NÃO VOS escandalizeis!

APÓS mais uma sessão de instrução física, rotina que na Base Aérea ocorria às terças e quintas, capitão Pacobahyba chega ao Serviço de Suprimento Técnico, setor do qual é chefe. Nessa terça-feira vem em caminhada tranquila, procurando recuperar-se do esforço físico praticado até minutos antes. Anseia agora por chegar ao prédio, a fim de tomar banho e fardar-se para o restante do expediente. Aproximando-se, vê que lá no armazém do térreo já estão dois de seus graduados, que, provavelmente faltaram à instrução; a saber mais tarde porque razão. Anotou de cabeça para depois saber o porquê.  Geralmente o oficial, homem sereno, não é de dar a mínima para o fala-fala da turma, com suas brincadeiras e causos, mas não lhe pode escapar, de quando em vez, que ouça sem querer a conversa de seus subordinados.

O blogueiro

É o caso de agora. Deteve-se um pouco reduzindo a passada.

— Estava aqui relembrando um caso, J. Pereira, que você contou outra vez, acho que quando era cabo. Faz tempo… — Gentil provocava assim, como quem não quer nada, que o João Pereira relembrasse um episódio antigo, sabendo da necessidade que as pessoas têm de conversar e de serem reconhecidas pelos seus feitos e testemunhos.

— Diga, homem, onde quer chegar.

— Sabe aquele caso do capelão, esse episódio bem que poderia dar um capítulo do meu próximo livro.

— Eu era já terceiro-sargento nesse tempo e servia noutra Unidade, numa outra cidade. Mas veja, Gentil, tornar público uma situação particular, que realmente aconteceu com um cristão, acho que não é uma boa ideia. Pode dar rolo, dar processo de justiça, essas coisas, no mínimo melindrar a família…

— Qual nada. Dou nomes fictícios, acrescento detalhes burlescos, invento provérbios engraçados, ponho um advérbio aqui e outro ali. No final, nem vai parecer que foi fato verídico, que aconteceu mesmo. Esses truques de escritor.

Truques de escritor, mas um escritor de meia-tigela, dizia de si para si João Pereira. Mas, o sargento, notando a aproximação furtiva do capitão Pacobahyba, meio que lisonjeado, começou a narrar com empolgação o seguinte:

Lembro de tudo perfeitamente como se o fato que principio a narrar houvesse acontecido ontem. Nesse tempo, eu trabalhava na Ajudância. Um de meus trabalhos era a parte de inclusão e alteração de dependentes e beneficiários, recebia as certidões, fazia o item para publicação em boletim, mandava a mensagem-rádio para a diretoria de saúde, aprontava declaração de beneficiários, depois fazia o ofício, e ainda alterava a ficha individual e o fichário de dependentes de cada um dos militares da Unidade, do coronel comandante ao cabo mais recruta. Ao que parece, essas tarefas não davam trabalho. Era o que eu pensava quando comecei lá, mas, veja que todo santo dia tinha alguém nascendo, alguém casando, alguém morrendo, alguém se divorciando, alguém completando maioridade, de forma que esse trabalho rotineiro me ocupava desde logo após o fora-de-forma da chamada até ao toque de reunir para a formatura de final do expediente, indo, não raro, além desses horários para deixar a papelada em ordem e em dia.

Era chefe da Casa das Ordens o suboficial Jerônimo, quase trinta anos de serviço. Nesse dia em particular, uma sexta-feira, o chefe estava mais calmo, ele que, geralmente, era por natureza intransigente e autoritário. De lá do alto de sua mesa, que realmente situava-se num patamar superior, a partir do qual podia visualizar toda aquela turma de sargentos antigos, sargentos medianos e sargentos novinhos, cabos datilógrafos e soldados auxiliares, além de um taifeiro fora de função e três funcionários civis escreventes, sendo duas mulheres, o suboficial ia dando as ordens ou encaminhando, por meio de um soldado estafeta, os documentos que, aos montes, chegavam à seção a toda hora. Diversos eram os assuntos da rotina diária: partes pedindo férias ou afastamentos temporários, comunicação de viagens, escalas de serviço, ofícios externos vindos de algum comando superior ou diretoria, ofícios oriundos de algum juiz solicitando informações pessoas acerca de um ou outro militar, boletins externos com ordens e notícias diversas e tantos outros encaminhamentos, que faziam parte da rotina administrativa de pessoal militar. Jerônimo, após uma rápida vista, direcionava os expedientes para um ou outro responsável, sempre com uma recomendação ou orientação resumida conforme cada caso.

Igualmente, encaminhava as pessoas, militares ou civis que ali chegavam procurando solução para seu problema. Em meio àquele ruidoso matraquear daquelas vinte e tantas máquinas de escrever, num certo momento, ao olhar para a porta de entrada, vislumbra aquele senhor, já ido pelos seus cinquenta, à paisana, barba por fazer. O suboficial então, após uma breve cogitação, reconhecendo-o enfim, levanta-se, prestando-lhe a continência regulamentar, e lhe indica a direção em que ficava a minha mesa, apontando a minha figura com o braço direito.

Aproximando-se de mim o capitão José Ladeira Sobrinho — esse era seu nome completo — estendeu-me a mão para cumprimentar-me, ao que, disciplinadamente, respondi levando a mão direita em continência regulamentar, para, em seguida, lhe indicar a cadeira que estava à frente da minha mesa.

“Bom dia, meu irmão J. Pereira. Como vai?”. Cumprimentava-me como a um amigo de longa data.

“Peço que você não se escandalize com o que vou tratar agora”. Tirou do bolso uma carteira porta-cédula e dela extraiu dois retratos. Uma das imagens era a de uma jovem que aparentava, quando muito, uns quinze anos de idade, bastante graciosa. A segunda era a fotografia de outra jovem aparentando talvez mais dois ou três anos que a primeira; tinha no máximo dezoito anos. Era mais bonita que a primeira.

“São minhas filhas”. Elogiei a beleza das filhas do capitão Ladeira. Como sempre procurava fazer bem o meu papel, atendendo a todos sem distinção, não demonstrei nenhuma surpresa diante daquela revelação inusitada. Naquela época era pouco assíduo à religião. Sim, sabia de quem se tratava. Ladeira serviu por quatro ou cinco anos antes como capelão naquela Unidade. Depois fora transferido para Brasília e a última notícia, que vi no boletim da Diretoria de Pessoal, é o religioso havia sido reformado no posto em que ocupava. Ainda que não lhe fizesse pergunta alguma, continuou a conversa comigo como se a justificar.

“A verdade é que tenho essa família maravilhosa: filhas e uma companheira há quase vinte anos. Quando fui transferido, comprei uma casa lá no bairro das Laranjeiras, onde deixei instalada a família. Segui eu para Brasília a fim de exercer minhas funções lá.  Ocorre que um vizinho, sabendo de minha condição de religioso e também do meu vínculo militar com a Força, após algumas arengas, acabou por denunciar-me às autoridades religiosas. Estas, por sua vez, denunciaram-me à Força Aérea, que instaurou conselho de justificação contra mim. Acabei sendo reformado proporcionalmente ao tempo de serviço, que não era mais de vinte anos. Assim, o soldo que recebo não vem cobrindo as despesas de família, subsistência, colégios para filhas, saúde…”. Nesse momento, aproveitando a pausa que fez para tomar fôlego, pedi ao capitão Ladeira que fosse direto ao assunto.

“Preciso de médico e hospital para as filhas”, disse-me.

“Aqui estão as certidões de nascimento delas”, mostrando-me esses documentos que estavam numa pasta de papelão. De posse das certidões, pedi licença ao meu datilógrafo que, ao meu lado datilografava um ofício, e eu mesmo me pus à tarefa de incluir oficialmente as filhas do capitão Ladeira no catálogo de dependentes e beneficiários do Ministério da Aeronáutica. Fiz o item de boletim, fiz a mensagem-rádio em três vias, a declaração de beneficiários, que ele conferiu e assinou, e também o ofício de envio. Peguei essa papelama toda e, aproveitando-me da ausência do suboficial Jerônimo, que havia se ausentado para tomar um café, segui direto à sala do major Pinheiro, comandante do Esquadrão de Pessoal.

— E o major não disse nada? — interrompe Gentil.

O major apenas olhou os papéis que pus à sua frente e pôs a assiná-los, um a um. Provavelmente não era surpresa para ele dessa condição particular do capitão Ladeira. Ou talvez não, já que era novato na Unidade. O fato é que assinou sem pedi-me uma palavra de explicação, nem ao menos sobre a ausência do suboficial Jerônimo, pois levar documentos à apreciação do major era uma de suas funções. Voltei com os expedientes chancelados pela autoridade competente, destaquei uma cópia da mensagem rádio à qual apus um carimbo da Unidade como uma espécie de autenticação.

“Meu capitão, com essa cópia de mensagem o senhor tem suas filhas habilitadas ao atendimento médico em qualquer unidade de saúde da Força. É, porém, um documento provisório, mas assim que chegar da Diretoria de Saúde o cartão, eu pessoalmente telefono para o senhor”. O capitão, não se contendo, abraçou-me e, quase a chorar, falou-me assim:

“Você não sabe, meu irmão, o grande fardo que me tira dos ombros. Para sobreviver, instalei na frente de minha casa um boteco. Vá lá, no bairro das Laranjeiras, beber umas cervejas por minha conta”.

Ao chegar à porta, ainda voltou a face para mim, acenando-me efusivamente. Tal episódio, que o tempo não me fez esquecer, deixou-me também alegre, feliz, gratificado, fazendo-me achegar finalmente Àquele que a todos perdoa e acolhe indistintamente o justo e o ímpio. Tal como ao capitão Ladeira, Ele haveria de também me redimir.

— Que história interessante! — falava o capitão Pacobahyba, que estava a poucos metros do sargento J. Pereira.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!  

O PODEROSO Titanic!

“Muitas coisas valentes aconteceram naquela noite, mas nenhuma foi mais corajosa do que aquela feita pelos homens, tocando minuto após minuto, enquanto o navio afundava silenciosamente mais e mais no mar. A música que eles tocaram serviu como seu próprio réquiem mortal e seu direito de serem lembrados nos pergaminhos da fama eterna.”

Gravura do Titanic naufragando (fonte: Google)

ÀS ONZE e quarenta da noite de 14 de abril de 1912, domingo, uma imensa pedra de gelo sela a sorte daquele que era considerado o maior — e mais seguro — navio de passageiros do mundo. Levou consigo mais de 1.500 vidas para um sono eterno nas profundezas geladas do Atlântico Norte. É a sua viagem inaugural.

Mas o que (ou quem) afundou o Titanic?

Muitos atribuem o feito a Deus. Assim acontece porque surgiu a lenda de que seus construtores teriam dito que “Nem Deus consegue afundar o Titanic”. Na verdade, não há comprovação alguma de que isso seja verdadeiro.

Sendo lenda ou fato, será mesmo que Deus quereria a morte de tanta gente inocente? Eu, na minha insignificância terrena, acredito que não.

O poderoso e inaufragável RMS Titanic (fonte: Wikipédia)

Digo mais.

Não foi simplesmente o iceberg a razão do naufrágio do Titanic, senão uma conjunção de fatores humanos. Entre eles, resumidamente, podemos considerar a vaidade, a arrogância, a ganância e a negligência.

No início do século XX, os Estados Unidos da América já emergiam como a maior potência mundial, ferindo os brios dos soberbos britânicos e outras potências. Era preciso dar uma resposta, portanto.

O Titanic e seu irmão gêmeo, o Olympic, pertenciam à empresa White Star Line, de propriedade de Joseph Bruce Ismay. Os dois grandes navios foram fabricados em Belfast (Irlanda do Norte) pela Harland and Wolf, de propriedade do lorde William Pirrie. Em 1907, eles decidem construir três navios: o Olympic, o Titanic e o Brittanic. Essas embarcações seriam as maiores, mais luxuosas e mais seguras construídas até então, já que para os dois homens a melhor aposta era competir com seus rivais britânicos, alemães e norte-americanos em elegância em relação à velocidade. Foi decidido também que o Olympic e o Titanic seriam construídos ao mesmo tempo, lado a lado.

O Titanic, ainda em fase final de construção (fonte: Google)


Para construírem cada um desses navios são necessárias mais de duas mil placas de aço, que mediam três por quatro metros, unidas por mais de três milhões de rebites. Portanto, são aplicados mais de nove milhões de rebites.

O Titanic, o Brittanic e o Olympic (fonte: Google)

Mais de cem mil pessoas, entre empregados da White Star Line (proprietária) e da Harland and Wolf (construtora), jornalistas e público em geral, testemunham o lançamento do Titanic às águas em 31 de maio de 1911. Na verdade, à essa altura o navio é apenas um grande casco vazio, que, a partir daí, receberia todas as máquinas, equipamentos e decoração até ficar pronto. Logo após o seu lançamento ao mar, três mil profissionais, entre mecânicos, pintores, eletricistas, encanadores, carpinteiros e decoradores, trabalham de junho de 1911 a março de 1912, equipando o navio com as mais recentes tecnologias e inovações navais, além de instalarem suntuosas mobílias e objetos de decoração.

Segundo o jornalista britânico Senan Molony, estudioso do caso Titanic por trinta anos, o navio, antes da viagem inaugural e fatídica, sofria, por dez dias ou mais, um incêndio interno. Outras fontes apontam para três semanas a duração do fogo. Num dos compartimentos onde havia grande quantidade de carvão surge um incêndio espontâneo, que, na impossibilidade de ser extinto totalmente antes da partida inaugural, permanece ativo, porém sob controle. Consultado, Joseph Bruce Ismay decide não determinar o retorno do navio para os estaleiros pois o atraso significaria danos na reputação da empresa. Para evitar especulações, o navio ancora no porto de Southampton de forma que o casco onde age insistentemente o fogo fique para o lado do mar, devidamente a salvo dos olhares do público e dos jornalistas presentes.

É mantida a viagem inaugural para a data prevista: 10 de abril de 1912.

Titanic sob olhares de curiosos, familiares e jornalistas (fonte: Google)

Naquela quarta-feira, o Titanic parte de Southampton, levando a bordo 1.316 passageiros: 706 deles na terceira classe, 285 na segunda, e 325 na primeira classe. A tripulação, sob o comando do experiente capitão Edward Smith, quarenta anos de mar, é composta de 892 profissionais.

No dia 13, o equipamento de rádio do navio sofrera uma pane, que só é sanada no dia seguinte, o domingo fatídico. Com as comunicações interrompidas, ocorre um grande acúmulo de mensagens de interesse dos passageiros, que seriam transmitidas aos continentes. Durante o dia 13 e também no dia seguinte, como regra do mar, alguns navios enviam mensagens alertando a tripulação do Titanic sobre a existência de extensas camadas de gelo sobre o mar e também da presença de icebergs. Nesse mesmo dia, à tarde, a tripulação finalmente consegue extinguir o fogo. Muitas mensagens são transmitidas no dia anterior. No entanto, devido ao defeito do rádio, não são recebidas, e as eventualmente recebidas são subestimadas. No próprio dia 14 também são reiterados os alertas sobre o risco do gelo e de icebergues. Nesse dia, porém, os radiotelegrafistas, assoberbados pelo grande número de telegramas a serem transmitidas, ignoram totalmente as mensagens que chegam de outros navios, inclusive novos alertas sobre os riscos de iceberg naquela área do Atlântico.

“Calem-se e nos deixem trabalhar!”

Naquela época, a tecnologia ainda não permitia, como hoje, o uso de radares e de outros equipamentos capazes de detectar a presença de obstáculos. Isso era feito a olho nu. Por isso, um marinheiro, munido unicamente de binóculo, ficava ao alto com a missão de verificar quaisquer problemas ou objetos que representassem ameaça à marcha do navio. Na véspera da partida, no entanto, o homem responsável pelo compartimento onde estavam armazenados os binóculos é, de última hora, substituído por outro oficial, considerado mais experiente, esquecendo de lhe passar as chaves. Ninguém, porém, dá muita importância ao fato. Os equipamentos existiam, porém, inúteis, já que se encontram trancados e ninguém tem as chaves para abrir o compartimento. Na verdade, quando dão pelo problema, o Titanic já singra a pleno o oceano, de forma que nada mais pode ser feito, a não ser os marinheiros se revesarem a olho nu na observância visual da imensidão do mar.

Era um domingo de noite estrelada e sem luar quando, aos 41 minutos para a meia-noite, alarmado, o marinheiro da hora aciona a sirene:

Iceberg à frente!”

A gigantesca pedra de gelo está a apenas 37 segundos. Surpreendidos, o capitão e seus oficiais titubeiam nas ordens, perdendo alguns segundos preciosos, que poderiam salvar o navio do desastre que se aproxima inexorável. Não é mais possível evitar que o enorme navio, com os seus 269 metros de comprimento, se choque contra a gigantesca pedra de gelo.

A sorte está selada.

É questão de apenas duas horas e mais quarenta minutos para aquele navio, que levou três anos para ser construído, considerado o mais seguro do mundo, ser lançado às profundezas geladas do Atlântico Norte.

Diante do corre-corre, muitos passageiros não compreendem exatamente o que se passa. Alguns pensam tratar-se de um treinamento. Os músicos, que viajam na segunda classe, são acionados para, no convés principal, acalmarem os passageiros enquanto os marinheiros descem os botes salva-vidas. Esses heróis, os músicos, permanecem no campo de luta até o último instante, numa demonstração inconteste de grande ato de heroísmo e bravura diante da morte certa.

Um dos heróis, e um dos mais jovens, é John Law Hume. O jovem, violinista, natural de Dumfries, Escócia, tem apenas 21 anos e era noivo. Sua família, todavia, não concorda com o relacionamento, de forma que ele e sua noiva casam-se anonimamente. Os dois decidem que na volta da viagem que Hume faria como músico do Titanic, revelariam como um fato consumado o casamento à família do noivo. Esperam um filho. Há no caso, a despeito da família do jovem músico, toda uma história de amor e de luta, antes e depois do desastre, até que a justiça britânica finalmente venha a reconhecer a paternidade de Hume sobre a criança que viria a nascer alguns meses depois da morte de um dos heróis do Titanic. É importante dizer que os músicos não faziam parte da folha de pagamento da White Star Line, mas de uma firma contratada.

A bordo, entre os passageiros ilustres estão, além do dono da White Star Line, Joseph Bruce Ismay, o milionário norte-americano John Jacob Astor IV e sua jovem esposa, Madeleine, que retornam da Europa por lua-de-mel. Madeleine, grávida, e sua enfermeira embarcam num bote salva-vidas, salvando-se, enquanto o marido, ainda que tente embarcar ele próprio no bote, é impedido, tendo que ceder seu lugar a duas crianças. Outro passageiro ilustre seria um outro milionário, o banqueiro estadunidense John P. Morgan, que, no entanto, acabou por cancelar a passagem na véspera. Deixa de embarcar no Titanic para participar da festa de aniversário de uma amante.

Os heróis, os músicos do Titanic. John Law Hume, violinista, é o penúltimo (fonte: Wikipédia)

Na segunda classe, um dos passageiros é o eslovaco Michel Navratil, que acompanha seus dois filhos menores. Ao embarcar, Navratil mente às autoridades alegando ser viúvo que, em companhia dos filhos, tentaria a sorte no Novo Mundo. Na verdade, ele se divorciara da esposa, sequestrando as crianças. A ex-esposa, a italiana Marcelle Caretto, somente vem a saber da localização dos filhos dias semanas depois, ao ver as fotos dos meninos estampadas num jornal francês.

Ao acomodar os meninos a um bote, Navratil lhes diz:

“Amem muito a sua mãe, pois ela também ama muito vocês.”

Os meninos, Michel Marcel Navratil, Jr. (três anos) e Edmond Navratil (dois anos), passam a ser conhecidos como os “Órfãos do Titanic”.

Edmond e Michel Navratil, os órfãos do Titanic (fonte: Wikipédia)

Em meio a todo o desespero, Joseph Bruce Ismay comporta-se de forma cavalheiresca ao acomodar crianças e mulheres a descerem nos botes salva-vidas, que ele próprio sabe serem insuficientes. No entanto, ao final, quando resta apenas o último bote, ele próprio, acovardado, desce, deixando para trás mais de mil e quinhentas pessoas, entre tripulantes e passageiros, das quais ele era o maior responsável.

Esse foi o maior dos vilões dessa tragédia. Um covarde!

O milionário John Jacob Astor IV, uma das vítimas do naufrágio, e sua esposa Madeleine, sobrevivente (fonte: Wikipédia)

Portanto, não é a Deus a quem se deve atribuir tamanha desgraça, e sim aos homens. Há em todo o processo, desde a construção do navio até o choque contra o iceberg, uma sucessão de negligências e vaidades.

Senão vejamos:

A construção de dois navios (Titanic e Olympic) e mais tarde de um terceiro (o Brittanic) consomem esforços tais que os nove milhões de rebites usados não são de boa qualidade. As firmas de metalurgia contratadas, não conseguindo fornecer na quantidade exigida, apela para a terceirização, para poderem cumprir os prazos exigidos pela Harland and Wolf. Ademais, ressalta-se que havia no período uma greve de mineiros, o que acabou por precarizar ainda mais a qualidade dos rebites aplicados na fabricação dos navios. A qualidade dos rebites foi considerada um dos fatores para a entrada de água no navio quando do choque contra o iceberg.

O fogo contínuo, alimentado por uma grande quantidade de carvão, que castiga um compartimento do navio durante uma dezena de dias ou talvez mais tempo, fragiliza consideravelmente uma parte do casco, justamente o lado direito da parte da proa, local onde ocorre o choque fatal contra o iceberg. Esse incidente, o do incêndio contínuo, acaba por ser subestimado por Ismay e pelos engenheiros responsáveis da White Star Line.

Os binóculos, equipamentos de segurança essenciais na época, ficam trancados num compartimento, cuja chave foi esquecida, certamente detectariam em tempo hábil a presença do iceberg, dando condições para para o navio ser desviado totalmente.

O equipamento de rádio ficou inoperante na véspera do acidente. Como se não bastasse, não foi dispensada a devida atenção a um fato grave: a existência de placas de gelo na região, além de icebergs, fato alertado exaustivamente por navios que cruzavam a área. Ainda que cientes do problema, o comandante e tripulação não determinaram a redução da velocidade do navio, sob a explicação de que o atraso seria danoso para a imagem da White Star Line.

O número reduzido de botes salva-vidas, apenas dezesseis, pois, alertado de que o número deles não seria suficiente para a capacidade total de passageiros do navio, Joseph Bruce Ismay, alegando que a presença de muitos botes seria ruim para a imagem do Titanic, pois seria visto como falta de confiança na segurança do transatlântico, permite a instalação apenas do número mínimo previsto de botes, exigido pela legislação marítima da época. O pensamento predominante era que, em caso de acidente, os barcos serviram apenas para transportar os passageiros para um navio de socorro, porque, segundo pensavam, o Titanic jamais submergiria.

Pobre do homem!

Portanto, contribuíram, além da vaidade e arrogância humana, os rebites de má qualidade, o incêndio interno, os binóculos trancados, o equipamento de rádio defeituoso, a hesitação do comandante, a velocidade do navio…

Ou seja, era perfeitamente evitável o naufrágio do Titanic, um enorme navio de aço, em sua primeira e última viagem, que veio a chocar-se contra um elemento na natureza, que já estava no local desde antes de Cristo.

A essa altura, todos os botes disponíveis já estão no oceano. A bordo deles, mulheres, crianças e um ou dois homens para comandá-los. De lá observam, atônitos, o desespero a bordo do RMS Titanic.

Às duas horas e vinte minutos de 15 de abril, aquele que era para ser o navio mais seguro do mundo, parte-se ao meio. A metade que fica para a popa empina-se, e rapidamente mergulha no oceano gelado, seguindo uma viagem vertical até a quase quatro mil metros de profundidade. O que se ouve então, segundo relatam mais tarde os sobreviventes, são gritos aterrorizantes, indescritíveis, apavorantes, que viriam a provocar nos setecentos e poucos sobreviventes pesadelos horrorosos, até o último dia de vida de cada um deles.

Salvaram-se mais homens da primeira classe que crianças e mulheres da terceira classe. Mais de 1.500 pessoas, com o maior número recaindo sobre os mais pobres, perdem a vida por hipotermia, a maior parte delas, e por afogamento.

Tudo isso foi causado pela arrogância, pela vaidade, pela ganância e pela negligência. Portanto, esqueçam o filme, que foi produzido apenas para seus produtores ganharem muito dinheiro.

L.s.N.S.J.C.!

O PIEDOSO Manuel Pinto!

QUANDO se fala em Manoel Pinto da Silva, o nome do magnata português que fez fortuna em território paraense, imediatamente se remete à sua obra mais conhecida: o imponente edifício Manoel Pinto da Silva. O prédio foi construído na década de 1950, e durante anos foi o mais alto de toda a Amazônia. Morar no prédio mais alto do Norte torna-se o grande sonho de consumo das elites paraenses de então, um sinal de inconteste prestígio.

Facsímile de um jornal de Belém – PA louvando o edifício Manuel Pinto da Silva (fonte: Internet)


Manoel ou Manuel Pinto da Silva? A grafia pouco importa.

Na verdade pouco restou registrado sobre sua passagem pelo planeta Terra. Nenhum livro, nenhuma página na Wikipédia, nada. Nada de interessante, mui provável, tenha deixado o magnata para que servisse de ensinamento aos que ficaram. Prova de sua pequena importância, ao contrário do que ele próprio se considerava.


Mas que essa escassez de notícia sobre Manoel Pinto da Silva não seja razão para o nome do português ficar restrito apenas ao famoso edifício que construiu e que, por vaidade, deu seu próprio nome. Que fique registrado então seu nome, porém não em função de sua importância, bom exemplo ou coisa assim. Ao contrário, o portuga foi um tirano em vida.

Morando na zona rural ainda garoto, não conhecia o prédio histórico batizado em homenagem a seu construtor vaidoso; apenas ouvia falar. Logo cedo, porém, travei conhecimento do nome de Manoel Pinto por meio de meu saudoso pai, um outro Manoel, o Valentim Moreira, que trabalhava como operário num dos empreendimentos do poderoso empresário português, uma de suas olarias. Lá meu pai e dezenas (centenas, provavelmente) de trabalhadores, moldando o barro, fabricavam tijolos aos milheiros para a  construção do gigantesco edifício, e também, com o excedente, para compor as casas e prédios das cidades do estado, ajudando o luso a ficar cada vez mais rico, por conseguinte.

O pai falava bastante sobre o xará milionário, que teria chegado pobre ao Brasil aportando em Belém duas décadas antes. Devia ser jovem ainda e o patriarca era o senhor Camilo Pinto da Silva, pai de Manuel.

Acidentalmente um dia ouvi, entre as conversas dos adultos, minha mãe, dona Maria Ferreira, falando sobre alguém que teria enriquecido.

Difícil ficar rico se nunca explorou ninguém”.

Nunca me esqueci daquele comentário. Riqueza — pobreza — exploração. A partir de então, carrego comigo uma indagação: Seria possível alguém, não tendo recebido polpuda herança ou participado de algum grande negócio  com o governo, ficar rico sem não explorar seu empregado?

Voltando ao portuga.

Como dizia antes, ouvi da boca de meu pai muito sobre o megalomaníaco lusitano. Entre outras histórias, a de que o portuga teria lesado seu próprio pai, o velho Camilo Pinto da Silva, analfabeto, transferindo significativa parcela do patrimônio paterno para seu próprio nome. 

Pinto teria sido um dos primeiros empresários de ônibus na cidade de Belém, além de ter também fornecido material para a construção do aeroporto de Val-de-Cães.

Um patrício seu, estando em situação financeira difícil, foi-lhe bater às portas a pedir emprego. Manoel Pinto, meio que indiferente à presença do conterrâneo, admitiu o compatriota semianalfabeto em uma de suas empresas. Ao contrário do que se esperava, empregou-o num trabalho braçal em vez designá-lo para um cargo de relevância, como desejava o português pobre. Era português, era patrício, mas era pobre, não fazendo jus, portanto, a tratamento melhor. E lá foi o conterrâneo para o rabo da enxada, de nada adiantando a sua condição de conterrâneo do patrão.

Outra.

Certa ocasião, cavalgando por numa estrada vicinal, Manoel Pinto avista um homem  que carregava um feixe de lenha nos ombros. Era seu empregado, por coincidência, mas o patrão não o reconheceria entre centenas de outros que serviam sob suas ordens.


— Onde pegaste essa lenha, ó rapaz?


— Peguei aí… na sua mata, seu Manoel. — responde o mulato, hesitante, trêmulo de medo, apontando com a cabeça a floresta em redor, ao reconhecer o arrogante patrão.

O ricaço mandou imediatamente o caboclo devolver a lenha onde tinha pego. De nada faria diferença para o rico português a lenha colhida pelo operário para queimar no rudimentar fogão. Tomou tal atitude imperativa e antipática com o fito de meramente exercer poder. Era ele o dono, era ele quem mandava e pronto.

Mas a minha mãe deu-me, sem notar, uma aula de sociologia.

Sim, hoje vejo que, por sentirem na própria pele o problema social, a dona Maria e o seu Manoel, desde aquele tempo, possuíam noção de como alguns prosperam materialmente. Muitas vezes se valem do suor alheio, pagando salário vil. Se não querem, tem quem queira. Simples assim.

Mas um belo dia o seu Manoel Valentim Moreira, sendo um homem que lia tudo o que viesse às mãos, ao comprar sabão em pedra, desembalando-o, leu no jornal que servia de embrulho a seguinte manchete:

“Falece o piedoso Manoel Pinto da Silva”

Cumpria assim o poderoso português nosso destino comum. Com certeza não fez falta alguma. 


Que a terra lhe tenha sido leve, como dizia Machado de Assis.


E foram eles, minha mãe e meu pai, os primeiros mestres a me ensinarem que o mundo se divide em dois grupos: o dos que mandam e o dos que obedecem; o dos que usufruem e o dos que apenas sobrevivem; o dos que governam e o dos que apenas servem e pagam imposto.


Mas ao final pobres e ricos têm um destino comum.

L.s.N.S.J.C.! 

ROCILDO Oliveira!

Socó, o elegante zagueiro azulino das décadas de 1950 e 1960

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

COMO de costume, os grandes craques surgiam no subúrbio se destacavam nas equipes menores quando da disputa do campeonato paraense de futebol. Combatentes, Júlio César, Paulista, União Esportiva nunca eram páreo para os grandes clubes, mas eram a grande vitrine, mostrando para o público esportivo belenense as suas grandes jóias. Foi assim com Marituba, Raimundinho, Sessenta, Marido, China, e não poderia ser diferente com ele, o clássico centro médio Hamilton Blanco Fernandes.

Pelo nome poucos conheceram Hamilton Blanco. Ganhou fama e conquistou milhares de admiradores com o meigo apelido de Socó. Socó, um pássaro, e ele realmente parecia voar. Socó saltava, voava, flutuava, dominava no peito o cobiçado balão de couro, aliviava o perigo, e, como a desfilar, sai da grande área para alegria do hipnotizado torcedor Remista, que por doze longos anos teve a felicidade de acompanhar esse verdadeiro maestro da defensiva azulina.

O grande defensor fez a sua primeira partida com a gloriosa camisa azul na tarde do dia 13 de maio de 1956, no estádio da curuzu num amistoso contra o rival bicolor, que terminou empatado em 1 a 1. Socó, apesar de não ser considerado um zagueiro artilheiro, balançou as redes adversárias por nove vezes ao longo de toda a sua vida esportiva, defendendo as cores do Clube do Remo. Os gols mais importantes foram marcados na decisão do campeonato paraense de 1960. Socó marcou por duas vezes no empate de 3 a 3 contra o Paysandu , mas não conseguiu com o empate o título de campeão, que ficou de posse do grande rival listrado.

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

Além de alguns torneios, o eterno craque conquistou ainda os títulos paraenses de 1960, 1964 e 1968. Socó, que encerrou a sua brilhante carreira no ano de 1968, após ser ferrado por uma arraia em uma praia do Mosqueiro, defendeu também a Seleção Paraense, sendo escolhido em 2000 pela crônica esportiva local para fazer parte da seleção paraense do século XX.

Faleceu em 1 de abril de 2015.

***

SÃO as homenagens a Hamilton Blanco Fernandes, o popular Socó, do grande cronista azulino Rocildo de Oliveira, que postou esta crônica no Facebook, e com esta postagem faz a sua estreia no BLOGUE do Valentim, que costuma divulgar belos textos como este. Da minha parte, só lamento que não existem mais jogadores assim, que vestem a camisa de um mesmo clube de futebol por tanto tempo, criando uma verdadeira identificação com suas cores e com seu torcedor.

Até os anos 70, ainda era comum ver jogadores e craques como Zico, Roberto Dinamite, além do imortal e inigualável Pelé, que desfilaram com a camisa de Flamengo, Vasco e Santos por muitos anos. Nas equipes tradicionais do Pará, como é o caso de Remo e Paysandu, era fato corriqueiro e normal jogadores que, além de grandes craques de bola, também davam sangue pelas suas cores e isso por durante diversas temporadas.

Hoje, mal um garoto começa a se destacar e logo vem um agente que, de posse de um instrumento de procuração, o leva para outro clube, deixando suas origens futebolísticas. Pior ainda para equipes tradicionais e populares, porém sem muita infraestrutura, como é o caso do nosso amado Clube do Remo. Quanto aos veteranos, mal conseguem jogar por uma temporada apenas.

L.s.N.S.J.C.!

JOSÉ Augusto Moita!

Anotações estradeiras II (Belém, Pará)

A IDEIA de ter procurado um hotel perto do porto mostrou-se por demais inteligente, o escolhido não tem luxo mas é bastante agradável e fica perto de tudo. No café da manhã outra grata surpresa: nos aparece uma senhora idosa, muito distinta e educada, pergunta como tinha sido a noite e se estávamos gostando da estadia. Era Dona Odete, uma portuguesa que chegou no Brasil por volta de 1974 e há 16 anos é a proprietária do Hotel Unidos — agora entendemos o nome, pois sua filha está nesse exato momento na recepção.

O cronista José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Aqui abro um parêntese para dizer que já fomos servidos por uma primeira dama do município. Foi numa cidade de Goiás que agora nos falta o nome, onde o prefeito (descendente de italiano) era dono do hotel, a família toda trabalhava na manutenção do mesmo hotel e de um restaurante vizinho; a esposa servia o café e os filhos e sobrinhos eram garçons e recepcionistas. Mas isso tudo são coisas de imigrantes, nosso orgulho de senhor feudal não nos permite tamanha vergonha.

Tínhamos marcado com um primo, Moita da gema, que só conhecíamos do feicebuque, mas que se prontificou a nos levar onde quiséssemos.

Vou ter que abrir outro parêntese para falar sobre a Família Moita. Meu tetravô materno chegou de Portugal em meados do Século XIX, instalou sua família no alto da Serra da Ibiapaba, foi tão prolífero que contaminou todo País com sua carga genética, parecemos hoje o mosquito da dengue, existimos no Brasil todo.

Já a ideia de aceitar o convite do primo Clóvis Nunes Moita logo mostrou-se não ter sido inteligente, foi muita “AUMILHAÇÃO” do começo ao fim do passeio. Vou explicar porquê. Nós tínhamos dito que Belém é uma cidade linda, mas nos enganamos, é lindíssima. E quando nosso primo começou a nos mostrar os prédios, as praças, as ruas arborizadas, os monumentos históricos preservados, inevitavelmente nos veio a comparação com Fortaleza, aí bateu aquele desgosto… E tome o primo a nos mostrar os palacetes… e o desgosto aumentando. Chegou um momento em que ele sugeriu que fossemos conhecer as praias do Pará, de imediato eu pensei comigo: é melhor que não, a vergonha pode ficar maior, vamos nos enganar que pelo menos no quesito praia ganhamos deles.

Palacete Bolonha, Belém – Pará (fonte: Google)

São muitos os casarões e palacetes frutos das riquezas que essa Terra já produziu e produz, a maioria bem preservados, felizmente. Dentre os segundos se destaca o Palácio do Amor, uma obra de uma beleza estonteante construída pelo arquiteto italiano Antônio Bolonha, contratado a peso de ouro por um barão paraense para cuidar da criação de suas edificações.

Só que sua amada não quis vir do Rio de Janeiro para dentro da selva. O ardoroso esposo, como pássaro que capricha no ninho para atrair a companheira, deu de presente a ela e à cidade de Belém, uma verdadeira maravilha arquitetônica — história muito parecido com uma que ocorreu na “loura desprezada pelo sol”, só que a nossa teve um final trágico, botaram abaixo o palacete (poupamos nosso primo de mais uma vitória sobre nós, não contamos que o Castelo do Plácido, que viveu a mesma epopeia de amor, já não faz mais parte do mundo dos vivos).

Basílica de Nazaré, Belém – Pará (fonte: Google)

Quando estávamos pensando que nossa vergonha tinha passado, meu primo nos leva para conhecer o Santuário do Círio de Nazaré. Aí foi a gota d’Água. A AUMILHAÇÃO foi grande demais. A Catedral toda é uma obra de arte de fino trato, não tem como descrevê-la, só se fôssemos Vítor Hugo, é simplesmente linda, até pensei que meu ateísmo havia se acabado. Passamos tanto tempo a contemplar a magnificência dos detalhes das colunas, dos vitrais, do fabuloso órgão de tubos longos, das pinturas de ouro, que os crentes do grupo esqueceram de rezar.

A pá de cal veio quando o primo nos levou até a Casa Salomão, que tem apenas 110 anos em atividade — fichinha para o comércio fortalezense, onde nem Romcy existe mais. É um imenso bazar onde se encontra de tudo, do tecido ao parafuso, com os longos balcões de madeira e vitrines da época da inauguração, apenasmente deslumbrante.

Mercado e feira do Ver-o-Peso (fonte: Google)

Nós já tínhamos sentido que aquela tortura não iria ter fim se continuássemos naquele ponto da cidade, então alguém teve a feliz ideia de pedir ao primo para nos levar ao Ver o Peso. Ufah, enfim em alguma coisa empatávamos com eles, em sujeira de mercado somos iguais. O famoso Ver o Peso é um imenso São Sebastião sem paredes e com o mesmo aspecto de mal cuidado. Tem tudo que um mercado tem: produtos regionais. Mas começamos a notar que dessa vez o primo tinha uma certa pressa em nos mostrar tudo com muita rapidez, parecia que estava querendo chegar logo em algum lugar da feira. E não nos enganamos, ele queria nos levar no setor das ervas medicinais com suas garrafadas afrodisíacas, quando rapidamente as vendedoras passaram a demonstrar as maravilhas miraculosas de cada uma delas.

Para nossa surpresa o primo perguntou se poderíamos levar para Fortaleza duas encomendas, um presente para Raimundão e outro para Paulim. Aí eu disse: ué, e o primo conhece as peças? Se conheço…são as figuras mais badaladas das redes sociais. E o que é que meu primo quer que a gente leve? São apenas duas garrafinhas: uma para Raimundão que é composta de copaíba, raiz de pimba de macaco, banha de cupuaçu, casca do pau preto, seiva de jatobá, raspa da andiroba e leite de sucuba, conhecida aqui como viagra natural; e a do Paulim tem apenas chá de aroeira, para banhos de assento. Eu fiquei sem entender nada..

Ao Clóvis Nunes Moita nossos mais sinceros agradecimentos.

***

O TEXTO acima em que J. A. Moita escreve sobre suas experiências em Belém, por suas peculiaridades de escrita e de descrições, nos deixa, como paraense que somos, bastante desconcertado, apesar de orgulhoso.

Quanto as descrições de alguns pontos turísticos de Belém, é claro que o amigo foi muito bondoso. Com certeza, há muitas coisas lindas e diferentes que podem ser encontradas na capital paraense. Há também coisas imateriais, como a deliciosa e exótica culinária paraense, que, com certeza, o Moita já ouviu falar e até provou.

Mas é claro que comparar a nossa simpática cidade à capital alencarina, devo dizer, a bem da verdade, que Belém — a antiga Santa Maria de Belém do Grão-Pará — sairia perdendo. Nenhuma vergonha em admitir. Por razões estratégicas, em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco mandou construir o Forte do Presépio (edificação que deu origem à cidade) na entrada da Amazônia e não em frente ao mar, tal qual a capital de todos os cearenses e outras belas cidades nordestinas.

Há outra questão, que independe da história, da natureza e da localização: infelizmente, a cidade, Porta de Entrada da Amazônia, vem sendo mal cuidada há décadas. Maus governantes. Não vou nem entrar no assunto favela, palafitas, sub-moradias… Aí sim, é vergonhoso. Mazelas do capitalismo que as grandes cidades brasileiras não estão impunes.

Menos mal que o Clóvis Moita, seu parente, o levou somente aos melhores lugares. Há, além da beleza arquitetônica, toda uma história de amor por trás da construção do Palacete Bolonha. Quanto ao Ver-o-Peso, é um lugar único. Muito interessantes as barracas de ervas com seus nomes pra lá de exóticos e até divertidos: Comigo-ninguém-pode, pega-rapaz, catinga-de-mulata, chama-dinheiro, amansa-corno… Não sei se o Clóvis levou o J. Moita à barraca da Bete Cheirosinha.

Para não deixar de lado a criticidade de que nenhum de nós, brasileiros, devemos nos apartar, atrás da história romântica da construção do palacete há também uma dose alta de exploração dos operários que o construíram, que derramaram ali seu suor e lágrimas. O mercado, o porto e a feira do Ver-o-Peso devem esse nome ao fato de os produtores terem obrigatoriamente de pesar seus produtos para daí a Coroa Portuguesa extrair o imposto que mantinha o luxo e o conforto dos reis e nobres lusitanos. Também aí muito suor, lágrimas e sangue dos cabanos da região. Há aí — como se vê — todo um campo de estudos farto, digno de pensadores como Karl Marx; o materialismo histórico vigendo desde sempre.

Quanto ao estilo literário peculiar do autor, que habilmente se utiliza de linguagem simples e popular, é dificultoso definir. Simplesmente maravilhoso, vamos ficar só aí. Qualquer outra seria redundante, desnecessária, podendo ser injusta.

L.s.N.S.J.C.!

RUFINA, a jovem que morreu duas vezes!

UM DIA desses vejo na tevê que o turismo funerário é mais comum do que se imagina. Chama a atenção as vezes em que o turista é levado para visitar cemitério. Lembro imediatamente de duas viagens que fiz.

Uma foi para São João del-Rei, Minas, terra de Tancredo Neves. Ano de 2001, quando estava no CIAAR em Belo Horizonte. Como não poderia deixar de ser, o guia nos leva à Igreja de São Francisco de Assis, cujo projeto arquitetônico leva a assinatura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Também é dele algumas obras de escultura, como, por exemplo, o Cristo do Amor Divino, em uma das laterais, em que se pode ver o olhar sofrido de Jesus, uma marca desse grande artista brasileiro, que, se fosse estadunidense, sobre a vida dele teriam feito ene filmes e não sei quantos livros.

Cristo do Amor Divino, obra de Aleijadinho, São João Del Rei, Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

“Olhem para o chão! Para o chão”.

Entre tantas coisas interessantes para se contemplar, o guia nos chama a atenção para o assoalho da igreja. É de madeira e embaixo dele, faz muito tempo, eram sepultadas as pessoas ricas, muito ricas, os barões e baronesas da cidade, bem como seus filhos e demais parentes. Benfeitores, faziam questão de ser sepultados no solo sagrado da igreja, já que assim era certeza sua alma repousar no paraíso — era o que acreditavam. Ricaços, perpetravam em vida sórdidas ações, explorando, violentando, inclusive escravizando; uma vez mortos, por terem seus ossos repousando em solo sagrado, o céu lhes estaria garantido. Muito fácil! Coitadas das outras infelizes almas, as dos pobres, que em vida não possuíram honra, dinheiro e poder. Enterrados em qualquer lugar, bem longe da igreja, com certeza tinham por destino os braços esqueléticos do Capiroto!

No entanto, um belo dia o papa — cujo nome não guardei — resolve proibir tal prática macabra. Pudera. O cheio já se manifestava insuportável, ficando proibitivo aos cristãos da cidade frequentar a igreja e participar das missas dominicais. Tem nada não! Não podendo usar o solo sagrado da igreja, o cemitério passa a funcionar bem pertinho: no quintal.

Assim, fomos levados a visitar, nos fundos da Igreja de São Francisco de Assis, os túmulos em que jazem os restos mortais do quase presidente Tancredo Neves (aquele que era para ser mas acabou não sendo) de sua esposa Risoleta Neves.

Igreja São Francisco de Assis, São João Del Rei – Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

Vistar cemitério. Belo programa!

Quanto não fazem para agradar? Sempre com a mesma história na ponta da língua, pronta para impressionar turista. A outra viagem foi para a Argentina. Ano de 2013.

Relembro que quando estivemos por Buenos Aires acompanhou-nos uma figura muito simpática, o Esteban Ríos, guia argentino que, segundo ele, morou em três cidades do Brasil: Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre. Grande cara esse argentino torcedor do Boca Júniors, que nos proporciona momentos marcantes e histórias insólitas na capital argentina.

Esteban no nosso ônibus indicava os pontos de destaque da cidade. A cada monumento ia a nos dizer de quem e de que se tratava, sempre ilustrando com uma história que justificava a existência do tal monumento, estátua, obelisco ou que fosse. Muito cívico e patriota o povo argentino.

“Cuando vean a un hombre a caballo. ¡Es un general!”

Diz-nos ele com seu sotaque forte. Foi aí que passamos por mais um dos heróis portenhos. Tratava-se de um monumento que homenageava o general Urquiza, um dos primeiros presidentes do país vizinho. Pensei: “Já vem aí uma relação dos feitos heroicos desse general.”. Nada. Em vez disso, o guia nos vem com essa:

“General Urquiza es responsable por el poblamiento de la argentina. Fue padre de 105 hijos.”

Estátua do General Urquiza, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Acrescentou, enfatizando, que o grande guerreiro povoou a metade do país. 105 filhos, não entrando nessa conta os não reconhecidos. Uau!

Logo chegaríamos ao cemitério da Recoleta para vermos o mausoléu de Evita Perón, a protetora dos pobres, até hoje venerada pelo argentino.

Incrição à entrada do mausoléu de Evita Perón, Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Paramos para ouvir o que Esteban tinha a dizer sobre a mulher do caudilho Juan Domingo Perón. Pouco me interessou porque, a bem da verdade, muito já li sobre Maria Eva Duarte de Perón, atriz e primeira-dama.

O que realmente roubou a cena e chamou a atenção do grupo foi a história surreal que ele conta sobre o próximo túmulo a ser visitado. É o túmulo de Rufina Cambaceres, a jovem que morreu duas vezes.

Esteban Ríos conta-nos a nefasta história de Rufina, a que morreu duas vezes. Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (Acervo do BLOGUE do Valentim!)

Rufina morreu no dia em que completava dezenove anos. Para comemorar a data, sua mãe faria uma grande festa e a levaria ao Teatro Colón, onde a apresentaria à alta sociedade da capital. Um acontecimento para poucas jovens da sociedade portenha de então.

Todavia, antes de sair, a jovem foi encontrada morta, rígida no chão. O médico atestou sua morte e ela foi enterrada no dia seguinte. Alguns dias depois os empregados do cemitério encontraram seu caixão aberto e com a tampa quebrada. Rufina teria sofrido um ataque de catalepsia e acordado dentro do esquife.

Por trás dessa história há outra.

Depois que o pai de Rufina Cambaceres, o escritor Eugenio Cambaceres morreu, ela tornou-se uma menina solitária, reclusa. Uma vez jovem, recusava sistematicamente a aproximação e interesse de qualquer jovem de sua faixa etária. Um dia, Rufina, filha de Luiza Bacichi, ex-bailarina italiana, viúva e bonita, recebe proposta de namoro por parte de Hipólito Yrigoyen, um homem bem mais velho que ela (ele, 49; ela, 19), que viria a ser presidente da Argentina por duas vezes. Talvez por projetar a imagem de seu pai, que morreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade, é este o único homem por quem ela de fato passa a se interessar. Ocorre que, nos poucos encontros que tiveram, na casa de Rufina, a jovem, mal o recebe, acaba por passar mal, recolhida a seus aposentos, dorme, desapontando Hipólito. Isso ocorre várias vezes.

Um dia alguém lhe abre os olhos.

“Rufina, você não acha estranho que, justamente, nos dias de visita de seu noivo, você passe mal?”

31 de maio de 1902, nesse exato dia, em que completa dezenove anos, ela finalmente descobriria a verdade nua e crua. Toda vez que Hipólito vinha a sua casa para lhe ver, sua mãe serve à filha chá com alguma substância que lhe fazia dormir. Hipólito era amante de sua mãe, na verdade.

Nessa noite fatídica, diante de revelação tão chocante, Rufina não resiste. Um médico, presente na casa, atesta sua morte. É sepultada.

No entanto, dia seguinte chega da Europa uma parenta sua. Tarde demais. Ela era a única pessoa a saber que a jovem Rufina sofria de catalepsia. O caixão tinha as portas arranhadas e o corpo com o rosto machucado pelo desespero da infeliz que morreu duas vezes. Oficialmente a família declarou que foi um roubo pois a jovem foi sepultada com as suas joias.

Estátua de Rufina Cambaceres (foto: Luiza Tenan)

Diante disso, a família mandou esculpir uma estátua em que Rufina tenta abrir uma porta; a porta para o céu para uns, a porta do caixão para outros.

Pensa numa consciência pesada a de Luiza Bacichi, sua mãe.

L.s.N.S.J.C.!

O ÁLCOOL revela o caráter!

Luzes da Cidade é caracterizado, também, pelo desenho recorrente de um abismo social perverso. Enquanto o personagem de Myers é apenas amigo do vagabundo quando ébrio, ostensivamente provendo coisas como forma de mitigar a própria tristeza por ter perdido a esposa, o pobretão faz das tripas coração para ajudar a amada em situação tão precária quanto a dele. A drástica mudança de comportamento do endinheirado deflagra, de maneira ora melancólica, ora cômica, a alienação burguesa diante dos que padecem à margem. Marcelo Müller

HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas, nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, e sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas iluminadas.

Harry Myers e Chaplin (fonte: Papo de Cinema)

Charlie (a versão norte-americana para Charles) fez de quase tudo no cinema: escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs músicas, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Eterno inconformado, o fez com o objetivo de dar liberdade ao artista, preso a esquemas dos grandes chefes de estúdio. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O ator britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica Luzes da Cidade, de 1931, filme do genial Chaplin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que havia quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entra na era do cinema falado. Incorporando elementos sonoros, o filme foi campeão de bilheterias, com o melhor final de toda a história cinematográfica.

Há obras de arte que precisam e merecem ser vistas, ouvidas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas por toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam, merecendo ser apreciadas por uma existência inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, reapresentam-se a poesia e o sonho, como que em mágica, revelando-se a cada vez faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil.

São clássicos e clássicos não morrem jamais.

Chaplin e Virginia Cherrill (fonte: Papo de Cinema)

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, não tendo onde morar, vagueia pela cidade, a dormir em qualquer lugar e a comer do que conseguir. Numa tarde, uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela. Por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, ele, um andarilho, um pobre-diabo acaba se passando por homem de classe social abastada.

Como manter a representação?

A solução lhe vem à noite, quando ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, ricaço, milionário, magnata. Por ironia, um pobretão que salva um milionário, apelando para a beleza da criação.

“Amanhã, os pássaros cantarão”.

 O magnata, depois de muitas trapalhadas que quase levam os dois à morte, mas que geram no público um mar de gargalhadas, acaba por desistir do suicídio. Agradecido, oferece-lhe sua eterna amizade.

“Amigos para sempre”.

Dois homens, duas vidas, classes sociais opostas. Um, que tudo possui — bens a usufruir, conforto a desfrutar, empregados para mandar — apresenta, na verdade, um grande vazio de alma; busca preencher esse vazio com a bebida, luxo, diversões fúteis e viagens. No entanto, à menor contrariedade, vê-se inclinado a acabar com a própria vida, não suportando o sofrimento, por pequeno que seja. Outro, que nada tem, possui, todavia, o principal: a esperança e o amor, valores que nem a sociedade cruel é capaz de destruir. A uma, oferece o amor e o carinho — platônico e desinteressado — de um homem, buscando prover-lhe, ainda que faça das tripas coração, o que lhe falta para sua felicidade. Assim, procura mitigar-lhe o sofrimento, primeiro em relação ao aluguel vencido, que promete saldar, e, por fim, a própria cura da cegueira; a outro, salva-lhe a vida, procurando mostrar-lhe o belo, a criação extraordinária do Supremo.

O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa — eis a razão imediata da tentativa de suicídio –, leva o Vagabundo, a quem promete amizade, para sua mansão, e de lá, condignamente trajados, vão para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes de luxo, acaba por protagonizar várias trapalhadas, que o faz ao transgredir as normas sociais. É a pantomina habitual, receita infalível nos filmes de Chaplin que leva o público às gargalhadas.

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o homem não o reconhece, mandando que o mordomo expulse Carlitos da casa.

“Quem é esse homem?”

Há pessoas volúveis neste mundo cruel. O homem, por vezes, comporta-se em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as normas impostas pela sociedade, que tem seus instrumentos de controle dos indivíduos.

Indivíduos que, uma vez embriagados, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, quando são em geral seguros, econômicos e mesquinhos; egoístas, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

O álcool revela o caráter, costumava dizer o próprio Chaplin.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, sumindo o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros. Relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, passando a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que diferenças inexistem. A partir daí, as muralhas da  etnia, da religião, da convicção política, da classe social deixam de representar obstáculos.

Chaplin, em Luzes da Cidade, nos relembra do oceânico abismo social entre o magnata e o vagabundo, entre o rico e o pobre, um mundo extremamente desigual e perverso. Um homem, o pobre-diabo, nada tem de seu, enquanto a outro nada lhe falta. Possui confortável mansão, empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social e títulos, além de dispor de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que nenhum dinheiro é capaz de comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, por resignado, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar.

Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter a necessária coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin cria um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o Vagabundo, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, de praticar o verdadeiro amor cristão. Para ele, a vida é importante e bela, que precisa ser vivida — Amanhã, os pássaros cantarão –, reconhecendo no outro um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. Não tire sua própria vida, meu irmão, porque vale a pena viver. Quem te diz isso não é um homem rico, a quem nada falta, mas sim um mendigo de rua.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, movido pelo verdadeiro amor, doa todo o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. É um gesto de extrema abnegação, ele um faminto que nada tem. Logo em seguida é preso, passando muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Chaplin proporciona em Luzes da Cidade o melhor final de todos os filmes até hoje (fonte: Google)

Ébrio, um sujeito bonachão, alegre, feliz e generoso; sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais mandam que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado.

A aparência precisa ser preservada. Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

L.s.N.S.J.C.!