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UM CERTO capitão Buck Rogers!

UM DIA desses lembrava do Martins, um colega de turma da Escola, onde convivemos, nós quase quinhentos jovens, de 1977 a 1979, Guaratinguetá, São Paulo. Martins também era conhecido pela cidade onde nasceu: Manaus.

O capitão Buck Rogers, 500 anos depois (fonte: Internet)

Pois bem!

Manaus era do tipo expansivo, falante, fazedor de graça e tirador de sarro com todo o mundo. Incomodava a uns e fazia rir a outros, mas, creio eu, a grande maioria não o levava a mal. Ao contrário, nós nos divertíamos com a sua figura pitoresca, com a qual passamos com o tempo a simpatizar. Uma de suas manias era gabar-se por ser bom de Matemática, fixando-se em exagero pelo Teorema de Pitágoras. Qualquer coisa era só aplicar Pitágoras. Pitágoras aqui, Pitágoras ali…

Mas quase leva bomba em Português. Se não fosse o sargento J. Carlos mandar adulterar a ficha do Manaus! Bem, essa é outra história que agora não convém lembrar, mesmo passados mais de quarenta anos.

Depois de formado, Manaus foi bater lá em Anápolis. Éramos uns trinta ou 35 que fomos classificados por término de curso lá.

Aí, já graduado terceiro-sargento, um de seus papos era sobre o temor que o sargento tinha de “levar carona”. Levar carona era uma expressão, uma gíria, usada por nós para definir quando o militar deixava de ser promovido na época prevista. Isso acontecia geralmente por baixa avaliação profissional. Também acontecia de se levar carona por estar envolvido como réu em processo judicial, ficando sub judice, ou seja, aguardando julgamento. Podia ser até por um acidente de trânsito ou coisa assim.

Manaus andava a dizer que não queria se tornar um sargento Buck Rogers. O Índio sempre esperava alguém perguntar: “Buck Rogers?”. Se ninguém perguntasse, ele mesmo completava a informação: Buck Rogers era um personagem de uma série de tevê norte-americana, que permaneceu mais cinco séculos como capitão.

Na história televisiva Buck Rogers no século 25, o capitão William Buck Rogers é um astronauta que numa experiência científica é acidentalmente congelado no século vinte e só acorda no século 25, isto é, o capitão desperta quinhentos anos depois. Daí a expressão usada por Martins por associar um personagem que ficou quinhentos anos na mesma patente de capitão a um sargento que não foi promovido na época certa. E (cá pra nós!) havia um número considerável de sargentos nessa condição indesejável na Base Aérea de Anápolis. Naquele tempo.

O capitão Kirk (fonte: Internet)

O tempo passou. Infelizmente o nosso amigo Manaus não está mais neste plano, porquanto um acidente aeronáutico acabou levando o Índio mais cedo deste mundo. Vieram para mim as promoções no tempo certo, merecendo-as ou não, e eis que ingresso um dia no oficialato, chegando ao posto máximo: capitão. Como jamais serei promovido a major, ficarei no posto eternamente lembrando o capitão Buck Rogers do amigo Martins.

No Exército, na Força Aérea, nas polícias estaduais e nas corporações de bombeiros capitão é uma patente militar superior a primeiro-tenente e inferior a major. Já na Marinha, há várias patentes de capitão: capitão-tenente, capitão de corveta, capitão de fragata e capitão de mar-e-guerra. Na marinha mercante, capitão é o comandante do navio ou barco.

O teatro, os livros, o cinema e a televisão nos trouxeram outros capitães. E essa patente é com certeza a mais lembrada da ficção, desde o capitão Nemo, de Júlio Verne.

Vieram os eternos capitães América, Marvel, Caverna, Fantástico, Gancho, entre tantos outros.

Mas há outros capitães, fictícios ou não, de todo o tipo: heróis e vilões, da cidade e do mato, em pessoa e em desenho, sérios e debochados, fardados e à paisanas, militares e civis, da Terra e do espaço sideral…

Exemplos:  Rodrigo Cambará, criação de Érico Veríssimo; capitão Balbino, da música Samarica Parteira, na voz de Luís Gonzaga; capitão Virgulino, o famoso Lampião cangaceiro nordestino; capitão Canguru, mencionado no filme Forrest Gump; os abomináveis capitães-do-mato, caçadores implacáveis de escravos negros fujões; os debochados capitão Gay, do Jô Soares, e o capitão Feijão, obra do cartunista paraense J. Bosco; o capitão Kirk, da nave interestelar Enterprise; o capitão Crane, do submarino Seaview, em Viagem ao Fundo do Mar; outros menos conhecidos como o capitão Bumerangue e o capitão Frio.

Na série de tevê Jeannie é um Gênio, de bastante sucesso aqui no Brasil nos anos 1960 e 1970, nos primeiros episódios o major Nelson (Larry Hagman) era capitão. Logo foi promovido, porém, tornando-se o imortal major sortudo, amo da mais bela gênio de todo o mundo, imortalizada por Barbara Eden. Anthony Nelson livrou-se da sina de ser um capitão Buck Rogers, que jamais seria promovido.

Afinal, o Martins estava certo. Ao menos quanto a mim, que virei capitão para o resto da vida.

(reeditado da postagem de 5jan2018)

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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O BARÃO de Maracanaú!

NESTES nossos trinta anos de Força Aérea presenciamos diversas situações insólitas, além de tantas outras que chegaram ao nosso conhecimento. A bem da verdade, nós mesmos chegamos a protagonizar alguma delas. De fato, a FAB abriga em suas fileiras uma variada fauna e flora, cujos atores são os milicos mais versáteis, criativos e heterogêneos. Dos mais sérios e empenhados em fazer da forma mais correta possível o seu trabalho aos come-e-dorme, chama-nos a atenção os que encaram a caserna como um grande teatro de comédias, procurando levar a rotina na flauta ainda que não seja músico. Há, ainda, aqueles que frequentam todos os lados, ora procurando trabalhar bem, ora praticando efeitos especiais a la Spielberg.

Com efeito, as severas exigências cotidianas do sistema, por vezes, não merecem ser levadas a sério, resultando que, a fim de não enlouquecer, os praças das Forças Armadas e parte de seus oficiais precisam encará-las a força de larga dose de escárnio e picardia. Era o caso do suboficial Carlos Alberto Siqueira de Lima, cujo nome verdadeiro agora, por ética, não podemos revelar; não achando outro até o final desta leitura, fica esse mesmo. Lima era, por assim dizer, um gozador, um tirador de sarro por excelência, posto que, tecnicamente, um grande profissional, não raro recebendo elogios da Subdiretoria de Pagamentos por cem por cento de acertos a cada mês na função de coordenador de saques da subseção de finanças da Base Aérea de Fortaleza.

Vejam agora o suboficial Lima. Encontra-se nesta tarde ensolarada a cotejar com atenção o boletim financeiro mensal com as fichas de atualização financeira de cabos, soldados e taifeiros. É claro que o leitor sabe o que significa o verbo cotejar, que nada mais é do que conferir os dados do primeiro documento com os do segundo, certificando-se dos acertos do sacador, ao mesmo tempo que aponta alguns erros. Era assim naquele tempo em que o computador era a máquina de escrever ou mesmo a munheca a lançar manualmente números e cifras no formulário.

Pois bem. Está concentrado nesse trabalho quando toca o telefone. “Barão, quando sai o pagamento do mês?” Lima dá uma risada sarcástica: “Deixa de ser lascado, hômi!”. E logo completa: “Dia 29 que vem.”. Repôs o velho aparelho no gancho e toca outra vez: Dessa vez é a secretaria do comandante do Esquadrão de Intendência. “Sub Lima, o major Deocleciano quer falar com o senhor agora”. “Caramba, o que será que esse fela quer comigo dessa vez?”, resmunga o velho sub.

O sub velho ao entrar na sala junta os dois calcanhares fazendo, ao mesmo tempo, uma continência relaxada quase ao nível de uma misura: “Não me pergunte se sou capaz, meu bom major, dê-me a missão”, repetia já quase mecanicamente a frase de efeito, que em geral provocava disfarçadas risadas em quem estivesse por perto. O major já o conhece, porque ele próprio é um veterano na Base Aérea de Fortaleza, tendo chegado à Unidade aspirante e, como tenente e capitão, passado por todos os cargos da Intendência. Quanto a Lima, agora um veterano, adentrou o portão das armas da Base Aérea como segundo-sargento, a partir de então segue percorrendo todas as funções na Tesouraria. Foi sacador de pagamento de soldado, depois de sargento, mais tarde de oficiais e agora, considerando a sua antiguidade e experiência na área, vemo-lo no cargo de coordenador de saque. Não, não estranhe o leitor a rotina à qual a maioria dos humanos acomoda-se. Tem gente que, marcando passo, permanece a vida inteira fazendo a mesmíssima coisa. Obrigado, Senhor, por essa rotina e pelo pão certo garantido a cada dia e soldo sagrado no final do mês. Querem ver um exemplo. Foi o próprio Barão de Maracanaú, como era conhecido o suboficial nas rodas de cerveja, samba e cachaça, que nos contou:

Base Aérea de Fortaleza (imagem: Google)

No mesmo ano em que Lima graduou-se sargento na Escola, o soldado Bezerra, seu vizinho de rua, havia sentado praça na polícia. Isso havia sido há mais de vinte anos. Já decorrido esse tempo todo, numa de suas frequentes idas a Maracanaú, o suboficial percebe extraordinário movimento na casa do soldado Bezerra, por sinal seu conterrâneo. “O que houve hômi, por que não me convidou?” A razão da festa era a promoção de Bezerra a cabo. “Mas jaááá?!!” Ao que o pobre homem, radiante e em sua simplicidade longe de perceber a ironia explícita do amigo, responde-lhe, faceiro, com outra pergunta: “E eu drumo?!”

“Sub Lima, eu o chamei aqui para parabenizá-lo pelos seus excelentes serviços e, em nome do comandante, quero dizer-lhe que o indicamos para receber a medalha Mérito Santos-Dumont”. Lima, enquanto escuta do major a notícia, vai dizendo para seus botões: Esse fíi de quenga vai me fazer comprar um quinto A novo!. Por um instante pensa em expressar a ideia, mas em vez disso, agradece a escolha e, já fazendo menção da continência, ouve ainda o major Deocleciano, ao medir o suboficial de alto a baixo, complementar: “Então, meu suboficial, de agora em diante você trate de andar com essa camisa bem engomada, a calça vincada, o cabelo cortado no padrão regulamentar e os sapatos bem engraxados”. Aí já é demais. “Mas, major, se eu fui escolhido pra receber essa medalha, é sinal de que eu estou bem assim mesmo.” Disse assim e saiu da sala, deixando o superior hierárquico sem palavras.

Mas o sistema, que possui boa memória, também tem das suas. Vejam só.

Na semana seguinte, Deocleciano chama o velho suboficial novamente à sua presença. Que será que esse corno quer agora? “Não me pergunte…”, ao que o major faz um gesto reprovador com a mão, interrompendo-o. “Lima, nós avaliamos melhor e o comandante achou por bem retirar o seu nome da relação dos condecorados”. Com o rosto espelhando satisfação, o sub assim se dirige ao major: “Muito obrigado, major, muito obrigado mesmo. Eu ia ter que fazer o treinamento e, como faz tempo que não faço essas coisas, ia acabar errando o protocolo. O major, comandante do Batalhão de Infantaria, ia me dar mijada, e ainda ia ter que mandar fazer um quinto A novo… Muito obrigado, major”.

Eis que nessa mesma época o Alto Comando determinava ao Comando-Geral de Pessoal que transferisse pessoal para as novas bases aéreas que estavam sendo construídas e prestes a ser inauguradas: Boa Vista e Porto Velho. A fim de compor o efetivo das respectivas seções de finanças dessas unidades necessário era reunir profissionais experientes. Devido aos elogios que Lima havia recebido, e não se sabe porque outras razões, o nome do Barão foi o primeiro da lista. Seria transferido para a Base Aérea de Boa Vista. O leitor amigo, do meio civil, pode até imaginar que uma movimentação como essa jamais seria um problema, vez que o militar das Forças Armadas recebe soldo também para isso: servir o Brasil em qualquer ponto do território brasileiro, onde necessário for a sua presença. Não é bem assim. A diferença entre o milico e o civil, via de regra, é que um é fardado, faz continência e faz desfile militar: um dois, três, quatro… No caso, o suboficial tem esposa com atividade remunerada em Fortaleza, filhos fazendo curso superior em Fortaleza, uma casa humilde no subúrbio, vida toda enraizada em Fortaleza. Transferir alguém nessas condições seria como cortar as duas pernas do velho milico.

Não era a primeira vez que tentavam transferi-lo. Anos antes, publicou-se a movimentação de Lima para Brasília. Ele não foi. Naquela época, uma das condições para a efetiva transferência era ter disponível moradia funcional na Capital Federal. Na Prefeitura de Aeronáutica de Brasília, órgão que administra os imóveis da Aeronáutica, um colega de turma envia uma mensagem-rádio dizendo que não havia imóveis disponíveis. Passa-se um mês, dois… seis meses, e nunca havia imóvel disponível. Assim sendo, tudo indicava que o Barão de Maracanaú terminaria seus dias de FAB no seu velho Ceará querido. Não. O comando faz publicar em boletim um extenso elogio agradecendo os excelentes serviços prestados pelo veterano militar tanto à Unidade quanto ao pessoal efetivo da guarnição. “Coronel, eu vim aqui pedir para o senhor anular esse elogio”. “Por que, sub?”, reagiu surpresa a autoridade. “É o mesmo que o senhor mandar me darem vinte chicotadas no lombo e depois mandar me elogiar por ter resistido”.

Mas não teve jeito. Foi para ficar por longos dois anos em Boa Vista e assim o efetivo da Base Aérea ficar bem seguro em relação às respectivas folhas de pagamento. E Maracanaú sentiu a falta do velho barão.

L.s.N.S.J.C.!

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CAVALCANTE de Albuquerque!

OUTRO dia encontrei o Cavalcante, mesma aparência de trinta e tantos anos atrás. Estava mais moreno, queimado de sol. Notei também que em seu braço havia uma ferida grande, igual a buraco.

“Que bom encontrar você, Cavalcante! Desta vez é verdade, pois já o encontrei umas três ou quatro vezes, mas era tudo em sonho.”

Percebi que não se encontrava em boa situação financeira, como nunca esteve – ao menos no período em que o conheci. Eu estava junto com a minha menina Alice. Levou-nos para onde ele se encontrava. Era uma espécie de pensão, pois lá estavam outras pessoas. Pela conversa, depreendi que o Cavuca – como os íntimos o chamavam – morava no Acre ou nalgum município da Amazônia Oriental. Havia vindo à cidade grande provavelmente em busca de melhores condições de sua saúde.

Quem serviu na Manaus da década de 1980 certamente tomou conhecimento da figura de José Leite Cavalcante de Albuquerque, que era primeiro-sargento escrevente. Pernambucano de Garanhuns, trabalhou na Base Aérea nos setores de finanças e de pessoal. Cabra bom, sempre alegre e fazendo piadas de tudo e de todos. A porta de sua casa estava sempre aberta a todos.

Grande amigo, jamais esquecerei de você, Cavuca. Somente anos mais tarde, fui saber a história por trás do sobrenome: Cavalcante de Albuquerque.

Como lema de vida “fazer o bem sem olhar a quem”, foi esse amigo que me amparou no momento em que eu mais precisava, numa hora em que a maioria me virava as costas ou mesmo tripudiava da minha dor.

Cavuca foi mais alguém que, devido às andanças nossas, acabei deixando para trás quando fui transferido para Belém em 1990. Ficou por lá em Manaus, de vez em quando viajando para o interior a fim de aventurar nos garimpos. Perdemos o contato e nunca mais podemos nos falar novamente.

Quando perguntei o seu endereço, principiou-se a gaguejar. Para a minha decepção – esta última vez, que parecia tão real, também foi mais um sonho.

Cavalcante, pelo que soube muito depois, faleceu há mais de uma dezena de anos. E eu que nem pude dele me despedi.

Um dia nós nos encontraremos novamente, Cavuca. E daremos novamente aquelas belas risadas. Até lá, amigo!

L.s.N.S.J.C.!

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O PAÍS dos Militares e dos Bacharéis!

EM VAL-DE-CÃES, aeroporto de Belém, uma pequena multidão se aglomerava nervosa defronte ao guichê da Panair do Brasil. Entre impacientes e aflitos, cobravam dos funcionários da empresa informações sobre o Constellation, procedente do Rio de Janeiro e que deveria ter chegado até as seis e meia, no máximo às sete.

Eram oito e meia da manhã de 3 de dezembro de 1959, sexta-feira, e o avião não chegava. Teria acontecido o pior?

Tentando acalmar os populares, os funcionários da companhia faziam insistentes contatos telefônicos com o escritório da empresa, no Rio. Dentre as apreensivas famílias que se acotovelavam, havia um grupo em estado de profundo pesar:

Os parentes e amigos da senhora Regina Coeli Farry.

Esta e outras histórias você encontra no livro O País dos Militares e dos Bacharéis, recém-lançado.

Para adquirir o livro:

  1. fale com o autor: bodegadovalentim@gmail.com
  2. site da editora: https://www.autografia.com.br/produto/o-pais-dos-militares-e-dos-bachareis/?fbclid=IwAR00_ker8GzkaqweUYWVBg2Dr0RL-L0b7g1u8VWU1J6cjsemFgXzeghSA8o
  3. em Belém: Confraria do Livro – Av. Cipriano Santos, 211 – São Braz.

L.s.N.S.J.C.!

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CANUDOS ou Belo Monte e o outro olhar de José Augusto Moita!

FOI por meio do Facebook que mantive contato pela primeira vez com José Augusto Moita. Seu sobrenome incomum chamou-me a atenção por ter eu, em 1979, travado conhecimento de um sargento em Anápolis, provavelmente parente seu. Havia em Belém outro sargento Moita. Descubro, enfim, que a família Moita é numerosa. A postagem que focou para a sua figura era uma em que aparecia ao lado do Silva Filho, outro colega de farda de Anápolis conhecido por Marinheiro, que – segundo dizem – foi um exímio centroavante, tendo até jogado pelo Calouros do Ar Futebol Clube, de Fortaleza. Sei que até o Marinheiro pegou uma punição disciplinar por ter jogado em time profissional sem autorização. Mas isso é outro assunto.

Tornemos ao Moita.

“Então, você foi um dos poucos militares que não perdeu o juízo?”, foi o primeiro contato por meio do sistema de mensagens do Facebook. Daí em diante, tornou-se para mim — como também para centenas de amigos — uma rotina diária travar contato virtual com essa grande figura, um extraordinário e sincero amigo, por meio de suas mensagens super bem-humoradas no Facebook.

Homem de palavra, prometeu nos visitar aqui no Sudoeste Paranaense, Dois Vizinhos, cidade distante à beça da Capital do Estado e de outros centros. De posse do nosso endereço, exatamente no dia 19 de junho de 2019, lá pelas sete da noite, quando eu e a patroa estávamos sorvendo o sagrado mate amargo da noitinha, que ele, dona Ivone e Dímitri, um de seus filhos, chegam à nossa humilde residência, numa viagem de mais de 10 mil quilômetros em que buscavam conhecer vários rincões brasileiros e pavimentar amizades, que, por sinal, são muitas e sinceras.

Foi com grande alegria que recebi um exemplar de “Belo Monte: um outro olhar”, de José Augusto Moita

Dentre nossos assuntos em comum, um dos preferidos de Moita é sobre a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, que a História trouxe à baila com o nome de Antonio Conselheiro. Aliás, não só essa saga desse grande homem como a de outros severamente combatidos por um sistema perverso estão entre os temas de interesse desse inteligentíssimo amigo, que, aliás, dedica-se também à bela arte da música.

Imagem atribuída a Antônio Conselheiro (fonte: Internet)

A visitação dessa querida família constituiu-se numa bela surpresa para nós, ao mesmo tempo que não. Logo, estávamos à mesa em debates políticos, assunto de nosso largo interesse por termos correndo nas veias o sangue do inconformismo. E era uma prosa de velhos amigos. Na verdade, nunca antes havíamos nos visto pessoalmente, para a estupefação de minha esposa Bernardete Kleinibig. “Meu Deus, como é possível?”. Da mesma forma, por saber de seu interesse pela vida e pela verdade acerca do Conselheiro, não nos surpreendeu totalmente a edição do livro Canudos ou Belo Monte: um outro olhar, que ora nos dedicamos a ler atenta e interessadamente.

Devo dizer, a bem da verdade, que, pelo fato de este humilde escriba estar envolvido com outros afazeres (acadêmicos, domésticos e as escritas do Blogue), foi exatamente a Bernardete que, interessada, logo se ocupou, com larga dose de curiosidade, de conhecer sobre a vida e triste fim de Antônio Conselheiro, que a pena de José Augusto Moita nos dá agora um outro olhar. O que ele teria escrito, afinal? À medida que a Alemoa vai se dedicando à leitura, isto geralmente à boca da noite e depois do mate, minha companheira faz comentários e perguntas. Eu lhe respondia, à minha maneira meio tosca e superficial, sobre esse assunto a que Moita dedicou-se de forma a resgatar a verdade sobre Conselheiro e seus seguidores, cruelmente massacrados pelo Exército Brasileiro. “Conselheiro e sua gente queriam apenas a paz. Nada tinham de fanáticos e violentos, como se propagou à larga”, era eu que dizia com outras palavras.

E agora este escriba está a concluir a leitura dessa vibrante narração do escriba cearense. Dá-nos a impressão de estar lá entre os soldados ou no meio dos sertanejos conselheiristas, entre cartuchos lançados ao solo e zunidos infernais de projéteis. Esse dom, o de conduzir o leitor para o cenário, somente poucos o possuem.

Todo livro reflete o tempo em que é escrito e o espaço social vivido pelo autor, inserido que está numa determinada sociedade. Há que se considerar também os interesses do escritor, nem sempre honestos. Com Conselheiro não seria diferente. De seu principal divulgador, Euclides da Cunha, percebe-se que o escritor e jornalista fluminense veio a ser conhecido mais por sua verve literária, menos pelos dotes de biógrafo. Poucos sabem — inclusive nós não desconhecíamos — a existência de muitos outros autores se lançaram à missão de escrever sobre esse injustiçado homem. Moita foi desmascarando um a um deles.

Acusar alguém ou um grupo de monarquista era para aquela sociedade do final do século XIX o mesmo que, hoje, tachar grupos de insatisfeitos de esquerdistas e comunistas, ou mesmo subversivos ou coisa assim, sem que ao menos se faça alguma reflexão. Era o caso dos republicanos recém-instalados no poder: estavam ali sob o espectro de Pedro II e de seus seguidores. No caso, Conselheiro, atraindo em redor de si toda a sorte de seguidores desesperançados da vida, acaba por atrair a ira dos poderosos de então, como hoje são os integrantes de movimentos sociais como os Sem Teto ou Sem Terra, ou denominações equivalentes.

Líderes inatos, como veio a ser Conselheiro, tornam-se, sem que o desejem, uma grande ameaça a quem detém o poder, atraindo para si o ódio tanto de senhores de terra — a elite agrária que mandava e ainda manda no país — como da Igreja de então, cujos ministros se sentiam ameaçados por sua liderança inconteste e natural. Foi o caso, por exemplo (e falando em Igreja) de um galileu que esteve no planeta Terra há vinte séculos. Dos coronéis e dos padres e bispos até o poder político formal, de início estadual e depois federal, é um pulo. Aos fazendeiros não interessavam comunidades socialistas como Belo Monte em que, à semelhança dos primeiros agrupamentos cristãos, seus habitantes tinham tudo (por pouco que fosse) em comum. Ao clero também não era interessante a perda de milhares de ovelhas e ainda, para piorar, a existência de um outro pastor, sendo este, embora não pretendesse, mais próximo em sentimentos e missão do Grande Mestre Nazareno do que eles próprios. E se viesse a prosperar Belo Monte a ponto de inspirar o surgimento de outros Canudos? E, em razão disso, sobreviesse a carência dos peões que, a troco de uma cuia de farinha para si e seus filhos, se sujeitavam às ordens da elite agrária? Era, portanto, imperativo combater exemplarmente esses subversivos que teimavam em mudar a sociedade, único modelo então existente, antes que fosse tarde.

Aí está o Exército disposto a cumprir ordens — qualquer que sejam elas — em nome da República e da Pátria. Combater uma legião de famintos não devia ser assim um bicho-de-sete-cabeças. Quanto à opinião pública, aí estão os jornais prontos a apoiar coronéis, assim como os padres estavam também reunidos em torno da proposta eugenista, ainda que isso viesse a contrariar os preceitos evangélicos. Portanto, a população — como é até hoje, infelizmente — está sempre pronta a receber como verdade absoluta tudo o que o papel aceitar, sem o menor espírito crítico. O governo central e o Exército, porém, não contam com a crueza do sertão, lugar inóspito que só o próprio sertanejo — esse forte, como propagou o fluminense Euclides da Cunha — conhece. Também não considerou a tenacidade dos homens de Conselheiro que lutavam por uma vida melhor, portanto, pela esperança de cada um deles, de suas famílias e, inclusive, pela própria liderança de Antônio Vicente, a quem veneravam e respeitavam certamente. É assim que vem uma, duas, três expedições, todas derrotadas.

Derrotados, diante da opinião pública é necessário pintar o inimigo como jagunços fortemente armados e coisas do tipo. Ninguém, nem os generais, nem a imprensa, nem o coronelato e a Igreja, admitirá jamais que o Exército foi derrotado também por sua própria incompetência e por tantos outros aspectos e detalhes que bem Moita trouxe à luz da verdade. Era preciso construir o mito do Conselheiro, um homem violento, um tirano, que conduzia seus homens — incluindo mulheres e crianças — a peso de forte treinamento militar e de intrincadas estratégias de guerra. A mentira falada mil vezes passa a ser tomada como verdade e isso o poder sabe bem fazer. Contribuíram para isso muitos autores, que Moita exaustivamente pesquisou, ao repetirem mentiras sabendo que o povo as tomaria por verdades que, infelizmente, chegaram aos dias de hoje.

É aí que entra o papel dos grandes brasileiros de hoje. Revisitar a história, desmistificando-a. Fazer releituras das “verdades absolutas” que desde sempre, principalmente durante um período longo de 21 janeiros, insistem em empurrar goela abaixo da população brasileira. A nossa geração tem essa obrigação: não descansar enquanto não ver a verdade dos fatos restabelecida e — mais — insistir na propagação desses “outros olhares”, bem diversos das ideias romantizadas que os falsos patriotas teimam em divulgar: o Exército é patriota e quem insiste em indicar outro modo de vida, mais justo e fraterno, esse é violentamente perseguido, desmentido, preso e eliminado. Não só Conselheiro e seus principais homens deviam morrer, mas todos — mulheres, velhos, crianças, sãos e doentes… — a fim de que não sobrasse uma testemunha sequer e com isso a mentira contada não corresse riscos de ser desmascarada.

Monarquistas!? Aquela pobre gente mal sabia o que isso significa. Utilizando-nos da comparação, figura de linguagem fartamente empregada por Moita em sua obra, vejo o caso da “adesão” do Pará ao Brasil, ocorrido de forma violenta em quase um ano depois de 7 de setembro de 1822. Um grupo de comerciantes portugueses pretendia que o Grão-Pará permanecesse ligado ao Império Português, o que não interessava a Dom Pedro. A população humilde e miserável estava, porém, à margem desses acontecimentos e interesses, de forma que tanto faz como tanto fez, visto que a mudança ou a manutenção de uma condição política não mudaria a vida dos humildes paraenses. Que interessava o Império ou República àquela gente miserável e ignorante de tudo? Mas a República precisava de um pretexto para massacrar milhares de homens, mulheres e crianças em nome dos interesses de uma elite, o poder, seja ele fardado, à paisana ou de batina.

Jagunços?! Ora, qualquer um de nós sabe que estes se prestam a servir os endinheirados deste mundo e seu ofício é perseguir os menos favorecidos. De outra forma, o coronelato não teria prosperado nestas terras de Santa Cruz. Um homem manso e de bons propósitos como foi Antônio Vicente Mendes Maciel jamais teria as condições monetárias e de temperamento a conduzir mercenários. Conselheiro, tal como o Homem de Nazaré, só dispunha de palavras e de esperanças. Ainda assim a mentira, contada mil vezes, colou.

Nossa família recebeu o livro de J. A. Moita

Trabalho de fôlego esse, o do Moita. Um exemplo para a nossa geração, que consideramos esclarecida. A História, tal qual ela nos foi passada, é a versão das classes dominantes deste país, e isso nós — que dispomos de empatia e não esquecemos das nossas origens — precisamos mudar, a fim de conduzir aos nossos netos esse outro olhar.

(Original publicado em 16ago2020)

L.s.N.S.J.C.!

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TRÊS Homens em Conflito!

No inóspito oeste americano, a paisagem árida e pouco receptiva serve de alegoria para o que se passa na mente dos protagonistas. O ser humano colocado contra o meio ambiente na verdade reflete o ser humano contra ele mesmo. Os longos silêncios, pontuados pela bela trilha sonora de Ennio Morricone, demonstram que suas ações pouco necessitam de palavras.Isabel Wittmann

DURANTE muito tempo o gênero Western, também conhecido por Faroeste ou Bang-bang, dominou a sétima arte. Um filme de Western era garantia de cinema lotado, milhões em bilheteria por conseguinte. Contavam a história, em geral fantasiada, da chamada conquista do oeste, em que o homem civilizado do leste dos Estados Unidos segue à procura de ouro, levando assim a civilização a um oeste selvagem, repleto de índios perigosos e de mexicanos ignorantes e inferiores. Por meio do rifle e do revólver, cruzam desertos em diligências, fundam cidades empoeiradas com seus saloons de madeira, cadeia, cavalos, xerifes e bandidos, enredos previsíveis que fascinavam e divertiam multidões mundo a fora.

O gênero faroeste tornou milionários e mundialmente famosos atores como John Wayne, Gary Cooper, Gregory Peck, Cary Grant, Burt Lancaster, Yul Brynner e tantos outros caubóis, mocinhos e artistas, que, nas telas, encarnavam heróis altos, fortes, indômitos, rápidos no gatilho, justiceiros, paladinos da justiça e da ordem, vingadores, todos se apresentando sempre bem barbeados, bonitões e elegantes, conquistando com isso milhões de fãs. Ao mesmo tempo, fizeram época histórias de aventureiros reais como Buffalo Bill, Jane Calamidade, Wild Bill Hickok, Billy The Kid, entre outros vultos, que, retratados em ficção, ganham ares de heróis românticos.

Público garantido.

Tudo, porém, tem seu final. Na década de 1960, o gênero Western já se encontrava na descendente; o filão milionário se exauria deixando preocupados os grandes de Hollywood, que procuravam reinventar-se. Para alguns anos de sobrevida, era necessário que o gênero passasse por novas configurações. É nesse quadro de declínio que surge em cena o diretor italiano Sergio Leone, um entusiasta da história do Velho Oeste.

É também por uma dessas ironias que o destino costuma pregar que surge fora do País Sem Nome uma espécie de imitação do romântico e fantasioso western original, que passou a ser conhecida pejorativamente por Western Spaghetti.

É exatamente com Sergio Leone que esse subgênero vem a superar em muito o gênero original.

Leone, pragmático ao explorar uma temática genuinamente norte-americana, com a chamada Trilogia dos Dólares, deixou a todos embasbacados principalmente com o terceiro filme da série, de longe o melhor deles: Três Homens em Conflito, título pouco inspirado com tradução para o Português como o “O Bom, o Mau e o Feio”. Três Homens em Conflito tornou-se um clássico, consagrando Leone.

Do romantismo norte-americano para o realismo de Leone.

O italiano procura assim desconstruir a aura romântica dos velhos filmes americanos de Western mostrando uma época o mais aproximadamente possível do que de fato tenha sido — portanto mais violenta –, em que apresenta pistoleiros sujos, feios, mal barbeados, pele castigada pelo efeito solar, homens brutos, ignorantes e ambiciosos; mulheres, em geral prostitutas. Nem de longe lembrando o glamour, a fantasia e os clichês romantizados que até então as produções norte-americanos apresentavam, com homens bonitos e bem barbeados, Leone mostra, enfim, algo mais próximo da bruteza histórica.

Em Três Homens em Conflito, história que tem como cenário a Guerra de Secessão, temos três protagonistas: Clint Eastwood, o Bom (que de bom não tem muita coisa), inteligente, o Pistoleiro Sem Nome, a que Tuco chama de Lourinho; Lee Van Cleef, o Mau, e Eli Wallach, o Feio, um bandido debochado, mas ainda assim um bandido cruel. Portanto, três personagens à margem da lei, todos exímios pistoleiros, mas cada um com seu estilo, destaque para o Feio, Tuco Benedito Pacífico Juan Maria Ramirez, um mexicano acusado de muitos crimes, procurado pela justiça de vários estados, por cuja cabeça há gorda recompensa. O Bom, também bandido, recebe esse nome por ser menos sanguinário que os demais, dentro de uma ética relativa. O Mau é o vilão no sentido real do termo, sem ética nem compaixão, cruel ao extremo. Do Bom — o pistoleiro sem nome — e do Mau, nada se sabe sobre eles. Só sobre o passado de Tuco, o Feio, sabe-se que tem um irmão padre e que se tornou bandido em razão das circunstâncias sociais em que sua família vivia; nas condições em que foi criado só havia duas opções de vida: ser padre ou bandido. Também é o único que tem nome, ao menos que se é mencionado no filme, dos outros só sabemos por meio de apelido, que o próprio Tuco diz: “Lourinho”, para o Bom, e “Olhos de Anjo”, o Mau. Deste último, também se sabe o nome por meio de “Meio-soldado”, um homem mutilado que usa farda. Em razão de usar farda, isso sugere que “Meio-soldado” sofreu a mutilação na guerra, ficando inutilizado.

Paralelamente à história dos três pistoleiros, que entram em conflito pela busca de duzentos mil dólares enterrados num cemitério (cujo nome só é sabido por um) e num túmulo (que é só conhecido pelo outro), há uma guerra como cenário: a Guerra Civil Americana.

Aí mais um significativo diferencial.

Leone mostra no filme a estupidez de uma guerra em que há desperdício de homens, gente mutilada, campos de prisioneiros torturados, terríveis condições de pobreza em que vivem os soldados, miséria do povo em geral, destruição… Comenta o Pistoleiro Sem Nome:

“Nunca vi tantos homens serem desperdiçados desse jeito”

Nesse quadro de horror há pessoas capazes de se aproveitar do sofrimento humano para prosperar materialmente. O homem explorando o homem. Isso magistralmente denuncia Sergio Leone em sua obra.

O genial diretor Sergio Leone (fonte: Google)

Completa o filme o magistral tema sonoro, uma obra-prima de Enio Morricone, composição que transcende o próprio filme, vez que muitos a conhecem mesmo sem jamais terem visto a película para a qual foi composta. Passado já mais de meio século, passarão milênios e não haverá outra igual.

Três Homens em Conflito, o melhor filme de Western.

(Original postado em 15fev2019)

L.s.N.S.J.C.!