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CANUDOS ou Belo Monte e o outro olhar de José Augusto Moita!

FOI por meio do Facebook que mantive contato pela primeira vez com José Augusto Moita. Seu sobrenome incomum chamou-me a atenção por ter eu, em 1979, travado conhecimento de um sargento em Anápolis, provavelmente parente seu. Havia em Belém outro sargento Moita. Descubro, enfim, que a família Moita é numerosa. A postagem que focou para a sua figura era uma em que aparecia ao lado do Silva Filho, outro colega de farda de Anápolis conhecido por Marinheiro, que – segundo dizem – foi um exímio centroavante, tendo até jogado pelo Calouros do Ar Futebol Clube, de Fortaleza. Sei que até o Marinheiro pegou uma punição disciplinar por ter jogado em time profissional sem autorização. Mas isso é outro assunto.

Tornemos ao Moita.

“Então, você foi um dos poucos militares que não perdeu o juízo?”, foi o primeiro contato por meio do sistema de mensagens do Facebook. Daí em diante, tornou-se para mim — como também para centenas de amigos — uma rotina diária travar contato virtual com essa grande figura, um extraordinário e sincero amigo, por meio de suas mensagens super bem-humoradas no Facebook.

Homem de palavra, prometeu nos visitar aqui no Sudoeste Paranaense, Dois Vizinhos, cidade distante à beça da Capital do Estado e de outros centros. De posse do nosso endereço, exatamente no dia 19 de junho de 2019, lá pelas sete da noite, quando eu e a patroa estávamos sorvendo o sagrado mate amargo da noitinha, que ele, dona Ivone e Dímitri, um de seus filhos, chegam à nossa humilde residência, numa viagem de mais de 10 mil quilômetros em que buscavam conhecer vários rincões brasileiros e pavimentar amizades, que, por sinal, são muitas e sinceras.

Foi com grande alegria que recebi um exemplar de “Belo Monte: um outro olhar”, de José Augusto Moita

Dentre nossos assuntos em comum, um dos preferidos de Moita é sobre a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, que a História trouxe à baila com o nome de Antonio Conselheiro. Aliás, não só essa saga desse grande homem como a de outros severamente combatidos por um sistema perverso estão entre os temas de interesse desse inteligentíssimo amigo, que, aliás, dedica-se também à bela arte da música.

Imagem atribuída a Antônio Conselheiro (fonte: Internet)

A visitação dessa querida família constituiu-se numa bela surpresa para nós, ao mesmo tempo que não. Logo, estávamos à mesa em debates políticos, assunto de nosso largo interesse por termos correndo nas veias o sangue do inconformismo. E era uma prosa de velhos amigos. Na verdade, nunca antes havíamos nos visto pessoalmente, para a estupefação de minha esposa Bernardete Kleinibig. “Meu Deus, como é possível?”. Da mesma forma, por saber de seu interesse pela vida e pela verdade acerca do Conselheiro, não nos surpreendeu totalmente a edição do livro Canudos ou Belo Monte: um outro olhar, que ora nos dedicamos a ler atenta e interessadamente.

Devo dizer, a bem da verdade, que, pelo fato de este humilde escriba estar envolvido com outros afazeres (acadêmicos, domésticos e as escritas do Blogue), foi exatamente a Bernardete que, interessada, logo se ocupou, com larga dose de curiosidade, de conhecer sobre a vida e triste fim de Antônio Conselheiro, que a pena de José Augusto Moita nos dá agora um outro olhar. O que ele teria escrito, afinal? À medida que a Alemoa vai se dedicando à leitura, isto geralmente à boca da noite e depois do mate, minha companheira faz comentários e perguntas. Eu lhe respondia, à minha maneira meio tosca e superficial, sobre esse assunto a que Moita dedicou-se de forma a resgatar a verdade sobre Conselheiro e seus seguidores, cruelmente massacrados pelo Exército Brasileiro. “Conselheiro e sua gente queriam apenas a paz. Nada tinham de fanáticos e violentos, como se propagou à larga”, era eu que dizia com outras palavras.

E agora este escriba está a concluir a leitura dessa vibrante narração do escriba cearense. Dá-nos a impressão de estar lá entre os soldados ou no meio dos sertanejos conselheiristas, entre cartuchos lançados ao solo e zunidos infernais de projéteis. Esse dom, o de conduzir o leitor para o cenário, somente poucos o possuem.

Todo livro reflete o tempo em que é escrito e o espaço social vivido pelo autor, inserido que está numa determinada sociedade. Há que se considerar também os interesses do escritor, nem sempre honestos. Com Conselheiro não seria diferente. De seu principal divulgador, Euclides da Cunha, percebe-se que o escritor e jornalista fluminense veio a ser conhecido mais por sua verve literária, menos pelos dotes de biógrafo. Poucos sabem — inclusive nós não desconhecíamos — a existência de muitos outros autores se lançaram à missão de escrever sobre esse injustiçado homem. Moita foi desmascarando um a um deles.

Acusar alguém ou um grupo de monarquista era para aquela sociedade do final do século XIX o mesmo que, hoje, tachar grupos de insatisfeitos de esquerdistas e comunistas, ou mesmo subversivos ou coisa assim, sem que ao menos se faça alguma reflexão. Era o caso dos republicanos recém-instalados no poder: estavam ali sob o espectro de Pedro II e de seus seguidores. No caso, Conselheiro, atraindo em redor de si toda a sorte de seguidores desesperançados da vida, acaba por atrair a ira dos poderosos de então, como hoje são os integrantes de movimentos sociais como os Sem Teto ou Sem Terra, ou denominações equivalentes.

Líderes inatos, como veio a ser Conselheiro, tornam-se, sem que o desejem, uma grande ameaça a quem detém o poder, atraindo para si o ódio tanto de senhores de terra — a elite agrária que mandava e ainda manda no país — como da Igreja de então, cujos ministros se sentiam ameaçados por sua liderança inconteste e natural. Foi o caso, por exemplo (e falando em Igreja) de um galileu que esteve no planeta Terra há vinte séculos. Dos coronéis e dos padres e bispos até o poder político formal, de início estadual e depois federal, é um pulo. Aos fazendeiros não interessavam comunidades socialistas como Belo Monte em que, à semelhança dos primeiros agrupamentos cristãos, seus habitantes tinham tudo (por pouco que fosse) em comum. Ao clero também não era interessante a perda de milhares de ovelhas e ainda, para piorar, a existência de um outro pastor, sendo este, embora não pretendesse, mais próximo em sentimentos e missão do Grande Mestre Nazareno do que eles próprios. E se viesse a prosperar Belo Monte a ponto de inspirar o surgimento de outros Canudos? E, em razão disso, sobreviesse a carência dos peões que, a troco de uma cuia de farinha para si e seus filhos, se sujeitavam às ordens da elite agrária? Era, portanto, imperativo combater exemplarmente esses subversivos que teimavam em mudar a sociedade, único modelo então existente, antes que fosse tarde.

Aí está o Exército disposto a cumprir ordens — qualquer que sejam elas — em nome da República e da Pátria. Combater uma legião de famintos não devia ser assim um bicho-de-sete-cabeças. Quanto à opinião pública, aí estão os jornais prontos a apoiar coronéis, assim como os padres estavam também reunidos em torno da proposta eugenista, ainda que isso viesse a contrariar os preceitos evangélicos. Portanto, a população — como é até hoje, infelizmente — está sempre pronta a receber como verdade absoluta tudo o que o papel aceitar, sem o menor espírito crítico. O governo central e o Exército, porém, não contam com a crueza do sertão, lugar inóspito que só o próprio sertanejo — esse forte, como propagou o fluminense Euclides da Cunha — conhece. Também não considerou a tenacidade dos homens de Conselheiro que lutavam por uma vida melhor, portanto, pela esperança de cada um deles, de suas famílias e, inclusive, pela própria liderança de Antônio Vicente, a quem veneravam e respeitavam certamente. É assim que vem uma, duas, três expedições, todas derrotadas.

Derrotados, diante da opinião pública é necessário pintar o inimigo como jagunços fortemente armados e coisas do tipo. Ninguém, nem os generais, nem a imprensa, nem o coronelato e a Igreja, admitirá jamais que o Exército foi derrotado também por sua própria incompetência e por tantos outros aspectos e detalhes que bem Moita trouxe à luz da verdade. Era preciso construir o mito do Conselheiro, um homem violento, um tirano, que conduzia seus homens — incluindo mulheres e crianças — a peso de forte treinamento militar e de intrincadas estratégias de guerra. A mentira falada mil vezes passa a ser tomada como verdade e isso o poder sabe bem fazer. Contribuíram para isso muitos autores, que Moita exaustivamente pesquisou, ao repetirem mentiras sabendo que o povo as tomaria por verdades que, infelizmente, chegaram aos dias de hoje.

É aí que entra o papel dos grandes brasileiros de hoje. Revisitar a história, desmistificando-a. Fazer releituras das “verdades absolutas” que desde sempre, principalmente durante um período longo de 21 janeiros, insistem em empurrar goela abaixo da população brasileira. A nossa geração tem essa obrigação: não descansar enquanto não ver a verdade dos fatos restabelecida e — mais — insistir na propagação desses “outros olhares”, bem diversos das ideias romantizadas que os falsos patriotas teimam em divulgar: o Exército é patriota e quem insiste em indicar outro modo de vida, mais justo e fraterno, esse é violentamente perseguido, desmentido, preso e eliminado. Não só Conselheiro e seus principais homens deviam morrer, mas todos — mulheres, velhos, crianças, sãos e doentes… — a fim de que não sobrasse uma testemunha sequer e com isso a mentira contada não corresse riscos de ser desmascarada.

Monarquistas!? Aquela pobre gente mal sabia o que isso significa. Utilizando-nos da comparação, figura de linguagem fartamente empregada por Moita em sua obra, vejo o caso da “adesão” do Pará ao Brasil, ocorrido de forma violenta em quase um ano depois de 7 de setembro de 1822. Um grupo de comerciantes portugueses pretendia que o Grão-Pará permanecesse ligado ao Império Português, o que não interessava a Dom Pedro. A população humilde e miserável estava, porém, à margem desses acontecimentos e interesses, de forma que tanto faz como tanto fez, visto que a mudança ou a manutenção de uma condição política não mudaria a vida dos humildes paraenses. Que interessava o Império ou República àquela gente miserável e ignorante de tudo? Mas a República precisava de um pretexto para massacrar milhares de homens, mulheres e crianças em nome dos interesses de uma elite, o poder, seja ele fardado, à paisana ou de batina.

Jagunços?! Ora, qualquer um de nós sabe que estes se prestam a servir os endinheirados deste mundo e seu ofício é perseguir os menos favorecidos. De outra forma, o coronelato não teria prosperado nestas terras de Santa Cruz. Um homem manso e de bons propósitos como foi Antônio Vicente Mendes Maciel jamais teria as condições monetárias e de temperamento a conduzir mercenários. Conselheiro, tal como o Homem de Nazaré, só dispunha de palavras e de esperanças. Ainda assim a mentira, contada mil vezes, colou.

Nossa família recebeu o livro de J. A. Moita

Trabalho de fôlego esse, o do Moita. Um exemplo para a nossa geração, que consideramos esclarecida. A História, tal qual ela nos foi passada, é a versão das classes dominantes deste país, e isso nós — que dispomos de empatia e não esquecemos das nossas origens — precisamos mudar, a fim de conduzir aos nossos netos esse outro olhar.

(Original publicado em 16ago2020)

L.s.N.S.J.C.!

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TRÊS Homens em Conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

O gênero faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood, que procuravam reinventar-se. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do Velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti.

É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar em muito o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar uma temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado com tradução para o Português como o “O Bom, o Mau e o Feio”. Três Homens em Conflito tornou-se um clássico, consagrando Leone.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, com homens bonitos e bem barbeados, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho; Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramirez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — o pistoleiro sem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, dos outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau. Deste último, também se sabe o nome por meio de “Meio-soldado”, um homem mutilado que usa farda. Em razão de usar farda, isso sugere que “Meio-soldado” sofreu a mutilação na guerra, ficando inutilizado.

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí mais um significativo diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

O genial diretor Sergio Leone (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

(Original postado em 15fev2019)

L.s.N.S.J.C.!

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CLASSE desunida!

MAIS uma vez voltei os olhos para o papel que estava ali deitado na mesa de trabalho. Ele olhava para mim como que dissesse: “Me assina logo! Quero virar um documento”. Havia datilografado aquelas palavras 24 horas antes. Eram letras bem elaboradas em português castiço. Sem coragem de assinar e dar termo à redação, lia e relia o expediente como a ganhar coragem. A cada vez que o relia, resolvia mudar uma palavra, substituindo-a por um sinônimo, acrescentava uma vírgula, invertia um termo ou até mesmo uma oração inteira.

Era uma forma de protelar a expedição do documento. Dirigia-se ao comandante da unidade e o teor era sobre a criação de dois descontos internos de cinco por cento do soldo, cada um deles.

Eu disse criação? Imposição.

Pela situação aflitiva em que vivíamos, vinha remoendo aquela situação.

Eram tempos duros naquela década de 1980. Governava o país o senhor Ribamar Sarney, ele e o doutor Maílson, que ditavam o rumo da economia, que, na verdade, vinha desgovernada e sem rumo desde não sei quando. Era o país da inflação fora de controle e dos escândalos financeiros, que impunha arrocho salarial à faixa mais sofrida da população brasileira. Cada ano que se findava era festejado de forma entusiástica pelo povo na vã esperança de que o próximo viesse a trazer melhores dias, já que na cabeça de todos o janeiro seguinte não tinha como trazer um ano pior que o seu predecessor. Qual nada! A situação do brasileiro ia a cada ano novo bem mais apertada que no outro. 

Tal era a conjuntura político-econômica nacional. Tais eram os problemas, que também se estendiam sobre as costas dos militares de baixa patente. 

Se, por necessidade, alguém decidisse comprar a crediário uma geladeira, um aparelho de tevê ou um fogão, além de ver comprometida parte de seu minguado salário por meses e semestres, era certo ser sumariamente humilhado ao preencher e responder uma série de perguntas  embaraçosas por parte do funcionário analista de crédito: salário, quantos filhos, se possuía ou não bens imóveis, quem seriam os avalistas…

E agora essa decisão, que representava um golpe nas nossas já combalidas finanças. 

O boletim interno dizia sobre a determinação de sua excelência em descontar do soldo de cada um de nós, suboficiais e sargentos da localidade de Manaus, a importância financeira correspondente a dez por cento do soldo. Cinco destinavam-se à Prefeitura de Aeronáutica, a título de taxa de recolhimento de lixo da vila dos suboficiais e sargentos. Os outros cinco eram para ajudar as finanças do clube, o CASSAM, que frequentávamos. Os caixas de ambas as subunidades seriam, portanto, socorridos por nós, suboficiais e sargentos da área de Manaus.

Dez por cento! E em tempos de vagas magérrimas.

E por que Sua Excelência não pedia repasse ao comando superior em Brasília? Não, para que incomodar seus superiores com problemas que poderiam ser facilmente resolvidos internamente? Vai que aí prejudiquem a sua carreira. Não. Mais fácil onerar mais ainda a tropa, fazendo carga no soldo. A tropa não reclama, a tropa aceita, a tropa tem amor à Pátria, a tropa parece não ter família para sustentar… Ora pois!


Não tínhamos anuênios nessa época, tampouco adicional natalino. Precisávamos esperar sete anos para, se as fichas de avaliação estivessem conforme e o alto comando permitisse, obtermos uma promoção que, ao final, rendia poucos cruzeiros ou cruzados de aumento no salário. A cada cinco anos o quinquênio, e tendo dez anos (era o meu caso), dois quinquênios, ou seja, 10% sobre o soldo. 

E o CASSAM?

O CASSAM era o clube que congregava os suboficiais e sargentos da área. O clube dispunha do maior espaço físico na cidade de Manaus na época. Além disso, possuía uma privilegiada área de estacionamento. Os bailes que promovia eram bastante concorridos, uma vez que geralmente abertos à comunidade manauara. 

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais. (imagem: Internet)

Concorridos e rendosos.

Falava-se que na temporada de carnaval o CASSAM chegava a admitir em suas dependências de cinco a dez mil pessoas, senão mais.  Nessas ocasiões, corria dinheiro à farta com ingressos, venda de bebidas e tudo o mais. Era o carnaval mais animado da capital amazonense. O estacionamento lotado e automóveis em fila indiana quilométrica do lado externo.

Havia — falavam à boca miúda — uma forte concorrência à sua diretoria na época de eleições. Muita gente boa querendo ser presidente ou diretor. As eleições eram raras na verdade; havia mesmo era indicação da autoridade, o brigadeiro de três estrelas; eleição era uma palavra considerada perigosa, mais ainda no meio militar. O fato é que havia muita vontade de se pertencer à diretoria do cassino. 

Por que?

Não sei. Havia colegas que, mesmo de férias ou até de licença especial, não abriam mão do cargo de diretor do clube. Eu sei de um suboficial da diretoria, que fora transferido para Anápolis, sendo desligado de sua unidade para seguir destino em janeiro, mas estranhamente só se desligou da diretoria do CASSAM um dia depois do baile de carnaval, já meados de fevereiro. Muito trabalhador certamente e a comunidade de suboficiais e sargentos, na época, lhe foi mui grata por tamanha abnegação.

Muita gente boa “brigava” para ser diretor do clube. Talvez por idealismo, não sei.

E agora, sua excelência mandava fazer carga na tropa para tapar rombo do CASSAM?

Diante de todas as dificuldades e suspeitas,  após muito meditar e remoer tal decisão administrativa, e mediante detalhada pesquisa na lei de remuneração, decidi fazer um documento à autoridade, pedindo que revisse a determinação, pois não havia respaldo legal.

Ao chegar na mesa do chefe, ele me chamou: “Valentim, você tem certeza que quer despachar esse documento?”. Não, Pedro Bó! É só pra gastar meu latim! É claro que não disse essas palavras, mas deu uma baita duma vontade. É que o chefe, o chefe do chefe, o comandante, todos eles possuíam a seu favor um argumento fortíssimo: o regulamento disciplinar. Diante de minha negativa, o chefe mandou o documento em frente.

O documento circulava fisicamente de um setor para outro e, como não era sigiloso, veio a cair no conhecimento de todo o quartel. O soldado para o cabo, este para o sargento e o sargento para a todo o mundo. Correu o bizu inclusive para as outras unidades de Manaus que eu estava a encabeçar um movimento contra sua excelência, o brigadeiro de três estrelas, pela extinção da cobrança mensal daqueles famigerados dez por cento.

Eu ficara famoso na área.

Naquela noite quase não dormi. Virava pra cá, pra lá… quando finalmente adormeci já lá pela madruga, sonhei que me punham uma venda nos olhos e o oficial dizia ao pelotão de fuzilamento: “Preparar! Apontar! …”. Num sobressalto e com o corpo suado, acordei um pouquinho antes do “fogo”. 

Mas no dia seguinte o documento já, depois de tramitado por mais duas ou três mesas, estava nas mãos de sua excelência, que, sem se dar o trabalho de examinar seu mérito, o repassa para a resolução do chefe do estado-maior, que era um coronel no cargo remunerado de brigadeiro.

De todo o efetivo indignado, surgiram somente dois companheiros a me fazer companhia nessa reivindicação justa. Era o Soares, primeiro-sargento, e o Brandão, terceiro. Foi marcada uma data e hora para falarmos com o chefe do estado-maior, quando, gentilmente e com toda aquela boa-vontade, sua senhoria dedicaria uma parcela de seu precioso tempo para nos ouvir.

Chegou o dia. Na hora marcada, estavam lá o Brandão e o Soares na minha seção de trabalho a convidar-me para subirmos a escada e falarmos com a autoridade. Fomos lá seguindo a ordem hierárquica, com o Soares à minha frente e o Brandão, logo atrás de mim. 

Nesse caminho interminável, entre a base da escadaria e seu topo, mil pensamentos se passariam na minha cabeça. 


Claro. Era uma decisão política e a autoridade não mudaria o que já havia decidido. Eu era um renitente, um indisciplinado, um rebelde, um fora-da-lei. A autoridade era um coronel e nós, humildes sargentos, o que poderíamos fazer? Tinha contra nós e a favor dele um argumento fortíssimo, que era o tal regulamento disciplinar. Quantos dias de cadeia, caberia a mim, o cabeça do movimento? E se a punição que certamente me seria imposta me levasse a ser expulso da Força? No meio da escada me deu ímpeto de descer, sair correndo. Seja homem, eu dizia para mim mesmo. Éramos três e eu estava entre os dois companheiros. Do nada pensei: “Caramba! Caí numa cilada. Esses dois aí não estão do meu lado coisa nenhuma. É tudo uma conspiração para me levar ao verdugo. Eles são, na verdade, a minha escolta. Certamente sairei algemado da sala do homem”.  

 Pensando assim e me imaginando um prisioneiro levado ao cadafalso, mirava a furto ao dois colegas, avaliando-os. Soares e Brandão eram bem fortes e altos. Não. Eu não teria chance de fugir. Sairia do gabinete direto para uma cela.

Chegamos à sala do coronel, que, após as continências regulamentares, nos mandou sentar nas poltronas que estavam ali para visitantes. Foi o Soares, sendo ele o mais antigo, que argumentou junto à autoridade, ficando eu e o Brandão todo o tempo em silêncio. Até então, tudo bem. Eu respirava aliviado, embora o meu semblante denunciasse a minha contrariedade com relação ao abuso de autoridade que o desconto ilegal revelava. A autoridade, embora falando baixo e calmamente, dava a entender nas entrelinhas uma ameaça velada, dizendo-nos diplomaticamente que teríamos, a partir de então, toda a má vontade do comando e coisas do gênero. 

Soltei um suspiro bem grande de alívio, quando saí da sala. Desci a escada com celeridade e voltei para a minha seção de trabalho. Foi quando o Barros, olhando para mim com curiosidade mórbida, fez uma indagação:

“E aí, quantos dias de cadeia?”.

Ora, minha cabeça a prêmio em nome de um prejuízo financeiro que se sobrepunha a toda uma coletividade, e o colega querendo saber se eu seria punido.

Isso para mim doeu forte. Que classe desunida, meu Deus! Hoje bem tenho consciência de que os comandos agem assim, contando com a desunião da classe em que cada um tenta levar vantagem em relação ao outro. É uma boca rica aqui, uma promessa de missão relevante ali, uma condecoração que pode abrir portas para uma missão futura no exterior, e assim vai. 

Nem me dei o trabalho de lhe responder. Dois meses depois fui transferido e só fiquei sabendo que o tal desconto foi reduzido à metade, cinco por cento. 

Sem perceber, envolvi-me numa ação política que, ao final, beneficiou (ao menos reduziu o prejuízo original) a toda uma comunidade. 

Isso foi no segundo semestre de 1989.

Não permaneci na unidade para sofrer da parte do comando a ameaçadora má vontade. 

L.s.N.S.J.C.!

(Postado originalmente em 14jan2019)

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PRECARIZAÇÃO das relações de trabalho!

QUANDO residia em Manaus, travei conhecimento da existência na cidade de um empresário chamado Baiano, proprietário de uma frota de táxi, não sei se trinta, quarenta ou mais automóveis. Nunca o vi. Quem me falava sobre ele era o seu Melo, um servidor público do então Ministério da Aeronáutica, colega de sala de trabalho, já então com os seus cinquenta e tantos anos.

Baiano teria iniciado a vida profissional como taxista, daí, com o tempo, comprado outro carro, depois mais um, para, ao longo de trinta ou mais anos, tornar-se dono de uma frota fabulosa, virando capitalista. Isso foi lá pela década de 1980, em plena recessão econômica. Sua fama, no entanto, não era boa entre os taxistas da cidade. 

Não é tão simples viver da profissão.

Não basta possuir um automóvel e sair dirigindo por aí apanhando passageiros. O número de permissões exaradas pela prefeitura é limitado, daí o candidato a taxista, não tendo dinheiro suficiente para comprar de terceiros uma licença de táxi, deve sujeitar-se a dirigir em forma de aluguel, pagando a diária estabelecida pelo dono do veículo. 

Quem é mais poderoso impõe a regra do jogo. É assim que a banda toca.

Baiano exigia os olhos da cara dos pobres taxistas. Tinham de virar bicho, rodando pela cidade de dia e de noite, inclusive aos sábados, domingos e feriados, quando o preço da corrida fica mais elevado, a chamada bandeira dois.

A grita era alta, de forma que um dia os coitados, não suportando mais a carga, tiveram que bater às portas do Serviço de Proteção ao Consumidor.

Relembrando esse episódio de trinta e tantos anos atrás para introduzir um outro.

O blogueiro estava na antessala do dentista e, como nada tinha a fazer, deteve-se assistindo a um programa de televisão. Costumo selecionar o que vejo, mas aí não havia outra coisa senão, passivamente, aceitar o que o aparelho me oferecia.

A matéria falava sobre empreendedores individuais, desses que perdem emprego e, sem opção, acabam por decidir montar um negócio pequeno. No caso, o negócio, que era vender hambúrgueres artesanais, funcionava na própria casa. Mostravam o sucesso, o êxito de pessoas ousadas, de iniciativa, dessas que não se conformam com a passividade e a crise. Vão à luta.

Até aí, tudo bem.

De fato, há pessoas que, sem opção de emprego formal, acabam por descobrir um nicho de mercado vindo a prosperar, ganhar dinheiro, ascender socialmente, ter muitos empregados e tudo o mais. Resumindo: ficam ricos!

O que está errado aí?

Essa rede de televisão querer convencer o povo brasileiro de que o caminho tem que ser esse aí. Ora, nem precisa sacar muito de Matemática para saber que não há lugar para todos no ramo dos negócios, das vendas, do empreendedorismo. Não há consumidor para todos.


Lembrando do caso Baiano, pego os táxis como exemplo.


Alguém, por opção ou por falta de emprego mesmo, com algum esforço talvez consegue um táxi para dirigir. Legal! Sem patrão, sem ordens de cima, sem horário rígido para cumprir. Basta conhecer bem a cidade e pegar passageiro aqui e deixar ali, e assim vai. No início dirige de aluguel, mais tarde — sempre com algum ou muito esforço e bastante economia — passa a conduzir seu próprio táxi, aproveitando taxas menos ferozes, embora a especulação que existe no ramo quanto às permissões. 


Todavia, por mais que lute e economize horrores, tendo esposa e filhos para sustentar, vestir e educar, não conseguirá muita coisa e, é provável, que ao final de trinta ou quarenta anos, ainda seja taxista, quando muito com dois táxis. Seus filhos, vendo a profissão do pai, se não estimulados a estudarem, tenderão a também se ocuparem como taxista. As exceções são poucas.

Nada contra a profissão, pois cito o caso apenas como exemplo.

Mas, ainda no exemplo exposto, o taxista ignora (ou finge não ver) os riscos de uma profissão das ruas, exposto à violência urbana. Se adoecer, nenhuma renda nesse período. É torcer e cuidar para a saúde não falhar. 

De um grupo de cem ou, em hipótese melhor, cinquenta taxistas, é possível que um ou dois venham a prosperar e, ao final de dez, vinte anos, sejam proprietário de uma frota de táxis, alocando-os a outros condutores. Isso será uma exceção, não a regra. A regra é iniciar-se numa profissão e continuar nela ao resto de sua vida.

No caso dos vendedores de hambúrgueres, outros tentarão seguir o mesmo empreendimento, mas não terão a mesma sorte.

Quem inicia dirigindo um táxi, sonha ser proprietário de uma grande frota para, a exemplo de Baiano, então explorar outros que se iniciam nessa vida. Quem começa vendendo hambúrguer, deseja prosperar e tornar-se dono de uma rede de lanchonetes, e aí sim ter sob sua direção dezenas de empregados, ainda que mal remunerados. Idem em relação às lojas de confecções, mercearias ou mercadinhos, botecos, e assim por diante. “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, conforme sentenciava Paulo Freire.

Mas de tantos, somente uns poucos conseguirão. É a lei do mercado, e nem se precisa entender de Economia para saber disso.


Por trás de uma inocente matéria televisiva, a emissora procura passar uma mensagem: crises e desempregos podem ser vencidos com iniciativas, negócios próprios, vendas, serviços, coisas assim.


Você é demitido do emprego. Depois de procurar outra ocupação, ou não encontra ou o salário é muito aquém daquele que recebia anteriormente, então decide instalar uma mercearia (outro exemplo, pode ser outro negócio qualquer), aplicando a indenização trabalhista recebida, investe em equipamentos, locação de imóvel, alvarás e licenças, estoque e tudo o mais, você gasta a grana que tem e, sendo insuficiente, a que não tem, pedindo dinheiro emprestado a bancos e parentes. No final, corre sério risco de ver que o que entra não supera o dinheiro investido. Se der certo, tudo bem, mas isso é uma exceção, não a regra.


A emissora tem lado político. Sempre vai atrás dos vencedores, daqueles que se deram bem. Ela não se interessa em entrevistar os que perderam, endividaram-se, ficaram em situação pior do que antes.

Por trás disso, está a precarização trabalhista, proposta pelo Governo Federal e aprovada pelo Congresso recentemente. Outras “reformas” estão aí para serem impostas ao povo brasileiro. 

A questão do Ensino Médio é uma delas. O povo vem sendo doutrinado diariamente pelas grandes redes de comunicação — tevê, rádio, mídia impressa e internet — a aceitar que a tal reforma de ensino será uma boa para a nossa gente. Dos filhos de pobre o sistema formará técnicos para, uma vez técnicos e operários, se acomodarem nesse estágio, deixando as vagas nos cursos universitários para os filhos de pessoas mais abastadas. 


Sabe-se que, uma vez acomodado a uma determinada situação, o cidadão, já por ser chefe de família, filhos para criar, sair cedo de casa e chegar tarde, vicissitudes tais não permitem que volte aos bancos escolares a fim de deslumbrar ascensão social. Nasceu tatu, morreu cavando, como dizia Eloy Santos, um radialista paraense.

Essa forma elitista e discriminatória de pensar difere do que vem sendo praticado a partir do ano de 2003, quando foram promovidas políticas de ensino inclusivas, que permitiram ao filho do porteiro, da empregada doméstica, do taxista, do operário, estudar ao lado da filha do médico, do juiz, do professor universitário, do engenheiro, do gerente de banco. Outras políticas inclusivas também foram promovidas, gerando qualidade de vida e, sobretudo, esperanças a uma camada da população brasileira que sempre foi lembrada somente na hora do voto. Mas essa esperança, ao que parece, está com os dias contados.

No mesmo diapasão vieram as novas leis trabalhistas, que mutilaram os direitos dos trabalhadores brasileiros, duramente conquistados no decorrer de décadas com muito sangue, suor e lágrimas. Igualmente tentam nos impor a tal “deforma” previdenciária, que imporá ao trabalhador brasileiro mais tempo de trabalho e menor provento, isso se sobreviver até lá. 

É necessário que o povo brasileiro acorde, deixe de lado as fantasias das telenovelas; saibam que o dono da rede de televisão (e outros) não está nem aí para o povo, a não ser interessado em sua audiência porque isso rende mais dinheiro, muito dinheiro, e também a influenciar o seu voto. 

Acorda, minha gente!  

L.s.N.S.J.C.! 

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A FINA flor da juventude brasileira!

QUANDO eu digo que nós da Tarjeta Branca, turma 171, fazíamos parte de uma espécie do jardim da infância pode parecer exagero a muitos que não viveram na condição de aluno da Escola de Especialistas naquele biênio, final da década de 1970. Noutras palavras também dizia-nos o Professor Evandir (essa profissão e nome devem ser grafados por extenso, tal era a grandeza daquele profissional que nos ministrava Educação Física, e que ia além desta): “Vocês são a fina flor da juventude brasileira!”.

Nossa turma!

Pois bem.

Estávamos todos no galpão de escreventes. Entre uma aula e outra, o intervalo se constituía em festa, tal a algazarra (ainda se diz assim?) que promovíamos. Uma delas era os apelidos que eram atribuídos (e o autor da maioria dos apelidos era o Délio, o nosso zero um) a vários de nós.

O que mais sofria era com certeza o Vieira Lima, cuja alcunha era “porcolino” por causa da sua fisionomia que lembrava vagamente um suíno. A turma não perdoava! Também havia o “mula”, que era o Antunes por causa do seu queixo volumoso. Outro era o Maia, que ganhou do Délio o apelido de “caranguejo”. Eu levei o apelido de “pato”, talvez em razão do formato de nariz. Por fim, havia o “lua”, e o Cosme foi premiado com esse nome por causa do seu rosto redondo que lembrava a lua cheia.

Mas não ficava só aí, entre nós, alunos.

Sobrava também para os sargentos (sem que eles soubessem, evidentemente). O sargento Expedito foi batizado com o nome de “bule” devido ao seu jeito de fazer a posição de sentido, sempre com as duas mãos juntas ao corpo à altura do umbigo, igual ao utensílio doméstico de café. O Délio, mal dava o intervalo, e fazia a imitação do primeiro-sargento, e nós ríamos muito. O Reis, por ser meio gago, e por dar aula de Contabilidade Financeira, era o “fic-fat”.   Uma vez, dado o horário de intervalo, ficamos na sala fazendo a costumeira bagunça e zoando uns dos outros, quando alguém soltou um. Por azar, foi justamente aí que o sargento Vesaro, instrutor de Investigação e Justiça, entrou na sala a pretexto de alguma coisa e, passando a mão em frente a cara como que na tentativa de afastar o mal cheio característico e inevitável, censurou-nos:  

“O Délio, mal dava o intervalo, e fazia a imitação do primeiro-sargento, e nós ríamos muito.”

— Vocês não sabem conviver em coletividade.

Valdemir Vesaro era o sargento mais azedo e antipático do Curso de Escreventes. Depois que ele virou as costas, demos muita risada e continuamos na bagunça.

Vocês lembram disso, colegas e amigos Jeronimo Giglio Lopes, Adão Paulino da Silva, Paulo Sergio Silva, Nilton Clemente, Delmo Gonçalves Rocha e Délio Gonçalves Rocha?

Ou vão me deixar mentir sozinho?

L.s.N.S.J.C.!

(Postagem original em 06jan2015)

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O QUE escrever agora?

DEPOIS de 180 páginas formato A4, senti no peito um grande vazio. E agora, o que fazer? Qual seria a minha próxima empreitada?

Escrever está no meu sangue.

No fecho das páginas que me proponho a transformar em livro carquei lá: “Vamos à história dos subúrbios”. Significa dizer que farei uma releitura sobre a obra de Machado de Assis, focalizando especialmente a metalinguística Dom Casmurro. Afinal, há mais de um século é de interesse público saber se Bento Fernandes Santiago foi – ou não foi – atraiçoado por sua esposa Maria Capitolina e por seu compadre Escobar.

Mas uma das grandes dificuldades para mim é achar o fio da meada. Não é fácil. Outra: é me convencer de que realmente o assunto me apaixona. Isso porque, além de conhecer o assunto, para mim, o escritor deve ter paixão pelo tema.

Minha obra recente foi sobre a Força Aérea Brasileira em seus primórdios. Isso vai de 1941 a 1959. Aí vão algumas razões: primeiro, sou da Aeronáutica; segundo: os aviadores de então fizeram e aconteceram, de início indo às frentes de batalha, cumprindo a missão para a qual foram preparados, depois envolvidos em política e revoluções. De tudo isso, além de inúmeras fontes a abastecer-me, há a experiência nada desprezível de trinta anos de quartel.

Agora, além das histórias de subúrbio, fico também entre outros dois assuntos, ambos relacionados direta ou indiretamente à FAB. Um é o crime do tenente Bandeira, até hoje uma incógnita, tal qual o adultério de Capitu. Outra é sobre o tenente Danilo e outros heróis de guerra.

Literatura ou História? Tal é a questão – como diria Machado.

Mas, além da verve, não basta a vontade de escrever. Diferente de “O País dos Militares e dos Bacharéis”, que está no prelo, para esses três assuntos há pouca literatura. Em todo o caso, pretendo que sejam releituras, nas quais terei que conduzir o leitor a outros “senões”.

Mas, decidido a iniciar, preciso achar o tal fio da meada. Vamos ver!

L.s.N.S.J.C.!