília.

O Garoto, tímido, ingênuo e simplório, estava por entrar num mundo estranho, diverso, distinto do que havia experimentado até então. Estaria preparado? Não. Dona Maria, porém, ficaria rezando pelo êxito do primogênito nas mais desafiantes questões e problemas que enfrentaria naqueles dois anos vindouros e também nos subsequentes.

Principiava o primeiro grande acontecimento da minha vida. Além de nascer e sobreviver, posso dizer, que ingressar na Aeronáutica em 1977, aos dezesseis anos, foi um fato extremamente marcante, um divisor de águas, uma grande experiência que durou trinta anos e cujos frutos colho até hoje. Todos os fatos seguintes, direta ou indiretamente, viriam em decorrência dessa vivência significativa na história do Garoto ingênuo, simples e pouco preparado intelectualmente, inocente de quase tudo, desprovido de qualquer maldade.

É de se supor, ao lerem estas linhas, que nutro uma relação dúbia, por vezes romântica e carinhosa, outras conflituosa e amarga com a instituição que me abriu as portas do mercado de trabalho, não me deixando desempregado um dia sequer. Realmente foi, como antecipei, uma relação tempestuosa, revezando altos e baixos, fases empolgantes e vitoriosas mescladas com períodos de dissabores e indiferenças. Os espinhos e pedras que me esperavam, que, aos trancos e barrancos, fui superando.

Foi assim em toda a minha vida.

Os acontecimentos foram me arrastando, de forma que o Garoto nada calculava ou planejava sobre o futuro, nem próximo nem distante. Até então nada me ocorrera um momento sequer sobre a vida futura, o trabalho, família, nada disso.

Ia ao sabor do vento e da vida.

Um dia minha mãe, a dona Maria, caminhava pelo centro de Belém quando recebeu da mão de alguém um panfleto. A propaganda dizia assim:

“Jovem, este é o seu caminho! Estude por conta do governo.”

Era uma propaganda irresistível, mais ainda para filhos de família pobre, que era o meu caso.

Naquele tempo os filhos eram obedientes aos pais e se minha mãe mandava estudar e prestar concurso não havia o que discutir. Matriculado num curso preparatório, que funcionava no antigo colégio Ciências & Letras, passei a devorar as apostilas de Português, Matemática e Ciências, dentro das minhas limitações intelectuais. Além de mim, na minha rua havia mais dois jovens: o Alcemir e o Raimundo, que também prestaram concurso para a Escola de Especialista de Aeronáutica, uma instituição sobre cuja existência antes jamais meus ouvidos sequer haviam escudado.

Dos três era eu talvez o menos preparado porém o mais aplicado aos estudos. No entanto, o grau de dificuldade dos exames intelectuais não me davam tanta esperança. O ginásio da Escola de Educação Física estava cheio e eu ouvia dizerem que poucos, em torno de cinco e ou seis do Pará, logravam êxito. Por isso foi uma surpresa quando vi meu nome na lista dos convocados para o exame seguinte: o psicoteste, famoso por reprovar tanta gente.

Nem ao menos desconfiei de que meus companheiros de concurso ficaram com ressentimentos ou inveja. Somente mais tarde fui saber.

Diziam que o teste se destinava a saber quem era louco ou se havia algum homossexual. Nada disso. Ocorre que as escolas militares chamavam sempre um número maior, de quinze a vinte por cento, de candidatos, todos em ordem de média de notas. Reprovados alguns e reunindo os quinhentos candidatos à matrícula, os demais com as menores médias seriam ignorados. Fiz os exames e a entrevista com o major Ênis, não sei se engenheiro, especialista ou aviador. Quando chegou a data, corri ao QG (era assim que chamávamos a sede do Primeiro Comando Aéreo Regional – I Comar) e, …

… para a minha decepção, meu nome não estava entre os dos dezesseis felizardos.

Continua…

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MEMÓRIAS de um escriba velho!

CHARLES Spencer Chaplin, o inigualável, em sua autobiografia, compreensivelmente omite fatos nada lisonjeiros sobre sua mãe, Hannah Chaplin, que concluiria seus dias sofrendo de graves problemas psiquiátricos. Charlie Chaplin pouco também falou, em consideração aos filhos Charles Chaplin Jr. e Sidney Chaplin, sobre sobre Lita Grey, sua segunda esposa, com quem viveu uma relação tempestuosa que culminou num divórcio escandaloso.  Foi por amor que Chaplin convenientemente “esqueceu” as verdadeiras e dolorosas razões pelas quais sua mãe findou seus dias mentalmente alienada, preferindo mencionar o estresse e a subnutrição.

Pudera!

Cruel seria exigir de um filho ou de um pai atitude diferente.

É por amor igualmente que “esqueço” alguns fatos a mim por demais dolorosos. Além — por que não dizer — da conveniência. Creiam que muitas lágrimas borraram as páginas do livro da minha vida. As mágoas que causei e as que sofri, reservo para a prestação de contas final com o Eterno.

Um abraço de mãe!

Sentindo o passar dos anos, é natural o homem sentir-se tentado a, de alguma forma, registrar para a história a sua passagem por este mundo, a menos que nada tenha feito de bom. No entanto, exceção feita a Brás Cubas, um defunto-autor, o show da nossa existência é permeado de lacunas. Por isso, enquanto costumamos enaltecer as virtudes e sorrisos, pouco revelamos sobre derrotas e prantos, eventuais ou frequentes que sejam. É compreensível essa forma de agir, porquanto a vida é como um grande livro contendo algumas (ou muitas) páginas sujas, que nós, discretamente,  destacamos, pondo-a à parte, numa gaveta onde somente os mais íntimos acessam.

A vida é um grande livro em três versões:

A nossa, a de outrem e a verdade.

Mas esta última só o Grande Escriba a conhece em plenitude. A cada um de nós somente são reveladas pouquíssimas parcelas à semelhança de frestas que permitem a passagem de alguns raios de luz.

Compreendam, pois, que escrever sobre si mesmo nunca foi tarefa fácil. Mais ainda se considerarmos a memória seletiva que insiste em obliterar os episódios mais doloridos da vida, preferindo abrir as páginas doces e ternas. Abrir o livro da vida exporia ao público, por mais fiel que possa o escritor ser aos fatos, versões parciais, à Dom Casmurro, por vezes tortas e certamente inacabadas, como uma fotografia desbotada pelo senhor tempo e corrompida pelas emoções.

Pois bem.

Principio a narrativa a partir de um marcante acontecimento.

Foi assim:

Continua…

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CLARICE Lispector!

Banhos de Mar

MEU pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?

Fonte: Google

De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum. Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo. Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.

Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer. Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária. No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.

O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele. Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça. Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.


A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?

Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

( http://claricelispector.blogspot.com/2008/01/banhos-de-mar.html )


“A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?”

Lindo. Simplesmente lindo!

Republicação de 22set.2019

L.s.N.S.J.C.!