A FAB e o governo JK!

Continuação da postagem de 27maio2020.

A UDN (sigla para União Democrática Nacional) e a elite social e econômica brasileira ainda terá que suportar uma terceira derrota, antes que finalmente chegue ao ambicionado poder político. Mesmo morto, Getúlio consegue impor a seus adversários, mediante a coligação entre PSD, PTB e mais quatro partidos, a vitória do médico Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, ex-prefeito e governador de Minas Gerais, nas eleições presidenciais de 1955. JK derrota assim a Juarez Távora, candidato da UDN, a Adhemar de Barros, do PSP, e Plínio Salgado. Juscelino foi favorecido por este último, que tirou votos de Távora.

Aí já é muita desmoralização. Chegam a pensar que o raivoso partido de extrema-direita jamais conseguiria, pelo voto, chegar ao poder. Nas hostes da UDN a ordem era combater sem tréguas JK. Carlos Lacerda, adaptando a célebre frase antes dita sobre Getúlio, chega a declarar:

Esse candidato não deverá vencer essas eleições; mas se vencer, não tomará posse; se tomar posse, não governará”.

Pois sim. JK não só vence, como governará como ninguém jamais havia feito antes. Tendo como programa de governo 31 metas, construiu uma cidade a partir do nada, concretizando o lema de seu governo: “Cinquenta anos em cinco”. Entre os apoiadores de Juscelino, estavam os comunistas, o que contribui para mais acirrar os ânimos dos opositores, incluindo a classe militar e o clero. Apesar dessas flagrantes adversidades, há gente de bem entre os homens de farda. Graças a um deles, o general legalista Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, que a posse de JK é garantida. O militar em 11 de novembro de 1955, ao depor o presidente interino Carlos Luz, aborta um golpe que estava em curso. Luz era portador de uma conspiração que consistiria simplesmente em não dar posse ao recém-eleito, tendo como alegação o fato de o candidato não ter conquistado a maioria dos votos válidos. Acontece que, pela legislação eleitoral da época, as eleições ocorriam em turno único. Assim, em face da conspiração delatada por Lott, o parlamento afasta Carlos Luz para dar posse ao vice-presidente da Câmara, Nereu Ramos, que assume a presidência enquanto JK não toma posse do cargo, o que ocorrerá em 15 de janeiro de 1956.

JK e a hostil oficialidade da Aeronáutica (imagem: Google)

É claro que a oposição não se dá por vencida. Sob estado de sítio, JK toma posse. Não tendo nem um mês de governo, porém, sobrevém uma tentativa de levante militar com o fim de derrubá-lo. E a força protagonista foi exatamente a Aeronáutica.

É 11 de fevereiro de 1956, exatamente três meses depois do contragolpe perpetrado pelo general Lott. O movimento militar que ficou conhecido como a Revolta de Jacareacanga é uma das duas rebeliões que têm como objetivo derrubar o governo de Juscelino. A outra ocorrerá em dezembro de 1959. Em vez de brigadeiros e coronéis, o líder do movimento é um simples major. Haroldo Coimbra Veloso, major-aviador engenheiro, é esse homem; e o capitão-aviador José Chaves Lameirão, seu lugar-tenente. Fique claro que eles não estavam sozinhos, mas os outros, que lhe dariam suporte, ha hora agá roem a corda, como se diz popularmente.

Com base nos documentos que me chegam às mãos e também munido de algum espírito literário, passo a narrar os fatos. Tudo aconteceu mais ou menos assim:

Major Veloso e capitão Lameirão, representando o grosso da oficialidade da FAB hostil à política nacionalista de Juscelino Kubistchek, protagonizaram a chamada Revolta de Jacareacanga. (imagem: Google)

Desde a Ditadura Vargas (Estado Novo) há a intenção governamental no sentido de desenvolver o país além do tratado de Tordesilhas, ou seja, promover a ocupação do Brasil em seu interior e na região amazônica como forma de garantir a integridade territorial nacional. Com o advento do Ministério da Aeronáutica, reunindo toda a equipagem e o pessoal da aviação militar do Exército e a aviação naval, a FAB vê-se naturalmente impelida a juntar-se a esse projeto de interiorização, considerando que o avião é, por assim dizer, essencialmente integrador, um equipamento encurtador de distâncias. Então, em 1953 Nero Moura manda ampliar as pistas de pouso já existentes e construir outras, de forma a permitir a operação de aeronaves civis e militares e médio e grande porte. Veloso, que então serve no Gabinete do Ministro, décimo segundo andar,a algumas salas de onde Nero trabalha, é o oficial a reunir em si todas as condições para levar a efeito uma empresa de tal porte, pois é aviador e engenheiro, além de inteligente e discreto. É incumbido então pelo ministro para a construção dos aeródromos militares de Aragarças, Jacareacanga e Cachimbo. Por maior facilidade, o oficial está aí perto do próprio ministro, em cuja sala tem liberdade de entrar e sair a quase todo momento. Ninguém melhor, portanto, que Veloso para ficar à frente dos trabalhos: planejamento (no âmbito do próprio Gabinete) e execução, em campo aberto no meio da selva amazônica.

A construção desses aeródromos, portanto, são, nessa época, de fundamental importância logística, operacional e estratégica, uma vez que servem de apoio à aviação na rota Brasil – Estados Unidos, bem como no âmbito do Correio Aéreo Nacional a rota Rio de Janeiro – Manaus, cortando o país pelo interior e não pelo litoral, como antes, com o avião ganhando assim preciosas horas de voo e economizando meios, consequentemente. Unindo o útil ao agradável, esses trabalhos permitem ao Major Veloso conhecer bem a região central brasileira e a Amazônia, além de o militar, por ser um sujeito carismático, granjear rapidamente a simpatia dos civis e indígenas que com ele trabalham na construção dessas pistas de pouso e estradas. Todas essas circunstâncias, mais tarde, lhe viriam a ser bastantes úteis em seus objetivos políticos.

O que, no entanto, Nero Moura e alguns brigadeiros desconhecem é que Haroldo Veloso faz parte ideologicamente do grosso da oficialidade da Aeronáutica, representando principalmente os mais jovens egressos da classe média, descontentes com o regime desde a primeira derrota do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1945, e, portanto, sensíveis às pregações udenistas. Uma vez designado para servir a um governo com o qual não se afina politicamente, não lhe resta outra alternativa a não ser aceitar a missão. Primeiro que não é dado a oficial de carreira recusar ordem superior (principalmente se o oficial é o ministro-chefe da força), sob pena de vir a ser perseguido por seus superiores hierárquicos, e, assim, ter sua própria carreira prejudicada. Era um convite irrecusável, como se diz na caserna. Ademais, a nomeação representa uma oportunidade de acompanhar, mais de perto, o movimento: quem entra, quem fala, o que acontece. Eduardo Gomes, que, durante toda gestão de Nero, não exerce cargo oficial algum, mantém-se discretamente, em sua residência, sempre bem informado, portanto.

Desde a década de 1930, os governos nacionalistas de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek tinham em mente interiorizar o país. É aí que entra a FAB com a construção de alguns aeródromos. Sob a liderança do major Veloso, foram construídos os aeródromos de Aragarças, Jacareacanga e Cachimbo. (imagem: Google)

Para essa oficialidade hostil a Getúlio e, agora, a JK, Veloso é o homem ideal para suas pretensões conspiratórias: é do mesmo lado ideológico e, por força de suas funções oficiais, conhece o interior do país.

Assim, em 1956, Veloso lidera a Revolta de Jacareacanga, lugarejo situado no município de Itaituba (PA), próximo à fronteira com o Amazonas, a 300 km de Manaus em linha reta e 350 quilômetros de Santarém, via rio Tapajós.

Quem é Veloso?

O major-aviador Haroldo Coimbra Veloso é carioca, magro e aloirado, característica física que, diferenciando-o da maioria dos brasileiros, o tornava parecido aos galãs do cinema norte-americano, embora do tipo caladão. Com dezoito anos de idade, ingressa no Exército Brasileiro, matriculando-se na Escola Militar do Realengo. Recém-criado o Ministério da Aeronáutica, ele, já com dois anos de Realengo, requer transferência para a Escola de Aeronáutica, formando-se em Engenharia Aérea, vindo a ser declarado aspirante-a-oficial em setembro de 1942.

Mas voltemos ao dia 11 de fevereiro de 1956.

É carnaval de 1956. A marchinha “Quem sabe, sabe”, de Joel de Almeida, faz enorme sucesso nas rádios cariocas.

Quem sabe, sabe, conhece bem / Como é gostoso gostar de alguém / Ai, morena, deixa eu gostar de você / Boêmio sabe beber / Boêmio também tem querer

Essa época será marcante para a vida do major Veloso e de seu correligionário de ideais, o capitão-aviador Lameirão. Tanto podem tornar-se heróis, como podem acabar seus dias na cadeia, como vilões, traidores, ou até mesmo mortos, dependendo do êxito ou do fracasso da empreitada a que estão prestes a meter-se até o pescoço. É matar ou morrer.

Mas por que agora, sábado em pleno carnaval, chefe?”, indagou outro dia Lameirão. “Você sabe de outra data melhor, amigo Lameirão, quando as sentinelas estão mais distraídas?” E, como Lameirão tenha se demorado na resposta, Veloso responde: “A outra data será somente no ano que vem, mas até lá Juscelino já terá mostrado a que veio, e nós teremos perdido a oportunidade de livrar o país desses caras.”, e completa: “É agora ou nunca”.

JK e a Revolta de Jacareacanga, em 1956 (imagens: Google)

Com efeito, para a UDN, para o grosso da oficialidade militar e para as elites conservadores brasileiras, passado um ano de governo JK, já será demasiado tarde. Têm na ponta da língua o discurso pronto de que Juscelino, herdeiro político de Getúlio, necessariamente fará um governo desastroso em que vai imperar a corrupção financeira e moral. No íntimo, porém, temem exatamente o oposto: JK pode fazer uma boa administração, caindo no gosto do povo, e aí será muito mais complicado para a UDN chegar ao ambicionado poder.

Chega o sábado gordo, que por iniciar um feriadão é o dia mais indicado para se executar uma missão de tal monta. As características daquela semana tipicamente carioca, conforme a convicção dos dois oficiais, facilitaria o plano que vinha de há algum tempo amadurecendo na cabeça de Haroldo Coimbra Veloso e na de seu fiel escudeiro José Chaves Lameirão. Com efeito, pela cultura do povo carioca, no carnaval, a guarda, em sua maioria jovens de dezenove, vinte anos, não se concentra plenamente no serviço de guarnecer o quartel, e o próximo expediente só se dará na tarde da próxima quarta-feira, sendo para os comandantes militares, pelas dificuldades de logística da época, muito complicado mobilizar a tropa nesses dias. Somando-se a essas peculiaridades, o capitão Lameirão, que então pertence ao efetivo do Parque de Aeronáutica dos Afonsos, goza de livre acesso ao quartel. Ele sabe que a guarda tem por doutrina o reconhecimento fisionômico de todos os oficiais da Unidade, franqueando-lhe prontamente o ingresso ao quartel, sem questionamentos.

Pois bem.

Na madrugada desse sábado de carnaval, menos de um mês da posse de JK e sua equipe de governo, o major Veloso e o capitão Lameirão dão início à execução do plano. Após Lameirão responder à continência de armamento executada pela sentinela da guarda, os oficiais ingressam no Parque de Aeronáutica dos Afonsos, subúrbio do Rio de Janeiro, e dirigem-se ao hangar, onde se apoderam de um avião de combate: um Beechcraft AT11, matrícula 1523. Entram no hangar por uma porta secundária e abastecem o o avião com armamento, munição, combustível e força. Mas aí sobrevém um contratempo: a porta principal do hangar está trancada, em vez de semiaberta como Lameirão a deixara na véspera, já na noitinha anterior. Isso impede de retirarem o avião de dentro do hangar, frustrando todo o planejamento de meses.

Provavelmente o oficial-de-dia, um daqueles tenentes caxias, por zelo, ou mesmo porque o comando já o havia prevenido, em suas rondas noturnas, ao observar o desleixo, tenha mandado fechar o hangar. É então necessário arrombar a porta principal, mas o barulho acaba por chamar a atenção desse mesmo oficial-de-dia, que, não tendo descansado, em ronda de rotina, se aproxima do local. Antes que este comece a fazer perguntas indiscretas, Veloso e Lameirão apontam para a sua cabeça uma pistola 45mm, prendendo-o numa das salas internas do hangar, impedindo que ele dê o alerta. No entanto, de fato o comando, já alertado de que algo estranho poderia vir a ocorrer, havia designado um oficial para, à distância segura, impedir o taxiamento de qualquer aeronave não autorizada, atirando nos pneus. Ocorre que, por alguma razão, essa providência não foi levada a efeito pelo oficial incumbido, conforme apurar-se-á em breve no competente inquérito (IPM). Veloso e Lameirão conseguem movimentar o avião para deixá-lo em condição de alçar voo, mas a operação da aeronave ao taxiar leva à desconfiança da torre de controle que não autoriza a decolagem.

A continuar…

Referências:

  1. COSTA COUTO, Ronaldo. O Essencial de JK: visão e grandeza, paixão e tristeza. São Paulo: Planeta, 2013.
  2. MOREIRA, Pedro Rogério. Bela Noite para Voar: um folhetim estrelado por J.K.. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Juscelino_Kubitschek
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_Coimbra_Veloso
  5. http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/haroldo-coimbra-veloso
  6. https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/haroldo_veloso
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/José_Chaves_Lameirão
  8. Visão pessoal do autor.

L.s.N.S.J.C.!

O FUTURO do pretérito!

O que será do amanhã /

Como vai ser o meu destino…

João Sérgio (samba-enredo da G.R.E.S. União da Ilha – 1978)

OS FILMES e romances que tratam de ficção científica têm o dom extraordinário de fascinar os jovens e os não tão jovens, em especial os que cuidam de coisas do futuro, que são a grande maioria. Tem sido assim desde que o francês Júlio Verne inaugurou sua vitoriosa carreira literária ao publicar Cinco Semanas em um Balão, dando sequência a tantas outras obras futurísticas como Vinte Mil Léguas Submarinas, Viagem ao Centro da Terra e Volta ao Mundo em Oitenta dias. Não à toa seus livros foram traduzidos para 148 línguas, tal o interesse que despertaram, e despertam ainda hoje, no público em geral. Quase todas as teorias de Verne, que então significavam apenas ficção, imaginação e loucuras, viriam em breve a transformar-se em realidade, daí a importância do escritor até hoje.

Júlio Verne (fonte: Google)

Com a invenção do cinematógrafo, pelas mãos e mentes prodigiosas dos irmãos Lumiere, também franceses, que viabilizou o Cinema, para cuja popularidade muito contribuíram os filmes mudos de Chaplin (já amplamente mencionado nestas páginas), a ficção científica veio mais e mais ainda a atrair multidões, com isso deixando milionários produtores, cineastas, roteiristas e atores da poderosa indústria do entretenimento.

De todas as obras da Sétima Arte, para nós a mais atraente e bem produzida é a trilogia De Volta Para o Futuro (1985, 1989 e 1990), dirigida por Robert Zemeckis, um filme que arrecadou a bagatela de 380 milhões de dólares norte-americanos somente no primeiro ano de seu lançamento. O enredo gira em torno do adolescente Martin McFly (Michael J. Fox), que em 1985 embarca num automóvel-máquina do tempo, inventada pelo cientista Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd). Acidentalmente o jovem volta trinta anos no tempo, de forma que, uma vez lá no passado, acaba por influenciar na vida de seus pais.

Robert Zemeckis (fonte: Google)

O que há de especial nessas obras? Diferente das de Verne, que, de início apenas imaginação, depois vieram a concretizar-se, e dos filmes populares de antes, que focavam no futurismo fantasioso e irrealizável, De Volta Para o Futuro — um filme cujo enredo é também fantasioso e irrealizável — provoca-nos a vontade de voltar no tempo e mudar o curso da nossa própria história. Quem nunca se perguntou: “E se eu pudesse voltar no tempo e mudar tudo isso que vivo agora?”.? Mas logo, caindo na real, você começa a questionar a existência de seus filhos, seus amigos, sua vida profissional e afetiva, ou seja, tudo o que de bom e de ruim ocorreu ao longo de todos os anos vividos, e vê simplesmente que mudar o curso de sua existência e tudo o que ocorreu em função dela mexe com a vida de tudo e de todos. Mas já imaginamos se os outros resolvessem fazer o mesmo?

Dentre o passado, 1955, o presente (no filme, 1985) e o futuro (o longínquo 2015), o que mais nos impressionou não foi o passado — que já conhecemos — nem o futuro, que na ocasião não conhecíamos. Para recriar o passado, Zemeckis e equipe tiveram apenas que reproduzir imagens de livros, jornais, revistas, teatro e filmes da época; já para o desconhecido futuro caem nos mesmos erros de seus predecessores, imaginando que hoje teríamos carros voadores e coisas do tipo. O que nos chamou a atenção foi quando, em 2015, o personagem Biff Tannen (Thomas F. Wilson), o vilão da trilogia, já idoso e fracassado, apossa-se de um almanaque e retorna ao longínquo 1955 com a intenção de refazer sua vida. De volta ao passado, oferece ao jovem Biff (ele mesmo, sessenta anos atrás) a tal publicação onde estão publicados todos os resultados esportivos do país durante os cinquenta anos seguintes.

Biff é de personalidade arrogante, violenta, egocêntrica, um jovem limitado intelectualmente, cuja rotina é ocupar-se sistematicamente em importunar as garotas e intimidar os psicologicamente mais fracos, como aquele que viria a ser o pai de Martin, em 1955 um adolescente inseguro e tímido. Na vida adulta, o sacripanta teria dois caminhos a seguir: viver o restante de seus dias como parasita a explorar outros sujeitos, como George McFly, a quem ele controla, ou então seguir a vida como um trabalhador humilde, ou seja, um fracassado — na cultura estadunidense.

Não sendo capaz de enriquecer por meios lícitos, o jogo se apresenta como a única maneira de ele se tornar endinheirado e poderoso, mudando sua sina.

De Volta para o Futuro (fonte: Google). Quais as consequências de se viajar no tempo?

Tendo visitado o futuro, Martin McFly retorna a 1985, época em que o adolescente vive com os pais, irmãos, e tem uma namorada. De volta, é surpreendido ao encontrar uma cidade semidestruída e abandonada, quase em nada lembrando a bucólica Hill Valley, Califórnia. Seria um pesadelo?

O que aconteceu então? Biff Tanen, de posse do almanaque que ele próprio entregara a si mesmo, passa continuamente a apostar nos vencedores, resultando que, em pouco tempo, ele vem a adquirir imensa fortuna e daí a conquistar o poder na cidade. Todo o presente (1985) — dele e de todos os habitantes da cidade — é alterado. Biff, um tirano, torna-se o dono de tudo, inclusive da polícia e das demais autoridades públicas. Sob seu domínio, a cidade de Martin, antes pacata porém progressista, transforma-se num caos. Os habitantes da fictícia Hill Valey, Califórnia, vivem agora sob as trevas da intranquilidade, sem direitos nem paz, com o filme apresentando-nos um cenário de ruas e calçadas cheias de lixo, muros e paredes pichadas, violências, incêndios, miséria, prostituições, corrupção, infelicidades, sem escolas e hospitais. A polícia só existe para perseguir a população em vez de protegê-la, tudo em função dos interesses de Biff, que em nada se importa a não ser consigo mesmo e seus negócios que não cessam de prosperar. Para piorar, o milionário “conquista” Lorraine, a mãe de Martin, depois de lhe ter assinado o marido, George McFly.

De tudo é possível retirar ensinamentos. Diante do cenário fictício provocado com a irrealizável viagem no tempo, formulamos as seguintes indagações:

1) Para formar um milionário quantos miseráveis são necessários?

2) Qual a linha divisória entre o policial e autoridades corruptas e o malfeitor?

3) Qual será uma sociedade quando suas autoridades públicas consideram desperdício investir em áreas sociais?

Essa situação de desordem geral obriga o jovem Martin McFly a retornar no automóvel-máquina do tempo novamente a 1955 a fim de recuperar o tal almanaque e assim evitar que seu maior inimigo se torne poderoso, salvando o futuro dele e da cidade.

Alguns ensinamentos nos dão a fictícia trama. Sendo possível viajar no tempo, ninguém o faria impunemente. Seria impossível prever o desenrolar dos acontecimentos futuros, sem controle algum sobre os fatos. Os indivíduos não se contentariam com apenas o poder econômico; este, uma vez conquistado, o próximo seria o poder político; depois, a tirania. O poder corrompe pelo bem (corrupção financeira e moral propriamente dita) ou pelo mal, a violência. De início, o bem-estar social é negligenciado; mais tarde, combatido, pois os recursos existentes precisam ser direcionados para satisfazer as ambições do sujeito ou grupo dominante, deixando a população faminta à própria sorte. Por último: o que passou, passou, e o presente é, muitas vezes, consequência das ações e fatos passados; o futuro nós fazemos hoje com nossas ações responsáveis tendo sempre em vista o bem comum.

Infelizmente algumas comunidades brasileiras vivem drama semelhante ao da fictícia Hill Valley. Os meios de comunicação nos trazem diariamente o problemático cotidiano de seus habitantes, que vivem amedrontados a mercê do poder paralelo instalado, um poder a serviço de gente poderosa que manda e desmanda. Alguma semelhança com a realidade não é mera coincidência, com a realidade imitando a arte.

Qual será o futuro deste país? Arte: Arievaldo (fonte: Facebook)

Referências:

  1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Júlio_Verne;
  2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Auguste_e_Louis_Lumiére
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Zemeckis
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Back_to_the_Future_Part_II
  5. Experiência de vida e visão do autor.

L.s.N.S.J.C.!

A FAB e o governo Vargas!

NÃO pesquisei o suficiente para saber quando, exatamente quando, Getúlio Vargas virou inimigo da classe militar brasileira. O fato é que, a partir de certo momento histórico, quando ficou evidente que o Gaúcho de São Borja queria o poder só para si, e — pior — o poder flertando com o povo, como forma de, com suporte popular, se manter ad eternum na chefia do país, de fato aí, os militares e seus aliados — a imprensa, a classe política e os grandes capitalistas — não descansam enquanto não derrubarem Getúlio. Das três forças, a mais devotada a combatê-lo seguramente foi a mais nova delas: a Aeronáutica. As outras, mormente o Exército, agiam na surdina.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, chefe de sua Guarda Pessoal (fonte: Google)

Depois de longos estudos, foi finalmente criado o Ministério da Aeronáutica e seu braço armado, a Força Aérea Brasileira. Foi em 1941, abrangendo a Aviação Militar e a Aviação Naval. Em vez de um general ou almirante para assumir o novo ministério militar, o escolhido por Getúlio foi um civil: o gaúcho Joaquim Pedro Salgado Filho. Haveria aí algo pensado? Contemporâneos de Vargas, considerado uma raposa na política, juram que sim. O objetivo do Gaúcho, segundo os mais próximos, era enfraquecer o poder dos militares do Exército e da Marinha, fracionando-os numa nova força armada, que iniciaria — calculava Getúlio — sem a força de suas irmãs.

Sendo assim, para que nomear um general, dando mais poder ao Exército? Ou até mesmo um Almirante, concedendo mais moral à Armada? O resultado é que um civil, e não um militar, é o primeiro ocupante na nova pasta militar. Argumenta Vargas que nesse primeiro instante havia a necessidade de um grande organizador e não de um estrategista militar. Descontentes ou não, desconfiados ou não, o certo é que o Gaúcho ganha essa parada e os disciplinados generais e almirantes se conformaram com a decisão, ao menos oficialmente. Há outra questão: se nomeasse um almirante, descontentaria a cúpula do EB, e se chamasse um general, o mesmo ocorreria com o alto comando da Armada.

Na surdina, porém, os milicos seguem inquietos e insatisfeitos. No entanto, o panorama mundial conspira a favor de Vargas. O Mundo está em guerra, e ele procura tirar proveito da situação. Sabe que um dos grandes segredos para se manter no poder é fazer um bom governo e a Guerra, que fazia cadáveres lá na Europa, bem que poderia ser benéfica ao Brasil e a ele, por vias de consequência. A Guerra, indiretamente, acaba por atrapalhar os planos dos milicos que, desde 1930, flertam com o poder, não como meros coadjuvantes, mas sim como protagonistas.

Carlos Lacerda, amparado por soldados da Aeronáutica, com o pé enfaixado. Há dúvidas até hoje sobre as circunstâncias desse “atentado”. Teria ele atirado no próprio pé? (fonte: Google)

Assim, Vargas consegue se manter até 1945 como chefe da nação brasileira, perfazendo quinze anos, e assim sendo, desde a quartelada de Deodoro em Pedro II, o mais longevo ocupante do Catete.

Em 1945, acuado, é obrigado a renunciar, de forma a manter seus direitos políticos. Um recuo temporário, portanto — calcula o Velho.

Com o Gaúcho apeado do poder, é hora dos milicos novamente tomarem conta do país. O preferido dos militares, dos políticos da UDN, da imprensa de Carlos Lacerda e da elite capitalista de então é o Brigadeiro Eduardo Gomes, que, no entanto, acaba perdendo a eleição para o apagado Eurico Gaspar Dutra, um tímido general filiado ao PSD, que é à última hora apoiado por Getúlio. Para o gaúcho e seus apoiadores do PTB, era questão de escolher o menos ruim. Qualquer um, menos o Brigadeiro.

É assim que, uma vez empossado, Gaspar Dutra nomeia o primeiro militar para a pasta da Aeronáutica: o major-brigadeiro Armando Figueira Trompowsky de Almeida, que na verdade já estava no posto, nomeado que fora interinamente pelo também interino José Linhares. Enquanto isso, por fora, Eduardo Gomes, que, segundo Nero Moura, era um mau piloto, continua nos planos da UDN para residir no Catete, sucedendo Dutra, que está lá apenas esquentando o lugar para o Brigadeiro. Gomes, uma vez lá, daria início a uma larga perseguição a Vargas e ao PTB, desconstruindo de vez a imagem criada pelo Gaúcho de ser o “Pai dos Pobres”.

No entanto, em 1950, Getúlio derrota pela segunda vez o Brigadeiro. Desta vez, diretamente. O retrato do Velho volta às casas de seus correligionários, como diz a marchinha de Haroldo Lobo e Marino Pinto:

Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar / Eu já botei o meu / E tu, não vais botar? / Já enfeitei o meu / E tu, vais enfeitar? / O sorriso do velhinho faz a gente se animar / O sorriso do velhinho faz a gente se animar

É bom dizer que a oficialidade da Aeronáutica em peso é oriunda da classe média, que é eleitora da UDN e, portanto, eduardista. A carreira militar sempre foi cobiçada pela classe média, que, com o advento da FAB, procura a Escola de Aeronáutica a fim de garantir a carreira de aviador militar a seus filhos. Portanto, não é surpresa a oficialidade aeronáutica em peso ter viés político conservador.

A figura de Eduardo Gomes, de olhos claros, herói da Intentona Comunista, católico fervoroso, combina bem com a origem dos aviadores brasileiros, bem como com a imagem da conservadora elite do país. Gomes, se eleito, governaria o Brasil com mão de ferro, não abrindo mão dos princípios que sempre nortearam os militares desde Deodoro e Floriano. Mas não contavam com Getúlio Vargas, o ditador, a quem consideravam esquecido, e que agora volta nos braços do povo.

Para piorar as coisas, Getúlio planeja dar uma rasteira em Eduardo Gomes e em seus oficiais-generais, nomeando um coronel para ser o chefe de todos eles. Resolve convidar o Brigadeiro Nero Moura para a Aeronáutica. Moura, como consta da História, é o primeiro comandante do Primeiro Grupo de Caça, que combateu em céus da Itália o nazi-fascismo. Não possuía antiguidade, uma vez que pedira transferência para a inatividade remunerada quando ainda era tenente-coronel e com apenas 35 anos de idade. Beneficiado pela legislação de então, sendo ele herói de guerra, ganha dois postos acima e assim ostenta o título de brigadeiro-do-ar.

Com isso, Getúlio pretende dar um “chega pra lá” na brigadeirada e em Eduardo Gomes, principalmente. Mas o tiro acaba saindo pela culatra, como se diz popularmente. No nascedouro da Aeronáutica, tudo bem, um civil, afinal era preciso um grande organizador — como ele próprio argumentava –, daí aceitarem sem maiores problemas um político, o doutor Salgado Filho, gaúcho. Mas agora, serem comandados por um tenente-coronel, ainda que tenha ele sido um herói na Itália? Por trás da hierarquia, há algo que se chama vaidade. Nenhum militar de carreira aceita de bom grado levar carona de mais moderno, ainda que seja para exercer um cargo político, como era o caso. Mas vejamos a situação de Getúlio diante da situação: se nomeia um brigadeiro antigo, como queriam os militares, corre o risco de dar guarida a um inimigo político, tal era o clima entre ele e os milicos de alta patente; se nomeia alguém de sua confiança, como foi o caso, arrisca-se a governar com alguém sem os pré-requisitos e o traquejo que o cargo exige, por ser, da forma como foi feito, um militar de menor hierarquia para comandar uma dúzia de brigadeiros mais antigos que ele. Na primeira hipótese, Vargas acabaria demonstrando fraqueza diante do generalato, confiando um cargo estratégico a um grupo que lhe vem sistematicamente hostilizando; na segunda alternativa, incorreria em quebra de hierarquia. Getúlio decide pela segunda ideia, e é claro que isso é mais uma razão para a insatisfação que, então, campeia nos quarteis da FAB, cujos oficiais tramam pela queda presidente.

A crise evolui.

Quanto à Aeronáutica, ciente de que em seus quartéis reina a insatisfação, Getúlio se encontra de mãos atadas. Sabe que o melhor a fazer é afastar o cabeça do movimento, mas não pode fazê-lo. Tendo agora que governar com Constituição, a quem ele jurou defender, não tem como afastar definitivamente um inimigo não declarado, que agora age nas sombras, às costas do ministro, que, a despeito de ser um excelente piloto militar, não está à altura do cargo de Ministro da Aeronáutica, uma pasta que requer mais de gestor e político, que de aviador. O resultado é que, sob a liderança negativa do Brigadeiro Eduardo Gomes, a oficialidade conspira contra Getúlio, ignorando Nero Moura.

Brigadeiro Eduardo Gomes, duas vezes candidato derrotado à Presidência da República (fonte: Google)

A História bem mostra o episódio do atentado contra Carlos Lacerda. Naquela noite, o jornalista faz-se acompanhar do Major-Aviador Rubens Florentino Vaz, que, tomando a defesa de Lacerda, mete-se na frente dele, com seu corpo recebendo os projéteis direcionados ao corpo do jornalista. Ao menos é assim que conta a História, com fundamento no IPM levado a efeito pelo coronel João Adil de Oliveira, da conhecida “República do Galeão”.

Pronto. A cagada está feita.

Tudo que a UDN há tempos vem desejando, ela consegue com o cadáver de Vaz. No tumulto que se instala em torno do episódio, pouca importância se dá ao fato de que, na verdade, Vaz estava lá como uma espécie de guarda-costas de Carlos Lacerda, e não unicamente como seu amigo, como alardeia à larga a imprensa em geral. Há uma escala, um rodízio entre capitães e majores-aviadores na guarda do jornalista, numa espécie de presságio do que viria a acontecer, ou — muito provável — de alguma cena preparada com vistas a encalacrar o governo Vargas, derrotando-o de vez.

Foi o que ocorreu. Coincide de um oficial superior da FAB contribuir para deposição de Vargas com o seu próprio cadáver. Se Lacerda vem há algum tempo buscando um cadáver, aí estava um, e melhor que a encomenda: um oficial superior da Aeronáutica. O fato de oficiais da FAB estarem dando segurança a um civil, ao arrepio dos regulamentos militares, em nada escandaliza a Força. Nero Moura, se já sabia, não age, fazendo ouvidos moucos aos rumores. Não se antecipa aos acontecimentos, deixando crescer a bola de neve que levaria Getúlio Vargas a tirar a própria vida, como recurso derradeiro.

Vê-se que a Aeronáutica, na verdade, contava com dois ministros. O de direito, Nero Moura, sem habilidades políticas e sem antiguidade para se fazer obedecer, só formalmente manda na FAB. De fato, quem realmente faz e acontece é Eduardo Gomes, um comandante, que sendo mau piloto, despreza os aspectos técnicos da aviação, priorizando questões militares e doutrinárias. Assim, em vez de liberar a tropa após os militares e especialistas concluírem um serviço, como a manutenção de uma aeronave, deixando-a pronta para a operação aérea, uma espécie de recompensa para que eles, tendo cumprido bem sua missão, pudessem estar livres para se divertirem, embriagarem-se, o oficial os castigava com desfiles, treinamentos físicos e militares e outros trabalhos que só desgastavam os militares de baixa patente, que estavam ali, a bem da verdade, não para a guerra em si, mas apenas pelo soldo com que sustentavam suas famílias. Diferente pensamento tinha Nero Moura, quando na ativa. A sargentada, militares especializados, concluída a tarefa e o avião pronto, era por ele liberada do expediente, o que fazia o trabalho render pois o faziam com gosto. No entanto, isso tudo ficou para trás. Agora Nero Moura, embora sem antiguidade e traquejo, está enclausurado no gabinete do prédio do Ministério da Aeronáutica a despachar papeis e participar de reuniões enfadonhas, tarefa bem diferente da que exercia com desenvoltura nos primeiros anos da década de quarenta, e mais ativa e heroicamente nos céus da Itália, juntamente com seus homens, a metralhar ferrovias, pontes e galpões. Ciente ou não do que de fato se passa nos quartéis, Nero não tem pulso para extirpar a cabeça da serpente que cresce a olhos vistos: punir e afastar Eduardo Gomes, um oficial muito mais antigo que ele, mas que agora lhe deve obediência hierárquica e que infringe, ainda que veladamente, os regulamentos militares ao tramar contra o chefe supremo das forças armadas. A FAB é, então, por assim dizer, um estado paralelo. Uma sindicância de início e, em seguida, um IPM lhe daria todo o embasamento legal.

Sabe-se também que, no desenrolar do inquérito policial-militar, chega-se à guarda pessoal de Getúlio, recaindo a culpa em Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal. Corre um mar de lama sob o Catete, conforme expressão atribuída ao próprio Getúlio Vargas. O cerco se fecha em redor do Velho, alcançando diretamente membros de sua família. Ele, na madrugada de 24 de agosto de 1954, não aguentando a pressão, tira a própria vida com um tiro no coração.

A morte de Getúlio gera uma comoção nunca antes vista no país. Depois de morto, Getúlio prossegue incomodando a UDN, os militares e as elites brasileiras. Ao contrário do que pretendiam seus inimigos, consegue fazer seu sucessor, o médico Juscelino Kubistchek de Oliveira, governador de Minas Gerais, do PSD, com o apoio do PTB.

A continuar…

Referências:

  1. Lira Neto. Getúlio: Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  2. Lira Neto. Getúlio: Do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
  3. Moura, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.
  4. CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. 3ª ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Gomes
  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Getúlio_Vargas
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Nero_Moura
  8. Visão e experiência pessoal do autor

L.s.N.S.J.C.!

A LEI não contém todo o Direito!

SEMPRE fui do tipo inconformado, daqueles que não se acomodam de primeira com um “não” como resposta. O fato de ter atuado na área de recursos humanos com certeza tem influência nesse meu comportamento. Talvez por isso, ganhei fama de antipático.

Dra. Nancy Mesquita

Reivindicações que são negadas simplesmente por causa de que a legislação não dá amparo, nalgumas vezes, são aceitas por muitos somente por causa da hierarquia e da disciplina, não que isso significasse necessariamente a concordância com o resultado final. Aí o jeito é se conformar.

Teve uma época em que servi metade do tempo em Brasília e a outra metade em Cachimbo, região sudoeste do Pará, quase divisa com Mato Grosso. Quinze dias na Capital, quinze dias no mato. Quando cheguei lá o período em que servíamos em Cachimbo era devidamente remunerado com a indenização de localidade especial, por ser a região considerada como local inóspito e de difícil acesso.

Em determinado mês veio a ordem lá de cima, da Subdiretoria de Pagamento de Pessoal, mandando cancelar o pagamento da indenização. A decisão superior foi com base na legislação da época que dizia que “o militar faz jus ao pagamento da indenização de localidade especial a contar da data de sua apresentação, cessando na data de seu desligamento”. Essas duas palavras “apresentação” e “desligamento” depunham contra a nossa pretensão, pois, para efeitos legais, nós servíamos em Brasília, localidade não especial, e não em Cachimbo, considerada uma extensão da OM sede.

Não havendo outro remédio, tivemos que aceitar a determinação. O comando da Unidade até tentou reverter, elaborando ofício com farta exposição de motivos. Não deu em nada, como já era de se prever. Eu, embora tendo que aceitar a determinação por causa da hierarquia e disciplina, não me conformei com aquilo. Cogitei que esperaria o momento oportuno para tornar ao assunto.

Quando já me preparava para os exames do CIAAR, tentei de maneira informal junto ao comandante a revisão do problema. A resposta que me veio não foi muito animadora, dando o comandante a entender que eu deveria permanecer calado.

Depois de formado pelo CIAAR e classificado em Belém, elaborei requerimento reivindicando o direito, que eu sempre julguei líquido e certo. Não era requerimento grande, cheio de argumentos. Um documento reivindicatório simples, de apenas uma lauda apenas, em que pedia o reconhecimento de Cachimbo, nas condições eventuais em que lá servíamos, e o respectivo pagamento da localidade especial retroativa a cinco anos.

Ora, Cachimbo de fato é uma região inóspita, isolada, cujo núcleo urbano mais próximo é uma cidadezinha do norte de Mato Grosso que dista oitenta quilômetros, ligada por estrada de chão (na época), cujo percurso de carro em época de chuvas não dá menos que quatro horas. Em caso de acidente, o que não é difícil ocorrer, a vítima terá problemas. O posto médico lá sediado nem sempre pode socorrer adequadamente, tendo o infeliz paciente que ser removido às pressas. A localidade, portanto, era um caso concreto de localidade especial bem mais que tantas outras cidades do Norte, sedes de uma base aérea ou destacamento.

Feito o requerimento, o comando da Base Aérea de Belém encaminhou o documento ao próprio Campo de Provas, onde, juntada a cópia do ofício anteriormente enviado, foi instruído e remetido ao comando superior, que na época era o DEPED, Departamento de Pesquisas e Desenvolvimento.

A tramitação do requerimento foi lenta, morosa, como normalmente ocorre nesses casos, com toda aquela boa vontade. O documento, datado de 2001, somente foi solucionado dois anos depois.

O despacho lavrado pelo DEPED, por meio de sua assessoria jurídica, foi bastante corriqueiro, como se o douto assessor, um murista por excelência, estivesse ali naquelas linhas a pedir desculpas ao seu superior por ter de encaminhar expediente tão indesejado, sabendo que sua excelência tinha muito mais o que fazer do que despachar requerimento de um mero tenente. O diretor do DEPED, por sua vez, cumprindo formalidade, achou por bem encaminhar a peça inconveniente ao COMGEP.

Chegando o processo ao Comando-Geral do Pessoal, foi encaminhado à assessoria jurídica daquele grande comando. É aí que a sorte começou a mudar.

A doutora Nancy Mesquita (que Deus a tenha em Sua glória!), diferente de seu colega do Deped, examinou o pleito com real interesse, comportando-se como deve se comportar o bom jurista, e analisou a questão com a devida equidistância e isenção.

A jurista levou em conta toda a situação real, o caso concreto em que viviam os militares do CPBV quando permaneciam a serviço em Cachimbo sofrendo na prática as condições realmente inóspitas, difíceis, a que se submetiam nos dias em que serviam naquela região distante e isolada do país.

Alegou a competente jurisconsulta, entre tantos outros argumentos, que, embora a legislação mencionasse “apresentação” e “desligamento”, situações que, lidas ao pé da letra, somente contemplavam a quem estivesse efetivamente servindo em Unidades sediadas em localidades especiais, tipo Boa Vista, Porto Velho…, o legislador não vislumbrou todas as situações concretas, como era o nosso caso enquanto permanecêssemos em Cachimbo. De fato, o fato de ficarmos metade do tempo em Brasília não justificava negarem aquele direito, vez que isso era somente por conveniência do serviço, já que as instalações de Cachimbo não permitiam aos militares o acompanhamento da família, ao mesmo tempo que não havia infraestrutura suficiente para todos como escolas, hospitais e outros apoios.

O parecer da doutora Nancy disse, entre outras pertinentes considerações, que “A Lei não contém todo o Direito”. E de fato, o legislador das Forças Armadas não previu todas as situações concretas, como aquela em que especialmente se envolviam os componentes do efetivo do Campo de Provas Brigadeiro Velloso. Ao final, a doutora dá seu parecer favorável, enviando o processo ao Gabinete do Comandante da Aeronáutica para que o GABAER (Leia-se: tenente-brigadeiro Bueno) lavrasse a competente portaria.

Lavei a alma.

Ao final, todos passaram a ser contemplados com o reconhecimento desse direito financeiro que o meu requerimento provocou. Inclusive o comandante que censurou a minha iniciativa.

L.s.N.S.J.C.!

O INAFUNDÁVEL Titanic!

Fonte: Google

ÀS ONZE e quarenta da noite de 14 de abril de 1912, domingo, uma pedra de gelo de quinhentas mil toneladas sela a sorte daquele que foi considerado o maior, mais seguro e luxuoso navio de passageiros do mundo.

Nesse célebre naufrágio, a enorme embarcação leva consigo mais de 1.500 vidas para as profundezas geladas do oceano Atlântico Norte. Era a sua viagem inaugural; ninguém acreditava que seria a última.

O que causou, na verdade, o naufrágio do Titanic?

Muitos, entre religiosos, místicos e pessoas simples, costumam culpar a Deus pelo trágico desfecho. É senso comum, portanto, culpar o Senhor, o destino ou o desconhecido pelos fatos trágicos para os quais nós não encontramos explicações aparentes. No caso do Titanic, esse pensamento simplista se deve à lenda que circula até hoje de que seus construtores ou seu proprietário teriam dito que “Nem Deus naufragaria o Titanic.” Na verdade, devido aos aparatos de segurança utilizados na sua construção, foi largamente propagado que o navio era “praticamente inafundável”. Logo os jornais esqueceram o advérbio “praticamente”.

Fonte: Google

Lenda ou fato, será mesmo que Deus teria querido a morte de tanta gente inocente, pobres em sua maioria? Crendo ou não na Divindade, não é sensato transferir os erros humanos para Deus, ao destino ou ao sobrenatural.

O RMS Titanic foi projetado para transportar até 2.435 passageiros, dispostos em três classes rigidamente segregadas, conforme os padrões sociais do início do século XX. A primeira era destinada a milionários; a segunda, à classe média; e a terceira, aos operários e imigrantes, que àquele tempo costumavam rumar em larga escala da Europa e da Ásia em direção aos Estados Unidos e Canadá.

Durante o processo de projeto, construção e viagem do navio, foi recorrente uma somatória de decisões erradas. Tais decisões foram consequência da arrogância e da ambição, atitudes que, no mundo dos negócios, costumam andar juntas, resultando na negligência que guiou o gigantesco navio ao encontro do fatídico iceberg, fazendo-o submergir às profundezas escuras e geladas do Atlântico Norte às duas horas e vinte minutos de 15 de abril de 1912.

No início do século XX, há uma renhida competição tácita entre a White Star Line e a sua rival Cunard Line, que antes havia construído os velozes RMS Lusitania e o RMS Mauretania, lançados ao mar em 1906 e 1907, respectivamente. A Cunard Line assume assim o protagonismo na navegação marítima no Reino Unido e na Europa, um negócio bastante lucrativo. Para o orgulhoso Joseph Bruce Ismay, diretor executivo da White Star, era preciso dar uma resposta. Por isso, em 1907, ele encomenda a lorde William Pirrie, dono do estaleiro Harland and Wolf, a construção de três imensos e luxuosos navios: o Olympic, o Titanic e o Brittanic.

CONHEÇA mais detalhes acessando o canal BLOGUE do Valentim!, do YouTube.

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L.s.N.S.J.C.!

PROPOSTA sem amparo legal!

CARO jornalista Gerson Nogueira e demais frequentadores deste blogue campeão,
Vivemos hoje no país dos absurdos; por isso, um absurdo a mais ou a menos para mim não seria surpreendente, mesmo no futebol, o assunto mais importante dos menos importantes, como sabiamente costuma dizer o decano comentarista esportivo Carlos Castilho, cujas opiniões costumo acompanhar desde a década de 1970.


Pois bem, 


A respeito da postagem “Parazão: a rivalidade inflamada”, peço licença para dizer que, na história dos campeonatos de futebol profissional do Pará, consta que não aconteceram, por razões que desconheço, as competições de 1911, 1912, 1935 e 1946. Por razões de força maior, noutras edições, o campeonato somente se concluiu no ano seguinte, como em 1989, que só foi decidido em 04 de fevereiro de 1990.  


Dessa forma, considero disparatada – para se dizer o mínimo – a proposta apresentada pelo presidente alvi-azul Ricardo G. Paul em que pleiteia o término do atual campeonato declarando-se campeão o Paysandu Sport Club. Se, ao menos, a competição seguisse o critério de pontos corridos, a exemplo dos campeonatos brasileiros versão “A” e “B”, aí sim,  se vislumbraria alguma sombra de razão às pretensões do dirigente bicolor. No entanto, com o campeonato parado na fase classificatória, tal ideia absurda carece de total amparo, somente ventilada ao sabor das emoções, dando azo a comentários e ilusões por parte de sua apaixonada torcida. Ademais, injusto seria com equipes aguerridas e com reais chances de conseguir seu primeiro título, como é o caso do Castanhal Esporte Clube.


Quanto aos pontos corridos, no histórico das competições estaduais paraenses, bem houve uma a adotar critério parecido. Foi em 2004, ocasião em que o Clube do Remo sagrou-se campeão 100%, quando venceu a todos os seus oponentes por duas vezes, alcançando assim catorze vitórias em catorze jogos. Imagino eu que, exatamente por essa razão, nos anos posteriores não se pretendeu reeditar tal critério, sob a alegação aparente de faltas de datas ou algo assim. Fosse esse o critério da competição da versão de 2020, talvez – talvez – o presidente do arquirrival viesse a lograr êxito em seu intento, ainda que sob protestos.


Tomara Deus logo se extingam os problemas de saúde pública a que nós estamos submetidos, e a vida torne a seguir seu curso normal, inclusive com a bolar novamente a rolar nos gramados, com nossos clubes de futebol pelejando em busca do troféu de campeão de 2020, nosso vibrante público torcedor de novo nas arquibancadas a emocionar-se com seu time. Se não der neste ano, que seja no ano seguinte; não sendo possível, que se cancele a competição sem vencedor declarado. (Blog do Gerson Nogueira, Belém – PA)

Nossa opinião sobre o futebol paraense em tempos de pandemia, postada em 09abr2020.

L.s.N.S.J.C.!

GUERRA não convencional!

HOLLYWOOD veio a implantar uma cultura de guerra romantizada cuja imagem, composta de heróis e vilões,  longe está daquilo que realmente é um conflito bélico. No Brasil, distante se vai o último conflito bélico a que se envolveu o país e, por isso, os livros de História trazem ao brasileiro uma romântica imagem de heroísmo, de amor à pátria mesmo com o sacrifício da própria vida, uma ideia que se é implantada na cabeça do jovem soldado desde o primeiro dia de quartel. Essa estratégia doutrinante se faz necessário ao sistema militar, porquanto sem a qual nenhum soldado arrostará o inimigo tendo sobre si a perturbadora sombra da morte.

Fonte: Google

A realidade, porém, é bem mais cruel.


Numa guerra convencional, além dos conflitos bélicos levados a efeito pelas ações das armas e dos homens, há uma série de flagelos impostas aos povos envolvidos, inimagináveis à maioria dos nossos pacatos cidadãos. São dificuldades extremas, desgraças incomensuráveis. Uma das primeiras ações bélicas é a destruição de pontes, sabotagem pistas de pouso e de estradas, torpedeamento de navios mercantes, desativação de usinas de energia, de fábricas… enfim, muitas e nefastas são as contingências, que, inexoravelmente, levam ao desabastecimento em geral de um país ou de uma região, sujeitando a população desses locais a privações de toda a ordem. É preciso, a qualquer preço, sufocar o inimigo, levando-o a sucumbir em pouco tempo. Diversos e inenarráveis, por conseguinte, são os suplícios infringidos às populações atingidas, não só aos homens diretamente envolvidos no conflito, como também às populações civis, com mulheres, crianças e idosos, sãos e doentes.


Nós estamos vivendo uma guerra. Embora não convencional, temos um inimigo invisível: o coronavírus. Há também um alvo: nós e nosso futuro. Não bastando, temos infelizmente uma parte da população não convencida da real dimensão do problema, e outra parcela preocupada com seu próprio bolso. Como na guerra convencional, a nossa população está sob ameaça, e também o futuro deste país. Quanto mais tempo estivermos sob essa terrível ameaça, mais tempo estaremos sujeitos às privações e à angústia. Igualmente às guerras convencionais, também estamos na iminência de sofrermos com o desabastecimento de gêneros básicos, e o comércio, os setores de serviço e as indústrias, não tendo receita, a demitirem em massa pais e mães de família, gerando privações materiais e não materiais. Mais pessoas infectadas, mais leitos ocupados, mais profissionais de saúde esgotados pois estão dando o seu máximo, esgotando os meios de atendimento a todos. Esse círculo vicioso precisa ter um fim.

Amigos, 
Como oficial das Forças Armadas, portanto um cidadão brasileiro, vejo com grande angústia o momento.  Angústia por não saber aonde vamos chegar, pois em toda guerra se sabe como inicia, mas não se conhece quando chegará ao fim. Neste caso, nem o seu início conhecemos. Torço para que logo daqui a alguns dias ou um mês, tenhamos enfim controlada a situação, e, voltando à paz, recolhamos os escombros e reconstruamos o nosso país. Angústia, por outro lado, ao perceber que as ações ainda estão aquém do que podemos oferecer, e — tomara que não –, por isso, todos venhamos a pagar um altíssimo preço pela inércia inicial.


Neste momento, que fazem as Forças Armadas? Num vídeo do YouTube, vi um comandante preocupado apenas com a sua própria tropa. Tudo bem, mas e a Pátria?


Durante décadas vejo as Forças Armadas num treinamento constante em preparação para a guerra. Pois é, ela chegou. Não exatamente, como Hollywood vem mostrando. As forças de mar, ar e terra detém, em termos de recursos humanos, materiais e patrimoniais, um imenso potencial de mobilização que vem sendo reservado para a guerra. E, hoje, nós estamos em guerra. Agora é justamente o momento de se empregarem todos os recursos militares em luta contra esse inimigo invisível. Em particular, a Força Aérea possui instalações hospitalares de alto nível, dotadas dos melhores profissionais de saúde, excelentemente formados e bem treinados, e de equipamentos dos mais modernos e eficazes. O mesmo se diz em relação ao Exército e à Marinha, bem como das polícias estaduais. Além de instalações e equipamentos específicos, há uma gama de estruturas que podem ser empregadas em favor da população, num estado emergencial como o presente. A esta hora, sob barracas de campanha deveriam estar atuando médicos, farmacêuticos e auxiliares. Em sistema de rodízio, tais profissionais estariam a aplicar os testes e as medidas profiláticas necessárias. Ao mesmo tempo, toda uma equipe de apoio estaria em ação, com viaturas como ônibus, caminhões e utilitários a transportar máscaras, luvas, equipamentos e instrumentos, produtos de limpeza como o álcool em gel, para esses locais, a fim de serem distribuídos aos pacientes suspeitos, entre uma infinidade de ações e providências julgadas necessárias. Essa estrutura também seria disponibilizada para adaptar-se ao tratamento, com jipes transmutados em ambulâncias, grandes espaços improvisados como hospitais de campanha… 


Não só isso.


Barreiras sanitárias podem ser instaladas locais estratégicos como aeroportos, rodoviárias, portos, estradas, fronteiras secas, onde nossos profissionais de saúde estariam atuando para prevenir e orientar. Tudo isso, devidamente apoiados pelos demais militares (que não da área de saúde), encarregados de segurança, limpeza e outros apoios, e até mesmo no auxílio às polícias no controle da circulação de pessoas, garantindo o isolamento social, enquanto o procedimentos se fizer necessário. Na Força Aérea, onde labutei por trinta anos, temos uma relação extensa de especialistas, tanto de formação superior (oficiais), como técnicos (suboficiais e sargentos), além dos valentes e nobres cabos, soldados e taifeiros, profissionais muito bem treinados, que, mobilizados e coordenados pelos respectivos secretários estaduais de saúde, poderiam (deveriam) agora estar a serviço da comunidade e, por conseguinte, da Pátria.


Assim como não há país sem território, não há nação sem povo. A nossa Pátria é o nosso povo!

L.s.N.S.J.C.!