O PIEDOSO Manuel Pinto!

QUANDO se fala em Manoel Pinto da Silva, o nome do magnata português que fez fortuna em território paraense, imediatamente se remete à sua obra mais conhecida: o imponente edifício Manoel Pinto da Silva. O prédio foi construído na década de 1950, e durante anos foi o mais alto de toda a Amazônia. Morar no prédio mais alto do Norte torna-se o grande sonho de consumo das elites paraenses de então, um sinal de inconteste prestígio.

Facsímile de um jornal de Belém – PA louvando o edifício Manuel Pinto da Silva (fonte: Internet)


Manoel ou Manuel Pinto da Silva? A grafia pouco importa.

Na verdade pouco restou registrado sobre sua passagem pelo planeta Terra. Nenhum livro, nenhuma página na Wikipédia, nada. Nada de interessante, mui provável, tenha deixado o magnata para que servisse de ensinamento aos que ficaram. Prova de sua pequena importância, ao contrário do que ele próprio se considerava.


Mas que essa escassez de notícia sobre Manoel Pinto da Silva não seja razão para o nome do português ficar restrito apenas ao famoso edifício que construiu e que, por vaidade, deu seu próprio nome. Que fique registrado então seu nome, porém não em função de sua importância, bom exemplo ou coisa assim. Ao contrário, o portuga foi um tirano em vida.

Morando na zona rural ainda garoto, não conhecia o prédio histórico batizado em homenagem a seu construtor vaidoso; apenas ouvia falar. Logo cedo, porém, travei conhecimento do nome de Manoel Pinto por meio de meu saudoso pai, um outro Manoel, o Valentim Moreira, que trabalhava como operário num dos empreendimentos do poderoso empresário português, uma de suas olarias. Lá meu pai e dezenas (centenas, provavelmente) de trabalhadores, moldando o barro, fabricavam tijolos aos milheiros para a  construção do gigantesco edifício, e também, com o excedente, para compor as casas e prédios das cidades do estado, ajudando o luso a ficar cada vez mais rico, por conseguinte.

O pai falava bastante sobre o xará milionário, que teria chegado pobre ao Brasil aportando em Belém duas décadas antes. Devia ser jovem ainda e o patriarca era o senhor Camilo Pinto da Silva, pai de Manuel.

Acidentalmente um dia ouvi, entre as conversas dos adultos, minha mãe, dona Maria Ferreira, falando sobre alguém que teria enriquecido.

Difícil ficar rico se nunca explorou ninguém”.

Nunca me esqueci daquele comentário. Riqueza — pobreza — exploração. A partir de então, carrego comigo uma indagação: Seria possível alguém, não tendo recebido polpuda herança ou participado de algum grande negócio  com o governo, ficar rico sem não explorar seu empregado?

Voltando ao portuga.

Como dizia antes, ouvi da boca de meu pai muito sobre o megalomaníaco lusitano. Entre outras histórias, a de que o portuga teria lesado seu próprio pai, o velho Camilo Pinto da Silva, analfabeto, transferindo significativa parcela do patrimônio paterno para seu próprio nome. 

Pinto teria sido um dos primeiros empresários de ônibus na cidade de Belém, além de ter também fornecido material para a construção do aeroporto de Val-de-Cães.

Um patrício seu, estando em situação financeira difícil, foi-lhe bater às portas a pedir emprego. Manoel Pinto, meio que indiferente à presença do conterrâneo, admitiu o compatriota semianalfabeto em uma de suas empresas. Ao contrário do que se esperava, empregou-o num trabalho braçal em vez designá-lo para um cargo de relevância, como desejava o português pobre. Era português, era patrício, mas era pobre, não fazendo jus, portanto, a tratamento melhor. E lá foi o conterrâneo para o rabo da enxada, de nada adiantando a sua condição de conterrâneo do patrão.

Outra.

Certa ocasião, cavalgando por numa estrada vicinal, Manoel Pinto avista um homem  que carregava um feixe de lenha nos ombros. Era seu empregado, por coincidência, mas o patrão não o reconheceria entre centenas de outros que serviam sob suas ordens.


— Onde pegaste essa lenha, ó rapaz?


— Peguei aí… na sua mata, seu Manoel. — responde o mulato, hesitante, trêmulo de medo, apontando com a cabeça a floresta em redor, ao reconhecer o arrogante patrão.

O ricaço mandou imediatamente o caboclo devolver a lenha onde tinha pego. De nada faria diferença para o rico português a lenha colhida pelo operário para queimar no rudimentar fogão. Tomou tal atitude imperativa e antipática com o fito de meramente exercer poder. Era ele o dono, era ele quem mandava e pronto.

Mas a minha mãe deu-me, sem notar, uma aula de sociologia.

Sim, hoje vejo que, por sentirem na própria pele o problema social, a dona Maria e o seu Manoel, desde aquele tempo, possuíam noção de como alguns prosperam materialmente. Muitas vezes se valem do suor alheio, pagando salário vil. Se não querem, tem quem queira. Simples assim.

Mas um belo dia o seu Manoel Valentim Moreira, sendo um homem que lia tudo o que viesse às mãos, ao comprar sabão em pedra, desembalando-o, leu no jornal que servia de embrulho a seguinte manchete:

“Falece o piedoso Manoel Pinto da Silva”

Cumpria assim o poderoso português nosso destino comum. Com certeza não fez falta alguma. 


Que a terra lhe tenha sido leve, como dizia Machado de Assis.


E foram eles, minha mãe e meu pai, os primeiros mestres a me ensinarem que o mundo se divide em dois grupos: o dos que mandam e o dos que obedecem; o dos que usufruem e o dos que apenas sobrevivem; o dos que governam e o dos que apenas servem e pagam imposto.


Mas ao final pobres e ricos têm um destino comum.

L.s.N.S.J.C.! 

ROCILDO Oliveira!

Socó, o elegante zagueiro azulino das décadas de 1950 e 1960

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

COMO de costume, os grandes craques surgiam no subúrbio se destacavam nas equipes menores quando da disputa do campeonato paraense de futebol. Combatentes, Júlio César, Paulista, União Esportiva nunca eram páreo para os grandes clubes, mas eram a grande vitrine, mostrando para o público esportivo belenense as suas grandes jóias. Foi assim com Marituba, Raimundinho, Sessenta, Marido, China, e não poderia ser diferente com ele, o clássico centro médio Hamilton Blanco Fernandes.

Pelo nome poucos conheceram Hamilton Blanco. Ganhou fama e conquistou milhares de admiradores com o meigo apelido de Socó. Socó, um pássaro, e ele realmente parecia voar. Socó saltava, voava, flutuava, dominava no peito o cobiçado balão de couro, aliviava o perigo, e, como a desfilar, sai da grande área para alegria do hipnotizado torcedor Remista, que por doze longos anos teve a felicidade de acompanhar esse verdadeiro maestro da defensiva azulina.

O grande defensor fez a sua primeira partida com a gloriosa camisa azul na tarde do dia 13 de maio de 1956, no estádio da curuzu num amistoso contra o rival bicolor, que terminou empatado em 1 a 1. Socó, apesar de não ser considerado um zagueiro artilheiro, balançou as redes adversárias por nove vezes ao longo de toda a sua vida esportiva, defendendo as cores do Clube do Remo. Os gols mais importantes foram marcados na decisão do campeonato paraense de 1960. Socó marcou por duas vezes no empate de 3 a 3 contra o Paysandu , mas não conseguiu com o empate o título de campeão, que ficou de posse do grande rival listrado.

Fonte: arquivos de Rocildo Oliveira

Além de alguns torneios, o eterno craque conquistou ainda os títulos paraenses de 1960, 1964 e 1968. Socó, que encerrou a sua brilhante carreira no ano de 1968, após ser ferrado por uma arraia em uma praia do Mosqueiro, defendeu também a Seleção Paraense, sendo escolhido em 2000 pela crônica esportiva local para fazer parte da seleção paraense do século XX.

Faleceu em 1 de abril de 2015.

***

SÃO as homenagens a Hamilton Blanco Fernandes, o popular Socó, do grande cronista azulino Rocildo de Oliveira, que postou esta crônica no Facebook, e com esta postagem faz a sua estreia no BLOGUE do Valentim, que costuma divulgar belos textos como este. Da minha parte, só lamento que não existem mais jogadores assim, que vestem a camisa de um mesmo clube de futebol por tanto tempo, criando uma verdadeira identificação com suas cores e com seu torcedor.

Até os anos 70, ainda era comum ver jogadores e craques como Zico, Roberto Dinamite, além do imortal e inigualável Pelé, que desfilaram com a camisa de Flamengo, Vasco e Santos por muitos anos. Nas equipes tradicionais do Pará, como é o caso de Remo e Paysandu, era fato corriqueiro e normal jogadores que, além de grandes craques de bola, também davam sangue pelas suas cores e isso por durante diversas temporadas.

Hoje, mal um garoto começa a se destacar e logo vem um agente que, de posse de um instrumento de procuração, o leva para outro clube, deixando suas origens futebolísticas. Pior ainda para equipes tradicionais e populares, porém sem muita infraestrutura, como é o caso do nosso amado Clube do Remo. Quanto aos veteranos, mal conseguem jogar por uma temporada apenas.

L.s.N.S.J.C.!

JOSÉ Augusto Moita!

Anotações estradeiras II (Belém, Pará)

A IDEIA de ter procurado um hotel perto do porto mostrou-se por demais inteligente, o escolhido não tem luxo mas é bastante agradável e fica perto de tudo. No café da manhã outra grata surpresa: nos aparece uma senhora idosa, muito distinta e educada, pergunta como tinha sido a noite e se estávamos gostando da estadia. Era Dona Odete, uma portuguesa que chegou no Brasil por volta de 1974 e há 16 anos é a proprietária do Hotel Unidos — agora entendemos o nome, pois sua filha está nesse exato momento na recepção.

O cronista José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Aqui abro um parêntese para dizer que já fomos servidos por uma primeira dama do município. Foi numa cidade de Goiás que agora nos falta o nome, onde o prefeito (descendente de italiano) era dono do hotel, a família toda trabalhava na manutenção do mesmo hotel e de um restaurante vizinho; a esposa servia o café e os filhos e sobrinhos eram garçons e recepcionistas. Mas isso tudo são coisas de imigrantes, nosso orgulho de senhor feudal não nos permite tamanha vergonha.

Tínhamos marcado com um primo, Moita da gema, que só conhecíamos do feicebuque, mas que se prontificou a nos levar onde quiséssemos.

Vou ter que abrir outro parêntese para falar sobre a Família Moita. Meu tetravô materno chegou de Portugal em meados do Século XIX, instalou sua família no alto da Serra da Ibiapaba, foi tão prolífero que contaminou todo País com sua carga genética, parecemos hoje o mosquito da dengue, existimos no Brasil todo.

Já a ideia de aceitar o convite do primo Clóvis Nunes Moita logo mostrou-se não ter sido inteligente, foi muita “AUMILHAÇÃO” do começo ao fim do passeio. Vou explicar porquê. Nós tínhamos dito que Belém é uma cidade linda, mas nos enganamos, é lindíssima. E quando nosso primo começou a nos mostrar os prédios, as praças, as ruas arborizadas, os monumentos históricos preservados, inevitavelmente nos veio a comparação com Fortaleza, aí bateu aquele desgosto… E tome o primo a nos mostrar os palacetes… e o desgosto aumentando. Chegou um momento em que ele sugeriu que fossemos conhecer as praias do Pará, de imediato eu pensei comigo: é melhor que não, a vergonha pode ficar maior, vamos nos enganar que pelo menos no quesito praia ganhamos deles.

Palacete Bolonha, Belém – Pará (fonte: Google)

São muitos os casarões e palacetes frutos das riquezas que essa Terra já produziu e produz, a maioria bem preservados, felizmente. Dentre os segundos se destaca o Palácio do Amor, uma obra de uma beleza estonteante construída pelo arquiteto italiano Antônio Bolonha, contratado a peso de ouro por um barão paraense para cuidar da criação de suas edificações.

Só que sua amada não quis vir do Rio de Janeiro para dentro da selva. O ardoroso esposo, como pássaro que capricha no ninho para atrair a companheira, deu de presente a ela e à cidade de Belém, uma verdadeira maravilha arquitetônica — história muito parecido com uma que ocorreu na “loura desprezada pelo sol”, só que a nossa teve um final trágico, botaram abaixo o palacete (poupamos nosso primo de mais uma vitória sobre nós, não contamos que o Castelo do Plácido, que viveu a mesma epopeia de amor, já não faz mais parte do mundo dos vivos).

Basílica de Nazaré, Belém – Pará (fonte: Google)

Quando estávamos pensando que nossa vergonha tinha passado, meu primo nos leva para conhecer o Santuário do Círio de Nazaré. Aí foi a gota d’Água. A AUMILHAÇÃO foi grande demais. A Catedral toda é uma obra de arte de fino trato, não tem como descrevê-la, só se fôssemos Vítor Hugo, é simplesmente linda, até pensei que meu ateísmo havia se acabado. Passamos tanto tempo a contemplar a magnificência dos detalhes das colunas, dos vitrais, do fabuloso órgão de tubos longos, das pinturas de ouro, que os crentes do grupo esqueceram de rezar.

A pá de cal veio quando o primo nos levou até a Casa Salomão, que tem apenas 110 anos em atividade — fichinha para o comércio fortalezense, onde nem Romcy existe mais. É um imenso bazar onde se encontra de tudo, do tecido ao parafuso, com os longos balcões de madeira e vitrines da época da inauguração, apenasmente deslumbrante.

Mercado e feira do Ver-o-Peso (fonte: Google)

Nós já tínhamos sentido que aquela tortura não iria ter fim se continuássemos naquele ponto da cidade, então alguém teve a feliz ideia de pedir ao primo para nos levar ao Ver o Peso. Ufah, enfim em alguma coisa empatávamos com eles, em sujeira de mercado somos iguais. O famoso Ver o Peso é um imenso São Sebastião sem paredes e com o mesmo aspecto de mal cuidado. Tem tudo que um mercado tem: produtos regionais. Mas começamos a notar que dessa vez o primo tinha uma certa pressa em nos mostrar tudo com muita rapidez, parecia que estava querendo chegar logo em algum lugar da feira. E não nos enganamos, ele queria nos levar no setor das ervas medicinais com suas garrafadas afrodisíacas, quando rapidamente as vendedoras passaram a demonstrar as maravilhas miraculosas de cada uma delas.

Para nossa surpresa o primo perguntou se poderíamos levar para Fortaleza duas encomendas, um presente para Raimundão e outro para Paulim. Aí eu disse: ué, e o primo conhece as peças? Se conheço…são as figuras mais badaladas das redes sociais. E o que é que meu primo quer que a gente leve? São apenas duas garrafinhas: uma para Raimundão que é composta de copaíba, raiz de pimba de macaco, banha de cupuaçu, casca do pau preto, seiva de jatobá, raspa da andiroba e leite de sucuba, conhecida aqui como viagra natural; e a do Paulim tem apenas chá de aroeira, para banhos de assento. Eu fiquei sem entender nada..

Ao Clóvis Nunes Moita nossos mais sinceros agradecimentos.

***

O TEXTO acima em que J. A. Moita escreve sobre suas experiências em Belém, por suas peculiaridades de escrita e de descrições, nos deixa, como paraense que somos, bastante desconcertado, apesar de orgulhoso.

Quanto as descrições de alguns pontos turísticos de Belém, é claro que o amigo foi muito bondoso. Com certeza, há muitas coisas lindas e diferentes que podem ser encontradas na capital paraense. Há também coisas imateriais, como a deliciosa e exótica culinária paraense, que, com certeza, o Moita já ouviu falar e até provou.

Mas é claro que comparar a nossa simpática cidade à capital alencarina, devo dizer, a bem da verdade, que Belém — a antiga Santa Maria de Belém do Grão-Pará — sairia perdendo. Nenhuma vergonha em admitir. Por razões estratégicas, em 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco mandou construir o Forte do Presépio (edificação que deu origem à cidade) na entrada da Amazônia e não em frente ao mar, tal qual a capital de todos os cearenses e outras belas cidades nordestinas.

Há outra questão, que independe da história, da natureza e da localização: infelizmente, a cidade, Porta de Entrada da Amazônia, vem sendo mal cuidada há décadas. Maus governantes. Não vou nem entrar no assunto favela, palafitas, sub-moradias… Aí sim, é vergonhoso. Mazelas do capitalismo que as grandes cidades brasileiras não estão impunes.

Menos mal que o Clóvis Moita, seu parente, o levou somente aos melhores lugares. Há, além da beleza arquitetônica, toda uma história de amor por trás da construção do Palacete Bolonha. Quanto ao Ver-o-Peso, é um lugar único. Muito interessantes as barracas de ervas com seus nomes pra lá de exóticos e até divertidos: Comigo-ninguém-pode, pega-rapaz, catinga-de-mulata, chama-dinheiro, amansa-corno… Não sei se o Clóvis levou o J. Moita à barraca da Bete Cheirosinha.

Para não deixar de lado a criticidade de que nenhum de nós, brasileiros, devemos nos apartar, atrás da história romântica da construção do palacete há também uma dose alta de exploração dos operários que o construíram, que derramaram ali seu suor e lágrimas. O mercado, o porto e a feira do Ver-o-Peso devem esse nome ao fato de os produtores terem obrigatoriamente de pesar seus produtos para daí a Coroa Portuguesa extrair o imposto que mantinha o luxo e o conforto dos reis e nobres lusitanos. Também aí muito suor, lágrimas e sangue dos cabanos da região. Há aí — como se vê — todo um campo de estudos farto, digno de pensadores como Karl Marx; o materialismo histórico vigendo desde sempre.

Quanto ao estilo literário peculiar do autor, que habilmente se utiliza de linguagem simples e popular, é dificultoso definir. Simplesmente maravilhoso, vamos ficar só aí. Qualquer outra seria redundante, desnecessária, podendo ser injusta.

L.s.N.S.J.C.!

RUFINA, a jovem que morreu duas vezes!

UM DIA desses vejo na tevê que o turismo funerário é mais comum do que se imagina. Chama a atenção as vezes em que o turista é levado para visitar cemitério. Lembro imediatamente de duas viagens que fiz.

Uma foi para São João del-Rei, Minas, terra de Tancredo Neves. Ano de 2001, quando estava no CIAAR em Belo Horizonte. Como não poderia deixar de ser, o guia nos leva à Igreja de São Francisco de Assis, cujo projeto arquitetônico leva a assinatura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Também é dele algumas obras de escultura, como, por exemplo, o Cristo do Amor Divino, em uma das laterais, em que se pode ver o olhar sofrido de Jesus, uma marca desse grande artista brasileiro, que, se fosse estadunidense, sobre a vida dele teriam feito ene filmes e não sei quantos livros.

Cristo do Amor Divino, obra de Aleijadinho, São João Del Rei, Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

“Olhem para o chão! Para o chão”.

Entre tantas coisas interessantes para se contemplar, o guia nos chama a atenção para o assoalho da igreja. É de madeira e embaixo dele, faz muito tempo, eram sepultadas as pessoas ricas, muito ricas, os barões e baronesas da cidade, bem como seus filhos e demais parentes. Benfeitores, faziam questão de ser sepultados no solo sagrado da igreja, já que assim era certeza sua alma repousar no paraíso — era o que acreditavam. Ricaços, perpetravam em vida sórdidas ações, explorando, violentando, inclusive escravizando; uma vez mortos, por terem seus ossos repousando em solo sagrado, o céu lhes estaria garantido. Muito fácil! Coitadas das outras infelizes almas, as dos pobres, que em vida não possuíram honra, dinheiro e poder. Enterrados em qualquer lugar, bem longe da igreja, com certeza tinham por destino os braços esqueléticos do Capiroto!

No entanto, um belo dia o papa — cujo nome não guardei — resolve proibir tal prática macabra. Pudera. O cheio já se manifestava insuportável, ficando proibitivo aos cristãos da cidade frequentar a igreja e participar das missas dominicais. Tem nada não! Não podendo usar o solo sagrado da igreja, o cemitério passa a funcionar bem pertinho: no quintal.

Assim, fomos levados a visitar, nos fundos da Igreja de São Francisco de Assis, os túmulos em que jazem os restos mortais do quase presidente Tancredo Neves (aquele que era para ser mas acabou não sendo) de sua esposa Risoleta Neves.

Igreja São Francisco de Assis, São João Del Rei – Minas Gerais (fonte: Wikipédia)

Vistar cemitério. Belo programa!

Quanto não fazem para agradar? Sempre com a mesma história na ponta da língua, pronta para impressionar turista. A outra viagem foi para a Argentina. Ano de 2013.

Relembro que quando estivemos por Buenos Aires acompanhou-nos uma figura muito simpática, o Esteban Ríos, guia argentino que, segundo ele, morou em três cidades do Brasil: Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre. Grande cara esse argentino torcedor do Boca Júniors, que nos proporciona momentos marcantes e histórias insólitas na capital argentina.

Esteban no nosso ônibus indicava os pontos de destaque da cidade. A cada monumento ia a nos dizer de quem e de que se tratava, sempre ilustrando com uma história que justificava a existência do tal monumento, estátua, obelisco ou que fosse. Muito cívico e patriota o povo argentino.

“Cuando vean a un hombre a caballo. ¡Es un general!”

Diz-nos ele com seu sotaque forte. Foi aí que passamos por mais um dos heróis portenhos. Tratava-se de um monumento que homenageava o general Urquiza, um dos primeiros presidentes do país vizinho. Pensei: “Já vem aí uma relação dos feitos heroicos desse general.”. Nada. Em vez disso, o guia nos vem com essa:

“General Urquiza es responsable por el poblamiento de la argentina. Fue padre de 105 hijos.”

Estátua do General Urquiza, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Acrescentou, enfatizando, que o grande guerreiro povoou a metade do país. 105 filhos, não entrando nessa conta os não reconhecidos. Uau!

Logo chegaríamos ao cemitério da Recoleta para vermos o mausoléu de Evita Perón, a protetora dos pobres, até hoje venerada pelo argentino.

Incrição à entrada do mausoléu de Evita Perón, Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (acervo do BLOGUE do Valentim!)

Paramos para ouvir o que Esteban tinha a dizer sobre a mulher do caudilho Juan Domingo Perón. Pouco me interessou porque, a bem da verdade, muito já li sobre Maria Eva Duarte de Perón, atriz e primeira-dama.

O que realmente roubou a cena e chamou a atenção do grupo foi a história surreal que ele conta sobre o próximo túmulo a ser visitado. É o túmulo de Rufina Cambaceres, a jovem que morreu duas vezes.

Esteban Ríos conta-nos a nefasta história de Rufina, a que morreu duas vezes. Cemitério da Recoleta, Buenos Aires – Argentina (Acervo do BLOGUE do Valentim!)

Rufina morreu no dia em que completava dezenove anos. Para comemorar a data, sua mãe faria uma grande festa e a levaria ao Teatro Colón, onde a apresentaria à alta sociedade da capital. Um acontecimento para poucas jovens da sociedade portenha de então.

Todavia, antes de sair, a jovem foi encontrada morta, rígida no chão. O médico atestou sua morte e ela foi enterrada no dia seguinte. Alguns dias depois os empregados do cemitério encontraram seu caixão aberto e com a tampa quebrada. Rufina teria sofrido um ataque de catalepsia e acordado dentro do esquife.

Por trás dessa história há outra.

Depois que o pai de Rufina Cambaceres, o escritor Eugenio Cambaceres morreu, ela tornou-se uma menina solitária, reclusa. Uma vez jovem, recusava sistematicamente a aproximação e interesse de qualquer jovem de sua faixa etária. Um dia, Rufina, filha de Luiza Bacichi, ex-bailarina italiana, viúva e bonita, recebe proposta de namoro por parte de Hipólito Yrigoyen, um homem bem mais velho que ela (ele, 49; ela, 19), que viria a ser presidente da Argentina por duas vezes. Talvez por projetar a imagem de seu pai, que morreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade, é este o único homem por quem ela de fato passa a se interessar. Ocorre que, nos poucos encontros que tiveram, na casa de Rufina, a jovem, mal o recebe, acaba por passar mal, recolhida a seus aposentos, dorme, desapontando Hipólito. Isso ocorre várias vezes.

Um dia alguém lhe abre os olhos.

“Rufina, você não acha estranho que, justamente, nos dias de visita de seu noivo, você passe mal?”

31 de maio de 1902, nesse exato dia, em que completa dezenove anos, ela finalmente descobriria a verdade nua e crua. Toda vez que Hipólito vinha a sua casa para lhe ver, sua mãe serve à filha chá com alguma substância que lhe fazia dormir. Hipólito era amante de sua mãe, na verdade.

Nessa noite fatídica, diante de revelação tão chocante, Rufina não resiste. Um médico, presente na casa, atesta sua morte. É sepultada.

No entanto, dia seguinte chega da Europa uma parenta sua. Tarde demais. Ela era a única pessoa a saber que a jovem Rufina sofria de catalepsia. O caixão tinha as portas arranhadas e o corpo com o rosto machucado pelo desespero da infeliz que morreu duas vezes. Oficialmente a família declarou que foi um roubo pois a jovem foi sepultada com as suas joias.

Estátua de Rufina Cambaceres (foto: Luiza Tenan)

Diante disso, a família mandou esculpir uma estátua em que Rufina tenta abrir uma porta; a porta para o céu para uns, a porta do caixão para outros.

Pensa numa consciência pesada a de Luiza Bacichi, sua mãe.

L.s.N.S.J.C.!

O ÁLCOOL revela o caráter!

Luzes da Cidade é caracterizado, também, pelo desenho recorrente de um abismo social perverso. Enquanto o personagem de Myers é apenas amigo do vagabundo quando ébrio, ostensivamente provendo coisas como forma de mitigar a própria tristeza por ter perdido a esposa, o pobretão faz das tripas coração para ajudar a amada em situação tão precária quanto a dele. A drástica mudança de comportamento do endinheirado deflagra, de maneira ora melancólica, ora cômica, a alienação burguesa diante dos que padecem à margem. Marcelo Müller

HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas, nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, e sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas iluminadas.

Harry Myers e Chaplin (fonte: Papo de Cinema)

Charlie (a versão norte-americana para Charles) fez de quase tudo no cinema: escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs músicas, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Eterno inconformado, o fez com o objetivo de dar liberdade ao artista, preso a esquemas dos grandes chefes de estúdio. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O ator britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica Luzes da Cidade, de 1931, filme do genial Chaplin, considerado por muitos como a sua obra-prima. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que havia quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entra na era do cinema falado. Incorporando elementos sonoros, o filme foi campeão de bilheterias, com o melhor final de toda a história cinematográfica.

Há obras de arte que precisam e merecem ser vistas, ouvidas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas por toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam, merecendo ser apreciadas por uma existência inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, reapresentam-se a poesia e o sonho, como que em mágica, revelando-se a cada vez faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil.

São clássicos e clássicos não morrem jamais.

Chaplin e Virginia Cherrill (fonte: Papo de Cinema)

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, não tendo onde morar, vagueia pela cidade, a dormir em qualquer lugar e a comer do que conseguir. Numa tarde, uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela. Por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, ele, um andarilho, um pobre-diabo acaba se passando por homem de classe social abastada.

Como manter a representação?

A solução lhe vem à noite, quando ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado, ricaço, milionário, magnata. Por ironia, um pobretão que salva um milionário, apelando para a beleza da criação.

“Amanhã, os pássaros cantarão”.

 O magnata, depois de muitas trapalhadas que quase levam os dois à morte, mas que geram no público um mar de gargalhadas, acaba por desistir do suicídio. Agradecido, oferece-lhe sua eterna amizade.

“Amigos para sempre”.

Dois homens, duas vidas, classes sociais opostas. Um, que tudo possui — bens a usufruir, conforto a desfrutar, empregados para mandar — apresenta, na verdade, um grande vazio de alma; busca preencher esse vazio com a bebida, luxo, diversões fúteis e viagens. No entanto, à menor contrariedade, vê-se inclinado a acabar com a própria vida, não suportando o sofrimento, por pequeno que seja. Outro, que nada tem, possui, todavia, o principal: a esperança e o amor, valores que nem a sociedade cruel é capaz de destruir. A uma, oferece o amor e o carinho — platônico e desinteressado — de um homem, buscando prover-lhe, ainda que faça das tripas coração, o que lhe falta para sua felicidade. Assim, procura mitigar-lhe o sofrimento, primeiro em relação ao aluguel vencido, que promete saldar, e, por fim, a própria cura da cegueira; a outro, salva-lhe a vida, procurando mostrar-lhe o belo, a criação extraordinária do Supremo.

O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa — eis a razão imediata da tentativa de suicídio –, leva o Vagabundo, a quem promete amizade, para sua mansão, e de lá, condignamente trajados, vão para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes de luxo, acaba por protagonizar várias trapalhadas, que o faz ao transgredir as normas sociais. É a pantomina habitual, receita infalível nos filmes de Chaplin que leva o público às gargalhadas.

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o homem não o reconhece, mandando que o mordomo expulse Carlitos da casa.

“Quem é esse homem?”

Há pessoas volúveis neste mundo cruel. O homem, por vezes, comporta-se em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as normas impostas pela sociedade, que tem seus instrumentos de controle dos indivíduos.

Indivíduos que, uma vez embriagados, se mostram mais falantes, quando em estado normal são em geral taciturnos; mais risonhos, em vez de sisudos ou melancólicos; generosos, quando são em geral seguros, econômicos e mesquinhos; egoístas, podem de uma hora para outra se mostrarem solidários e gentis; intrépidos e corajosos, ao invés de medrosos; viris, ousados e galanteadores, em vez de tímidos e retraídos. Alguns quebram as regras sociais e outros apresentam alteração de voz, cantam e até recitam. Há inclusive aqueles que desmunhecam, quando em condição de normalidade se apresentam discretos e másculos.

O álcool revela o caráter, costumava dizer o próprio Chaplin.

Quero crer que, como regra geral, os efeitos do álcool acabam por liberar nas pessoas o seu verdadeiro eu, pondo a nu a real personalidade do indivíduo. Desaparecem as diferenças e o freio imposto pela sociedade, sumindo o patrulhamento cultural que os homens estabeleceram uns aos outros. Relativiza-se a noção do que é certo ou errado conforme os ditames sociais, convencionados em função de aspectos culturais, dogmas e crenças religiosas, peculiaridades geográficas, fatores históricos. O adulto, tal qual a criança, tende então a romper as barreiras dos códigos sociais, passando a ignorar o abismo que o separa do irmão, num faz de conta que diferenças inexistem. A partir daí, as muralhas da  etnia, da religião, da convicção política, da classe social deixam de representar obstáculos.

Chaplin, em Luzes da Cidade, nos relembra do oceânico abismo social entre o magnata e o vagabundo, entre o rico e o pobre, um mundo extremamente desigual e perverso. Um homem, o pobre-diabo, nada tem de seu, enquanto a outro nada lhe falta. Possui confortável mansão, empregados, automóveis de luxo, ostenta posição social e títulos, além de dispor de muito dinheiro no banco. Falta-lhe, entretanto, algo que nenhum dinheiro é capaz de comprar: a felicidade. Quanto ao vagabundo, ainda que não se possa dizer que seja feliz, por resignado, nada tem a perder, porquanto nada possui com que se preocupar.

Chaplin nos brinda com um personagem, que, uma vez melancólico e infeliz pelo abandono da esposa, trata de refugiar-se na bebida. É como em busca de um antídoto para a infelicidade. Seu rico patrimônio de nada adianta, pois nada resolve o fato de ele ser um magnata, milionário, ricaço, respeitado, bacana. Como em tantas vezes, resolve então apelar para os efeitos do álcool desta vez a fim de obter a necessária coragem para matar-se, cometer o suicídio, tirar sua própria vida, sair de vez do mundo dos vivos, libertar-se deste mundo cruel.

De outro lado, em posição diametralmente oposta, Chaplin cria um outro personagem da vida: o Vagabundo. Ainda que reconheça a utilidade do vil metal, o Vagabundo, apesar de nada ter, de ser um necessitado, um mendigo, um andarilho, um pobretão, um pobre-diabo, ainda assim conduz no peito um coração capaz de amar, de praticar o verdadeiro amor cristão. Para ele, a vida é importante e bela, que precisa ser vivida — Amanhã, os pássaros cantarão –, reconhecendo no outro um necessitado de amor. Salva-lhe a vida. Não tire sua própria vida, meu irmão, porque vale a pena viver. Quem te diz isso não é um homem rico, a quem nada falta, mas sim um mendigo de rua.

E agora, como nas flores, nos pássaros, no mar, no crepúsculo e na alvorada, nas canções, nas obras líricas, no amor, no sorriso verdadeiro de uma criança, na amizade incondicional, na maternidade e na paternidade, dize-me: há ou não também poesia aí? É bela ou não a mensagem exposta na película de Chaplin? E quanto a obra, ela merece ou não merece ser apreciada por muitas e muitas vezes?

Na segunda vez em que se encontram as duas personagens, na porta do tal clube elegante, o milionário lhe dá uma grande soma em dinheiro. Carlitos, então, movido pelo verdadeiro amor, doa todo o dinheiro para a florista cega, a fim de que ela pague o aluguel atrasado e custeie o tratamento para a recuperação da vista. É um gesto de extrema abnegação, ele um faminto que nada tem. Logo em seguida é preso, passando muito tempo na cadeia, porque, o milionário, novamente, uma vez sóbrio, não reconhece a amizade. Trata-se, afinal, de apenas um vagabundo, reles, ordinário, muito possivelmente um ladrão, e o dinheiro — que a polícia encontra na posse de Carlitos — só pode ser roubado.

Chaplin proporciona em Luzes da Cidade o melhor final de todos os filmes até hoje (fonte: Google)

Ébrio, um sujeito bonachão, alegre, feliz e generoso; sóbrio, há lá fora uma sociedade — por hipócrita que seja — a lhe cobrar coerência com a sua classe, e as convenções sociais mandam que observe a distância enorme que separa o rico do pobre, o doutor do iletrado, a autoridade pública do povo, o homem de Deus do ímpio, o branco rico do preto pobre, o cidadão de bem do tipo marginalizado.

A aparência precisa ser preservada. Estamos condenados a viver numa prisão construída por uma sociedade podre.

Mas amanhã os pássaros cantarão!

L.s.N.S.J.C.!

A HORA e a vez de Augusto Matraga!

Guimarães Rosa

A Hora e a Vez de Augusto Matraga” é o nono e último conto de Sagarana, livro que em 1946 marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais e conta a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…” (Enem virtual)


João Guimarães Rosa (fonte: Google)

ERA noite de novena no arraial e havia uma procissão. Quando a reza acabou, aconteceu um rápido leilão. Depois disso toda a gente foi embora, mas o leiloeiro ficou na barraca, comendo amendoim, no meio do povo bêbado do fim da festa. Além deles, havia duas prostitutas, Angélica (negra) e Siriema (branca).

Os homens começaram a disputá-las, como se elas também estivessem em leilão. Nesse momento, Nhô Augusto (Augusto Matraga) berrou para o leiloeiro, oferecendo 50 mil réis por Siriema.

O povo, então, incentivou-o a levar a prostituta branca. Ele pegou-a pelo braço e os dois saíram. Ela quis ficar com outro homem e até ameaçou um choro, mas acabou se rendendo a ele. Quando a levou para casa e acendeu a luz, percebeu que ela era muito magra e disse: “Que é? – Você tem perna de Manuel-Fonseca, uma fina e a outra seca!” , mandando a rapariga embora.

Depois disso, desceu a ladeira sozinho e esbarrou com Quim que trazia um recado de Dona Dionóra, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Ele disse a Quim Recadeiro que não iria lá.

Quando Dona Dionóra soube a resposta, teve vontade de chorar pelo desprezo do marido e por sua desdita. Ela conhecia e temia os repentes de Nhô-Augusto que não se importava nem com a filha Mimita de dez anos.

Guimarães Rosa (fonte: Google)

Ela sabia que ele tinha outros prazeres e outras mulheres, mas aceitava, pois havia contrariado toda a família para se casar com ele. Outro homem já tinha aparecido em sua vida, mas ela sabia que se fugisse Matraga a mataria. Depois de pensar, ela dormiu e, de madrugada ainda, partiu com a filha e com o camarada Quim, parando na fazenda de um tio.

De manhã, continuaram a andar. No meio do caminho, encontraram Seu Ovídio Moura, o homem com quem ela decidiu fugir, mesmo com medo de ser assassinada pelo marido. Quim voltou para contar a Nhô-Augusto o que acontecera.

Quando recebeu a notícia, Matraga decidiu ir atrás, mas seus homens não quiseram ir com ele, pois ele devia dinheiro para todos. Além do mais, sua fama no lugar não era muito boa. Apesar de tudo isso, ele decidiu matar Ovídio, mas antes quis vingar-se do Major Consilva e de seus capangas que não quiseram acompanhá-lo na busca da esposa.

Chegou, então, à chácara do major, porém, os capangas o espancaram até que ele caísse. No meio desses homens, estava o camarada de quem ele havia ganhado a prostituta Siriema. Quando ele já estava caído, o major mandou que o matassem. Eles o arrastaram até o rancho do Barranco.

Antes de matá-lo, esquentaram o ferro dos gado e marcaram sua pele com as iniciais do Major Consilva. Nessa hora, ele levantou gritando e se jogou do barranco. Os capangas o consideraram morto e colocaram uma cruz no local.

Um homem negro que morava perto dali foi até ele e o levou para seu casebre. Nhô-Augusto pediu que o matassem, mas, dias depois, retomou a consciência. Lembrou-se da mulher e da filha, chorou e chamou o nome de sua mãe. O homem que o acudiu pediu que ele rezasse para Deus e para Nossa Senhora do Rosário. A tristeza tomou conta de Matraga.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e, após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou que sua vida já acabara e esperava apenas a salvação da sua alma. Tomara tão grande horror às suas maldades que nem podia mais se lembrar delas. Parecia se converter a Deus aos poucos.

Quando ficou bom, pensou em ir para o sertão com o casal samaritano que o socorreu e viajaram para o povoado do Tombador. Lá, ele pedia trabalho e conversava pouco. Às vezes, ficava sozinho e se lembrava das últimas palavras do padre: “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.” Desse modo, passaram-se quase seis anos. Ele não fumava nem bebia; não olhava para as mulheres nem discutia.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô-Augusto, dando notícias de sua família: Dona Dionóra, continuava amigada com Seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadero havia morrido de “morte matada” porque tentou vingar-se dos capangas que pensava terem matado Nhô. Ao ouvir tudo isso, Matraga repetia para si mesmo que sua hora havia de chegar. Por causa disso, no dia seguinte, fez muita caridade para não perder seu lugar no céu.

Com o tempo, ele voltou a ter muito sono e muita fome. Pensou que Deus o havia perdoado e mãe Quitéria louvou a Deus por isso. Acordou mais cedo e diante de tanta felicidade que sentia, teve vontade de fumar e não se sentiu pecando por isso.

Um dia, chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nhô foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado. Todos conversaram muito durante a noite e o chefe do bando, na hora de ir embora, convidou Nhô para ir com eles, mas ele recusou.

Apesar disso, os invejou depois, porque não tinham que pensar na salvação da alma e podiam andar no mundo sem vergonha.

Pensou bem e considerou que essa história de andar em penitência era andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos. Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jegue emprestado pelo amigo Rodolphio Merêncio.

Onde o jegue o levou ele foi e entraram em um arraial onde, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

João ia matar um homem para vingar a morte do Jumentinho, seu colega de bando. O homem implorou pela vida, clamando por Deus e, quando viu essa cena, Nhô interveio, alegando que pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem tinha que ser respeitado. Joãozinho sentia-se preso a Nhô por respeito e não soube o que fazer.

Seu bando, entretanto, liderado por Teófilo Sussuarana, caminhou para cima de Matraga. João também foi para a briga se agrediram. Por fim, Nhô-Augusto cortou a barriga do chefe do bando da púbis à boca do estômago, condenando-o à morte.

Preocupado com a salvação de Joãozinho, Matraga pediu que ele se arrependesse de seus pecados, mas não ouviu resposta, pois este morreu em seguida. Nhô estava muito machucado, mas pediu que chamassem um padre.

O povo, por sua vez, agradecia, dizendo que Deus o mandou ali para salvar as famílias. Diziam: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!…”. Por isso, era chamado de herói e santo por todos, pois ninguém antes tivera coragem para enfrentar Joãozinho Bem-Bem.

Um primo de Matraga estava no lugar e o reconheceu. Ele pediu a esse parente que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Dionóra que estava tudo em ordem.

Depois disso, morreu.

(www.enemvirtual.com.br, acesso em 02mar2019)

L.s.N.S.J.C.!

FLORESTA Amazônica! Nunca ouviu falar?

O filme de Cacá Diegues faz o espectador mergulhar de cabeça no Brasil profundo, enfiar-se, chafurdar-se no coração deste país gigantesco demais, sem jeito demais, eternamente promessa de um futuro que jamais chega. (…)


Tanta coisa nasceu, tanta coisa acabou, ao longo destas quatro décadas – e, no entanto, tanta coisa continuou tão parecida com a realidade que Bye Bye Brasil mostra. Sérgio Vaz (50anosdefilmes.com.br)

O malandro Lorde Cigano (José Wilker) lidera a Caravana Rolidei em suas apresentações pelo interior do Nordeste ao final da década de 1970. Detalhe no pára-brisas do caminhão. (fonte: Google)

“FLORESTA Amazônica. Nunca ouviu falar?” Por duas vezes no filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, se faz essa emblemática pergunta. É verdade que muita gente na década de 1970 desconhecia a Amazônia. Muitos não a conhecem até hoje, em pleno século 21. Também muita gente não conhecia — e não conhece até hoje — o próprio Brasil, os diferentes brasis existentes dentro do Brasil de alguns. Quem vive no Sul acha que no Norte e no Nordeste só tem miséria; quem é do Norte e do Nordeste tem a ilusão de que o Sul é uma maravilha.

A pergunta acontece no final da década de 1970. No entanto, permanece atual.

Cartaz do filme Bye Bye Brasil, em inglês (fonte: Google)

Atenção, senhoras e senhores, digníssimas autoridades civis, militares e eclesiásticas! Depois de prolongada ausência, devido a compromissos em São Paulo e no resto do sul do país…”

Procurando na internet sobre o filme, diz lá que Salomé, Lorde Cigano e Andorinha são três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira e que ainda não tem acesso à televisão. Mais tarde se juntam a eles o sanfoneiro Ciço e sua mulher Dasdô.  A paupérrima sinopse do filme não faz justiça à película, não dando a ninguém a ideia da dimensão do que o enredo se propõe a alcançar, mostrar, denunciar… Há, portanto, um contexto de exploração.

Lorde Cigano e a Caravana Rolidei (fonte: Google)

A história se passa no final da década de 1970, o que é possível identificar pela indumentária da época, além de ser apresentada a telenovela Dancing Days, da rede Globo. Inicia-se no Nordeste brasileiro, pois se pode ver o rio São Francisco a banhar uma típica cidadezinha do interior.

A Caravana Rolidei é um grupo de artistas que circulam pelas cidades mais pobres do interior brasileiro apresentando sua decadente arte mambembe. Seu líder é Lorde Cigano (José Wilker), o “imperador dos mágicos e dos videntes” e mestre de cerimônia do grupo. Salomé (Betty Faria) é a rainha da rumba, “aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, a principal atração junto ao público masculino por conta de seu charme de seus atributos físicos. Além de atuar como dançarina, complementa a renda do grupo com o seu próprio corpo, deitando-se com quem tem dinheiro para pagar. É assim com o prefeito, um típico político demagógico do interior, que é cliente antigo dos espetáculos familiares — e não familiares — da Caravana Rolidei.

“…a Caravana Rolidei, que tem orgulho de apresentar a esse distinto público as suas grandes atrações: o fabuloso Andorinha, o rei dos músculos; a internacional Salomé, a rainha da rumba; e o extraordinário e inimitável Lorde Cigano, o imperador dos mágicos e dos videntes.”

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado, não é verdade?” Pergunta com ironia o prefeito.

Quando na vida o importante é a sobrevivência, tudo o mais pode ser relativizado. Assim, também as convenções sociais tendem a ser postas em plano secundário. E é em nome dessa sobrevivência que Salomé utiliza seu do corpo de modo a engordar o lucro da trupe. Lorde Cigano e Salomé, pelo que mostra a produção de Cacá Diegues, formam um casal unido. Assim, a moral da sociedade, em que o homem e a mulher se devem mútua fidelidade, está longe de ser uma regra respeitada por eles. Há um pacto: a vida profissional (em nome da sobrevivência) vem em primeiro lugar, e isso é sim, para eles, também uma forma de amor.

Amor é lorota. Quem manda é a nota”

É frase que ostenta o pára-brisas do caminhão, expressando o modus vivendi do grupo. Não apenas uma frase de efeito que provoca risadas a quem sabe ler (e aí são poucos), sobretudo uma profissão de fé, onde a sobrevivência neste mundo concorrido se sobrepõe às convenções.

Dasdô e Ciço (fonte: Google)

Numa determinada cidade, Salomé observa que no ano passado deu mais gente. Constatam que a Caravana Rolidei tem um forte concorrente: a televisão, uma tecnologia que vem para ficar, deixando para trás as formas tradicionais de lazer, como o cinema, o teatro e arte mambembe. Assim, nem mesmo a malandragem de Lorde Cigano e a sensualidade latina de Salomé conseguem competir de igual para igual.

Andorinha (Príncipe Nabor), afrodescendente, mudo e musculoso, é quem faz todo o trabalho pesado. Apresenta-se como engolidor de fogo (pirofagia), além de executar outros números circenses, gêneros que ainda conseguem impressionar a gente simples do interior, ainda que em número cada vez menor. Além disso, por ser fisicamente forte, é explorado por Lorde Cigano competindo no braço-de-ferro, invariavelmente vencendo a seus oponentes. Também é o motorista do caminhão, um surrado fenemê.

Príncipe Nabor (fonte: Google)

Tudo certo.

Sendo negro e analfabeto, é do senso comum que não lhe cabe outra tarefa a não ser o trabalho pesado, a subalternidade e a subserviência. É natural o negro ser visto como apenas um monte de músculos, explorado por outro homem. E é assim que mostra o filme.

À mulher (Salomé), cabe tão somente apresentar como atributos a beleza, a arte (cantora e dançarina) e a sensualidade. Nada mais que isso.

“Venham ver Andorinha, o rei dos músculos, o homem mais forte do mundo. Venham ver Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos…”

Muita gente, pelo interior do país, costuma impressionar-se com esses títulos: imperador, rei, princesa, rainha… Isso não passou despercebido por Cacá Diegues. O fato de a Caravana ter estado em São Paulo e no restante do sul do país, aliado ao de Salomé ter sido amante de um presidente dos Estados Unidos, faz impressionante efeito na cabeça das pessoas mais simples.

Ao homem branco (Lorde Cigano) cabe, naturalmente, a liderança e o trabalho intelectual. A questão de gênero e de raça, que Cacá Diegues mostra em Bye Bye Brasil, é sutilmente denunciada. Todavia, a exploração do trabalho braçal (Andorinha) e da prostituição (Salomé) é vista com naturalidade pela sociedade brasileira e, por isso, nenhuma estranheza é provocada.

Betty Faria no papel da internacional Salomé, a rainha da rumba, que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos (fonte: Google)

Bye Bye Brasil, mais que comédia e sensualidade, traz em seu cerne a reflexão social sobre as mazelas sociais brasileiras que poucos conseguem enxergar. Quase ninguém. Além disso, procura mostrar um Brasil em fase de transição, em mudança, ao mesmo tempo que permanece igual. A tecnologia que chega consegue mudar costumes, impor novos hábitos, mas não muda o modo de ser do brasileiro mais simples, que continua ignorante, ingênuo e explorado. Muda a roupagem apenas, os instrumentos. Entra o Brasil da calça Lee, do óculos Ray-ban, do toca-fitas Road Star e da televisão.

Impressionado com a beleza de Salomé, o sertanejo Ciço (Fábio Júnior) implora para ser admitido pelo grupo. Dasdô (Zaira Zambelli) faça o que achar melhor, e a ela, grávida nos últimos meses, não resta opção a não ser, resignada, acompanhar o marido, de quem depende. Ele, na verdade, apaixona-se por Salomé, que, ao olhos do sertanejo simplório, apresenta-se como uma mulher resolvida, elegante, bonita e sensual, bem distinta das interioranas comuns, características femininas que provocam cobiça nos homens e inveja nas mulheres. Soma essa razão à de fugir da vida miserável a que estão condenados ele, esposa e filha por nascer.

A Caravana segue Nordeste a dentro, levando sua arte mambembe a um público cada vez menos interessado, isso porque prefeitos instalam televisão pública, o poderoso circo eletrônico que fascina, impressiona, enfeitiça, prende e aliena o público, um concorrente desleal a que nem a beleza sensual, diferenciada e estonteante de Salomé é capaz de vencer.

Decidem, pois, migrar para a Amazônia, onde abacaxi é do tamanho de uma jaca e as árvores são tão altas quanto arranha-céus.

“Floresta Amazônia. Nunca ouviu falar?”

É um caminhoneiro (Carlos Kroeber) que diz, enquanto disputa cana-de-braço com Andorinha, sob a supervisão do “fominha” Lorde Cigano. Ele cai na conversa. A Amazônia, na fala do caminhoneiro, é apresentada como uma espécie de eldorado, o que era senso comum a muitos que na época para lá migraram em busca da fortuna, que só veio para poucos.

Diante da decadência que se lhes apresenta inexorável por conta de tecnologias como a tal televisão, Lorde Cigano decide que a Caravana Rolidei seguirá para Altamira, às margens do rio Xingu, no centro da rodovia Transamazônica. Lá vão dar espetáculos para os índios, porque, com certeza, lá naquele fim de mundo não há televisão e os indígenas não têm onde gastar seu dinheiro.

Índios são forçados a abandonar sua cultura e a abraçar precariamente a cultura do invasor (fonte: Google)

Mas antes Ciço expressa desejo de ver o mar. Seguem rumo a Maiceió. Chegando lá, as cenas mostram a vida agitada das cidades, o trânsito infernal, os engarrafamentos, a poluição sonora, a poluição visual…, tudo de ruim. As cidades — até mesmo as medianas como a Maceió de 1979 — estão inchadas devido ao êxodo rural. Por não obterem apoio na roça, migram para a cidade, que, por sua vez, não os contempla porque não têm qualificação, resultando desse círculo vicioso mais misérias, violências, insegurança, desempregos, problemas habitacionais, enfim, toda uma sorte de problemas sociais.

“Mar de cidade é cheio de cocô. Altamente poluído.”

Mas conhecer o mar é objeto de desejo de todo brasileiro que nasceu e se criou no interior. Por isso, a Caravana Rolidei estaciona numa praia distante da cidade grande, com muitas belezas naturais, ventanias, palmeiras, uma beleza. Lá Ciço, finalmente, põe os pés no mar, realizando um de seus grandes sonhos.

O velho fenemê adentra a floresta.

Uma vez em plena Amazônia, cenas mostram a estrada rasgando a selva, sugerindo desmatamento desordenado. Tinha-se o pensamento na época de que eram necessárias ao país estradas, fábricas, extração de minérios, desmatar, explorar… Fazer o bolo crescer para só depois dividir. Essa era a ideia de modernidade, e o homem que se adaptasse ao progresso numa época em que não se falava em defesa do meio-ambiente.

Dasdô sente as dores do parto. Nasce a filha, a quem é dada o nome de Altamira, em homenagem à cidade promissora, que, para eles, é uma espécie de terra prometida, onde corre leite e mel.

“Vai se chamar Altamira!” Diante do olhar de reprovação por parte de Salomé, Lorde Cigano, segurando o bebê, atenua: “Legal, quem não gostar por chamar de Mirinha”;

Segue o filme.

A certa hora aparecem os índios. Todos vestidos, alguns de óculos escuros, escutando rádio. Diante da invasão cultural a que sofreram, os indígenas não têm outro caminho a não ser adaptar-se à cultura do invasor, ainda que de forma precária.

“Depois que os brancos chegaram, minha aldeia se acabou. Agora eu vou pra cidade, pacificar os brancos… Minha mãe quer ir pra Altamira pra viajar de avião.”.

Diz o cacique (Rinaldo Gines), para completa surpresa de Lorde Cigano.

“De avião em Altamira? Isso aqui é Floresta Amazônica, meu amigo. Nunca ouviu falar?”

Depois de algum tempo, finalmente chegam a Altamira. Lá, desapontados porque, além da televisão que já chegou aos rincões amazônicos, nada do que o caminhoneiro disse é verdade. Em vez do eldorado prometido, encontram uma cidade desorganizada, bois circulando nas ruas, muito barro e lama, gente vinda de todo lugar. Uma confusão dos diabos.

Meio desnorteado, Lorde Cigano, de diferente, encontra um agenciador de empregados (Marcos Vinícius), ele também um elemento a serviço do grande capital, encarregado de recrutar trabalhadores para um grande empreendimento estrangeiro de exploração, uma fábrica de papel. O empreendimento realmente existiu com o nome genérico de Projeto Jari, do bilionário estadunidense Daniel K. Ludwig.

“Isso é uma moderníssima fábrica de papel, a maior do mundo, trazida do Japão até aqui inteirinha, pelo mar. … Coisa de gringo, bicho! Paga bem e em dia. Luxo e conforto…” 


Propagandeia. O cacique e sua família se mostram então interessados, pois é a chance de viajarem de avião. Ao interesse do índio, o agenciador, dirige-se a seu assistente:

“Atende esse aí, Moreno. Índio é mais barato.”

Diante disso, só resta à trupe contar com o talento do fabuloso Andorinha, o homem mais forte do mundo, até então invencível. Mas desta vez encontrou um mais forte e perdem tudo, inclusive o caminhão. Andorinha, julgando-se culpado pela ruína do grupo, vai embora. A presença do negrão na história não é mais necessária; não há mais caminhão para guiar, nem equipamentos para carregar, nem fogo para engolir, nada mais para ele fazer.

Extinta a Caravana Rolidei, falidos, somente resta a eles Salomé, para, prostituindo-se mais uma vez, lhes dar o sustento e o necessário para que possam recuperar-se do revés noutro lugar. O destino escolhido é Belém, uma cidade grande, onde, durante algum tempo Salomé continua a se “virar”. Dasdô oferece-se prostituir-se também, mas, na hora agá, numa crise de ciúme por amor e machismo, Ciço não consente.

Nas cenas em Belém, é interessante o ambiente do bordel em que aparece um cantor interpretando uma música em inglês (Walter Bandeira), enquanto as pessoas dançam freneticamente. Há também o diálogo entre Lorde Cigano e um contrabandista de minérios. A exploração do homem (prostituição), a apropriação cultural, a exploração desordenada da riquezas naturais, que se vão, deixando em troca somente a miséria.

Salomé e Lorde Cigano ainda ficam em Belém por algum tempo. Ela se “virando”, ele metido num negócio de minérios em sociedade com o tal contrabandista. Enquanto isso, Ciço, Dasdô e a pequena Altamira partem para tentar a sorte em Brasília.

“Hum milhão de habitantes, mais de um milhão de habitantes. Cabe mais alguém? Não cabe, e no entanto continua a chegar gente como vocês… Agora nós, da assistência social, nós cuidamos de vocês, nós abrigamos toda família. Bem. Não aqui, no centro da cidade”

Peça publicitária do filme, em inglês (fonte: Google)

Diz a assistente social (Marieta Severo) à família de migrantes, enquanto mostram cenas de Brasília, no Plano Piloto. São deixados na periferia, uma rua com esgoto a céu aberto, crianças brincando de bola, e casebres improvisados. Mas lá, passados alguns anos, a família de sertanejos nordestinos adapta-se ao meio. Não abandonando suas origens culturais, porém, logram viver dignamente com o necessário para sua sobrevivência.

Bye Bye Brasil, 1979

Bye Bye, Brasil do passado, viva o Brasil do progresso! No entanto, a vida continua igual. Pouco ou nada mudou para a maioria de nossa gente nesses quarenta anos. Rico Brasil, pobre povo brasileiro. Apesar disso, Bye Bye Brasil continua até hoje o melhor filme já produzido no país.

L.s.N.S.J.C.!