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CARMEN Miranda!

O BRASIL é um país cujo povo respira música.  Esta terra já produziu inspiradíssimos autores, prodigiosos musicistas e talentosos cantores, todos artistas de primeira grandeza, que, por gerações e gerações, vêm encantando, divertindo e fazendo mitigar a dor deste povo. Entre as intérpretes, destacamos a arte de Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Elis Regina, Gal Costa, Maria Betânia e várias outras. Nenhuma delas, porém, destacou-se em nossa história musical como Maria do Carmo Miranda da Cunha, que o mundo conheceu por Carmen Miranda, uma brasileira que não nasceu nem morreu nesta Terra de Santa Cruz.

Carmen Miranda, “A Pequena Notável”, a “Embaixatriz do Samba” e a “Brazilian Bombshell”, nasceu em Marco de Canaveses, Portugal, a 9 de fevereiro de 1909.  No ano seguinte, seu pai, o barbeiro José Maria Pinto da Cunha e sua mãe Maria Emília Miranda, em busca de melhores horizontes, emigraram para o Rio de Janeiro. Maria do Carmo não tinha um ano de idade; Amaro, seu tio, que gostava de ópera, apelidou a menina de Carmen.

Eram tempos bicudos.

Por isso, a necessidade – mãe da invenção – cedo trouxe ares de independência à jovem Carmen. Enquanto seu pai cuidava da barbearia e dona Maria administrava uma pensão, ela, aos 14 anos, empregou-se numa loja de gravatas e, mais tarde, numa chapelaria. Inspirando-se em Olinda, sua irmã mais velha, gostava de cantar o tempo inteiro, mesmo no trabalho, o que ajudava a atrair clientes para a chapelaria, embora os sisudos patrões não aprovassem a ideia. Na pensão, para deleite dos fregueses, ela cantarolava ao servir às mesas. Porém, a clientela da pensão de dona Maria Miranda, que funcionava à Travessa do Comércio nº 13, centro do Rio, sequer suspeitava que aquela mocinha risonha e cantante viesse a se tornar a maior estrela musical do rádio brasileiro, muito menos ainda que Carmen viesse a ser o maior nome brasileiro a brilhar nos palcos e telas dos Estados Unidos da América, feito que jamais seria repetido por nenhum outro artista deste hemisfério.

Entre a chapelaria e a pensão da família, Carmen queria mesmo era ser cantora profissional. Em 1926, ela, porém, ainda não sabia que reunia em si todas as condições que viriam a torná-la uma estrela de máximo brilho, levando-a à fama e à fortuna: era bonita, charmosa, inteligente, extrovertida, independente, de voz melodiosa e sabia cantar. Um dos frequentadores da pensão de dona Maria era o deputado baiano Aníbal de Oliveira, que em 1928 apresentou Carmen ao músico Josué de Barros, também baiano, que trabalhava na Rádio Sociedade Roquete Pinto. No teste que fez ao compositor, em vez do sucesso popular “Jura”, que estava na boca do povo, ela cantou a música do outro lado do disco: a brejeira e quase desconhecida “Chora, violão”. Após a apresentação que fez, a adolescente dirigiu-se cerimoniosa a Josué: “Estou encantada com a maneira como o senhor me acompanhou nesta toada.” E o modesto Josué: “É que eu sou o autor da letra e da música…”. Ora, inteligente como era, é muito provável que Carmen já soubesse que Josué era o autor da canção, por isso a tenha escolhido. Assim conquistava de vez o compositor e produtor musical, que a protegeria, como um pai, nos primeiros passos artísticos.

Veio a década de 1930 e, com ela, o florescimento do rádio, veículo que, protegido pela gestão da ditadura Vargas, invadia os lares da maior parcela da população urbana brasileira, até então carente de entretenimento. E isso a ajudou – o talento na época certa e no lugar certo, o Rio de Janeiro, que era a capital da República e o centro cultural do país. No rádio, o prestígio de Carmen Miranda só era equiparável ao de Francisco Alves, o “Rei da Voz”. Surgiriam então os Cantores do Rádio.

Com as bênçãos de Josué de Barros, a cantora estreou com o samba “Não vá simbora”, do próprio Josué, pela desconhecida gravadora alemã Brunswick. Logo, porém, transferiu-se para a RCA Victor. E foi aí que gravou em 1930 “Taí – Pra você gostar de mim”, de autoria de Joubert de Carvalho, marchinha carnavalesca que vendeu 35 mil cópias, um recorde absoluto numa época em que vender mil discos já era considerado um êxito. Da noite para o dia, Carmen era aclamada como a “maior cantora do Brasil”, famosa de norte a sul.

Seu prestígio artístico era tanto que foi a primeira cantora a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio, num tempo em que o normal era os artistas receberem um cachê por participação. Entre 1932 e 36, passava a receber da Rádio Mayrink Veiga o extraordinário salário mensal de dois contos de réis.

Dos estúdios de rádio para os palcos, e dos palcos para as telas. Tudo foi acontecendo rapidamente na vida de Carmen.

Dançarina, recriou a música brasileira com sua peculiar expressão corporal e facial, recursos que agregavam malícia insinuante às letras musicais, inovações que rapidamente caíram no gosto popular. Numa sociedade conservadora, como a da década de 1930, Carmen foi a primeira a fazer do corpo um instrumento de comunicação, sendo – para usar um surrado clichê – uma mulher muito à frente de seu tempo.

Logo passou a ser a artista brasileira que mais viajava para o exterior, levando o título de “A embaixatriz do samba”. Já antecipando sua vocação cosmopolita, somente para a Argentina ela e sua irmã Aurora fizeram sete viagens na década. Lá, elas também cantavam tangos e eram conhecidas por “Las Hermanas Miranda”.

Carmen Miranda desenhava seu próprio figurino, tendência que só se concretizaria muito depois em que artistas pop passariam a dispor de equipes de profissionais para cuidar da sua carreira. Na vida privada, Carmen se mostrava sempre divertida e simples; era comum ela contar piadas de papagaio e dizer palavrões contextualizados. Conta-se que Carmen, ao cruzar no corredor da Brunswick com um alemão gordo, tocou-lhe no abdômen avantajado e disse “Chopp, não é?!”. O germânico era simplesmente o diretor da gravadora.

Diante de sua performance e do extraordinário êxito alcançado, não é exagero dizer-se que hoje, comparativamente, Carmen Miranda estaria no mesmo patamar que estrelas consagradas como Madonna e Beyoncé e outras grandes artistas da música pop.

Havia na década de 1930 um calendário musical bem definido e que as gravadoras aproveitavam para lançar seus discos: carnaval, quadra junina e Natal. Na quadra carnavalesca eram lançadas marchinhas, uma vez que o samba, antes marginalizado, com Carmen caía definitivamente no gosto de todas as camadas sociais. Eram garantia de êxito a voz e os recursos expressivos de Carmen Miranda, já que a artista penetrava igualmente no morro e nos salões elegantes, sendo indistintamente bem recebida pelo povo e pela alta sociedade.

Na quadra junina, a voz, a ginga e a alegria espontânea de Carmen deram vida às marchinhas “Chegou a hora da fogueira” e “Isto é lá com Santo Antônio”, em dueto com Mário Reis, obras musicais de Lamartine Babo até hoje lembradas.

Ainda nessa mesma década, não só a voz, mas a imagem de Carmen passaria a ser bastante requisitada e conhecida por meio do incipiente cinema falado, cujas produções brasileiras se resumiam a projetar os cantores de rádio mais conhecidos, garantindo bilheteria.

Em apenas uma década, para a artista convergiram mais de uma centena de compositores – conhecidos e desconhecidos. Entre eles: Joubert de Carvalho, Assis Valente, André Filho, João de Barro, Lamartine Babo, Ari Barroso, Dorival Caymmi, Josué de Barros, Noel Rosa e Synval Silva, bambas que concorriam entre si para terem suas músicas interpretadas por Carmen Miranda, como absoluta garantia de êxito. Cantaram com Carmen duas dezenas de cantores como Almirante, Aurora Miranda, Mário Reis, Francisco Alves, Sylvio Caldas, Luiz Barbosa, além de grupos como os “Diabos do Céu”. Carmen foi acompanhada musicalmente por verdadeiros mestres: Pixinguinha, Benedito Lacerda, Rogério Guimarães, Josué de Barros, Luperce Miranda, Laurindo de Almeida, Luiz Americano, Garoto, e ritmistas como os seis rapazes de ouro que compunham o Bando da Lua. Ao todo foram 281 músicas, sendo duas pela Brunswick, 150 pela RCA Victor e 129 pela Odeon. Nenhum artista, antes e depois de Carmen, teve em tão pouco tempo uma produção musical tão expressiva.

Diante disso, logo o Brasil ficaria pequeno para Carmen Miranda.

Em 1939, nos dias que antecederam o carnaval de 1939, quando se apresentava no Cassino da Urca, estilizada de “baiana”, e acompanhada pelo Bando da Lua, Carmen Miranda chamou a atenção do norte-americano Lee Schubert, um milionário produtor teatral que administrava mais da metade dos teatros da Broadway, sendo ao todo mais de cem teatros nos Estados Unidos. Assediada, Carmen, porém, fiel à sua brasilidade, não concordou em se transferir sozinha para a América do Norte. Fazia questão de levar consigo o brasileiríssimo grupo Bando da Lua, seis rapazes que acompanhavam a artista no Cassino. O ricaço, porém, não compreendia tal necessidade, já que nos Estados Unidos havia milhares de músicos profissionais, 14 mil deles desempregados. Todavia, Carmen sabia que sem os músicos brasileiros a sua arte não teria o mesmo brilho e o samba em terras estrangeiras corria risco de se transformar em rumba ou outro ritmo caribenho, levando-a ao fracasso.

 Após gestões junto a Alzira Vargas, foi então em 4 de maio de 1939, Carmen Miranda e o Bando da Lua puderam seguir rumo ao sucesso na Broadway e em seguida a Hollywood, onde mostrariam aos gringos não só “o que a baiana tem”, mas o que os artistas brasileiros tinham (e têm) de melhor, encarnando a nossa brasilidade como ninguém até hoje fez. Iniciava aí a segunda (e exitosa) fase da carreira de Carmen, agora, além de cantora, também atriz cômica, consolidando-se com a maior divulgadora da música brasileira.

Houve, porém, outro problema que muito magoou a artista.

Embora a exótica “baiana” tenha agradado aos norte-americanos, Carmen despertou polêmica entre os brasileiros, ao apresentar-se com suas vestes estilizadas e o bizarro arranjo de frutas tropicais que carregava sobre a cabeça – marcas definitivas de sua imagem. Com isso, Carmen Miranda acabaria por expor ao mundo uma visão caricata e estereotipada do Brasil, chegando a ser, por isso, hostilizada pela intelectualidade brasileira, pois ela mostrava a imagem da mulher sul-americana associada a frutas tropicais, o que reforçava o preconceito dos ianques, que tratavam os países da América do Sul como “repúblicas de bananas”. Essa imagem se tornou a personificação de um exotismo latino-americano genérico, que foi abraçado como singular e peculiar pelo público dos EUA, mas rejeitado como inautêntico por intelectuais brasileiros.

Não era nenhum favor o interesse do magnata estadunidense pela brasileira. Enquanto esteve presa por contrato exclusivo a Lee Schubert, este lhe exigia cinquenta por cento de toda a sua renda em shows e noutros compromissos. Quando a Fox se interessou por ela, Schubert vendeu o contrato por uma fortuna. Ainda assim, logo Carmen compraria uma casa em Beverly Hills, enviando também quarenta mil dólares para a família. Mandou buscar a mãe, dona Maria, para lhe fazer companhia na Califórnia.  

Mas toda a glamourização, o êxito artístico, a fama e o dinheiro findam por cobrar seu preço. Como dizia o chorinho cantado pela própria artista, “tudo o que é bom, um dia há de acabar”. E a alegria, fruto da espontaneidade, foi aos poucos no espírito da artista cedendo lugar exclusivamente às obrigações públicas, compromisso excessivos que – somados à saudade do Brasil – trouxeram à artista a tensão, a estafa, o desânimo, a infelicidade.

Em 1952, Carmen e sua equipe fizeram uma excursão à Europa. Somente na Itália Carmen apresentou-se em catorze cidades no período de um mês. Viagens de trem, esperas nas estações, recepções, entrevistas e homenagens, restando pouquíssimo tempo para descanso; nenhuma oportunidade de conhecer a Europa em passeio a museus, catedrais, andar de gôndolas… Carmen, acusada injustamente de não se interessar pela cultura, não tinha disposição para mais nada. Para entrar nos palcos e desempenhar o trabalho que exigia de si mesma, a artista precisava recorrer a anfetaminas – e em intervalos de tempo cada vez menores. Em Helsinque, num almoço oferecido pela embaixada brasileira, Carmen embriagou-se ao ponto de ao despedir-se da embaixatriz, abraçando-a, levá-la consigo ao chão – um vexame sem precedentes.

Do livro de Abel Cardoso Júnior:

“Não paro de trabalhar há catorze anos. Minha vida tem sido uma correria dos diabos. No ano passado estive na Itália. Desde que voltei aos Estados Unidos, depois de viagem à Europa, não pude parar, trabalhei demais. Fiquei doente por isso.”

Carmen era infeliz no casamento com David Sebastian – e disso, sob efeito das primeiras doses de uísque, não fazia segredo a ninguém. Por qualquer coisa, embriagava-se e, em instantes, ia do riso às lágrimas com facilidade. Seu casamento com o norte-americano se deu em 1947. Antes disso, Sebastian era um simples auxiliar de produção, enquanto Carmen era artista consagrada, uma das mais bem pagas de Hollywood; mas, com o casamento, Sebastian foi promovido a um voraz e insaciável agente de Carmen Miranda. Ele próprio era também alcoólatra e costumava humilhar a esposa, levando-a enveredar em direção ao traiçoeiro refúgio no álcool. Esgotada pela exaustiva agenda de compromissos contratuais que Sebastian lhe impunha, Carmen não demorou a usar barbitúricos e outros “remédios”.

Com César Romero

O coração de Carmen parou na manhã de 5 de agosto de 1955, aos 46 anos. O Brasil perdia sua maior estrela. Sua voz e sua imagem sorridente, porém, registradas em disco e em filmes com alegres interpretações musicais, coreográficas e teatrais, ficaram para nós como um inigualável legado dessa luso-brasileira, que foi, numérica e qualitativamente, o maior nome musical brasileiro de todos os tempos.

Fontes:

1) CASTRO, Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

2) JUNIOR, Abel Cardoso. Carmen Miranda: a cantora do Brasil. São Paulo: Helvética, 1978.

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Escritor paraense radicado no Paraná, Antonio Valentim é autor do livro "O País dos Militares e dos Bacharéis", ainda no prelo.
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