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O PRIMEIRO sequestro de avião!

... Continuação da narrativa postada em 12jul2020.

“Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí / Queimando pestanas organizando suas batalhas / Os guerrilheiros nas alcovas / Preparando na surdina suas mortalhas / A cada conflito mais escombros… Isso tudo acontecendo / E eu aqui na praça / Dando milho aos pombos”. Zé Geraldo

MAS — como dizia Drummond — tinha uma pedra no meio do caminho. Em outras palavras, a lei de Eddie Murphy, que um dia declarou: se alguma coisa tiver que dar errado, dará e no pior momento possível. Nessa sequência novelesca pela disputa do poder, vamos às pedras que estavam no caminho. Em 5 de agosto de 1954, o susto teria produzido o efeito esperado em Carlos Lacerda se a bala que Alcino, o pistoleiro amador, não tivesse atingido Vaz, o major da FAB, que se metera na frente do jornalista. Vaz pagou com a própria vida pelo fato de estar na hora errada, no local errado e em companhia errada. Sua morte causa comoção e Lacerda aparece com o pé engessado, embora não dê sua arma para perícia. A direita brasileira vem muito a lucrar com o corpo de um militar morto nessa circunstância especial pois com isso consegue pôr fim à Era Vargas. Outra pedra: no dia 1º de novembro de 1955, ocasião das cerimônias fúnebres em honra ao general Canrobert Pereira da Costa, o discurso inoportuno do coronel Jurandir de Bizarria Mamede alerta o ministro da Guerra, general Henrique Lott, de que há em curso uma conspiração a fim de não permitir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito em 3 de outubro último ao cargo de presidente da República. Mais uma pedra: na chamada Revolta de Jacareacanga, liderada pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso, o movimento não obteve a massiva adesão que se esperava devido, segundo experientes analistas, ao fato de que seus planejadores terem sido muito discretos ao não alertarem os potenciais rebeldes a aderirem à causa. Quando potenciais revoltosos tomam conhecimento das ações de Veloso e Lameirão, por meio da imprensa, já não se encontram em estado de ânimo suficiente para uma empreitada de tal vulto e risco. Ademais, neste caso, o coronel, incumbido de, a partir da Base Aérea de Belém, comandar as ações, é preso mal põe os pés em Val-de-Cães. Os legalistas já estavam ariscos.

No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / Tinha uma pedra / No meio do caminho tinha uma pedra. Carlos Drummond de Andrade (imagem: Internet)

E agora? Qual a pedra que estaria no meio do caminho dos rebeldes?

Desembarcados os passageiros do Constellation, eles são reunidos na minguada estação de passageiros de Aragarças. Antes, desde as sete da manhã, já se encontram lá os sete oficiais que tinham roubado os três C-47 do Galeão — Burnier, Veloso, Lebre, Baratta, Gerseh, Mendes e Tarcísio. O grupo de Belo Horizonte, que, não conseguindo roubar o T-6 da FAB, acabaram decolando com um Beechcraft de uma empresa particular — Mascarenhas, Leuzinger e o advogado Luís Mendes de Morais — só chegam ao lugarejo já por quase o meio-dia, porque, na pressa nem notaram que havia pouco combustível. Com isso, têm que fazer uma escala em Pirapora, Minas. Antes disso, desavisado, pousa para reabastecer em Aragarças um Beechcraft da FAB procedente da Base Aérea de Campo Grande, cujo destino seria Belém. Seus tripulantes — tenentes Edsen e Castelo Branco, da FAB, e o passageiro, tenente Quinn, do Exército — não concordam em aderir à “revolução” e, por isso, recebem voz de prisão sendo a aeronave incorporada ao patrimônio dos rebeldes, que agora detém o controle de seis aviões: os três C-47 do Galeão (matrículas 2025, 2060 e 2063), o Beechcraft civil de BH, o quadrimotor Constellation da Panair e este último avião. Logo após esse fato, ainda de manhã, Burnier e Mascarenhas, depois de reunidos a fim de decidirem as ações imediatas, vão de caminhão para Xavantina, a cidade mais próxima, já do outro lado do rio, em Mato Grosso. Chegando lá, tomam, em nome da “revolução”, a cidade e o destacamento local conseguindo, entre a guarnição militar e funcionários, mais adesões, além de, naturalmente, mais combustível e outros materiais julgados úteis. Regressam ao QG à tarde.

João Paulo Moreira Burnier, líder da revolução que não aconteceu (imagem: Internet).

Já experiente em situações como essa, Veloso reúne passageiros e tripulação recém-chegados e anuncia curto e grosso em voz alta: “Estamos na revolução e os senhores estão presos. Serão encaminhados ao hotel local”. O oficial, por ser uma figura já conhecida da imprensa, Campanella Neto, equivocadamente, atribui a Veloso a liderança da rebelião, em vez de Burnier, que coordena outras atividades. Na Revolta de Jacareacanga, a única vítima foi Cazuza, que morreu sem saber a causa por que lutava. Agora, nesta, a única vítima já chegou morta. “Eu quero que vocês e essa tal revolução vão pro raio que os parta, seus filhos de puta!”. Diante da perplexidade inicial de Veloso, alguém lhe sopra no ouvido. O autor do impropério é o Sr. Farry, o indignado viúvo da senhora Regina Coely, cujo caixão está alojado no bagageiro do Constellation aguardando sepultamento a ocorrer em Belém, onde se encontram suas raízes familiares. O coitado, não sem motivo, está abaladíssimo, e, entre lágrimas e xingamentos, não se conforma com o tratamento indigno a que aqueles homens, em nome de uma tal revolução, dispensam à defunta e a ele próprio, além de causarem largo prejuízo emocional aos parentes e amigos que aguardam o ente querido na Capital Paraense. Regina, a falecida esposa, nem mesmo depois de morta pode descansar em paz?!. O corpo está embalsamado mas a funerária do Rio garante a conservação por apenas 48 horas. E agora, o que fazer? Na pequena Aragarças não há serviço de frigorífico adequado para conservação de cadáver.

Essa foi uma das pedras no caminho dos dublês de revolucionários. Antes mesmo da chegada das tropas enviadas pelo marechal Henrique Lott e comandadas pelo tenente-coronel França, os rebeldes já têm sofrido a primeira derrota moral. Mas a existência de um cadáver não é o único problema grave. Um pouco afastada do grupo, sentada num banco de madeira do acanhado salão de passageiros, abaladíssima emocionalmente está a senhora Jaísa Lott, jovem viúva do tenente-aviador Lott, sobrinho do ministro da Guerra, morto em acidente aeronáutico ocorrido há quinze dias em Belém. A viúva, tendo ido a Belém para os funerais do esposo, lá deixou pertences e os filhos, e agora estava retornando para trazê-los de volta.

Logo mais tarde, um pouco mais calmo, o viúvo aceita uma solução alternativa.

Campanella, no hotel-fazenda onde ele, os demais passageiros e alguns membros da tripulação, estão alojados, circula para lá e para cá em volta do prédio, organizando mentalmente as ideias de tudo que ora vivencia. Logo constata que nos limites da cidade há duas pontes: uma sobre o rio das Garças e outra sobre o rio Araguaia, ambas ligando Aragarças a Barra do Garças (Mato Grosso). É uma cidade mais populosa; logo, há uma agência de correios e telégrafos. Precisa ir até lá para passar telegramas a fim de transmitir, em absoluta primeira mão, as agitadas novidades políticas que está a testemunhar e ainda de relevância maior que a construção da estrada Belém–Brasília. Sem muita vigilância, resolve ir a pé e, havendo um homem de metralhadora vigiando a ponte, di-lhe que é jornalista e, diante da cara de paisagem do homem, apresenta-lhe a carteira de jornalista acompanhada de quinhentos cruzeiros; na segunda ponte, a sobre o Araguaia, novamente molha a mão do outro guarda. Passa três mais relevantes telegramas de sua carreira jornalística e regressa. Já no hotel, nota que o sargento que cuidava da vigilância agora conversa descontraidamente com os passageiros, tendo ele deixado displicentemente a metralhadora sobre um banco. Enquanto isso, surge um jipe do qual desembarcam o engenheiro e piloto civil Charles Herba, imponentemente fardado de coronel da FAB, e o advogado Luís Mendes de Moraes Neto. Perguntam sobre as pessoas mais importantes entre os passageiros. Levam com eles, como reféns, o senador maranhense Remy Archer, então presidente do Banco da Amazônia, o seu assessor de imprensa, Paulo Oliveira, e um engenheiro (aqui não identificado). Ficam os três com os rebeldes no QG da rebelião, no aeroporto de Aragarças.

Pouco depois das vinte horas, o jipe traz de volta o jornalista e o engenheiro. O senador, porém, é mantido no aeroporto como refém. Mais tarde, esse mesmo jipe vem apanhar o copiloto e o radiotelegrafista do Constellation, pois ambos estão no hotel junto com os passageiros, enquanto o comandante e o mecânico já eram mantidos presos no interior do próprio avião. Veloso — contam o assessor de imprensa e o engenheiro — constantemente fazia o gesto nervoso de consultar o relógio e apontar para o céu, como se estivesse esperando as adesões prometidas e que nunca chegaram.

Campanella Neto registrou a prisão dos revoltosos (imagem: A História bem na Foto, blog).

Aproximadamente, às quatro da madrugada de 4 de dezembro o Constellation e mais quatro aviões levantam voo. O quadrimotor da Panair, com Charles Herba e Éber Teixeira Pinto, tem como destino Buenos Aires, com direito a quatro tripulantes do quadrimotor e mais o senador Remy Archer, como escudo dos dois revoltosos. Os demais, ocupantes de dois C-47 e dos dois Beechcraft, seguirão para Cachimbo, Santarém e Jacareacanga. Cientes da iminente chegada da tropa de paraquedistas, fogem os valentes rebeldes. Ou recuam, para usar um velho eufemismo de guerra. Retirada estratégica é outro termo.

Continua…

L.s.N.S.J.C.!

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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 11jul2020.

Em Val-de-Cães, Belém, uma pequena multidão se aglomera nervosa defronte ao guichê da Panair do Brasil. Impacientes, cobram informações sobre o voo noturno, vindo do Rio de Janeiro. São sete horas da manhã de 3 de dezembro, uma sexta-feira, e o avião, que deveria ter chegado por volta das seis horas, até agora nada. Teria acontecido o pior? Sem muito o que fazer, mas tentando acalmar os familiares que estão lá à espera de amigos e parentes, os funcionários da companhia fazem insistentes contatos telefônicos com os escritórios da empresa no Rio. Dentre as famílias que se acotovelam no local, há uma em estado de profundo pesar. Muito abalados, do choro e da consternação inicial, o estado de ânimo dos parentes da senhora Regina Coeli Farry evolui para a preocupação e o desespero, comungando dos mesmos sentimentos da pequena multidão presente.

PARA fazer acontecer o terceiro movimento rebelde contra JK, o segundo em pleno governo, Burnier, em conjunto com outros conspiradores militares e civis, inclui um major-aviador entre os passageiros de um Constellation da Panair do Brasil,1 que faria um voo noturno do Rio de Janeiro para Belém, Pará. Nessa época, o oficial da FAB tinha, por lei, permissão para voar na aviação comercial como fiscal, podendo inclusive entrar na cabine de quaisquer aviões civis. O major-aviador Éber Teixeira Pinto, escolhido para a missão, embarca em companhia do piloto civil e engenheiro Charles Herba no quadrimotor Constellation como “fiscal de rota”, apresentando ao guichê da companhia e ao comandante da aeronave uma permissão falsificada em que consta o carimbo do Clube de Aeronáutica (local onde os conspiradores costumam reunir-se), e não do Ministério da Aeronáutica, e a assinatura do brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da Terceira Zona Aérea, também falsa.

Constellation, o quadrimotor da Pan Air do Brasil, que fazia a rota Rio — Belém nos anos de 1950, foi vítima do primeiro sequestro da aviação comercial do Mundo. Era o Brasil fazendo escola! (imagem: Carta Maior, via internet).

Burnier e Veloso esperam contar com a adesão de mais trezentos cidadãos de bem, entre militares e civis em diversas cidades do país, para a “Revolta de Aragarças”. Entretanto, apenas doze homens topam participar da aventura: oito oficiais da FAB, dois oficiais do Exército e dois civis pegam em armas contra o governo de JK na noite de 2 de dezembro de 1959. São eles: Tenentes-coronéis Burnier, Veloso e Lebre (Geraldo Labarthe Lebre), o major-aviador Éber Teixeira Pinto, os capitães-aviadores Gerseh Nerval Barbosa, Próspero Punaro Baratta Neto e Washington Amud Mascarenhas e o tenente-aviador Leuzinger Marques Lima; do Exército, o coronel Luís Mendes da Silva e o capitão Tarcísio Nunes Ferreira; e os civis: o engenheiro e aviador Charles Herba e o advogado Luís Mendes de Morais. Esses meninos estão prestes a realizar três ações de guerra revolucionária no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e nos céus da Bahia, convergindo ao final para Aragarças, Goiás, que será o quartel-general da “revolução”. Utilizarão seis aviões: três C-47, dois Beechcraft (um civil e um militar) e o Constellation da Panair, sob sequestro.

Na madrugada de 3 de dezembro, as sentinelas da Base Aérea do Galeão em nada desconfiam quando passa pelo Portão da Guarda um caminhão militar dirigido pelo capitão Baratta e com o tenente-coronel Lebre a seu lado. Na carroceria do veículo encontra-se a carga de armas, munições, combustíveis, víveres (alimentos) e mais cinco oficiais rebeldes, que se escondem embaixo da lona impermeável. Uma vez na pista, os sete oficiais se dividem em três grupos, cada um deles roubando um C-47, que se encontram prontos para o combate desde véspera, devidamente abastecidos, com as baterias carregadas e plano de voo fajuto prontinho dando como missão instrução noturna de instrumentos. Decolam de imediato para a cidadezinha de Aragarças, no Brasil Central. Antes, haviam planejado utilizar também um avião de combate sediado na Base Aérea de Santa Cruz com a finalidade de bombardear os palácios do Catete e das Laranjeiras, respectivamente, local de trabalho e de residência do presidente e sua família. Na última hora, uma autoridade naval mais sensata, a quem é dado conhecer o plano subversivo, dissuade Burnier da terrível intenção de eliminar Juscelino e sua família. A autoridade promete em troca uma grande adesão das forças navais, o que, na hora agá, não ocorreu.

Dentre o que é planejado pelos conspiradores está a elaboração de uma carta-manifesto que, na noite de 2 de dezembro, deverá ser entregue ao jornalista e deputado Carlos Lacerda, acompanhada de um convite.

Nessa noite de quinta-feira, Carlos Lacerda encontra-se em seu apartamento no bairro do Flamengo, Rio. Morava no número 180 da rua Tonelero, Copacabana, até final de 1955, pouco depois da última conspiração em que tinha se envolvido na vã tentativa de um golpe militar para evitar que Juscelino tomasse posse. Malogrado o movimento e temendo ser preso, teve que se refugiar no cruzador Almirante Tamandaré, em companhia de outros conspiradores. Logo em seguida, lembrando do ocorrido nas primeiras horas de 5 de agosto de 1955, quando, graças a intervenção do major Vaz, não perde a vida, decide sair do país. Eleito deputado federal no ano anterior, e assumido a legislatura em 15 de março de 1955, pede licença à Câmara dos Deputados deixando o suplente em seu lugar. Vai para Cuba e logo em seguida para os Estados Unidos da América onde, para sobreviver, dedica-se a traduzir filmes. Não se adaptando à vida no exterior, e considerando que JK anistiara em março de 1956 todos os rebeldes, resolve voltar ao país, reassumindo o mandato parlamentar. Passa a residir no Flamengo, mesmo prédio em que mora o também conservador Eduardo Gomes.

Lacerda está agora próximo à mesa de datilografia matutando sobre o que escrever para a Tribuna da Imprensa, cuja edição de 3 de dezembro ainda está em aberto. Enquanto isso, dona Letícia Abruzzini, sua dedicada esposa e excelente cozinheira, encontra-se preparando uma saborosa lasanha. É nesse momento que toca a campainha. Não está esperando ninguém, mas um homem público como ele é sempre bastante requisitado e, por isso, não estranha o fato. O porteiro, que geralmente anuncia por telefone os visitantes, desta vez não telefona. Na verdade, mal os dois visitantes se identificam como oficiais da Aeronáutica, o porteiro, já acostumado, os interrompe franqueando-lhes de imediato o ingresso sem delongas. Se são da Aeronáutica, é claro que são pessoas já esperadas pelo Brigadeiro. Na verdade, a visita é para Carlos Lacerda, e não para o brigadeiro Eduardo Gomes.

Os dois homens, que estão à paisana, se identificam. Lacerda, em seu livro de memórias políticas, declara que jamais dirá o nome desse emissário (ele fala em apenas um homem). No entanto, o insuspeito (neste caso) Burnier dá nome aos bois: o coronel-aviador Gustavo Borges e o capitão-aviador José Chaves Lameirão, que acompanha o oficial superior, o mesmo que participou da Revolta de Jacareacanga há mais de três anos passados. Após os cumprimentos de praxe, Borges lhe estende uma folha de papel. É a chamada carta-manifesto, documento em que os conspiradores declaram as razões para a “revolta”. Uma delas e mais imediata é que Jânio da Silva Quadros, ex-governador de São Paulo, dias antes havia anunciado sua desistência à candidatura ao cargo de presidente da República para as eleições de outubro de 1960, ano seguinte. Ora, todas as esperanças da direita política brasileira estão concentradas no nome do ex-governador paulista e agora deputado federal pelo Paraná. O homem é imbatível nas urnas e agora nos apronta uma dessas?! Lacerda lê o manifesto com atenção, deixando transparecer a sua vontade em aderir de pronto à causa. Precisa decidir-se o quanto antes pois no Galeão os aviões estão prontos e decolarão agora ainda pela madrugada, ou seja, em poucas horas. “Preciso consultar alguém”, diz o jornalista levantando-se e se dirigindo à cozinha.

A intenção é conseguir a adesão de Lacerda e também de outros figurões. Uma adesão de peso, como a do proeminente jornalista, seria um feito capaz de balançar o país. Os quartéis aderirão ao movimento e os jornais apoiarão a causa, provocando um efeito cascata — pensam os conspiradores. Como consequência, haverá um golpe militar em que os milicos tomarão conta de tudo. Juscelino será preso e condenado, saindo definitivamente do cenário político brasileiro.

“Deixa de ser louco, Carlos!. Se quiseres partir para essa aventura maluca, que o faças, mas fica sabendo que estás procurando a morte num movimento inócuo, que não dará em nada, como não deu em nada os outros”, sentencia dona Letícia. “Já escapaste da morte por duas vezes. Sossega, Leão!”. Lacerda despede-os com a negativa acompanhando-os até a porta. Mal a porta do elevador se fecha, o jornalista pega o telefone e disca o número do brigadeiro Eduardo Gomes. Nada diz sobre o assunto nem dos recém-visitantes, apenas pede para visitá-lo agora.

Gomes há muito mantém a fama de opositor sereno ao mesmo tempo de eterno revolucionário. De um tempo para cá, porém, comporta-se como aquele zagueiro que vai ao ataque só na boa. Mal lê, entre muxoxos, o documento e balança negativamente a cabeça. “Esses caras são uns tolos!”, deixa escapar. Sendo daqueles que só vai na boa, é de sua índole aguardar os acontecimentos, para, dando tudo certo, colher os louros da vitória — afinal, é a maior liderança da Aeronáutica; saindo errado, seu nome não aparecerá, mantendo assim a fama de homem sereno e correto e de comandante impoluto. Raciocina que o instável Jânio logo mudará de ideia mantendo a candidatura. Ele está certo. Jânio, conforme as doses de uísque que bebe, muda de ideia como quem troca de camisa. Trata-se, porém, de um dos políticos mais inteligentes e calculistas do século. Não só inteligente, como ambicioso, não mencionando uma palavra sem um propósito. Como prefeito de São Paulo, Jânio vestia-se de mendigo indo de surpresa para as feiras e mercados da cidade a fim de vistoriar a qualidade dos produtos comercializados e os preços praticados. Claro que sempre havia fotógrafos e jornalistas a acompanhá-lo. Gomes, com a experiência de quem foi duas vezes candidato, calcula que a desistência anunciada do ex-governador de São Paulo é apenas para inglês ver, um jogo de cena provavelmente com o fim de fortalecer os apoios deixando mais sólida financeiramente a campanha presidencial. O Brigadeiro pega o telefone e disca um número. Dá ciência ao interlocutor, sem mencionar detalhes, de que há em curso um plano conspiratório. Faz assim calculando que, enquanto o marechal Lott estiver à frente do Exército, nenhum movimento sedicioso tem como prosperar, além de lhe proporcionar um álibi. Além do mais, sabe que dessa vez a UDN finalmente chegará ao poder por meio de Jânio, mas um movimento sedicioso poderá pôr tudo a perder.

Lacerda, em seu livro de memórias, declara que teve ímpetos de aderir à causa, não fosse o conselho de dona Letícia e a decisão de Eduardo Gomes, que, além de não aprovar a aventura, ainda dá conhecimento do caso a um deputado do governo, com quem mantinha relações pessoais. Já Burnier, em livro, declara que não era a intenção convidar Lacerda para pegar em armas. Os oficiais visitantes da noite de 2 de dezembro não foram com a intenção de convidá-lo, mas de simplesmente entregar a carta-manifesto para que o deputado a lesse em plenário e também, como jornalista, a publicasse em seu jornal. Isso daria impacto e certamente faria angariar significativas adesões e apoio à rebelião.

O jornalista e político Carlos Frederico Werneck de Lacerda, que recebeu esse nome em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels, destacou-se com um dos maiores políticos da extrema direita brasileira (imagem: sentinela lacerdista)

O jornalista Campanella Netto, da revista O Mundo Ilustrado, está na lista de passageiros do Constellation da Panair. Seu destino é Belém, onde deverá fazer um trabalho sobre a rodovia Belém — Brasília, ora em construção. Sai do Rio às 23 horas, ele e mais 34 passageiros vivos. O avião ganha altura e segue tranquilamente rumo ao Norte brasileiro. Termina logo a madrugada e chegam sobre o avião os efeitos dos primeiros e tímidos raios solares. Campanella, após consultar o relógio de pulso, pergunta ao passageiro do lado que horas deverão pousar no destino; este, um paraense que já fez várias vezes esse voo, di-lhe que, o tempo estando bom como agora, aproximadamente às seis horas a aeronave pousará em Val-de-Cães. “Há algo errado, então”, diz o jornalista, “porque os raios de sol não estão vindo do nosso lado direito”. Chamando o comissário mais próximo para fazer a observação, percebe que o rapaz lhe dá um sorriso esquisito dizendo que está tudo bem. Era cinco e meia da manhã de sexta-feira.

No aeroporto da Pampulha, Belo Horizonte, o major-aviador Mascarenhas, o tenente-aviador Leuzinger e o advogado Luís Mendes de Moraes roubam um Beechcraft da empresa de mineração Samitre do Brasil e partem para Aragarças. A intenção verdadeira dos golpistas era voarem com um T-6 abarrotado de armamentos e munições. No entanto, não conseguem alcançar as baterias que foram deixadas fora do alcance. Para cumprirem a palavra dada, entram na aeronave particular que está lá dando sopa, Mascarenhas gira o contato e dá partida no aparelho. Em vez das metralhadoras de chão e munições, levam caixas de maçãs para Aragarças.

Enquanto isso, comissários e comissárias de serviço no Constellation, de nada suspeitam quando Éber, fardado, levanta-se para visitar a cabine de comando. Ele e Charles Herba entram para a História como os primeiros sequestradores de um avião comercial no Mundo. Brasil fazendo escola! Os rebeldes passam pelo radiotelegrafista Pedro de Azevedo e pelo engenheiro de voo Jean-Louis Bourdon, parando atrás do assento do comandante Mário Borges. De soslaio, o copiloto Alberto Cavedagne espanta-se com a pistola de calibre 45mm engatilhada na nuca do comandante. Nesse momento, o avião sobrevoa o município de Barreiras, Bahia, em direção ao norte. Os sequestradores mandam virar à esquerda, direção ao oeste. O comandante adverte que as condições precárias da pista de Aragarças não permitem receber um avião de grande porte, com risco para o Constellation e para a vida dos passageiros. “Não quero saber! Vamos pousar em Aragarças, custe o que custar!”, responde o major. Ordena a Pedro de Azevedo, o radiotelegrafista de voo, que continue enviando mensagens normalmente como se o avião continuasse na rota Rio — Belém.

Veloso, anistiado por Juscelino, novamente metido numa conspiração para derrubar o governo de JK, desta vez secundando o explosivo Burnier (imagem: Internet)

Com o sequestro de um avião de passageiros como o Constellation, além de manter o governo em permanente estado de tensão, os rebeldes têm agora um valioso apoio logístico. Com sua fabulosa autonomia, o quadrimotor é capaz de alcançar qualquer local do território brasileiro e também países vizinhos, em hipótese de fuga.

Observando o solo, lá em baixo os passageiros só vislumbram florestas, sem grandes pontos de referência. O comissário aproxima-se para explicar aos preocupados passageiros: “O aeroporto de Belém está interditado e o avião está voltando para descer em Barreiras, em torno de trinta minutos”. Campanella Neto não se dá por satisfeito. “Xii! Tem algo de podre no ar”. Ora, se o avião estivesse realmente voltando para o sul, por que diabos os raios solares não estão incidindo sobre o lado esquerdo da aeronave? Passam-se os trinta minutos e nada. Todos reclamam explicações por parte do comandante, enquanto os comissários, sorrindo forçadamente, tentam acalmar os passageiros. Às 8h15min, acendem os letreiros com recomendações de “não fumar” e de “apertar os cintos”, sinalizando de o avião está em procedimento de pouso. Alguns minutos depois, o avião pousa num modesto aeródromo de pista de grama. Ninguém compreende quando o comissário traz a informação: estamos em Aragarças. O jornalista atrasa-se um pouco para descer, ficando sozinho com um comissário, que lhe revela apavorado que “um major da FAB obrigou com uma arma o comandante a mudar a rota”. Campanella, que havia deixado as máquinas fotográficas a bordo, volta correndo para apanhá-las. Percebe aí um furo de reportagem de proporções gigantescas. É o último passageiro a desembarcar e, como não havia escadas para aquele tipo de avião, os rebeldes fazem encostar um caminhão.

Continua…

  1. Constellation: Avião quadrimotor de fabricação norte-americana pela Lookheed no período de 1943 a 1958, muito utilizado pela aviação comercial e como aeronave militar; Panair do Brasil foi uma companhia aérea pioneira na aviação comercial brasileira, sendo a principal empresa aérea de 1930 a 1950, perdendo mercado nessa década em razão do crescimento da Varig.

L.s.N.S.J.C.!

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O PRIMEIRO sequestro de avião!

… Continuação da narrativa postada em 08jul2020.

MENINO enxerido esse coronel Mamede! Não estava nem escalado para falar, quando, de surpresa, pede a palavra para elogiar as qualidades do morto, destacando seu desempenho antigetulista, sendo o de cujus um dos expoentes de extrema-direita brasileira com larga influência nas forças armadas. Acresceu à sua fala severas críticas à eleição de Juscelino, que venceu por estreita margem de votos o general Juarez Távora, candidato da UDN1. Mamede deixa evidente — e só cego não vê — que se encontra em pleno curso uma espúria manobra nos bastidores cujo objetivo é não permitir a posse de JK, dando poder a um governo militar.

O discurso do coronel Mamede nas cerimônias fúnebres do general Canrobert, aparentemente fortuito, chama muito a atenção do mineiro Henrique Teixeira Lott, alertando-o para o movimento conspiratório que vem sendo alimentado nos gabinetes do Rio de Janeiro, ao arrepio da legalidade constitucional. Primeiro, o teor do discurso do coronel Mamede, um flagrante desrespeito à presença do ministro da Guerra, que, em reação só não interrompe o orador por seguir as normas protocolares e ainda por respeito ao falecido cujo corpo estava prestes a descer à terra. Segundo, porque, encerrada a fala, Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados (que dias depois viria a substituir Café Filho, com problemas de saúde — há controvérsias) apressa-se a cumprimentar o coronel Mamede apertando-lhe calorosamente a mão, em sinal de evidente aprovação. Humm! Debaixo desse angu tem caroço — percebe Lott.

O general Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott, ministro da Guerra, esmaga em 11 de novembro de 1955, o movimento conspiratório que estava em andamento a fim de não permitir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira ao cargo de presidente da República, para o qual havia sido eleito em 3 de outubro de 1955 com apenas 36,5% dos votos válidos (imagem: Internet).

Até então, Lott, sempre correto e leal, não dava ouvidos a rumores que circulavam à boca miúda dando conta de que estava em andamento um movimento destinado a não dar posse a Juscelino, sob a fragílima alegação de que ele não fora eleito com a maioria dos votos válidos. O teor do discurso do coronel e, em seguida, a aprovação do também mineiro Carlos Luz, porém, davam agora a certeza de que o ministro da Guerra precisava. Ademais, em 10 de novembro, pedindo ele audiência a Luz, que ocupa há dois dias a cadeira de presidente da República, este lhe dá um chá-de-cadeira de quase duas horas. Finalmente recebido, Luz não o atende em relação à punição disciplinar que o general pleiteia contra Mamede. O coronel encontra-se servindo na Escola Superior de Guerra, portanto, fora da subordinação ao ministro da Guerra, razão pela qual o ministro pede a providência ao presidente. Além da queda, o coice. Além de não atender o ministro em relação ao coronel Mamede, anuncia a sua demissão. É 10 de novembro, e ele deve passar a pasta para Fiúza de Castro, general de pijama, ainda nesse dia. É muita humilhação! Tanto que, não fosse demitido, ele próprio pediria sua exoneração.

Refletindo com mais serenidade e aconselhado pelo general Denys, decide, porém, não passar o cargo ao apressado Fiúza, a quem pede tempo para esvaziar as gavetas. “Vamos deixar essa formalidade para amanhã”. Não prega os olhos nessa noite. A protelação de Lott quanto à passagem de cargo levanta desconfianças no interino Carlos Luz, que, visando esclarecimentos, às quatro horas da manhã de 11 de novembro telefona para o gabinete do general, que, todavia, recusa-se a atender. Nessa hora, os quartéis do Rio de Janeiro e de outras grandes capitais de estado já estão agitados com homens armados, explosivos e tanques, que logo estarão circulando pelas ruas. Os prédios dos ministérios da Aeronáutica e da Marinha são cercados; O acesso à Base Aérea do Galeão é bloqueado.

Os aviadores — com atuação destacada do major-aviador Burnier — reagem. Ao menos, tentam reagir. Põem no ar 22 C47 Douglas, cuja autonomia é de doze horas, além de reforçarem a defesa interna das bases aéreas sediadas no Rio, visando com isso impedir a ocupação por parte das tropas do Exército, que se acercam destas com numerosas e bem treinadas tropas de infantaria, muitos veículos blindados e grosso armamento e explosivos. Depois de muitos quiproquós, as aeronaves abandonam o Rio voando para São Paulo, visando com isso receberem orientações de seu líder, até nesse momento ministro da Aeronáutica, o brigadeiro Eduardo Gomes, que havia se refugiado em Santos. A ideia inicial é transferir o grosso da Força Aérea do Rio para São Paulo, estado que é governado pelo temperamental Jânio Quadros. Todavia, o matogrossense nem dá as caras, numa mostra de que a direita política brasileira tenta escorar-se numa estaca podre — como, aliás, mais tarde ficará comprovado.

Ao final, tendo Lott e Denys escancarado à opinião pública a conspiração em curso, os parlamentares José Maria Alkmim, Ovídeo de Abreu e Tancredo Neves articulam para que o Congresso declare o afastamento de Carlos Luz por tramar contra a Constituição da República. Café Filho, repentinamente recuperado das coronárias, tenta regressar ao cargo. No entanto, as fortes suspeitas de que ele esteja mentindo quanto à doença cardíaca, a fim de abrir caminho ao golpe, levam o Congresso a afastá-lo também, declarando seu impedimento. Ainda em 11 de novembro, o catarinense Nereu Ramos, vice-presidente do Senado e o próximo na lista sucessória, assume interinamente a Presidência com a missão de garantir a posse de Juscelino no dia 31 de janeiro de 1956. Ramos nomeia para a Aeronáutica o brigadeiro Vasco Alves Seco em lugar do conspirador Eduardo Gomes. Carlos Lacerda asila-se na Cuba de Fulgêncio Batista, que ainda é área de lazer dos estadunidenses ricos, para, somente depois, migrar para o país do Tio Sam, onde também não se adaptou, partindo depois para Portugal.

Mas as nuvens permanecem fortemente carregadas.

Inconformados com o episódio, onze dias depois, num sábado de carnaval, oficiais da FAB, sob a liderança do major-aviador Haroldo Coimbra Velloso, rebelam-se contra Juscelino e seu ministro da Guerra, o general Lott, no episódio histórico que ficará conhecido como “Revolta de Jacareacanga“, já fartamente reportado aqui no BLOGUEdoValentim!. Novamente, Lott, que vem exercendo com mãos de ferro o comando do Exército, consegue debelar a conflagração, para a tranquilidade de JK, que passa a pôr em prática seu plano de governo, cujo lema é “50 anos em cinco”, focando no binômio “Energia e Transportes”. Velloso é preso em 29 de fevereiro e já no dia seguinte, 1º de março de 1956, Juscelino manda ao Congresso projeto de lei anistiando todos os revoltosos. Político hábil, JK sabe que não é possível governar o país sob odioso grau de oposição, como vem ocorrendo até então. Precisa, portanto, de tranquilidade e por isso trata de serenar os ânimos, desarmando psicologicamente seus ferrenhos adversários.

JK, para conseguir tranquilidade para governar, precisava de militares de pulso firme. Já contava com o general Lott, ministro da Guerra, porém ainda não confiava em seu ministro da Aeronáutica (imagem: Internet)

Mas ainda assim os ânimos entre os aviadores não se encontram serenados.

Por não ter conseguido disciplinar seus oficiais e trazê-los à legalidade constitucional, o fraco Alves Seco é demitido em 20 de março de 1956. Para seu lugar, é nomeado o major-brigadeiro Henrique Fleiuss, que, contudo, será exonerado em 30 de julho de 1957, cedendo seu posto a Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco. Fleiuss cai por ter realizado um almoço em homenagem ao coronel João Adil de Oliveira, o homem que presidiu o IPM conhecido como a “República do Galeão“, ou seja, um dos mais ferrenhos antivarguistas da FAB, consequentemente, antijuscelinista. Humm! Um lobo em pele de cordeiro. Diante dessa evidência, que irrita profundamente o presidente JK, não lhe resta outra decisão a não ser demitir Henrique Fleiuss. O próximo da lista é exatamente Mello Maluco.

Mello Maluco ganha a alcunha já no tempo de Escola do Realengo, quando, nos primórdios da aviação brasileira, costumava exibir seus dotes de exímio piloto ao dar voos rasantes na praia para assustar os banhistas. Menino peralta esse Mello! Divertia-se exibindo-se à namorada ao, por várias vezes, dar rasantes no quintal da casa dela, além de executar com o avião outras manobras extravagantes e perigosas, pondo em polvorosa a pacata população do Rio de Janeiro das décadas de 1920 e 30. Inobstante, diante das frouxas regras de aviação de então, não sofria punições por isso. Sendo ele ótimo piloto, segue sem prejuízos à carreira. Criado o Ministério da Aeronáutica, naturalmente os aviadores do Exército — que era o seu caso — e os da Marinha passam a integrar o corpo de oficiais da Aeronáutica. Malgrado o apelido, a nova força armada facilita a Mello, que já se encontra no posto de tenente-coronel, o acesso aos demais postos seguintes, bastando apenas cumprir interstício e ir dizendo “sim, senhor” e “não, senhor”. É, depois da queda de Fleiuss, o homem que chega a ministro da Aeronáutica, e que — dentro do mínimo — dá tranquilidade a Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Major-brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco, foi o terceiro ministro da Aeronáutica no governo de Juscelino (imagem: Internet).

Fazemos aqui outro parêntesis.

JK sempre foi um político hábil e de grande visão administrativa desde prefeito de Belo Horizonte nos anos de 1940. Sabe que, principalmente nessa época, nenhum presidente consegue governar o país sem o apoio dos militares e dos parlamentares. Quanto ao parlamento, está tranquilo pois seu partido político, o PSD, juntamente com o PTB e outras pequenas agremiações de esquerda, detém a maioria nas duas casas, embora não folgada. Já, quanto às forças armadas, tem como lição o exemplo contraproducente de Getúlio Vargas, quando, desprezando a hierarquia dos quartéis, nomeou um coronel para o mais alto cargo da FAB. Juscelino sabe então que necessita a seu lado de homens de pulso firme, não só para gerir as pastas militares como para manter a ordem nos quartéis, e, por conseguinte, garantir os preceitos constitucionais. Para o Ministério da Guerra, já encontrou o homem certo: Henrique Lott, que, convidado, reluta a aceitar a missão. Mal assume a Presidência, porém, percebe que Alves Seco, o ministro da Aeronáutica que decidira manter, tem vários problemas em relação à sua oficialidade. Os problemas disciplinares ficariam explícitos na “Revolta de Jacareacanga”, quando muitos oficiais se negaram a combater os revoltosos, causando um desgaste desnecessário. Na produção da Rede Globo de Televisão “JK” há um episódio em que Juscelino (na pele do ator José Wilker) aborrece-se com Alves Seco. Essas cenas dão clareza ao público de hoje quanto à questão da indisciplina que corroía a Aeronáutica da década de 1950.

JK teve problemas em relação à Aeronáutica, força armada em que reinava a indisciplina. Por isso, ainda em 1956, primeiro ano de seu governo, exonera o brigadeiro Vasco Alves Seco e nomeia para o posto o brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Mello, o Mello Maluco

No final de 1958, Mello viaja para os Estados Unidos da América. JK , por não confiar no zero dois da lista hierárquica, nomeia para ocupar interinamente o cargo de ministro da Aeronáutica não o próximo brigadeiro, como lógico seria, e sim exatamente o agora marechal Henrique Teixeira Lott. O fato vem a desagradar imensamente a oficialidade, da brigadeirada à tenentada, todos com ódio mortal ao oficial-general que, três anos antes, humilhara a Aeronáutica, fazendo o brigadeiro Eduardo Gomes fugir no cruzador Almirante Tamandaré em companhia de Carlos Luz, Carlos Lacerda e do coronel Mamede, o orador desastrado. Era a primeira vez que uma força armada seria comandada por militar de outra força. Uma humilhação. Na cerimônia de posse do general no cargo de ministro da Aeronáutica, a maioria dos brigadeiros recusam-se a comparecer.

Um dos oficiais mais revoltados é o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier. E é exatamente o tenente-coronel Burnier que irá liderar uma — a segunda no mesmo governo — revolta com o fim de derrubar do poder o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Velloso, anistiado e agora tenente-coronel, também está metido nessa escaramuça.

Em 11 de novembro de 1955, o então major Burnier exerce o cargo de chefe do pessoal da Base Aérea do Galeão e também, pelo regulamento de Base Aérea da época, o oficial de segurança e defesa da unidade. Entendido em armamentos e explosivos, arma fortíssima defesa no Galeão, com direito a tripés de metralhadoras ponto cinquenta e granadas. Numa dessas ações, determina ao capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen que atire no “inimigo”. Zanoni, todavia, nega-se a executar a ordem absurda: “Eu não posso disparar contra meus irmãos…”. Diante disso, Burnier retruca: “Seu covarde, está preso! Prendam esse moleque aí em cima!”.

No Palácio do Catete, em 11 de novembro de 1955, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott”. Barão de Itararé

Outro vulto de destaque nesse episódio é a pessoa do major-aviador Renato Goulart Pereira, ajudante de ordens do presidente Juscelino e herói da Segunda Guerra, o mesmo oficial mencionado no vídeo da produção televisiva já por nós citada. Goulart, que na época é piloto líder no Primeiro Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz, recebe ordens para liderar dezoito aviões Gloster Meteor, para deslocá-los a São Paulo, com ordens de bombardear qualquer navio ou unidade aérea que se declare hostil aos golpistas. O oficial declara, então, ao brigadeiro golpista: “Farei o deslocamento mas não cumprirei a ordem do bombardeio. Não jogo bombas em brasileiros.”

Vejam como o mundo dá voltas.

Mais tarde, é a vez de Burnier se negar a cumprir ordens. Em 1957, segundo suas próprias palavras, é escalado para pilotar um avião com a missão de transportar dois mil tijolos para Brasília. Nega-se. “Então o sr. será preso”, ao que ele responde: “Podem me punir, é o máximo que conseguirão fazer!”. Burnier comenta indignado: “Agora, vejam vocês, edificar uma cidade levando tijolos de avião! Uma barbaridade!”

Convenhamos. Há algo de errado — de muito errado — num homem que considera normal matar seres humanos, brasileiros como ele, mas se declara indignado ao transportar de avião material de construção. Além do mais, há controvérsias quanto ao declarado por Burnier. Os jornais faziam oposição sistemática ao governo de Juscelino, como aliás já se era de esperar. Publicavam quase que diariamente notícias como essa objetivando queimar o governante diante da opinião pública. Quiçá, o próprio Burnier tenha levado essa “notícia” à imprensa.

Juscelino, em seu livro de memórias, assevera que aeronaves da FAB transportaram no início das obras de Brasília apenas equipamentos básicos como geradores, combustível, materiais de escritório, alimentos, até que as estradas Anápolis — Brasília e Belo Horizonte — Brasília, ora em construção, estivessem abertas e em condições de tráfego. No entanto, uma mentira dita mil vezes acaba passando por verdade. Alguém falava algo, os jornais publicavam; um parlamentar de oposição se pronunciava, os jornais no dia seguinte reproduziam. Ao cabo de uma semana ou duas, o povo passa a repetir a história sem questionar. E ainda que, de fato, alguma aeronave tenha transportado material básico de construção? Anos antes, Veloso havia trabalhado na construção de alguns aeródromos no interior do Brasil, certamente algum material teve que ser levado para lá de avião. Este humilde escriba, mais tarde, na década de 1980, na ampliação de Cachimbo, viu para lá serem transportados muitos materiais a bordo de aeronaves C-130.

Agora, em final de 1959, Burnier, acompanhado de Veloso e de outros militares e civis, está prestes a liderar a “Revolta de Aragarças”. Dias antes, Jânio Quadros anuncia a retirada de seu nome para concorrer a presidente nas eleições que ocorrerão no ano seguinte, razão política que serve como mote para o movimento sedicioso.

Continua…

Referências:

  1. Sigla de União Democrática Nacional, partido político de extrema-direita da época.

L.s.N.S.J.C.!

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O PRIMEIRO sequestro de avião!

POR INGENUIDADE e também por desconhecimento, sempre tínhamos os casos de indisciplinas, rebeldias e transgressões de milicos como coisa das camadas mais subalternas dos quartéis, que, por vezes, revoltadas com o tratamento pouco gentil que a oficialidade lhe costuma dispensar, acabava por chutar o pau da barraca. Isso porque, no quartel, perante os praças (de suboficial para baixo)1, o oficial é tido como um ser superior — não só nos aspecto hierárquico –, alguém acima do bem e do mal, um cavalheiro, um lorde, uma espécie de semi-deus. O escriba pensava assim, conforme o senso comum, até termos acesso à ficha individual de um coronel. Digamos que seu nome seja Hermenegildo, porque no caso, como diz o povo, contamos o milagre mas não o santo. Sendo espectador privilegiado, por força das nossas funções administrativas, vimos com estes olhos que a terra há de comer que a ficha desse santo homem era mais suja que a do soldado mais alterado de uma base aérea, tais eram a variedade e quantidade de punições disciplinares que seus superiores lhe haviam imposto. Tanto assim que à principal foram grampeadas mais duas fichas complementares para, no campo de punições disciplinares, serem assinaladas todas as sanções que a quarta parte dos boletins confidenciais haviam registrado. Não era pouca caca, era um penico cheio.

Pois bem.

Em busca de compreendermos o terreno em que temerariamente pisamos por longos trinta anos, vimo-nos pesquisando sobre os agitados anos de 1950, que de dourados nada têm. Descobrimos então que o período é, na realidade, no seio aeronáutico-militar uma colossal balbúrdia (tomando aqui um termo ultimamente bastante falado), um grande fuzuê do caçarolê2. Mas não só nesta força armada, como também na força de mar, estendendo-se a uma parte da oficialidade de terra. Para cada um desses meninos — cujos nomes não omitiremos pois os livros de história já os mencionam sem o menor pudor –, comparativamente ao coronel Hermenegildo, não bastava apenas um penico, mas baldes e baldes, de forma que o oficial superior do grande comando onde servimos pode ser comparado a um pacato e discreto seminarista diante daqueles. O aspecto de nobreza atribuído à oficialidade é, portanto, mera aparência, fachada apenas, e — como dizem as gentes — as aparências enganam.

ANTECEDENTES

Como já escrevemos em postagens anteriores, não se pode definir exatamente quando a maioria, o grosso da oficialidade da Força Aérea Brasileira, passa a interferir ativamente na política partidária brasileira, em contrário aos preceitos éticos que os regulamentos militares tanto zelam e prescrevem. Nenhum escrúpulo, portanto, da parte de quem deve por ofício zelar pelas instituições e do povo brasileiro têm essas crianças ao fazerem mau uso do posto (por reiteradas vezes), do cargo — das influências que posto e cargo significam, por conseguinte –, e do avião, um poderoso e dispendioso equipamento cujo manuseio o contribuinte brasileiro lhes confia. O começo das escaramuças pode ser que venha datado inicialmente a partir da própria criação do Ministério da Aeronáutica, começo de 1941; se não, a balbúrdia, quiçá, tenha sido inaugurada no segundo governo de Vargas, quando este, não dando bola para a brigadeirada mais velha, chama para o cargo de chefe da FAB o também gaúcho Nero Moura, herói nos céus da Itália, um coronel que se torna brigadeiro apenas depois de vestir pijama. O ápice das aversões, rancores e ódios de morte, com certeza, chega definitivamente nas primeiras horas de 5 de agosto de 1954, quando o projétil da arma que o pistoleiro amador Alcino aponta a Lacerda vem a atingir de morte o major-aviador Rubens Florentino Vaz, fazendo entrar em cena de vez a solidariedade corporativa entre os aviadores militares. É isso que apura o inquérito policial-militar (IPM) presidido pelo coronel-aviador João Adil de Oliveira, sendo essa a história dos vencedores que prevalece até hoje, embora, como diz o comediante, haja controvérsias.3

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, seu fidelíssimo chefe da guarda pessoal, nomenclatura da época (imagem: Google)

Os jornais, cujos proprietários em sua maioria são conservadores, apressam-se em vender a ideia de que Vaz está simplesmente acompanhando um amigo, em vez de lhe estar fazendo a função de segurança, capanga, como o próprio Moura mais tarde vem a admitir. Há, em verdade, na FAB outro comando, o do Brigadeiro, que, além de militar, é político. Gomes é um homem discreto, daqueles que atira a pedra e esconde a mão, sempre pronto a assumir os bônus sem, entretanto, jamais a arcar com os ônus; um cidadão de bem, humanista, que, vitorioso o movimento de 1964, manda ofícios circulares a todas as fábricas, oficinas, escritórios e lojas comerciais do Rio de Janeiro recomendando a não contratação de oficiais e sargentos demitidos das forças armadas.

Um pouco do 5 de agosto de 1954.

Ressentidos com a derrota eleitoral de 1950, Lacerda, Gomes, próceres da UDN, militares conservadores e proeminentes empresários aguardam pacientemente a oportunidade para apear do poder Vargas, de uma vez por todas. Encontram-na em Gregório Fortunato, gaúcho afrodescendente, semianalfabeto, que, vindo de peão simples e rude, galga a condição de homem influente. Essa nova situação de Gregório, invulgar para um afrodescendente iletrado, veladamente vem a incomodar os homens de elevada posição social que frequentam o Catete e com ele se obrigam a conviver. Inobstante, pretendendo atingir seus objetivos pessoais, vez por outra esses mesmos homens apelam à interferência de Gregório junto ao presidente, para que este os atenda num ou noutro interesse.

Muitos vivem, portanto, à sombra de Vargas. Entretanto, sem a nenor dúvida, o jornalista Carlos Lacerda, por meio de seu jornal Tribuna da Imprensa, é o opositor que mais incomoda o presidente e sua equipe de governo, pelo desgaste que seus ataques quase diários causam à imagem de Vargas, funcional e pessoalmente. Por via de consequência, essa oposição sistemática também incomoda a todos que frequentam o ambiente palaciano. Diante disso, eles — homens à paisana e de farda –, cá e acolá, conversando despretensiosamente entre si, sugerem em voz alta que Lacerda já esteja por merecer uma lição, levar um susto. Dizem-no sempre nas ocasiões em que, por acaso, o tenente Gregório está por perto, a ponto de involuntariamente escutar a conversa. Fazem-no em várias oportunidades, sempre aparentando casualidade. Gregório cai na armadilha e contrata homens para dar um susto em Lacerda. Eles não contam, porém, com a intervenção de Vaz, que, em defesa de seu protegido, entra em luta corporal com os “pistoleiros”, que, por sua vez, diante do inesperado tumulto, acabam por alvejar o major, matando-o, além de ferir o pé esquerdo de Carlos Lacerda (há controvérsias).4

Como consequência da desgraça feita, sobrevêm em seguida todos os acontecimentos que a história oficial registra, como o tal IPM da República do Galeão, instaurado sob a frágil alegação de ter ocorrido um crime militar pois o projétil usado no homicídio era de uso exclusivo das forças armadas. Vargas, de consciência limpa e sem ter como prever as terríveis consequências, concorda, e assim o caso transfere-se da esfera da polícia civil para o âmbito da Aeronáutica, exatamente nas mãos da força armada que o odeia de morte. O coronel Adil e seus homens chegam a Gregório Fortunato, e, chegando nele, buscam atingir a família de Vargas, levando-o, sob a dor de tantas outras implicações paralelas, ao suicídio nas primeiras horas de 24 de agosto de 1954. Os implicados na morte do major Vaz são presos e condenados, recaindo toda a culpa naturalmente nos mais fracos. Vagando o cargo, ocupa o vice, João Café Filho, que já vinha de algum tempo preparando-se para assumir o cargo, só não sabendo a data, Café, naturalmente, chama Eduardo Gomes para seu ministro da Aeronáutica.

Termina 1954 e vem 1955, ano eleitoral. O jogo está posto; as regras bem definidas.

Num regime democrático, qualquer um cidadão tem que aceitar de espírito desarmado o resultado que as urnas hão de revelar, porque jogo é jogado, lambari é pescado — como se diz lá em Goiás. Na linguagem futebolística, um time entra no jogo para ganhar, mas, em sã consciência, não pode descartar o empate ou até a indesejada derrota. Em eleição é quase igual, menos o empate. Todavia, eis que a comichão da conspiração e do golpe já vem de algum tempo ardendo no coração desses bons moços dispostos a aceitar o resultado, desde que o vencedor seja o candidato da UDN, o general Juarez Távora. Vitória do adversário significa, necessariamente, na visão da UDN, continuidade de um governo corrupto, autoritário, e — inaceitável — em união com os comunistas.

Portanto,

Em relação às feridas da morte de Vaz, tudo feito conforme a Lei. Os responsáveis (oficialmente) foram presos e condenados e o governo de Vargas encerrou, como as forças conservadoras pretendiam desde o primeiro dia. Aparentemente tudo em ordem. Mas, dependendo do resultado eleitoral, não. Vindo o resultado das urnas, contrário ao esperado pela UDN, este encarrega-se de reacender a sanha conspiratória na maioria da oficialidade da FAB, na Marinha e em parte do Exército, nobres cavalheiros que sempre avocam para si a condição de arautos da moralidade e de tutores da nação, O coronel Hermenegildo transgrediu o regulamento disciplinar, estes, porém, estão prestes a golpear a própria Constituição da República, tramando às escondidas contra a posse do candidato eleito, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

O carismático Juscelino Kubitschek de Oliveira é eleito presidente da República, derrotando o udenista general Juarez Távora (imagem: Google)

Mas Juscelino tem estrela.

Nos anos de 1940, a convite de Benedito Valadares, larga a medicina para dedicar-se de corpo e alma à política. Política não, que Juscelino, prefeito de BH, é um tocador de obras, daqueles madrugadores que, de manga de camisa, cedo estão nas ruas acompanhando os trabalhos dos operários e máquinas. Descobre enfim sua vocação, ele, que, além de médico, foi oficial da força pública mineira na época da revolução paulista, deixando a farda no posto de tenente-coronel. Enfim, BH tem prefeito! De prefeito a governador das Minas Gerais é um pulo; e de governador alcança a Presidência, tudo sem burlar as regras do jogo. Sua estrela brilha e ofusca adversários. Continua brilhando, pois, uma vez eleito, dotado de visão e intuição política privilegiadas, convida o general Henrique Teixeira Lott, que já está no cargo, a permanecer como seu ministro da Guerra. E é exatamente Lott quem move céus e terras para Juscelino tomar posse e governar. Sem Lott, não teríamos JK, e sem ele não teríamos Brasília. Até mesmo o primeiro automóvel, quem sabe, só chegaria lentamente anos ou décadas mais tarde, a depender da vontade da turma que até então ocupava o Palácio do Catete no intervalo entre a morte de Vargas e a posse de Juscelino, e que pretendia continuar.

Voltemos aos acontecimentos posteriores às eleições de 3 de outubro de 1955.

Tendo falecido o general Canrobert Pereira da Costa, ministro da Guerra de Eurico Gaspar Dutra, durante as cerimônias fúnebres, o coronel Jurandir Bizarria Mamede, tendo pedido a palavra, faz forte pronunciamento em que tece duras críticas ao resultado eleitoral recente. Isso desagrada fortemente o general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, que se encontra presente.

Continua…

  1. A classe dos militares é dividida em duas categorias: oficiais e praças. Os oficiais, considerados de nível superior, geralmente iniciam como segundos-tenentes e podem chegar ao posto de tenente-brigadeiro, dependendo de vários fatores, como o quadro (aviador, intendente, médico…), de cursos realizados e de outros critérios subjetivos (avaliação anual, cargos importantes exercidos, condecorações…). Os praças, vão de soldado até suboficial, sendo que nesta categoria também há divisões: cabos, soldados e taifeiros, considerados elementos de execução; e suboficiais e sargentos, genericamente chamados no seio da Força Aérea como “graduados”.
  2. Para o leitor ter uma pequena noção de quão bagunçado foi esse período, eis a relação de ministros da Aeronáutica na década: a) Nero Moura: 31jan1951 a 18ago.1954; b) Epaminondas Gomes dos Santos: 19ago1954 a 23ago1954; c) Eduardo Gomes: 24ago1954 a 10nov1955; d) Vasco Alves Secco: 11nov1955 a 19mar1956; e) Henrique Fleius: 20mar1956 a 29jul1957; e f) Francisco de Assis Correa de Mello: 30jul1957 a 30jan1961.
  3. O episódio histórico que ficou conhecido por “República do Galeão” refere-se ao Inquérito Policial-Militar (IPM) instaurado pela Aeronáutica a fim de apurar as circunstâncias do homicídio contra o major-aviador Rubens Florentino Vaz e a lesão corporal a que sofreu o jornalista e político Carlos Lacerda em 05ago1954. O IPM chega à conclusão de que o mandante do crime foi o chefe da guarda pessoal do presidente Gregório Fortunato, e que, além disso, ele exercia forte tráfico de influência em relação aos que cercavam Getúlio Vargas, lucrando financeiramente com isso. Ainda sobre o caso, há controvérsias em relação às versões apresentadas por Carlos Lacerda, que, inicialmente havia declarado sobre uma sequência de tiros (tiroteio), mas tarde mudando a versão para um único atirador. Além disso, recusa-se a fornecer sua arma para perícia.
  4. Conforme comentário acima.

L.s.N.S.J.C.!

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GIL, o extra que viajou ao futuro!

GILBERTO Gil, esse talento baiano, orgulho da etnia afrodescendente, além de músico genial, é também viajante no tempo. Em 1983, resolve, na qualidade de extraterrestre que é, visitar o futuro exatamente 36 anos depois. Na Capital do Brasil, ao entrar no Palácio, um lugar que não lhe parecia estranho, o segurança o aborda lhe cobrando o crachá:

“Ora, meu amigo, essa aparência de mero vagabundo é uma coincidência. Deve-se ao fato de eu ter vindo ao teu planeta com a incumbência de olhar a cara da pessoa comum e da pessoa rara, porque a raça humana é uma semana o trabalho de Deus.”

Disse isso e acrescentou:

“Se eu quisesse, entraria aqui sem vocês me verem”.

E, estralando os dedos, some, deixando a equipe de segurança atônita. “Onde se meteu esse cara?”.

Gil tem uma aura clara, mas só quem é clarividente pode ver, o que não era o caso daqueles seguranças de autoridade. Ficou no futuro dois dias apenas e, não gostando do que viu — e de quem viu, mormente –, decide regressar ao presente de 1983 para, como quem quer avisar, gravar esse rock aí:

Gil, o profeta!

Profético!

L.s.N.S.J.C.!

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O INCOMPARÁVEL Chaplin!

… Continuação do texto postado em 03jul2020.

DEVIDO ao estrondoso sucesso que faz pela Keystone, no ano seguinte, 1915, Chaplin é contratado pela Essanay Studios, que lhe oferece um salário mais elevado e – o melhor – a oportunidade de ele compor sua própria unidade de produção. Seus filmes passam a ser mais disciplinados, além de desenvolver melhor o personagem The Tramp. Lá ele faz 14 comédias curtas. Inovando, Chaplin, inspirado em sua infância londrina, injeta momentos de drama, inéditos em comédias pastelão até então. Na Essanay, Chaplin compõe seu elenco estático com Edna Purviance, Leo White e outros atores, que passam a acompanhá-lo em suas obras seguintes.

Charles Spencer Chaplin (imagem: Internet)

O nome do artista e de seu personagem é, a partir daí, traduzido em todos os idiomas – Charlie, em inglês; Charlot, em francês; Carlitos, no Brasil; Carlinhos, em Portugal – são sinônimos da mesma pessoa: Charles Spencer Chaplin. Só mesmo a comédia é capaz de lutar contra as injustiças sociais e, ao mesmo tempo, fugir à censura de uma sociedade puritana como a norte-americana. Chaplin vê a possibilidade de simbolizar, por meio de Carlitos, o vagabundo, a resistência inata às precárias condições da vida, não apenas a que ele viveu e sim a de milhões de pessoas, que assim se sentem representadas em suas comédias aparentemente inocentes.

A Essanay torna-se pequena para o gigante Chaplin. Em 1916, é contratado pela Mutual Film Corporation, que lhe paga 670 mil dólares para fazer doze comédias de duas bobinas, num período de 18 meses – uma fortuna para a época. Por contrato, dá a Chaplin o controle quase total dessas produções, em que ele adiciona a seu elenco estático os atores Eric Campbel, Henry Bergman e Albert Austin. Todos os filmes lá produzidos viram clássicos, como Carlitos Guarda-noturno, Carlitos Boêmio, Casa de Penhores e Carlitos Presidiário.

Cartaz de “Ombro Armas”, de 1918 (imagem: Internet)

Estes estão entre os filmes de comédia mais influentes da história do Cinema, fazendo escola a gerações de comediantes que viriam.

Chaplin considera o período em que esteve na Mutual como o mais feliz de sua carreira. Em 1918, com o fim da Mutual, Chaplin é contratado pela First National Pictures, com a missão de produzir oito filmes com duração de duas bobinas. Chaplin, seguindo seu instinto artístico, percebe que pode fazer muito mais, em vez de limitar-se às exigências dos cineastas que o reduziam a mero fazedor de comédias burlescas. Assim, a companhia dá a ele controle criativo total sobre seus filmes. É importante dizer que, embora os executivos da First National esperassem receber filmes de curtas-metragens, Chaplin os surpreende ao produzir longas-metragens que entram para a história do Cinema, como Ombro Armas! (1918), O Garoto (1921) – película que levou Jackie Coogan, a ser a primeira celebridade infantil da história e também o primeiro filme de comédia dramática – e O Pastor de Almas (1923). Vida de Cachorro (1918) foi o primeiro filme pela First National em que ele e Sydney contracenam juntos pela primeira vez.

Chaplin e Jackie Coogan, O Garoto (imagem: internet)

Não tarda para que Chaplin perceba que a maior parte dos lucros ficam em mãos dos produtores e financiadores. Enxerga aí como a sociedade – embora, naturalmente ele se beneficie dela — é injusta, ao gerar riqueza para poucos a partir do suor dos que realmente produzem. Com o cinema não é diferente. Em 1919, Chaplin decide unir-se a Mary Pickford, Douglas Fairbank e D. W. Griffit para criarem a United Artists, distribuidora de filmes. Agora, além de ator, roteirista e diretor, Chaplin assume também o papel de distribuidor de seus próprios filmes.

Chaplin com Mary Pickford, D. W. Grifft e Douglas Fairbanks fundam a United Artistis distribuidora (imagem: Internet)

Chaplin leva a sério a arte do riso, agregando-lhe funções. Em Carlitos, o indivíduo tem a oportunidade de esbofetear a sociedade, vingando-se das contingências sofridas do cotidiano. Eis aí o segredo. Mais: a surpresa. É o caso, por exemplo, do mágico de circo, que tem seus segredos revelados em O Circo, 1928.

Em 52 anos de atividades no cinema, Chaplin faz ao todo 81 filmes.

Carlitos (The Tramp), um personagem engraçado, mas não alegre, é, provavelmente, o personagem mais imitado em todos os níveis de entretenimento. A arte de Chaplin influenciou uma legião de atores e cineastas, tais como Federico Fellini, Os Três Patetas, Peter Sellers, Milton Berle, Marcel Marceau, Jacques Tati, Rowan Atkinson, Johnny Depp, Michael Jackson, Roberto Gómez Bolaños, Renato Aragão e tantos outros comediantes.

Vídeo-documento em homenagem ao artista (BLOGUE do Valentim1)

Na mesma proporção em que Chaplin ganha fama e fortuna, tendo ajudado a criar uma arte e uma indústria poderosa, que é o cinema de Hollywood, ele também atrai para si a ira e a perseguição. Suas ideias, implícitas em comédias dramáticas e sociais como O Garoto, O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador e Monsieur Verdoux, incomodam as autoridades do governo estadunidense, que o acusam de comunista. Assim, em 1952, ano do lançamento do filme Luzes da Ribalta, quando viaja com a família para a Europa, Chaplin tem revogado seu visto de permanência nos Estados Unidos. O artista, então, decide radicar-se na Suíça, onde vem a falecer em 25 de dezembro de 1977.

“Nos últimos vinte anos conheci o que significa a felicidade. Tenho a boa fortuna de estar casado com uma criatura maravilhosa”.

L.s.N.S.J.C.!