DANILO Moura!

Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas

Por Armando de Sousa Coelho

O nosso herói, Danilo Marques Moura, em uma de suas missões na Guerra

ENTRE os gaúchos do 1º Grupo de Caça na Itália havia um todo especial. Um tipo diferente, ímpar por suas atitudes e reações, completamente despido de maldade, simplório na sua maneira de ser, sem inibições. Enfim, uma figura simpática, apesar de sua barba espessa, que azulava ao sol e parecia estar sempre por fazer. Embora muita gente não concorde comigo, era inteligente e vivo, mas recusava-se terminantemente a pensar durante muito ou mesmo pouco tempo, falando, por isso, de um modo todo peculiar, o que o tornou muito popular entre os fazedores de anedotas, que por sinal, foram muitas a seu respeito. Usava o dialeto gaúcho com perfeição, e até mesmo exagerava, diziam muitos… Tudo isso, mais outras coisinhas, e finalmente a sua fuga -– o que contrariou todas as regras do bom senso, especialmente o dos técnicos no assunto –, tornaram-no personagem muito mais importante, pois passou da anedota para a ópera. Sim, uma ópera inédita aos estranhos ao Grupo, em que os poetas do 1º Grupo de Caça imortalizaram -– para uso interno –- os feitos daquele gaúcho de Cachoeira do Sul. É deste pração que ocuparei nesta história, que a muitos parecerá mais uma anedota, mas que é a pura verdade.

Num dia de inverno, ensolarado, mas bastante frio, com a neve ainda cobrindo o Norte da Itália, ele saiu para mais uma missão com sua esquadrilha. Estivemos juntos pouco antes, enquanto fazia os últimos preparativos para voar. Estava bonito, bem uniformizado, barbeado com um capricho até mesmo desnecessário, barbeado com um capricho até mesmo desnecessário, pois sua barba azulada ficaria oculta, de qualquer jeito, pela máscara de oxigênio. Ora! Afinal, ele era todo especial. Parecia pronto para ir ao encontro da buona sera. Vestiu sobre o fardamento caprichado, o macacão de voo forrado de tecido peludo e quente, próprio para grandes altitudes, começando a transpirar imediatamente, o que mais realçava o azul de sua barba. Aquela indumentária era realmente muito quente. Conversamos ainda um pouco. Partiu.

E nessa manhã… ele não regressou! Foi abatido muito ao norte de nossa base. Ninguém soube exatamente o que acontecera. Ouviram-no dizer, pelo rádio, que ia saltar de para-quedas.

 

Danilo em um dos raros momentos de lazer, junto a seus irmãos, também militares

Devido à missão de que se ocupava na ocasião -– metralhamento de composições ferroviárias num entroncamento fortemente defendido -–, devia ter saltado à baixa altura, o que não encorajava a prognósticos muito otimistas acerca de sua caveira. Sentiu-se a falta do gaúcho, mas a guerra continuava, e se não tivesse sido ele seria um outro qualquer de nós. Não havia tempo para lamentações. Talvez por respeito, por sentimento, ou qualquer outro motivo, suas anedotas não eram mais contadas, mas lembradas com um cunho de saudades. Sua voz estridente não era mais ouvida na garagem, e penso mesmo que os praças que comandava sentiram a falta de suas ordens aparentemente gritadas, na maneira características que todos gozavam. Ele não voltou naquela manhã de inverno. O que teria acontecido? Era a dúvida de todos. Os dias se passaram e logo o pessoal se conformou, e a alegria foi até maior quando da sua volta, após sua fuga excepcional, que só ele mesmo conseguiria realizar com êxito.

O Gaúcho foi abatido por armas automáticas muito distante de nossa base, Pisa. Aproximadamente uma distância equivalente entre as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, ou talvez mais. Saltou a baixa altura e, como Deus também é gaúcho, chegou ao solo com felicidade, nada mais lhe acontecendo do que um corte na língua, que mais tarde lhe foi providencial.

DANILO Marques aeronave
 

Pilotando um P-47 Thunderbolt, o nº 2, o 2º Ten.-Av. Danilo Marques Moura teve seu avião alvejado no dia 4fev1945 pela artilharia antiaérea alemã quando cumpria sua 11ª missão no norte da Itália, à sudoeste de Treviso. Após saltar de para-quedas, chegou ao solo são e salvo, apresentando apenas ferimentos na língua. Depois da aterragem, foi acolhido por um camponês italiano, que lhe assegurou  sobrevivência em território inimigo nas críticas 24 horas iniciais. Assim, dando início à sua épica evasão, na qual percorreu 341 km até sua chegada à Pisa na primeira semana de março de 1945. (Arte: Roberto Celegatti, Revista Força Aérea nº 30, ano 2003)

 

Conta ele que, ao chegar ao chão -– o que aconteceu muito rápido, pois o para-quedas apenas se abriu, ele sentiu o tranco e logo em seguida tocou ao solo, mordendo a língua neste momento -–, ficou um pouco desorientado, sem saber qual atitude a tomar. Venceu a indecisão inicial. Colhe rápido o para-quedas e afasta-se do local da queda. O campo em que caíra estava coberto de neve. O trigo já havia sido colhido e sua palha estava empilhada para servir de alimento ao gado durante o inverno.
Encontrava-se em campo aberto sem saber o que fazer. Recordou-se, disse ele, das aulas do Inglês, dos macetes (Serviço Secreto), e ainda, sem saber o que fazer, ocultou-se no primeiro monte de palha, pois alguém se aproximava. Era um italiano, camponês, aparentemente inofensivo. Entretanto, naquela situação, não podia confiar em ninguém. Tinha que ter certeza. O inglês havia ensinado assim. O homem do campo aproximou-se, e ele ficou na indecisão de pregar-lhe um tiro na cara ou conversar com o paisá.

Decidiu-se pela última alternativa. Esperou. O italiano falou-lhe primeiro. Ainda desconfiado, e com muito medo, dispôs-se a ouvir o italiano, que na sua simplicidade, no isolamento em que vivia, nunca poderia imaginar o quanto esteve próximo de levar um tiro na cara. É necessário que se faça uma ressalva para louvar a coragem, o desprendimento desinteressado destes camponeses italianos, que, mesmo sem ignorar as conseqüências -– os alemães não faziam mistério das represálias e castigos que infligiriam a todos que ajudassem os Aliados –, ofereciam a sua ajuda a estranhos, da mais nobre maneira, dentro de suas limitadas possibilidades. O nosso gaúcho estava frente a um destes heróis anônimos. Este lhe perguntou, na sua maneira simples e substancial: inglês ou americano? O Fabiano prontamente respondeu: Americano. O bom homem não entrou em pormenores. Escondeu-o mais ainda no monte de palha, cobrindo-o todo, dizendo-lhe que voltaria mais tarde.

Horas amargas deve ter passado o Índio, sozinho, debaixo daquela palha úmida, com frio e muito mais medo, sem sossego de espírito, aguardando o que viria depois, mas que imaginava ser o pior. Não teria sido melhor ter passado o recibo no italiano? Naquela solidão escura e umedecida do monte de palha a sua cabeça não o deixava em paz um só instante. Estava ficando desesperado, pensando que não mais suportaria a situação. Nessa luta íntima, o tempo foi passando e havia sempre uma esperança, a que, como bom jogador de pôquer -– ele considerava todos os ângulos -–, mantinha-o sempre com um restinho de moral. Foi justamente este restinho de moral que o fez suportar aquelas primeiras horas terríveis. A palha molhada o incomodava profundamente, porém o desconforto moral era muito maior. Se fosse outro, pensaria com raiva nas poesias que tanto falavam de odor úmido dos campos. Mas ele nunca tomou conhecimento da existência de poesias. Com muito frio e medo, foi suportando a noite inteira, muito mais fria que quase todo o dia que passara naquele estado deplorável. Sentiu-se enregelado, o corpo começava a se ressentir da posição forçada debaixo da palha, mas tudo isso era bobagem –- contou ele -– comparado com o estado de ânimo de que se sentia possuído. Confessou que esteve próximo a entregar-se ao desespero, desistindo de uma vez. Nessa indecisão, aguentou valentemente a noite fria. O gaúcho era especial de verdade. Valente, simples, inconsciente de sua força moral, enfrentou tudo aquilo com uma galhardia inigualável, com uma naturalidade nata, só compreendida pelos que com ele privaram. Ao contar a sua história, depois de sua volta, sentia-se que estava sendo sincero no seu relato, sem preocupações de se fazer herói.

continua

Você pode se lamentar muitas vezes por ter pronunciado uma palavra indelicada, mas nunca por ter pronunciado uma palavra bondosa. Bert Estabrook

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!