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MEMÓRIAS de um escriba velho!

Continuação da postagem de 25jan2021.

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava.

“Esse rapaz vai perder a droga desse ônibus…”.

Leia também: Era uma vez

Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, amigo.

Viação Pássaro Marrom (fonte: O Especialista em Revista, jul1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado.

Enquanto o Viação Sampaio rodava pela Via Dutra rumo ao Vale do Paraíba, distraía-me observando a paisagem de campos e cidades.  Apesar do cansaço pela longa e agitada jornada, não tinha sono. Ainda mais em razão do susto do Rio de Janeiro, quando, sem querer, vencido pela exaustão, cochilei e logo estava totalmente entregue, prestes a perder o horário do transporte.

Embora desagradável, o medo é algo necessário à sobrevivência animal. E eu era um animal que precisava sobreviver a qualquer custo na selva em que então fora lançado.

Não fosse o gesto cristão daquele bom homem, fatalmente eu perderia o ônibus, contratempo que me faria também jogar no mato aquela oportunidade que, já nem esperando, se avizinhava ao alcance de minhas mãos. Sim. Sem dinheiro para mais uma passagem, nem imagino o que seria de mim naquele mato sem cachorro. Diante dum infortúnio de tal magnitude, que seria desse jovem de outro estado, sem parente nem derente ou conhecidos numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pouco dinheiro no bolso, e ainda por cima tímido? Imaginei depois que, pedindo apoio aqui e acolá e informando da minha condição de candidato a um concurso da Aeronáutica, a menção do nome dessa instituição acabaria por me conduzir ao quartel da FAB mais próximo, talvez o III COMAR. Ficaria por lá — imagino — vagando, filando a boia e dormindo onde pudesse por conta da caridade do comandante ou de algum chefe de gabinete por dias ou semanas, até que me mandassem de volta no próximo avião com destino ao Pará.

Provavelmente me fariam trabalhar em troca de comida e pouso, como, anos depois fui saber, acontecera com o piauiense Edmilson.

Foi assim:

Continua…

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Escritor paraense radicado no Paraná, Antonio Valentim é autor do livro "O País dos Militares e dos Bacharéis", ainda no prelo.
Passeia também pelo canal BLOGUEdoValentim!, do YouTube,
L.s.N.S.J.C.!

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